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quinta-feira, maio 02, 2013

Património Cultural Imaterial - Conferência

A Fundação INATEL, acreditada junto da UNESCO para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial, organizará a Conferência "PATRIMÓNIO COMO IDENTIDADE - 10 Anos da Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial” no dia 24 de maio (sexta-feira), das 9h30 às 18h00, no Auditório do Museu do Fado.
Este evento pretende dar a conhecer quais os trabalhos realizados na área do Património Imaterial em Portugal, demonstrando igualmente quais os impactos que o reconhecimento de uma prática tem, ou poderá vir a ter, nas economias locais.
Criar um espaço de encontro entre associações, agentes culturais, academia e instituições, num diálogo aberto sobre o Património Cultural Imaterial e sobre a Convenção, é o grande objetivo desta iniciativa.
A iniciativa terá entrada livre sujeita a marcação prévia até ao dia 20 de maio (segunda-feira) para o email patrimonioimaterial@inatel.pt ou para o telefone 210027141.

PROGRAMA

9h30 Receção aos participantes

10h00 Sessão de Abertura

O Papel da Fundação INATEL na defesa do Património Cultural Imaterial
Presidente da Fundação INATEL | Fernando Ribeiro Mendes

Diretora-Geral do Património Cultural | Isabel Cordeiro
Presidente da Comissão Nacional da UNESCO | Ana Martinho
Ministro da Solidariedade e da Segurança Social | Pedro Mota Soares

Pausa para Café

11h00 – Painel I

A identidade cultural como fator de afirmação no mundo global

Teresa Caeiro | Vice-Presidente da Assembleia da República e Presidente do MMV

Reflexão sobre a patrimonialização das práticas culturais imateriais

Amélia Frazão Moreira | Presidente do CRIA – Centro em Rede de Investigação em Antropologia

O Fado Património Cultural Imaterial da Humanidade - consequências de um reconhecimento

Rui Vieira Nery | Presidente da Comissão Científica de Candidatura do Fado a Património da Humanidade

O Cante Alentejano – expectativas de uma candidatura

Paulo Lima | Diretor da Casa do Cante, Entidade Promotora da Candidatura do Cante Alentejano a Património da Humanidade

Moderadora: Jacinta Oliveira | Vogal do Conselho de Administração da Fundação INATEL

12h30 – Debate
13h00 – Almoço Livre
15h00 – Painel II

A Dieta Mediterrânica como ponte para a redescoberta dos produtos nacionais

Assunção Cristas | Ministra da Agricultura, Mar, Ambiente e Ordenamento do Território

Dieta Mediterrânica: Benefícios para a saúde

Alexandra Bento | Bastonária da Ordem dos Nutricionistas

Os Mistérios da Semana Santa em terras de Idanha – A construção de uma candidatura

Hélder Ferreira | Presidente da PROGESTUR

A importância das Festas da Nossa Senhora da Agonia na dinâmica socioeconómica da cidade de Viana do Castelo

João Alpuim Botelho | Museólogo

Moderadora: Jacinta Oliveira | Vogal do Conselho de Administração da Fundação INATEL

17h30 – Debate
18h00 – Sessão de Encerramento
Presidente da Fundação INATEL | Fernando Ribeiro Mendes

terça-feira, novembro 27, 2007

Cante alentejano - Cuba - Alentejo

Uma das mais emblemáticas modas do cante alentejano - género musical característico do Baixo Alentejo - aqui cantada pelos Ceifeiros de Cuba, na Taberna do Lucas, em Cuba.



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quinta-feira, novembro 27, 2014

O CANTE - Património Mundial da UNESCO

O Cante foi hoje, finalmente, eleito como Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO.
O Comité Internacional da UNESCO, reunido em Paris, deu assim seguimento às pretensões do povo alentejano e dos portugueses em geral, dando ao Cante a tão desejada designação de "Património Mundial".
Parabéns a todos os que fazem perpetuar esta tradição.

quarta-feira, outubro 01, 2014

Talego Alentejano

O Museu Nacional de Etnologia possui no seu acervo cerca de uma centena de objetos da categoria "Vestuário e Adereços" da região do Alentejo, muitos deles adquiridos a Rafael Rúdio, sendo o principal concelho de recolha Estremoz.
De entre estes objetos, destacam-se dos tradicionais talegos alentejanos. Estas bolsas eram feitas pelas habilidosas mãos das mulheres, aproveitando restos de tecidos, para uso próprio e da família, pois era nos talegos que transportavam o pão e o queijo/chouriço para a merenda no trabalho do campo.
Os exemplares que se descrevem de seguida, pela sua intrincada confeção, não se destinariam ao uso regular sendo reservados para ocasiões especiais.

