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sexta-feira, agosto 18, 2006

Côca, Biuco e Capelo

A Côca, o Biuco e o Capelo são três trajes de diferentes regiões, Alto Alentejo, Algarve e Ilha Terceira (Açores), no entanto, apesar da distância geográfica existem muitas semelhanças entre eles e uma história comum.

Sabemos hoje que os etruscos e os gregos vestiam o himation, ou seja, o manto, com o qual cobriam a cabeça. Possivelmente imitavam um costuma mais antigo. O Cristianismo adoptou para a imagem da Virgem o uso do manto à moda etrusca, isto é, sobre a cabeça. São Paulo introduz o costume das mulheres cobrirem a cabeça para que se distingam das mulheres descobertas ou meretrizes. Entrar na igreja com a cabeça coberta era sinal de respeito, submissão e humildade perante Deus.
Por toda a Europa surgiram diversas peças de vestuário que cobriam por inteiro o seu utilizador(a), nomeadamente, em França, Alemanha, Dinamarca, Itália, Espanha e Portugal.
Não se sabe quando este tipo de indumentária foi introduzido em Portugal, no entanto, podem-se encontrar registos da sua utilização desde 1609, no reinado de Filipe II, e existem autores que defendem a sua origem árabe.
Sabe-se no entanto, que a sua utilização abrangia a quase totalidade do território nacional, mas apenas no Alto Alentejo, no Algarve e nos Açores, esses trajes eram ainda utilizados até meados do século XX.
A sua utilização destinava-se a impedir o contacto da mulher com os transeuntes que com ela se cursassem na rua, ocultando a sua identidade. Para além de isolar a mulher do mundo exterior, permitia-lha também alguma liberdade, já que não sendo identificável podia movimentar-se livremente oculta dos olhos castradores da moralidade alheia.

O que são a Côca, o Biuco e o Capelo?

Estes três trajes femininos possuem pequenas variações, ou particulares alterações regionais, no entanto, a sua forma elementar baseava-se numa mantilha, com ou sem véu, amplamente distribuída, de norte ao sul do país, e que teve a generalizada denominação de biôco (ou biuco no Sul e rebuço no Norte).

Genericamente compõe-se de uma capa, mais amplas e compridas nos Açores e Algarve que no Alentejo, em cuja cabeça era coberta de forma a impedir que se visse a cara da sua utilizadora. É a forma como a cabeça é coberta que distingue os três trajes.


Côca –Alto Alentejo

As côcas terão sido um traje de noiva na nossa região, na segunda metade do século XIX. A tradição oral também afirma que a dimensão e colocação do véu tinha três posições distintas, consoante a classe a que pertencia a nubente.
Mas, como traje de noiva acabou por cair rapidamente em desuso enquanto tal, passando a ser fundamentalmente moda nas mulheres aristocratas ou da alta burguesia de todas as idades, quando estas saíam à rua para assistir a actos religiosos ou nas visitas, tão habituais nestas classes sociais entre finais do século XIX e princípios do XX.
Usavam uns biôcos, pegados a uma espécie de capa curta e que eram cobertos, no alto, por uma renda larga, que caía pelas costas. Na frente o biôco era armado em papelão, ou tarlatana, para se manter aberto. Em alguns, a renda era colocada, como já disse, caindo do alto da cabeça sobre as costas, outros porém, era posta em sentido contrário, isto é, sobre a cara. Completava o trajo uma saia de merino.
José Leite de Vasconcellos, observa que este seria o «trajo clássico de se ir à festa do Sacramento, que durava de quinta-feira do Corpo de Deus até à segunda-feira seguinte». O célebre investigador apresenta uma testemunha ocular que, entre os anos de 1862 e 1866, terá visto as mulheres assim embiocadas, e explica que este processo só era possível mediante a utilização de «um papelão curvo que encobria a cabeça, como as mantilhas de Mondim, coberto de preto e com pano nas costas».

O biôco (ou biuco) – Algarve

Raul Brandão escreve a propósito do biuco no seu livro "Os Pescadores", em 1922:
" Ainda há pouco tempo todas (as mulheres de Olhão) usavam cloques e bioco. O capote, muito amplo e atirado com elegância sobre a cabeça, tornava-as impenetráveis.
É um trajo misterioso e atraente. Quando saem, de negro envoltas nos biocos, parecem fantasmas. Passam, olham-nos e não as vemos. Mas o lume do olhar, mais vivo no rebuço, tem outro realce... Desaparecem e deixam-nos cismáticos. Ao longe, no lajedo da rua ouve-se ainda o cloque-cloque do calçado - e já o fantasma se esvaiu, deixando-nos uma impressão de mistério e sonho. é uma mulher esplêndida que vai para uma aventura de amor? De quem são aqueles olhos que ferem lume?... Fitou-nos, sumiu-se, e ainda - perdida para sempre a figura -, ainda o som chama por nós baixinho, muito ao longe-cloque..."
Trata-se de uma capa que cobre inteiramente quem a usava. A cabeça era oculta pelo próprio cabeção ou por um rebuço feito por qualquer xaile, lenço ou mantilha. As mulheres embiocadas pareciam “ursos com cabeça de elefante”
Oficialmente a sua extinção ocorreu em 1882 e por ordem de Júlio Lourenço Pinto, então Governador Civil do Algarve, foi proibido nas ruas e templos, embora continuasse a ser usado em Olhão até aos anos 30 do século XX em que foram vistos os últimos biocos.

O Capelo – Açores

À semelhança de outras regiões também a mulher açoriana usava agasalho capotes com capelo, diferindo o seu feitio de ilha para ilha.
Leite de Vasconcelos visitou os Açores no Verão de 1924 e testemunhou o uso de mantos e capotes pelas mulheres da ilha Terceira e do Faial. Com efeito até meados do século XX era frequente encontrar nos meios citadinos mulheres envoltas no seu capote preto e capelo armado.
Convém distinguir o manto do capote, o primeiro é uma saia comprida e rodada de cor preta, o segundo, afigura-se como uma capa muito ampla, mais farta lateralmente que nas costas.
No caso da utilização do manto, o capelo era armado com cartão e atado pela cintura, a mulher segurava-o com as mãos de modo a encobrir o rosto. Com o capote, o capelo era utilizado sobre os ombros. Neste caso, estamos perante um amplo capuz suportado por um arco de osso de baleia, sendo a sua rigidez conferida pelo forro de cânhamo.

