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segunda-feira, outubro 06, 2014

PEÇAS DO VESTUÁRIO TRADICIONAL ALGARVIO

O Museu de Arte Popular possui na sua coleção diversas peças de vestuário provenientes da Casa de Portugal em Paris, por transferência do ICEP (Instituto do Comércio Externo de Portugal) criado em 1982 e extinto em 2007.
Dessa coleção divulgo hoje alguns exemplares do vestuário tradicional feminino do Algarve, alguns com a indicação expressa de terem sido confecionados em Luz de Tavira.
De entre essas peças de destacar um conjunto de 4 blusas, que no Algarve têm a designação de “Batas”. Ou seja, uma peça que cobria a camisa e o corpete, vestidos junto à pele e que se usaram pelo menos desde o séc. XIX e ainda hoje são vestidas pelas mulheres mais velhas.

 
Datação: Séc. XIX - XX (?)
Matéria: Algodão (chita), plástico (botões), metal (molas)
Técnica: Estampagem em tons de azul, verde e vermelho
Dimensões (cm): altura: 46,5; largura: 34,5; comprimento: 51;
Descrição: Bata ou blusa com gola de bico pequeno, sem pé; frentes ajustadas com molas; decoradas com botões redondos vermelhos sugerindo um barco à vela, inserida num círculo. Cintura marcada com elástico e pequena aba. Costas direitas, com a mesma marcação na cintura e aba; mangas compridas com punho pequeno fechado com mola.

 
Datação: Séc. XIX - XX (?)
Matéria: Algodão, viscose (?), plástico (botões)
Técnica: Tafetá, renda bilros manual e mecânica (?)
Dimensões (cm): altura: 63,5; largura: costas 38; comprimento: 57;
Descrição: Blusa ou bata com decote com cós rematado com renda, frente inteira, com costura a meio ladeada por uma pinça de cada lado; aplicação de renda sugerindo peitilho, contornado com banda rematada com renda idêntica à do peitilho e à do cós. Atrás, abertura fechada com 8 botões. Manga comprida decorada com entremeio aplicado e renda na extremidade terminando sem punho. A orla da frente e das costas é guarnecida com renda idêntica à das mangas.

 
Datação: Séc. XIX - XX (?)
Matéria: Algodão, plástico (botões), metal (molas)
Técnica: Tafetá estampado
Dimensões (cm): altura: 53; largura: 44; comprimento: 56;
Descrição: Bata ou blusa com gola de bico, frentes ajustadas com molas escondidas sob a carcela decoradas com botões circulares (boias ) tendo no dentro um barco à vela; linha de cintura marcada com elástico formando uma pequena aba; costas sem costuras e aba a partir da cintura; manga comprida com punho ajustado com duas molas. No interior junto à gola etiqueta com o nº 13.

 
Datação: Séc. XIX - XX (?)
Matéria: Algodão e fibra (?)
Técnica: Tafetá e bordado
Dimensões (cm): altura: 62; largura: 42; comprimento: 63;
Descrição: Bata ou blusa com gola de bico, decote justo; frentes formando aba, com carcela e casa abertas, sem botões; costas com costuras laterais e aba; manga comprida com folho, (evasé) junto ao punho. gola, frentes, carcela,. aba e folho das mangas decorados com bordado tipo inglês. O facto de no lugar dos botões, estar só marcado com linha, penso que não tenha sido usado.

 


Datação: Séc. XIX - XX (?)
Matéria: Algodão branco
Técnica: Tafetá estampado com motivos florais e geométricos azuis
Dimensões (cm): altura: 63,5; largura: 58;
Descrição: Avental com cós na cintura e tiras para atar atrás; franzido ligeiramente em cima, termina com bainha estreita, sem qualquer outro enfeite.

 
Datação: Séc. XIX - XX (?)
Matéria: Algodão
Técnica: Tafetá estampado com silvas floridas e tracejado azul; bordado branco
Dimensões (cm): altura: 57; largura: 47;
Descrição: Avental com cós na cintura e fitas para atar atrás; na frente, a parte do centro do tecido, posto na diagonal, está cortado em viés e decorado com 3 aplicações de entremeio bordado; ladeando a parte central, duas tiras nesgadas com bolsos de chapa aplicados franzidos em cima e contornados por bordado. Na orla da peça, folho de bordado (tipo inglês).
 

Datação: Séc. XIX - XX (?)
Matéria: Algodão
Técnica: Tafetá estampado e bordado
Dimensões (cm): altura: 56; largura: 67;
Descrição: Avental com cós na cintura e fitas para dar a laçada atrás; bolsas de chapa contornadas com bordado a branco (bordado inglês) e orla guarnecida com folho pregueado.

 
Datação: Séc. XIX - XX (?)
Matéria: Lã, seda, algodão
Técnica: Sarja, tafetá
Dimensões (cm): altura: 77; largura: 33;
Descrição: Saia com cintura com cós estreito e abertura lateral à esquerda; na frente, o pano liso com costura nesgada, panos laterais e os de trás franzidos na cintura e ornamentados com 3 fitas vermelhas na orla e 6 botões forrados do mesmo tecido da saia. No interior, forro cor-de-rosa para proteção da saia e para dar-lhe melhor cair.