 
Datação: XIX d.C. - XX d.C.
Matéria: Bolsa (algodão); Tecido (seda); Algodão; Lã
Dimensões (cm): altura: 27; largura: 20;
Descrição: Bolsa de formato retangular em tecido de algodão de cor branca. A extremidade superior é aberta, formando a boca. A orla desta é debruada por uma fita de seda de cor vermelha, cosida de modo a formar folhos. Em baixo desta zona, surge uma fina bainha, aberta lateralmente, por onde passa um cordão de cor roxa, que termina, em ambas as extremidades, com três borlas de lã de cor verde, rosa, vermelha, azul, amarela e roxa. O corpo da bolsa é forrado, por cima do tecido de algodão, com rosáceas feitas com fio de algodão, ora de cor vermelha, ora de cor azul. Interiormente, junto à boca da bolsa, surge a inicial "A", bordada com missangas de cor rosa, azul, verde, amarela e roxa.
 
 
Datação: XIX d.C. - XX d.C.
Matéria: Tecido (algodão); Algodão
Dimensões (cm): altura: 13,5; largura: 12;
Descrição: Bolsa de formato quadrangular em tecido de algodão de cor rosa, com forro interior em tecido idêntico. A aresta superior da bolsa constitui a boca da bolsa. Ambas as faces da bolsa são bordadas, a ponto de cruz muito fino, com fio de algodão de cor azul, verde, branca e laranja. Apresentam uma espécie de cercadura constituída pela repetição de um mesmo motivo: uma espécie de cálice do qual brota uma ramificação longitudinal e motivos fitográficos de menores dimensões. Ao centro, de um lado da bolsa, surge uma balança coroada, sob a qual se dispõem duas chaves, dois corações e, abaixo destes, um cálice. Surge depois a inscrição "AIRAM / ANNA" – Maria Anna. Do outro lado da bolsa, surgem três cálices, dos quais brotam árvores de frutos, dois corações, duas custódias e, em baixo, a inscrição: "S(?)USTO / EZOG (?)". Um dos vértices inferiores da bolsa apresenta uma pequena borla de algodão, de cor azul e amarela.

Datação: XIX d.C. - XX d.C.
Matéria: Flanela (lã); Tecido (lã); Tecido (algodão); Lã
Dimensões (cm): altura: 35; largura: 26;
Descrição: Bolsa de formato retangular em flanela de lã de cor vermelha. A extremidade superior é aberta formando a boca da bolsa. As orlas laterais e inferior são percorridas por uma fita ondulada de cor azul. Os vértices inferiores apresentam uma pequena borla de lã de cor roxa, amarela, azul, verde, vermelha e branca. O corpo da bolsa apresenta motivos bordados a ponto de cruz, com fio de lã de cor azul, branca, amarela, verde e roxa. Num dos lados, surge um grande cálice central, do qual brotam árvores. É ladeado, em cima, por duas figuras femininas e, em baixo, por dois corações e quatro cálices. Em baixo deste cálice central, surge um outro, ladeado por uma pomba e por um cão. Na outra face da bolsa, em cima, surge a inscrição "A(?)NTONIAC [invertida]. M.". Ao centro, surge um cálice, ladeado por duas figuras masculinas semelhantes a cavaleiros, do qual brotam largas ramificações com motivos fitográficos estilizados. Interiormente, a zona do cós da bolsa é forrado a tecido de algodão de cor vermelha, listado, longitudinalmente, a preto e branco. Este forro forma uma bainha, aberta lateralmente, por onde passa uma fita de cor rosa. A restante área interior é forrada a tecido de algodão estampado com um padrão em hexágono de cor avermelhada e pequenas bolotas de cor preta e vermelha.

Fonte:
http://www.matriznet.dgpc.pt/
Museu Nacional de Etnologia

terça-feira, outubro 22, 2013

O Trajo Saloio ("O hábito faz o monge?")


Sobre o trajar dos saloios

Não é muito fácil definirmos concreta e definitivamente o trajo saloio. Cremos mesmo não ser muito correta a afirmação TRAJO SALOIO, mas sim o TRAJAR DOS SALOIOS.