Estamos assim perante três trajes, que para além da sua função de abafo, remete o papel da mulher para a total exclusão da sociedade, uma vez que, completamente coberta jamais alguém descobriria a sua identidade.

Dos três trajes apenas o dos Açores é ainda hoje identificado pelo público em geral, já que se tornou num símbolo dessa região e é amplamente divulgado pelos ranchos folclóricos. Quanto aos restantes, correm o risco de caírem no esquecimento e no ostracismo, já que não sendo bonitos ou ricos, não são mostrados pelos grupos das suas regiões de origem.

Bibliografia:
PITA, António, Côca ou Mantilha - Século XIX - Uma Traje de Festa e de Solenidade do Alto Alentejo – Câmara Municipal de Castelo de Vide, Secção de Arqueologia, Maio1999

Braz Teixeira, Madalena, Trajes Míticos da Cultura Regional Portuguesa, 1994, Museu Nacional do Traje.

Ormonde, Helena, in O Traje do Litoral Português, Museu Etnográfico e Arqueológico Dr. Joaquim Manso, Câmara Municipal da Nazaré

quinta-feira, março 09, 2017

CHAPÉU CORDOVÊS


Quando analisamos fotografias do inicio do sec.XX, sobretudo referentes às regiões do Ribatejo e Alentejo, surge de vez em quando um chapéu masculino diferente dos demais.

Distingue-se pela forma cónica, alta e plana da copa, já que, normalmente, esta é circular e côncava, não excedendo não excedendo os 10 cm.

Este é conhecido como Chapéus Cordovês.

Cordovês por ser originário da cidade de Córdoba, em Espanha, onde ainda hoje é fabricado.

Diz-se, que começou a ser usado pelas pessoas que realizaram o trabalho de jornaleiro. Já que no campo estavam expostos tanto ao sol como à chuva e precisavam de um chapéu mais resistente que o de palha. Sem dúvida a ideia era clara, precisavam de um chapéu mais rígido, e não se deformasse com o tempo.

As características deste chapéu popular são: fabricado em feltro, aba larga e plana, e uma copa alta ligeiramente cónica e geralmente pretos.

Este chapéu tornou-se popular em Espanha por influência de vários Cordoveses, nomeadamente ligados à tauromaquia como o rejoneador Antonio Cañero (1885-1952) e o toureiro Manolete (1917-1947), ambos muito conhecidos e aplaudidos em Portugal.

É talvez por esta via que podemos explicar o seu surgimento em Portugal e disseminação por regiões com maiores tradições taurinas.

Por ser um produto de importação (não fabricado localmente) seria naturalmente mais caro que os comuns, dai a sua utilização sobretudo com trajes de festa/domingueiros, motivo também pelo qual não se verificou uma ampla propagação entre os homens destas regiões, sendo assim uma peça que apenas alguns poderiam comprar e usar.

São vários os exemplos a tive acesso, nomeadamente na Glória do Ribatejo (Rancho Folclórico da Casa do Povo de Glória do Ribatejo) ou Serpa, onde o Rancho de Cantadores de Aldeia Nova de São Bento desde sempre se apresentou com eles.
Chapéus Cordovês



Rancho de Cantadores de Aldeia Nova de São Bento - Casa do Alentejo-1950

Manolete (1917-1947)


Antonio Cañero (1885-1952)

Sarau na Casa do Alentejo - Lisboa - 1937



quarta-feira, janeiro 12, 2011

Trajo de Festa Masculino – Alto Alentejo

Este trajo é apresentado pelo Grupo Folclórico e Cultural da Boavista e foi recolhido em Ribeira de Nisa, sendo utilizado pelos homens em dias Festa no início do sec.XX.
O trajo composto por:
Jaqueta: de surrobeco, com alamares de cordão preto e botões de metal no centro dos alamares.
Colete: de veludo vermelho de bandas redondas abotoadas com botões de metal.
Camisa: de linho branco com peitilho, com colareta alta, e também havia com peitilho e punhos de outra cor.
Calção: ou meia calça de veludo, até ao joelho, com uma abotoadura com três botões de metal que se abotoam de lado de fora e na cintura.
Ceroulas: de pano branco.
Cinta: de cor variada segundo a ocasião, mas geralmente era preta ou vermelha, para cerimónias.
Meias: brancas ou da cor do calção, arrendadas feitas à mão, que apareciam entre as polainas e os calções.
Polainas: de burel, até ao meio da perna, abotoadas de lado com pequenos guizos (em vez de botões), que deixavam ver a meia.
Chapéu: de aba larga, preto, com uma borla redonda de lã, segura ao chapéu na copa ou aba, caindo sobre a aba esquerda.
Botas: em calfe pretas.
Lenço: branco no bolso da jaqueta
Manta: para se cobrir nas noites frias.