 


Datação: Séc. XIX - XX (?)
Matéria: Lã azul, algodão (galão) vermelho e amarelo
Técnica: Tafetá, galão
Dimensões (cm): altura: 77; largura: 34;
Descrição: Saia com cós na cintura, lisa na frente e franzida aos lados e atrás; galão aplicado em baixo, exceto no pano da frente; abertura na cintura fechada com colchete. No interior, forro na orla. O corte da saia é de influência burguesa.

 
Datação: Séc. XIX - XX (?)
Matéria: Algodão branco
Técnica: Tafetá e bordado mecânico
Dimensões (cm): altura: 73; largura: 250;
Descrição: Saiote ou anágua franzida com elástico na cintura, dois refegos a meia altura; folho alto decorado na orla com outros dois refegos, guarnecido com bordado.

   
Datação: Séc. XIX - XX (?)
Matéria: Algodão branco
Técnica: Tafetá e bordado mecânico
Dimensões (cm): altura: 69,5; largura: total 228;
Descrição: Saiote ou anágua franzido com elástico na cintura, folho a meia altura da saia terminando com 3 refegos e bordado mecânico na orla.

Sobre o uso de culotes pelas mulheres do povo é um assunto polémico, sobre o qual já muito se escreveu e debateu. Opiniões à parte, aqui ficam algumas exemplares que fazem parte desta coleção.
 
Datação: Séc. XIX - XX (?)
Matéria: Algodão branco
Técnica: Tafetá e bordado mecânico
Dimensões (cm): altura: 58; largura: cintura 46;
Descrição: Culotes franzidos na cintura, pernas até meio da caixa; apertadas com elástico e rematados com bordado.
Datação: Séc. XIX - XX (?)
Matéria: Algodão branco
Técnica: Tafetá e renda mecânica (?) de bilros
Dimensões (cm): altura: 52; largura: 22;
Descrição: Culotes, franzidas na cintura com elástico, pernas até ao joelho terminando com renda.

   


Datação: Séc. XIX - XX (?)
Matéria: Couro, fio de algodão (atacador) e metal (pregos)
Técnica: Curtimenta, tingida de preto
Dimensões (cm): altura: 4; comprimento: 24,5;
Descrição: Bota do pé esquerdo. De cano curto, fechado sobre o peito do pé com atacador; gáspeas lisas, sola com tacão. Vestígios de uso na sola.



Datação: Séc. XIX - XX (?)
Matéria: Pele preta
Técnica: Curtimenta
Dimensões (cm):altura: 3,8; comprimento: 25,5;
Descrição: Bota de mulher, para o pé direito. Bota com salto, apertada sobre o peito do pé com atacadores.

 

Datação: Séc. XIX - XX (?)
Matéria: Algodão
Técnica: Tafetá estampado
Dimensões (cm): largura: 76,5; comprimento: 79,5;
Descrição: Lenço quase quadrado, decorado com motivo de repetição composto por enrolamentos e grinaldas floridas em tons de verde e cor-de-rosa, sobre fundo cinzento. Orla embainhada. Este lenço parece ter sido confecionado com um tecido, não destinado a lenço.

   

Datação: Séc. XIX - XX (?)
Matéria: Algodão
Técnica: Tafetá estampado
Dimensões (cm): altura: 72; largura: 72;
Descrição: Lenço de cabeça, quadrado decorado com motivos de sabor oriental; no campo, motivos de inspiração floral em tons de castanho, amarelo e verde, destacando-se sobre fundo azul-turquesa; barra com cornucópias entrelaçados e motivos florais nos tons já referidos, terminando com tarja azul na extremidade.


Fonte:
http://www.matriznet.dgpc.pt/
Museu de Arte Popular

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sexta-feira, agosto 18, 2006

Côca, Biuco e Capelo

A Côca, o Biuco e o Capelo são três trajes de diferentes regiões, Alto Alentejo, Algarve e Ilha Terceira (Açores), no entanto, apesar da distância geográfica existem muitas semelhanças entre eles e uma história comum.