O saloio é, cremos que poucas dúvidas se levantam hoje em dia, o camponês dos arrabaldes de Lisboa, aquele que durante muitos anos forneceu a cidade dos produtos frescos provenientes das hortas destes sítios. Assim o trajar destes homens do campo tinha uma ligação muito estreita com esta sua atividade, não se podendo, no entanto, diferenciar do de outros camponeses que trabalhavam noutras zonas da Estremadura ou mesmo do Ribatejo ou do Alto Alentejo. Não cremos que haja uma característica de indumentária exclusiva dos saloios. Barretes, peça que, de facto, identifica sobremaneira o homem saloio, existem também em vários outros pontos de Portugal; bem assim como as faixas na cintura; bem assim como o varapau. Nas mulheres o uso do lenço e o seu tipo, é muito semelhante, por vezes igual, ao da maior parte das regiões do país. Mas, na indumentária feminina encontramos algo que, ao que pudemos observar até agora, se pode revelar como único, a célebre carapuça saloia, a que faremos maior referência no capítulo seguinte. Depois de observarmos muitas gravuras, podemos, para já, concluir pela exclusividade deste elemento, com estas características, como algo retintamente saloio.

Há no trajar dos saloios algumas particularidades e diferenças, que não são estabelecidas em função das várias profissões que existem como até se podia supor. Ou seja, o jornaleiro, o moleiro ou o condutor de carroças, quando trabalham envergam o mesmo tipo de roupa, a grande diferença (e possível diferenciação) está quando chegam os dias de festa ou os dias santos, em que se usam os melhores fatos, aqueles mais novos e onde é então possível vislumbrar quem tem maiores posses, maior poder monetário para compor de forma mais adornada o seu vestuário.

Afirmamos pois que o saloio não possui um trajo que o distinga claramente de outros camponeses seus vizinhos. Mas também não podemos escamotear o facto de os saloios trajarem de forma muito semelhante entre si e que, frequentando mais assiduamente a cidade de Lisboa que os camponeses de outros locais, se tenha fixado um certo tipo de trajar como o trajo saloio e que, aos longo de muitos anos, vários estudiosos, pintores e fotógrafos tenham tentado fixar este homens e estas mulheres com os seus trajos característicos.

É isso que aqui, de forma sucinta, breve (tendo em conta o século XIX e primeira metade do século XX) e o mais completa possível, iremos agora fazer. Dar-lhes o retrato mais fiel do trajo envergado pelo saloio e pela saloia. No final falaremos, ainda que brevemente, do que cremos ser o trajar saloio hoje em dia.

 

A proteção para a cabeça

O barrete saloio é talvez a peça da indumentária masculina mais conhecida. Não é, no entanto, exclusivo destes homens. Os campinos das lezírias ribatejanas também o usam, assim como os pescadores de várias zonas costeiras do país. Mas é, sem dúvida, com os homens saloios que este objeto mais se identifica. É quase sempre negro, mas também se usou vermelho e verde, semelhante ao dos já citados campinos e por vezes com borlas coloridas, consoante o estado civil daquele que o usa. Mas foi o barrete totalmente negro que mais se difundiu e, cremos, que nenhum saloio retinto o tenha, alguma vez, deixado de usar.

Mas não era esta a única proteção para a cabeça que os saloios usavam. O chapéu de abas largas era também muito usado e, por vezes, a cartola surgiu igualmente (chamado chapéu “zabumba”). Nos nossos dias o comum boné substituiu, em larga escala, todos os outros.

Nas mulheres o lenço foi rei e senhor. Houve tempos, até meados do século XIX, em que, em conjunto com o lenço, a mulher saloia cobria a cabeça com uma carapuça, conhecida exatamente como carapuça saloia. Curiosa a quadra que J. Leite de Vasconcellos recolheu no Cancioneiro Popular Português:

«Sou Saloia, trago botas,
e também trago meu mantéu,
Também tiro a carapuça
a quem me tira o chapéu».

Mas enquanto esta carapuça caía em desuso o lenço foi-se mantendo, sendo ainda hoje muito usado pelas saloias mais idosas.

 

O Tronco

Consoante a sua função, a estação do ano e, sobretudo, a ocasião, assim o saloio a e saloia vestiam a blusa, a camisa, o colete, o casaco, a casaquinha, o mantéu ou a jaqueta.