Fonte: Grupo Folclórico e Cultural da Boavista



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terça-feira, janeiro 27, 2009

Camponesa - Montargil - Alentejo

A freguesia de Montargil situa-se numa zona de transição Alentejo/Ribatejo, mas o seu folclore reflecte ainda o facto de durante muitos anos, embora sazonalmente, aqui terem trabalhado pessoas vindas de outras terras, caso dos “tiradores de cortiça” do Algarve, e dos “ratinhos” vindos das Beiras em “tempo de ceifa”, É a aculturação, é o encontro de culturas, é o moldar de uma cultura muito específica.
É essencialmente uma “comunidade rural”, com a sua identidade não quer abdicar e maneira de ser, que o Rancho Folclórico de Montargil tenta preservar e divulgar.
O traje ou a “Copa”, era noutros tempos um factor que muito caracterizava quem o vestia, e o Rancho Folclórico de Montargil apresenta o mais fiel possível a “copa” que os seus antepassados usaram.
Vestia-se pobre em Montargil, o que não significa que em especial a mulher não vestisse “bonito “.O fato de “camponesa” era sempre igual, com uma ou outra pequena alteração em função da actividade que ia desempenhar, e a natural mudança de utensílio de trabalho.
Tanto quanto sabemos, este trajo de camponesa é característico unicamente desta região de transição entre o Alentejo e o Ribatejo, o que demonstra bem como localmente se criou uma cultura muito própria.
Era constituído pelas seguintes peças:
Blusa com abas e” mangos” (estes de meia velha ou do riscado da saia); Saia de riscado escuro, arregaçada e atada no cós.” Podendo no entanto usar uma saia mais curta, que não seria arregaçada”. Ceroulas de ganga atadas nos tornozelos com fitas de nastro; Chapéu sobre o lenço, e este, consoante o trabalho, atado atrás, em cima sobre o chapéu ou à frente; Meias escuras de cordão; Sapato de atanado e sola, sendo que, dependendo do trabalho executado, podiam andar descalças.
Refira-se ainda, que quando a caminho do trabalho, algumas camponesas levavam um curto avental que tiravam ao chegar lá. Era também nessa altura que, e se disso fosse caso a saia era arregaçada e presa no cós.

terça-feira, novembro 27, 2007

Cante alentejano - Cuba - Alentejo

Uma das mais emblemáticas modas do cante alentejano - género musical característico do Baixo Alentejo - aqui cantada pelos Ceifeiros de Cuba, na Taberna do Lucas, em Cuba.



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segunda-feira, outubro 08, 2007

Trajos de Festa – Castelo de Vide – Alentejo


Existem nestes trajes diversos pormenores que nos indicam uma posição social mais elevada dos seus utilizadores. Ainda assim, trata-se de um traje de festa, apenas utilizado em algumas ocasiões, pois mesmo com melhores condições de vida, no Alentejo, o dinheiro não abundava, pelo que não havia lugar a grandes excentricidades.
Esses “sinais exteriores de riqueza” identificam-se no homem pela qualidade dos tecidos, do corte, pormenores decorativos e acessórios. A que se associa a capa, peça imponente e de luxo. Mas existem ainda outros pormenores menos evidentes; o lencinho bordado pela namorada e exibido no bolso pequeno da jaqueta, a cinta preta de merino e a bota preta engraxada.
No vestuário feminino, a qualidade e quantidade de tecido empregues na confecção deste traje são sinónimo de festa e de luxo. A saia é muito rodada, mas o sinal de riqueza era dado pelo número de barras que guarneciam a orla, que revela as posses da rapariga. Também o xaile pousado no braço e dobrado em forma de manta era considerado como a forma mais elegante de o exibir. A saquinha que acompanha o traje e o ouro exibido (embora em quantidade mais modesta que em outras regiões), revelavam a riqueza da rapariga.
O trajo masculino é assim constituído por jaqueta de tecido de lã (casimira) castanha, com gola, bandas e frentes contornadas com fita de seda vermelha. Aplicação de alamares nas frentes e de galão nas mangas, sugerindo um canhão em forma de bico e com botões aplicados de obliquamente. Colete no mesmo tecido, também contornado com fita idêntica à da jaqueta. Calças do mesmo tecido castanho, ajustadas na cintura com cinta preta de merino. A camisa branca é de linho, com colarinho e peitilho decorado com nervuras. Na cabeça, chapéu de feltro preto de meia copa. Calça botas pretas.
Completa o conjunto, uma capa de “briche” castanha, com cabeção duplo e debruado, ajustada na colareta com fecho de prata. Frentes forradas com pelúcia cor de mostarda.
A mulher, veste blusa de tecido de algodão vermelho, lavrado, com quartilhos com cós, peitilho e carcela abotoada na frente, contornados com bordados estreitos. A linha da cintura é marcada e possui uma aba sobre as ancas. Manga comprida, ajustada ao punho com refegos.
Saia de tecido de lã cor-de-rosa, pregueada na cintura e decorada em baixo com aplicações de renda e galões.
Na cabeça, lenço de lã estampado, com as pontas caídas sobre o peito.
Pousado no braço, xaile de merino preto com franja e na mão saquinha de tecido recortado, formando uma rede. Calça meias brancas rendadas e sapatos pretos.
Referência Bibliográfica: Tomaz Ribas in O Trajo Regional em Portugal, Difel, 2004
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segunda-feira, dezembro 22, 2014

O Ouro Popular Português II

Brincos

Antes de mais, convém referir que a palavra arrecada constituía um denominador geral para aquilo a que hoje chamamos brincos, só no final do sec.XIX passaram a designar um tipo específico de brincos.

Em todos os tempos e lugares os brincos são, entre os adornos, os de preferência indeclinável, estando muitas vezes arreigado à superstição, como proteção dos espíritos malignos.

Quando uma menina nascia (com cerca de 1 mês) furava-se as orelhas com uma agulha nova com linha, molhada em azeite para escorregar melhor, e durante algum tempo (normalmente 7 dias) a linha ficava na orelha até a ferida cicatrizar. Se infetava, a mãe tratava a ferida com o seu próprio leite até curar.

Os primeiros brincos (“ais”, “botões” ou “argolinhas”) eram oferta da madrinha de baptismo juntamente com o vestido. Em caso de fatalidade, as mesmas peças podiam ser vendidas para comprar a mortalha; o padrinho pagava o caixão. À medida que a criança crescia, estes brincos eram substituídos por outros maiores de acordo com os gostos e aspirações da jovem.

Os novos brincos eram oferecidos pelos pais ou comprados pela própria, com o fruto das pequenas economias domésticas que iam arrecadando com os anos.

Raras eram as mulheres que não usavam brincos e estes acompanhavam-nas diariamente, a sua presença era imprescindível em todos os momentos. Eles simbolizam não só adornos e ostentação mas também sinal de estabilidade da economia doméstica.