Da roupa interior, sempre utilizada, falaremos mais adiante, mas por cima da sua camisola e no que diz respeito ao tronco, o saloio vestia, invariavelmente, uma camisa.

Assim, este homem usava a sua camisola interior, de cor branca e muitas vezes, em situação de trabalho, de outras cores, nomeadamente cores escuras. Por cima desta usava a camisa que era, normalmente, “enfiada” pela cabeça. Estas eram aquelas camisas que tinham apenas uma pequena enfiada de botões na parte superior, no chamado espelho. Havia também outras que tinham duas frentes de botões até ao fundo. Outra característica residia no facto de terem ou colarinho, ou a chamada “gola à padre”. Estas camisas eram, na sua grande maioria de cor branca, mas também as havia de outras cores, sempre sóbrias. Por sobre a camisa vestia, invariavelmente, o colete preto, cinzento ou castanho, quase sempre. Este colete, em situação de trabalho, e por vezes mesmo nas festas, usava-se desabotoado. Quando trabalhava era esta a cobertura do tronco, quando assim não acontecia vestia ainda a jaqueta de cores escuras com maiores ou menores adornos (tais como os alamares) consoante o maior ou menor poder económico do seu proprietário.

À volta da cintura, o saloio usava, frequentemente, a faixa ou cinta de cor preta (mais raramente vermelha), por vezes com um bordado nos dois extremos e franjas nas pontas.

Nos dias invernosos usavam a samarra ou o capote, que vários autores consideraram como “irmão gémeo do capote alentejano”.

A saloia era mais alegre e graciosa nas vestes que cobriam o seu tronco. Assim, e de maneira geral, usava uma blusa cintada, com aba, franzida ou com um machinho, blusas estas que tinham padrões floridos e, não raras vezes, eram de cores alegres e vivas. Por sobre estas usavam as vasquinhas, curtos gibões, ou casaquinhos de chita, ajustados ao busto. Usavam também um xaile pelas costas, sobretudo em casa, predominantemente as mais velhas.

Como roupa interior, a saloia usava igualmente o corpete, servindo para “segurar o seio”; algumas preferiam o espartilho. Era alva esta roupa interior.

Também a saloia usava capote, ou capa, para se proteger do frio e dos dias chuvosos.

 

As pernas

O saloio usava, obviamente, calças. Calças que, de forma geral, tinham bolsos direitos, apertavam à frente com botões e atrás ajustavam com uma fivela; eram de talhe direito e folgadas ou, mais comummente, justas à perna alargando em baixo de forma a tapar a parte superior da bota. Eram, usualmente, em cotim, às riscas verticais ou lisas, e também em fazenda ou outros tecidos grossos. No trajar mais “cuidado” usavam calças feitas de “pele de diabo” – bombazina.

A saloia usava, obviamente, saias. A saia era sempre comprida, embora nunca fosse a arrastar pelo chão. Em situações de trabalho usava-a um pouco mais curta, de forma a não atrapalhar os movimentos do seu trabalho.

Para além das saias, a saloia usou durante muito tempo a sobresaia que, muito provavelmente, foi mais tarde substituída pelo avental (também chamado anágua). Este objeto não tinha apenas a função utilitária de evitar sujar a saia, mas era igualmente um adorno utilizado não só nos dias de trabalho mas também em situações festivas, onde era costume estrear um avental novo.

Os pés

Nos pés os saloios usavam quase sempre botas de couro. No trabalho, na festa, na igreja. Só os mais endinheirados usavam, por vezes, o sapato, embora mesmo estes optassem, frequentemente, pela bota ou botim, talvez uma pouco de melhor qualidade e por conseguinte mais caro.

Eram, normalmente, de couro branco, curtido com o passar do tempo e do uso. Eram também ferrados, com o fim de durarem mais tempo e os saltos tanto podiam ser de prateleira com um pequeno tacão. Tanto estas como as de tacão raso tinham sempre as “tacholas”. Podiam ser de cano inteiriço, até meio da perna, mas o mais natural era serem mais baixas, sobretudo as que eram utilizadas no trabalho do campo.

A saloia também usava bota, normalmente de cano curto e com um pequeno salto.

Em dias de festa deixava, por vezes, as botas e calçava sapatos rasos de cordovão de cabedal branco. Também havia aquelas que cobriam os pés com umas grossas botifarras de couro atanado, de cano alto e fechadas verticalmente por meio de uma carreira de botões.