Quando em luto, retiravam as argolas. O mais frequente era, no caso de não poderem comprar uns brincos mais adequados de azeviche ou ónix, cozerem uns paninhos pretos para disfarçar o brilho do ouro.

Por fim, quando morriam, os brincos que traziam nas orelhas acompanhavam-nas na tumba. Em algumas regiões eram oferecidos pela família à mulher que fosse ajudar a vestir o corpo.

A propósito do ouro costuma-se dizer “para a missa o que puderdes, para a feira quanto tiverdes

Se no Minho as mulheres se vergam com o peso do ouro, o uso dos brincos era generalizado a todo o país.

Em Mogadouro (Trás-os-Montes), as mulheres usavam brincos ou arrecadas e na região de Viseu, como em toda a Beira Alta, aos domingos e dias de festa ou romaria, as preocupações com o traje eram reforçadas com as arrecadas. As de Coimbra seguem-lhe o exemplo e as varinas a todas ultrapassam em dias de passeio e cerimónia.

Na região da Bairrada as arrecadas assumiam um grande valor tanto ao nível económico como afetivo-emocional, daí serem muitas vezes condicionadoras na colocação do lenço de forma a não as ocultar.

A nazarena também gosta de ouro. O grande brio e aspiração das mulheres do mar é possuírem brincos, em forma de medalha, com o retrato do marido, dentro de um aro de ouro. Aparentemente estes brincos seriam desconhecidos noutras regiões, no entanto, as medalhas com retratos dos maridos ou familiares tiveram em voga na região setentrional do país, mas usadas ao peito, penduradas nos cordões ou em fios.

À medida que caminhamos para Sul os estudos sobre o uso de ouro são raros. No entanto teriam o mesmo valor económico e afetivo que era atribuído noutras regiões, embora a quantidade e riqueza fosse menos exuberante.

É alentejana a seguinte quadra:

Gargantilha, brincos de ouro,
Tudo hei-de mandar vender;
Caiu o meu bem nas sortes,
Soldado não há-de ser.

 
Tipos de Brincos

Argolas – As argolas (outrora também designadas como pensamentos, bichas ou arriéis) constituem um dos diversos tipos de arrecadas. Definem-se como sendo enfeites, geralmente em forma de arco, com um gancho, que as mulheres penduram em orifícios abertos nas orelhas, podendo ser simples, de chapa batida lisa ou ornamentada, de sanguessuga ou roliça. Conforme a sua forma também eram conhecidas como africanas, farinheiras (no Alentejo), argolas indianas, de regueifa, de carretilha, de leque, ou carniceiras, tomando por vezes o nome de uma cidade “Coimbra” ou “Barcelos”.
 

 Argolas Carniceiras – também conhecidas como de “Barcelos”, chamavam-se assim pelo facto de adquiridas pelas mulheres dos talhantes de Barcelos, pessoas abastadas, que gostavam de ostentar estas argolas grossas. Na Póvoa de Lanhoso são também conhecidas como Argolas à Marchanta. Existindo várias variações que vão do liso às com motivos decorativos.

Argola em crescente – O crescente acentua a grossura central e diminui sensivelmente para as extremidades. Existindo variações conforme a secção, que pode ser plana, quadrangular, roliça ou arestada.

Argolas “Minhotas” – Em termos estruturais, as arrecadas apresentam formas ligeiramente diversas, variando entre o corpo discoudal, oval ou losangular. Superiormente a peça é dividida por duas hastes mais ou menos afastadas e profundas, formando um U, de onde parte a argola de suspensão auricular. Como elemento decorativo central surgem essencialmente bolotas ou cachos de uvas.



Arrecadas de viana – Castrejas (as complexas arrecadas como as de Laúndos, Afife e Estela) – Com a sua “janela”, ou “pelicano” ou “bambolina” na sua forma lunular com as respetivas campainhas, sempre em número ímpar, e que têm a virtude de afastar espíritos maléficos.


Brincos de chapola, parolos ou de luas - Chamavam-se de “chapola” por serem feitos em fina chapa de ouro, “parolos” por serem, outrora, usados pela mulher do campo, designada de “parola” pela citadina. Atualmente, estes brincos caíram em desuso nas aldeias e procurados pelos habitantes das cidades. As aldeãs, ao verem-nos, exclamam: “Sume-te diabo! Que brincos parolos!” Chamam-se de “luas” por terem, quase todos, quartos de lua em relevo


Botões


Exemplo de botões (Alentejo)

Exemplo de Botões (Alentejo)

 
 
 
 




Botões - Ofertava a madrinha de baptismo, à qual competia dar a mortalha se a menina viesse a “tornar-se anjinho do Senhor”! Por isso - mau grado – se a criancinha morresse vendiam-se os botões para ajudar o custeio do vestido que “levaria para o céu”! Se tal fatalidade não ocorresse, então, à medida que o crescimento dela se ia verificando, os “botões” ou “botõezinhos”, iam sendo trocados. Em algumas regiões tornaram-se o modelo preferido, por serem mais pequenos e menos onerosos.

  
Brincos à Rainha ou à Vianesa
Brincos à Rainha ou à Vianesa - À moda da rainha, de mulher fidalga ou burguesa rica. São brincos muito elegantes e, ao contrário das arrecadas, são cópias adaptadas dos brincos e laças que apareceram em Portugal no reinado de D. Maria I.
Estes brincos eram a ambição de qualquer jovem quando se ia ourar.


Brincos à Rainha
(Estes exemplares faziam parte do conjunto de
joias privadas da Rainha Dna Amélia)


  
 
 
 
 
 


Brincos à Rei
Brincos à Rei - São muito parecidos com os brincos à Vianesa, mas mais elegantes, compostos por uma parte superior, uma parte média em forma de laço (herdeira da laça ou laçada) e uma parte terminal. - não aparece aquela parte móvel que se encontra ao centro duma das partes dos brincos à rainha. A designação não significa que eram usados pelos reis, ou fidalgos, mas para se distinguir dos brincos à rainha.