 

Retirado de "O Trajo Saloio" - Brochura editada pela Câmara Municipal de Loures / Departamento Sócio-cultural - Texto de Francisco Sousa - Novembro de 1995


Imagens ilustrativas: Recolha efetuada na internet

sexta-feira, janeiro 06, 2012

A menina quer bailar?

Por Hernâni Matos

Nos bailes populares alentejanos dos finais do séc. XIX – princípios do séc. XX, era sacramental a pergunta endereçada pelo rapaz, à moça que lhe enchera as medidas: - A menina querbailar? A resposta, podia assumir a forma dum rotundo “Não!”, tradicionalmente conhecido por “cabaço”. Mas a resposta podia igualmente revestir a forma dum rasgado sorriso, acompanhado dum entregar de corpo, às mãos e braços do varão inquiridor, que conduziria a moça durante o baile. Eles bailavam de chapeirão, de bota cardada e calças com boca-de-sino. Elas, de saia a rasar o chão, o que levava alguns rapazes a confessar que:
"Toda a vida me agradou, Moça de saia rasteira,Porque pranta o pé no chãoDevagar, não faz poeira." [3]
Todavia, os rapazes não gostavam que as moças dançassem de socos:
“Os sóccos para dançarFazem mui ruim effêto,Ainda que as damas usemRicas jóias em sê pêto. ” [3]
No descanso, dava para eles enrolarem um paivante e tirar umas quantas fumaças, que isso de ser homem dá para fumar. E é sempre bom levar o varapau, que o diabo às vezes assume a forma
de maltês. Também dava para elas comporem as saias à cinta, aperaltar os colares e compor os carrapitos. Como vêem existia uma grande diferença de género. Eu tenho uma certa pena das moças, porque os aprestos dos homens deviam ser algo incómodos, a menos que eles fossem ágeis e cuidadosos. De contrário, dançar de botifarras, devia dar para pregar cada pisadela que fervia. Umas botas alentejanas que se prezem, não são propriamente uns sapatos à Fred Astaire. Também o chapeirão devia ser uma grande chatice, a menos que a moça fosse mais baixa. Se a moça fosse mais alta, o chapeirão batia-lhe no peito e mantinha as distâncias, o que convenhamos era um grandessíssimo inconveniente para o homem. Se a moça fosse da mesma altura, o chapeirão devia estar sempre a embirrar com a cabeça dela, a menos que dançassem de cabecinha ao lado, correndo o risco de dar um jeito ao pescoço. E o dinheiro que sobrara da
romaria já não dava para ir ao endireita. Um dos locais mais afamados para bailar no Alentejo, era o terreiro das Festas de S. Mateus, em Elvas:
“Eu também já fui à festa e fiz promessas a deus de cá voltar outra veza dançar no São Mateus.” [2]
Os bailes populares eram abrilhantados por tocadores de viola ou de acordeão, que eram também cantadores. O bailar chegava a ser apontado como recomendação divina:
“Deus do céu mandou à terra, Um aviso à mocidade, Que cantassem e bailassem, Divertissem-se à vontade.” [1] (Amareleja)
A maioria dos rapazes gostava de bailar e versejar:
“Canto saias, bailo saias, Eu saias ando bailando, Gosto de bailar as saias, Com quem as andas trajando.” [3]
Alguns indicavam minuciosamente, as características a que devia obedecer o baile:
“O bailar quer-se mexido, Puladinho e bem cantado, Quer-se alegre e chegadinho, Ao par que levo ao meu lado.” [1] (Beja)
Bailar bem, era uma virtude a que os rapazes aspiravam:
“Quatro coisas ha no mundo, Que eu desejava apprender: Cantar bem, tocar viola, Báilhar bem e saber ler.” [3]
Algumas das moças seriam vaidosas. Pelo menos, era essa a opinião de alguns dos rapazes:
“Estas meninas d’gora São bonitas, bailam bem; Mas em tendo um fato novo, Já não falam a ninguém.” [3]
Algumas moças recusar-se-iam mesmo a bailar:
“Menina que é cabaceira, Tantos cabaços tem dado, Veja lá se tem algum, Também para mim guardado.” [3]
Por vezes, a rapariga não sabia dançar:
“Oh! Que pernas, oh! que boca, Henriqueta, vossê tem! P´ra que quer vossê as pernas, Se vossê não dança bem?” [3]
Havia rapazes que sabendo cantar e bailar, não percebiam porque é que as raparigas não gostavam deles:
“Tu dizes que não me queres, Meu amor diz-me porquê, Eu sei cantar e bailar, E rir e falar tambem.” [3]
Havia rapazes que lamentavam não saber cantar tão bem, quanto sabiam versejar:
“S’eu soubesse cantar bem, Como sei fazer cantigas, Andava de bàlho em bàlho, Divertindo as raparigas.” [1] (Aljustrel)
Quando faltavam raparigas no baile, havia rapazes que procuravam desfazer os pares, originando frequentes zaragatas:
“Camarada, dá licença, Um bocadinho, faz favor? Quero dar palavra e meia, Ó seu par, que é meu amor.” [3]
Alguns rapazes faziam do cantar e tocar nos bailes, o seu ganha-pão:
“A cantar e a bailar É que o meu bem ganha pão, De viola a tiracolle E panderêta na mão.” [3]
Havia quem exteriorizasse a sua liberdade de poder cantar e bailar:
“Inda canto, inda bailo. Inda cá não ha tristeza, Inda cá não ha quem tenha, Minha liberdade presa.” [3]
Havia mulheres que desejavam ficar sem o marido, a fim de poderem cantar e bailar, tal como em solteiras:
“Já não canto, já não bailo, Que não quer o meu marido, Deixem-no ir embora, Restaurarei o perdido.” [3]
Havia quem, talvez por despeito de não ter par, considerasse que quem estava a bailar, não tinha dinheiro:
“Dos pares que andam bailando, Ali no meio do terreiro, Não se me dá de apostar: Nenhum d’elles tem dinheiro.” [3]
Havia quem, por estar triste, desejasse que os pares a bailar, caíssem, a fim de se divertir:
“Os pares que andam bailando, Quem m’os dera ver cair! Tenho o meu coração triste, Q’ria fartar-me de rir.” [3]
Os rapazes reconheciam que, bailar de empreitada, dava cabo deles:
“Não é o cantar que dá Cabo da rapaziada; É o muito andar de noite E o bàlhar de empreitada.” [1] (Odemira)
Enquanto houvesse cantadores, havia baile:
“Eu vejo o baile acabado, À falta de cantadores: Agora começo eu, Com licença, meus senhores.” [3]
Uma coisa é certa: nem todos os homens gostavam de bailar:
“Para bailar doe-me um dente, Para cantar uma perna, Onde tenho algum alívio, É à porta da taberna.” [3]
Alguns homens, por questões anatómicas, dançariam mesmo mal. Lá diz o rifão: "Barrigudo não dança, só sacode a pança". Todavia, também por questões anatómicas, ainda hoje persiste a crença de que: “Homem pequenino, ou velhaco ou dançarino”. De resto, o rifão “Assim como cantares, assim dançarás", talvez possa significar que “Se tiveres voz de cana rachada, então terás, decerto, pé de chumbo”. Era este o contexto sociológico e lúdico dos bailes populares, nas feiras, festas e romarias do Alentejo, de finais do séc. XIX – inícios do séc. XX.
BIBLIOGRAFIA
[1] – DELGADO, Manuel Joaquim Delgado. Subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo. Vol. I. Instituto Nacional de Investigação Científica. Lisboa, 1980.
[2] - SANTOS, Victor. Cancioneiro Alentejano. Livraria Portugal. Lisboa, 1959.
[3] - THOMAZ PIRES, António. Cantos Populares Portugueses. Vol. IV. Typographia e Stereotypia Progresso. Elvas, 1910.
Fonte: Hernâni Matos in “A Menina quer bailar?”