Brincos de Princesa
Brincos à Princesa – traduzem-se numa outra variante dos brincos à rainha.












Brincos com Pedras - Normalmente apresentam pedras azuis ou vermelhas, são curtos ou compridos, com uma pequena franja, onde balançam uns “penduricalhos”. Fazem conjunto com colares, tão em voga nos anos 40, mas que ainda se continuam a usar.

Brincos com pedra
Brincos com pedras
Brincos de meia libra - Os brincos de meia libra refletem a utilização de moedas como adorno, não só como pendentes de cordões mas também das orelhas, sendo normalmente utilizadas libras ou meias libras.
 
Outros tipos de brincos:
 
Argolas de Sanguessuga

 
 
 
Argolas Estampadas



Brincos Barrocos (Póvoa do Varzim)

Argolas Estampadas

 
Argolas de Filigrana

 
 
 
Brincos com Pedras

No próximo artigo desta série falaremos de CORDÕES E COLARES
Artigo Relacionado: O Ouro PopularPortuguês I

quinta-feira, agosto 30, 2007

Coisas de Mulher – Alentejo

Nas minhas deambulações pelo nosso país por vezes encontro pequenas publicações locais, mas com um grande interesse, quer em termos sociológicos, que etnográficos.
É um caso de um pequeno caderno com o nome “Coisas de Mulher …”, do Projecto das Escolas Rurais do Concelho de Estremoz, coordenado por Adosinda Maria Pisco e Maria Antónia Parulas, editado em 2000, e que é um excelente documento para quem queira compreender como viviam as mulheres do povo no Alentejo do inicio do sec.XX.
O excerto que passo a transcrever diz respeito ao capítulo “O Vestuário e o Calçado…” e retrata o uso do povo, pela voz das mulheres.
“Nós, as mulheres, tínhamos que fazer a roupa toda e só havia ordem de casar quando soubéssemos fazer tudo…
Aproveitávamos todos os bocadinhos que tínhamos para aprender com as nossas mães, ou as nossas avós, alguma tia ou vizinha mais chegada; e começávamos muito cedo, aí a partir dos 8 anos já aprendíamos uns pontinhos…
A grande maioria da gente não tinha maquinas para podermos coser a roupa; quando assim era alinhavávamos a roupa toda e depois pedíamos a quem tivesse máquina para ir lá coser.
E fazíamos a roupa toda: camisas, combinações, saias, saias de cima (só saias, fora a combinação eram quatro), fazíamos as meias de linha, as combinações todas com uma rendinha e um pontinho, os coletes, uns bordadinhos …, Os aventais …
As cuecas, só quando era mais velha, com 20 ou 21 anos, é que comecei a fazê-las para as usar, até aí nunca usei …
Só o que não fazíamos eram os lenços da cabeça, que comprávamos nas feiras, …O mais fazíamos tudo.
Também tínhamos de saber fazer a roupa dos homens: as ceroulas, até aos pés (não havia cá pijamas!), as calças, a camisa, o colete e a blusa de cima …, os coletes com bolsos à frente eram muito custosos de fazer e tinham preceito de ser feitos.
E aquela que não soubesse fazer era apontada, dizia-se:
- Ai atão tu vais casar com fulana? Ela não sabe fazer nada! Estás dereito da vida!
E a gente não queríamos ser apontadas e andávamos sempre naquele despique … E às vezes ainda não sabíamos fazer bem mas fazíamos de conta… Sentávamo-nos nas cadeirinhas, na rua, e entre todas íamos inventando assim uns pontinhos … Sempre havia umas mais velhinhas que iam orientando a gente … Senão, quando as nossas mães chegassem e os pontos não estavam a preceito, toca a desmanchar tudo … O mais custoso de aprender, para mim, era o talhar o molde, as medidas … E depois até as meias (meia de cinco agulhas) tínhamos de saber fazer – o cano e o pé – um palmo de pé e um palmo de cano. Fazíamos aquelas meias de linha, umas pretas, outras de carmesins, e depois fazíamos-lhe uma espiguinha de outra cor, uma espécie de folha, assim de lado …
E a roupa era só aquela … Uma muda para o trabalho e outra melhorzinha para os balhos e quando íamos à missa, às festas, às feiras …
As blusas eram todas de mangas compridas. Ninguém usava mangas curtas. Também ninguém andava em canelas, tudo calçava meias de linha …
Aprendíamos a fazer pespontos à mão, casear, alinhavar, pregar botões, fazer bainhas …
Inventávamos feitios diferentes para as saias – saias franzidas, saias pregadas, macheadas, aventais de godés, de peitilho … Algumas raparigas eram muito jeitosas, imaginavam as roupas, desenhavam os feitios … E a gente ia vendo e fazendo à nossa maneira.
Naquele tempo a gente até tínhamos orgulho em vestir aquilo que nós próprias fazíamos … Levávamo-nos naquela opinião … naquela influência …
Os tecidos eram pano cru, que se comprava à peça, a chita, o brocado, gorgorina, a saragoça (mais para os homens), o cotim, o riscado …
Tínhamos um grande cuidado com os aventais, fazíamos aventais muito bonitos… Com muitos feitios … Alguns bordados, com rendas … Andávamos sempre de avental, nos dias de festa púnhamos os melhorzinhos …
A maioria das mulheres fazia a meia, renda, ou a costura toda à luz da candeia de azeite e, mais tarde, à luz do candeeiro de petróleo … Era uso todas as mulheres terem o seu xalinho de algodão ou de lã, que punham pelas costas para agasalhar e tapar da chuva.
Muitas crianças só tinham uma roupita muito velha e remendada, a maioria das vezes feita já da roupa dos irmãos e que lhes deixava de servir …
Para as mães lha poderem lavar, tinham de ficar encerrados em casa à espera que a roupa enxugasse…
De Verão era um ai, mas de Inverno? Tínhamos de secar a roupa ao lume de chão e passá-la ao outro dia …
E não era fácil, nessas alturas, tratar da roupa … Não havia nem lixívia nem detergentes … Era tudo lavado à mão.