quarta-feira, janeiro 12, 2011

Trajo de Festa Masculino – Alto Alentejo

Este trajo é apresentado pelo Grupo Folclórico e Cultural da Boavista e foi recolhido em Ribeira de Nisa, sendo utilizado pelos homens em dias Festa no início do sec.XX.
O trajo composto por:
Jaqueta: de surrobeco, com alamares de cordão preto e botões de metal no centro dos alamares.
Colete: de veludo vermelho de bandas redondas abotoadas com botões de metal.
Camisa: de linho branco com peitilho, com colareta alta, e também havia com peitilho e punhos de outra cor.
Calção: ou meia calça de veludo, até ao joelho, com uma abotoadura com três botões de metal que se abotoam de lado de fora e na cintura.
Ceroulas: de pano branco.
Cinta: de cor variada segundo a ocasião, mas geralmente era preta ou vermelha, para cerimónias.
Meias: brancas ou da cor do calção, arrendadas feitas à mão, que apareciam entre as polainas e os calções.
Polainas: de burel, até ao meio da perna, abotoadas de lado com pequenos guizos (em vez de botões), que deixavam ver a meia.
Chapéu: de aba larga, preto, com uma borla redonda de lã, segura ao chapéu na copa ou aba, caindo sobre a aba esquerda.
Botas: em calfe pretas.
Lenço: branco no bolso da jaqueta
Manta: para se cobrir nas noites frias.

Fonte: Grupo Folclórico e Cultural da Boavista



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quinta-feira, agosto 09, 2007

O Alforge – Alentejo

O alforge era um acessório amplamente utilizado pelo homem alentejano sempre que se deslocava no dia-a-dia ou nas idas às feiras e romarias.
A sua função era o transporte dos produtos adquiridos, a merenda ou outros pertences.
Para o trabalho, o alforge era confeccionado em tecido de lã proveniente de tecelagem caseira, em cores naturais e escuras, forrado de riscado.
O alforge utilizado em ocasiões festivas era muito diferente, rico em pormenor e colorido. Era confeccionado em tecido industrial de lã e decorado com o monograma do proprietário e motivos florais bordados com fios de lã policromados. Guarnecido na orla com pespontos, os cantos são rematados com borlas policromados.
Os homens exibiam com grande vaidade estas peças confeccionadas pelas mulheres da família.
Fonte: O Trajo Regional em Portugal, Tomaz Ribas, Difel, 2004
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terça-feira, março 06, 2007

Trajes regionais portugueses em emissão filatélica


Os Trajes Regionais Portugueses são o tema de uma edição filatélica dos CTT de 2007. Dez novos selos de 30 cêntimos e um bloco com mais quatro selos, com o valor total de 1,20 euros mostram os trajes tradicionais de todas as regiões, do Minho até aos Açores.
A concepção gráfica desta emissão é de Vasco Marques, que utilizou fotografias de várias origens: Instituto Português de Museus, Museu de Arte Popular, Museu Nacional do Traje, Museu de Ovar e os fotógrafos Carlos Monteiro, Júlio Marques, Laura Castro Caldas, Paulo Cintra e Rui Cunha.
Nos selos dos CTT aparecem os trajes tradicionais das lavradeiras e das noivas do Minho, a capa de honras mirandesa e o vestuário dos Pauliteiros de Miranda, de Trás-os-Montes, e croça dos pastores trasmontanos e da Beira interior, uma capa e uma sobrecapa tecidas de palha que os protegem da chuva e da neve.Os restantes selos mostram uma camisola de pescador do Douro Litoral, as sete saias da Nazaré, o traje das mulheres algarvias do litoral, o capote alentejano e o vestuário dos campinos do Ribatejo.
O bloco filatélico integra quatro selos ilustrados com o vestuário tradicional dos camponeses da Beira Litoral e das camponesas do Ribatejo, o capote e capelo típico dos Açores e a viloa da Madeira.
Assim, através da filatelia, podemos divulgar os nossos trajes tradicionais e contribuir para a sua perpetuação.
Bem hajam pela ideia.

terça-feira, janeiro 23, 2007

Capote


Trata-se de uma capa ampla e comprida, com fazenda de lã castanha e gola de pele de borrego da mesma cor. Possui 2 romeiras sobrepostas, aperta na frente com carcela e 4 botões e os bolsos são embutidos com cós.
O capote, sendo um abafo foi concebido para proteger o seu utilizador dos rigores do frio da planície. A gola, usada levantada ou baixa, protege o pescoço. A primeira romeira (sobrecapa) envolve os ombros e as costas, a segunda protege os braços e o peito, tendo um corte que a une à capa a qual cobre inteiramente o corpo até aos pés. Esta longa capa tem uma profunda abertura nas costas permitindo ao seu utilizador andar livremente ou montar a cavalo.
Este é um traje imponente que recorda a capacidade económica do seu proprietário senhor das suas terras.
O abafo típico do lavrador alentejano é o capote, réplica quase fiel da capa romântica da burguesia. Com efeito, o capote militar assertoado, usado nos princípios do século XIX, foi adoptado como indumentária masculina nas décadas seguintes.Dr.ª Madalena Braz Teixeira, catálogo da exposição Trajes Míticos da Cultura Regional Portuguesa (Ed. Museu Nacional do Traje)
 
Os reis D.Carlos I e  D.Amélia usavam-no quando permaneciam em Vila Viçosa, sobretudo nas caçadas ou convívios no campo, e contribuíram para a sua difusão, por mimetismo, pela nobreza e burguesia.
 