Íamos buscar água ao poço, ou lavávamos nas ribeiras … ou fazíamos um lavadouro de pedras e púnhamos uma laje mais direita por cima … ou então lavávamos numa celha ou de um alguidar grande (de barro ou de zinco) e lavava-se com assabão azul e branco … enjoelhadas no chão …
Em tempos mais antigos as mulheres é que faziam o assabão – compravam nas drogarias uns poses a que juntavam as borras do azeite, cinza e água. Fazia-se uma massa que depois a gente metia num molde de madeira … essa massa coalhava, ficava mais seca e a gente cortava-a aos bocadinhos e … era o nosso assabão.
A seguir apareceu um outro assabão muito escuro, que pareceia que era de alcatrão … até deitava assim um cheiro esquisito … mais tarde apareceu o assabão azul e branco.
Quando os homens no Verão suavam, ficavam aquelas sovaqueiras negras nas camisas e a gente não éramos capazes de as tirar com o assabão, lembro-me da minha avó ir à ribeira, arranjar umas ervas que se chamavam montrastes, fazíamos uma bola com essas ervas, que faziam muita espuma, esfregávamos e saia tudo da roupa …
Quando iam aos poços, às ribeiras, aos tanques (mais tarde), as mulheres levavam um tacho grande – uma lata grande – faziam lume e ferviam a água com a cinza do lume de chão e o esterco dos animais. Fervia tudo muito bem fervido e depois deitava-se por cima da roupa suja que estava no alguidar.
Tapava-se bem e quando arrefecia, lavava-se …
(…)
Mais tarde começou a ferver-se a água com a cinza e o assabão cortado às fatias fininhas … para fazer as tais barrelas … também começaram a juntar a potassa, que compravam nas drogarias …
Corava-se a roupa no chão, ao sol … estendia-se nos pastos, nas ervas e íamos com o regador, de vez em quando, borrifar a roupa, para ela corar melhor …
Depois lavava-se muito bem lavada, naquelas águas correntes, a roupa ficava muito bem descasqueada … E enxugava-se em carapetos árvores pequenas e arbustos, em cima das moitas, de tojos, silvas, coisas assim … Não havia arames, nem molas …
A primeira lixívia que conheci, ensinou-me a minha avó, era a urina da gente. Como não havia casas de banho, a gente urinava de noite nos bacios e depois aproveitávamos essa urina para deitar na roupa, durante um certo tempo, e depois lavava-se muito bem com as tais ervas e passava-se por águas limpas … A roupa ficava muito branquinha e sem nódoas …
Depois quando estava seca, recolhíamos a roupa e levávamo-la para casa para ser passada a ferro … Toda a roupa era passada a ferro …
Nos primeiros tempos, com ferros que iam aquecendo ao lume (de chão) para passar a roupa …Depois já com os ferros que levavam as brasas, é que a gente passava … Não havia luz …
Tínhamos de estar com atenção para o não deixar apagar … Volta e meia tínhamos de o abrir para espevitar as brasas ou pôr brasas novas …
(…)
A roupa de trabalho era lavar e usar, lavar e usar … Só nos vestíamos de lavado aos domingos …
A outra roupita que tínhamos guardada para as festas os arraiais, durava três ou quatro anos …
Chegávamos dos balhos, das festas e aquele vestido, ou aquela blusa era tudo muito bem limpo (principalmente debaixo dos braços que era da gente suar muito), com um trapinho molhado, ficava ao ar e depois era logo arrecadado, na arca … Não se andava sempre a lavar essa roupa melhor … Dava-se cabo …
(…)
Sapatos só aí a partir dos 10, 12 anos …Muitos ainda mais tarde ...
(…)
A gente habituava-se a andar com os pés à vontade, depois quem é que dizia que eles se queriam ver aperreados?
Os sapatos eram muito fortes, muito grossos, feitos para a lida da vida, para esses caminhos por onde a gente andava … E duravam muitíssimo, sempre havia um sapateiro que ia remediando a gente no calçado …
(…)
Ainda me lembro da minha irmã … Quando andava à azeitona … Chorava dias inteiros quando chovia … É que ela só tinha aquele xalinho que trazia pelas costas e quando chovia e ficava encharcada, sabia que, à noite, não tinha com que se tapar, na cama …”
Este primoroso trabalho, são muitas as passagens bastante interessantes sobre o trajo e o modo de vida no Alentejo. Não resisto a transcrever um outro testemunho, que demonstra bem quão distantes os estão conceitos de moda, senão vejamos:
“…A primeira vez que eu usei meias dessas de vidro, essas transparentes, foi pelas festas cá da aldeia … Mas houve mais raparigas que também usaram, a gente combinava-se umas com as outras …
Isso foi um grande advertemento para os rapazes … Eles ali sentados no banco em frente à igreja a verem passar a gente … E diziam:
- Aquela é surrada … Aquela é menos surrada … Aquela é a mais surrada …
Eles gostavam das mais surradas.
É que as meias de vidro deixavam ver os pêlos das pernas … A gente naquela altura não ligava a isso … Agora é que toda a moça se rapa toda; tiram os buços, debaixo dos braços, nas pernas … algumas até noutros sítios …
E aquilo para os rapazes era uma novidade … Era uma festa poderem ver os cabelos das pernas às moças …”
Referencia Bibliográfica: Pisco, Adosinda Maria e Parulas, Maria Antónia in “Coisas de Mulher …”, ICE - Projecto das Escolas Rurais do Concelho de Estremoz, 2000.
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quarta-feira, outubro 10, 2012

Os Negros na Cultura Popular Portuguesa

No “Álbum de Costumes Portugueses”, de 1887, Júlio Cesar Machado e Fialho de Almeida descrevem três figuras “O Preto Caiador”, “Preta do Mexilhão” e o “Preto de S. Jorge”, perante estas figuras e conhecendo um pouco da história da escravatura em Portugal, questionamo-nos sobre a influência destes africanos arrancados às suas nações na nossa cultura popular.

Para entendermos se existem eventuais influencias, é necessário conhecer um pouco da história da escravatura, pois era essa a condição da maioria desses negros.
Desde as suas origens, Portugal conhecia o regime da escravidão, não apenas devido à norma de transformar os mouros vencidos na guerra em cativos ou servos, mas através de relações de comércio com mercadores árabes ou mesmo pela ação de pirataria realizada diretamente pelos seus navios na região do Mediterrâneo fronteira ao Norte de África.

Havia desde meados do século XIV postos de venda de cativos na Rua Nova de Lisboa, onde se comerciavam peças trazidas inclusive de Sevilha - que em Castela funcionava como entreposto - e, segundo um documento encontrado pelo pesquisador no Convento de Chelas, uma das freiras desta casa lá comprara por 150 libras em 1368 a um mercador sevilhano uma jovem moura de pele branca chamada Moreima.
Através das trocas comerciais os portugueses entraram em contacto mais íntimo com negros africanos das regiões denominadas pelos mouros de bailad-as-Sudan, o além-Sara para o sul, habitado pelos negros islamizados do Sudão, e das áreas ocidentais vizinhas dos rios Níger e Senegal, ao norte do Equador.

As primeiras remessas de negros da Guiné para Portugal na segunda metade do século XV.
As consecutivas tentativas de conquista resultam sempre no sequestro de numerosos “inimigos”, não fosse talvez esse o verdadeiro propósito. Foram escravos idos das Ilhas Canárias que proporcionaram um núcleo económico rentável na ilha da Madeira através da extração de madeira e produção de açúcar de cana.

De notar que as bulas Dum Diversus e Divino Amore Communiti, de 18 de Junho de 1452, que autorizavam o direito de filhar pagãos e reduzi-los à escravidão, haviam sido concedidas pelo papa Nicolau V em concordância com os argumentos dos portugueses que alegavam despesas com as navegações, assegurando a exploração tranquila da mão-de-obra escrava em esquemas de produção agrícola para exportação.
Uma das dificuldades de determinação do número de escravos negros africanos que entraram em Portugal desde o início do século XV é o facto ser empregado invariavelmente o termo negro para designar, de forma genérica, todos os tipos raciais de pele morena com quem se relacionavam.

Como resultado de um longo processo de observação, o povo passou a denominar o tipo de negro de pele mais escura com o nome da cor que por comparação lhe correspondia na linguagem comum, ou seja, a preta. A partir de então, um negro cuja pele fosse tão escura que lembrasse a cor preta começou a ser chamado homem preto e logo, por economia, preto. O termo negro continuaria a constituir, oficialmente, o nome genérico para a gente das mais variadas graduações de cor de pele, a partir do amorenado ou pardo até os tons mais fechados, mas, para o povo em geral, o negro mais caracteristicamente africano passaria a ser sempre o preto.
Ainda assim, estima-se que o número de escravos em Portugal era bastante elevado.

Em 1551 a capital lusitana teria cerca de 100.00 habitantes, dos quais 9.900 eram escravos, ou seja 9,9% da população. Ao longo dos sec. XVI e XVII a mão-de-obra escrava representava já 10% da população total do Algarve e Alentejo e também era visível no Norte de Portugal e em outras regiões.

O motivo da substituição do jornaleiro livre pelos escravos, não poderia ser a falta de gente em Portugal mas sim, o regime da grande propriedade, do latifúndio, que imperava no Alentejo e se arrastaria por centenas de anos.
A utilização incessante dessa mão-de-obra, de meados do século XV até à segunda metade do século XVII, fixou-se e estabilizou-se em certas áreas do mundo agrícola, declinando, porém, no século XVIII, em virtude da gradual redução no ritmo da substituição desse tipo específico de trabalho. Mas, mesmo em declínio, não cessou de existir, alimentada pela circunstância cruel de o filho de escravos herdar a condição dos pais, e, assim, quando em 1761 o Alvará de 19 de Setembro, providenciado pelo marquês de Pombal, determina o fim da entrada de escravos em Portugal, apenas nas províncias a sul do Tejo ainda trabalham nos campos 4.000 a 5.000 escravos.
O próprio texto do Alvará de Libertação demonstra que foram as razões de ordem econômica responsáveis pela extinção do trabalho escravo na agricultura portuguesa: com a exploração do ouro brasileiro das Minas Gerais a exigir cada vez maior número de escravos, o desvio desse tipo de mão-de-obra para território português constituía um desfalque na conquista da riqueza mais rápida, pela via colonial.

O poder real foi obrigado a reiterar o Alvará de 12 anos depois, porque muitos proprietários de escravos, não desejando perder o capital aplicado na compra das suas máquinas de produzir trabalho, continuavam a explorá-las clandestinamente.
Preta do Mexilhão
De facto os escravos foram usados pelos portugueses como fornecedores de força de trabalho em empresas agro-industriais (caso da fabricação de açúcar nas ilhas atlânticas); como trabalhadores em obras públicas (desbravamento de matas, aterro de pântanos e construção de prédios); em serviços de bordo em navios; trabalhos portuários de carga e descarga; como remadores de galés e barcos de transporte; vendedores de água (negras do pote) e de peixe; como vendedores ambulantes de carvão; em serviços públicos municipais (remoção dos dejetos domiciliares pelas chamadas negras de canastras); como artesãos (mesteirais); como negros de ganho nas ruas (ao serviço de senhores particulares); como trabalhadores em lagares de azeite (onde chegavam a mestres); e, ainda, «na cultivação do campo e no serviço ordinário», tal como informaria em 1655 o padre Manuel Severim de Faria nas suas Notícias de Portugal, admirado com o número de escravos empregados na «cultivação da terra» e nos serviços domésticos (atividade em que realmente predominavam e serviam em maior número nas cidades, principalmente em Lisboa).