Tomaz Ribas, em O Traje Regional em Portugal, caracteriza bem a função desta peça de indumentária.
Se o pelico e os safões constituíam o abafo no trabalho, o capote era um luxo que os homens não dispensavam. Todo o rapaz desejava adquiri-lo antes de casar, como prova de que conseguiria gerir com cabeça as suas economias, dando provas que tinha assento. Só por isto, o rapaz era já considerado um bom partido. A aquisição do capote significava também ter chegado à fase adulta.

quinta-feira, agosto 03, 2006

O Traje do Alentejo

As mulheres que vivem perto das cidades e vilas, mais abastadas, procuravam imitar as modas, seja no penteado, seja na maneira de vestir. A mulher da vila usa saia de fazenda de lã, blusa de algodão de corte cintado. Para a missa usa uma mantilha de renda sobre a cabeça e como abafo um xaile de merino negro bordado, com franjas de fio. Calça meias de renda brancas e sapatos de carneira com botões.
A mulher do campo, que durante a semana se dedicava aos trabalhos agrícolas, aos domingos depois de vir da missa e fazer os trabalhos domésticos, dedicava-se à costura, aos bordados ou a fazer meias. De Inverno refugiava-se à lareira, o centro da casa alentejana, no Verão, aproveitando fresquidão do fim da tarde, sentava-se num mocho (banco) junto à soleira da porta, aproveitando para dois dedos de conversa com a vizinha ou com quem passa.
No campo a mulher usava blusa de chita, saia de riscado atada em jeito de calça com alfinetes, lenço na cabeça e chapéu desabado, meias de linha grossa feitas com cinco agulhas normalmente de cor castanha, roxa ou até vermelha e sapatos grosseiros de atanado. De Inverno para se proteger do frio e da chuva, colocava um xaile ou uma lona pelas costas, atado em volta da cintura para permitir a liberdade dos braços.
O domingo era o pretexto para vestir a melhor roupa, não muito diferente da usada no campo apenas mais poupada pelo uso menos frequente. Nesse dia, a mulher calçava chinelas de atanado grosseiro, meias de linha lisa, um avental de riscado simples sem rendas, e saia de fazenda sem ser fina, a blusa era de tecido de chita gorgorina sem efeitos de renda. Na cabeça usava lenço ou cachiné sem ser o de trabalho.
O traje do alentejano abastado, residente nas vilas ou cidades, tem as suas raízes no traje popular espanhol no entanto o seu corte é mais suave, sendo a jaqueta e o colete mais compridos nas costa.
Este traje considerado domingueiro ou de casamento, usava chapéu de aba larga, camisa branca com pregas sobre o comprido, colete com uma ordem de botões muito aberto e jaqueta com três bolsos, um pequeno, em cima, à esquerda, onde por vezes usa, com a ponta de fora, um lenço bordado pela namorada, dois bolsos em baixo, um de cada lado, oblíquos. A jaqueta é enfeitada por alamares de seda. Cinta preta de merino, calças com cós alto e cintado e sapato fino, completam o conjunto.
No traje do homem do campo podemos encontrar algumas distinções fruto da actividade exercida, ou da época do ano. Genericamente calça botas de atanado grosseiro, calças e colete de cotim. A camisa ou chambre é feita de riscado e lenço ao pescoço ou por baixo do chapéu. Para resguardar as calças usa safões de lona e na cabeça chapéu de abas largas e copa redonda.
Em tempo de chuva usava capote aguadeiro feito de borel grosseiro e os safões de lona que eram substituídos por safões de cabedal. Os pastores distinguem-se pelo uso de safões de lã e samarra do mesmo material. Os alforges em cabedal ou em tecido de lã, eram usados para transportar a merenda, o azeite, o pão, as azeitonas, um pouco de toucinho ou chouriço, etc., mas também os parcos haveres quando em viajem ou nas longas temporadas passadas no campo.