O Preto Caiador
 
A partir do século XVI, surgiram em Lisboa e noutras cidades e vilas da província, principalmente no Alentejo, confrarias de negros africanos com propósitos religiosos dedicadas a São Jorge ou Nª Srª do Rosário, disfarçando em aparente conversão os seus cultos africanos.

O convento de São Domingos, dos dominicanos, em Lisboa, era frequentado por uma confraria de negros: - Confraria de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Lisboa. Dessa forma conseguiam preservar-se de acusações de heresia, a constituição de fundos destinados a compra de alforria e a participação na vida social paralelas às dos brancos, em vários aspetos da atividade comunitária.
Em “Álbum de Costumes Portugueses”, Fialho de Almeida descreve o “Preto de S. Jorge”, como membro de uma confraria que teria direito a incorporar a procissão do CORPUS CHRISTI, com os demais ofícios.

Descreve ainda a honra que estes homens tinham na sua pertença à confraria, sendo a cor da pele o principal ditame, teria de ser do mais retinto ébano e quando uma degenerada geração saia mulata engraxava-se a pele.
Preto de S.Jorge
Como já foi referido anteriormente, esta mão-de-obra escrava foi muito utilizada na agricultura sobretudo a sul do Tejo.
Remanescências dessa presença foram relatados por José Leite de Vasconcelos em Etnografia Portuguesa, Livro II.

«Ultimamente tive ocasião de ver alguns exemplares dos mesmos Mulatos (...).  Eles próprios dizem que são atravessadiços, isto é, "mestiços", em sentido geral. A cor varia: há indivíduos que são, por assim dizer, pálidos ou morenos, e outros muito foscos, quase pretos (...). Os vizinhos chamavam dantes a esta gente Pretos do Sado ou Pretos de São Romão, porque havia lá realmente muitos pretos. "São Romão era uma ilha de Pretos", ouvi referir a vários mulatos; ou "algum tempo havia lá muito preto encarapinhado". Ainda hoje se usa Preto como alcunha ou apelido: "Fulano Preto, Fulana José Preta"! Pouco a pouco a raça vai-se diluindo no grosso da população circunvizinha (...). Pena é que não se descobrisse ainda algum documento que nos esclarecesse acerca da data em que na Ribeira do Sado se fixou a raça africana ("raça negra") cujos descendentes estão diante de nós.»

De facto, nas povoações das margens do rio Sado é fácil identificar traços negroides nalguns moradores: cabelo encarapinhado, pele morena, lábios grossos, nariz largo …

De facto, em Alcácer do Sal, nas povoações de São Romão de Sádão e Rio de Moinhos,  é bem conhecida a existência dos "Pretos de S. Romão" que, fruto da miscigenação, se misturaram com a população branca e foram gradualmente perdendo as suas características africanas. Tal como se perdeu a memória da razão da sua fixação desta população.

Julga-se que seria um colonato de escravos, ai estabelecido por serem supostamente imunes ao paludismo, localmente conhecido por febre terçã ou sezões, um mal endémico, pois a região, durante séculos um território desabitado, tinha a fama de insalubridade e era rodeada de charnecas e gândaras.

De qualquer modo, volvidos muitos séculos, a memória popular, sempre curta para guardar factos históricos, apenas fez perdurar a lenda da "Ilha de Pretos" e as cantigas que ainda hoje ecoam ao ritmo do Ladrão:

Quem quezer ver moças
Da cor do cravão,
Vá dar um passeio

Até S. Romão.

 
Veja o nosso Sado,

Não tenha receio,

Até São Romão

Vá dar um passeio.

 
Quando eu chegui

À Rebêra do Sado

Vi lá uma preta

De beco virado.

 
Se tiver resposta

Responda-me à letra

De beco virado

Vi lá uma preta.

 
O Senhor dos Mártires

Cá da Carvalheira

É o pai dos pretos

De toda a Ribeira.

 
Lavrador João

Quem lho diz sou eu:

Se ele é pai dos Pretos

Também o é seu.

 

Esta presença negro-africana também se verifica nos topónimos de muitas ruas, como por exemplo: Rua das Pretas, Rua do Poço dos Negros … ou no nome de muitas povoações como no concelho de Vinhais existe a freguesia de S.Bartolomeu de Negredo, no de Barcelos a de Santa Eulália de Negreiros e o lugar chamado do Preto e no de Santo Tirso encontram-se S. Mamede de Negrelos, S.Tomé de Negrelos, Santa Maria de Negrelos. Vale de Negros é o nome de um povoado do concelho de Ancião, Pero Negro o de um outro no concelho de Arruda dos Vinhos. Nos concelhos de Montalegre e de Óbidos temos, respetivamente, as freguesias de Santa Maria Madalena de Negrões e como já dissemos, a de Negros ou A dos Negros.

No concelho de Loulé há o lugar chamado Cerro dos Negros, no de Almeirim há uma povoação com o nome Paços de Cima ou dos Negros. Dois povoados dos concelhos de Albufeira e de Silves chamam-se Guiné, no concelho de Alvito existe a povoação chamada Horta de Guiné. A dos Pretos, Monte dos Pretos e Quinta da Preta são os nomes de povoações dos concelhos de Leiria, Estremoz e Alcobaça, …, enfim, demonstra-se assim a importância que estas populações teriam em determinadas regiões para que servissem de referência a um determinado lugar.

Uma outra influência é na origem do fado, que parece despontar da imensa popularidade nos séculos XVIII e XIX da Modinha, e da sua síntese popular com outros géneros afins, como o Lundu, um género musical proveniente de angola.

Não conseguindo estabelecer maiores pontos de contacto entre a cultura africana e a portuguesa que subsistam e sejam detetado na nossa etnografia, fica aqui o nosso contributo para algo que nos parece importante, a presença dos Negros na nossa cultura. Certos ficamos de que nas nossas veias, circula um caldo de culturas e de povos, no qual certamente se encontra o africano.

Bibliografia:



Álbum de Costumes Portugueses, 1887