Sabemos hoje que os etruscos e os gregos vestiam o himation, ou seja, o manto, com o qual cobriam a cabeça. Possivelmente imitavam um costuma mais antigo. O Cristianismo adoptou para a imagem da Virgem o uso do manto à moda etrusca, isto é, sobre a cabeça. São Paulo introduz o costume das mulheres cobrirem a cabeça para que se distingam das mulheres descobertas ou meretrizes. Entrar na igreja com a cabeça coberta era sinal de respeito, submissão e humildade perante Deus.
Por toda a Europa surgiram diversas peças de vestuário que cobriam por inteiro o seu utilizador(a), nomeadamente, em França, Alemanha, Dinamarca, Itália, Espanha e Portugal.
Não se sabe quando este tipo de indumentária foi introduzido em Portugal, no entanto, podem-se encontrar registos da sua utilização desde 1609, no reinado de Filipe II, e existem autores que defendem a sua origem árabe.
Sabe-se no entanto, que a sua utilização abrangia a quase totalidade do território nacional, mas apenas no Alto Alentejo, no Algarve e nos Açores, esses trajes eram ainda utilizados até meados do século XX.
A sua utilização destinava-se a impedir o contacto da mulher com os transeuntes que com ela se cursassem na rua, ocultando a sua identidade. Para além de isolar a mulher do mundo exterior, permitia-lha também alguma liberdade, já que não sendo identificável podia movimentar-se livremente oculta dos olhos castradores da moralidade alheia.

O que são a Côca, o Biuco e o Capelo?

Estes três trajes femininos possuem pequenas variações, ou particulares alterações regionais, no entanto, a sua forma elementar baseava-se numa mantilha, com ou sem véu, amplamente distribuída, de norte ao sul do país, e que teve a generalizada denominação de biôco (ou biuco no Sul e rebuço no Norte).

Genericamente compõe-se de uma capa, mais amplas e compridas nos Açores e Algarve que no Alentejo, em cuja cabeça era coberta de forma a impedir que se visse a cara da sua utilizadora. É a forma como a cabeça é coberta que distingue os três trajes.


Côca –Alto Alentejo

As côcas terão sido um traje de noiva na nossa região, na segunda metade do século XIX. A tradição oral também afirma que a dimensão e colocação do véu tinha três posições distintas, consoante a classe a que pertencia a nubente.
Mas, como traje de noiva acabou por cair rapidamente em desuso enquanto tal, passando a ser fundamentalmente moda nas mulheres aristocratas ou da alta burguesia de todas as idades, quando estas saíam à rua para assistir a actos religiosos ou nas visitas, tão habituais nestas classes sociais entre finais do século XIX e princípios do XX.
Usavam uns biôcos, pegados a uma espécie de capa curta e que eram cobertos, no alto, por uma renda larga, que caía pelas costas. Na frente o biôco era armado em papelão, ou tarlatana, para se manter aberto. Em alguns, a renda era colocada, como já disse, caindo do alto da cabeça sobre as costas, outros porém, era posta em sentido contrário, isto é, sobre a cara. Completava o trajo uma saia de merino.
José Leite de Vasconcellos, observa que este seria o «trajo clássico de se ir à festa do Sacramento, que durava de quinta-feira do Corpo de Deus até à segunda-feira seguinte». O célebre investigador apresenta uma testemunha ocular que, entre os anos de 1862 e 1866, terá visto as mulheres assim embiocadas, e explica que este processo só era possível mediante a utilização de «um papelão curvo que encobria a cabeça, como as mantilhas de Mondim, coberto de preto e com pano nas costas».

O biôco (ou biuco) – Algarve

Raul Brandão escreve a propósito do biuco no seu livro "Os Pescadores", em 1922:
" Ainda há pouco tempo todas (as mulheres de Olhão) usavam cloques e bioco. O capote, muito amplo e atirado com elegância sobre a cabeça, tornava-as impenetráveis.
É um trajo misterioso e atraente. Quando saem, de negro envoltas nos biocos, parecem fantasmas. Passam, olham-nos e não as vemos. Mas o lume do olhar, mais vivo no rebuço, tem outro realce... Desaparecem e deixam-nos cismáticos. Ao longe, no lajedo da rua ouve-se ainda o cloque-cloque do calçado - e já o fantasma se esvaiu, deixando-nos uma impressão de mistério e sonho. é uma mulher esplêndida que vai para uma aventura de amor? De quem são aqueles olhos que ferem lume?... Fitou-nos, sumiu-se, e ainda - perdida para sempre a figura -, ainda o som chama por nós baixinho, muito ao longe-cloque..."
Trata-se de uma capa que cobre inteiramente quem a usava. A cabeça era oculta pelo próprio cabeção ou por um rebuço feito por qualquer xaile, lenço ou mantilha. As mulheres embiocadas pareciam “ursos com cabeça de elefante”
Oficialmente a sua extinção ocorreu em 1882 e por ordem de Júlio Lourenço Pinto, então Governador Civil do Algarve, foi proibido nas ruas e templos, embora continuasse a ser usado em Olhão até aos anos 30 do século XX em que foram vistos os últimos biocos.

O Capelo – Açores

À semelhança de outras regiões também a mulher açoriana usava agasalho capotes com capelo, diferindo o seu feitio de ilha para ilha.
Leite de Vasconcelos visitou os Açores no Verão de 1924 e testemunhou o uso de mantos e capotes pelas mulheres da ilha Terceira e do Faial. Com efeito até meados do século XX era frequente encontrar nos meios citadinos mulheres envoltas no seu capote preto e capelo armado.
Convém distinguir o manto do capote, o primeiro é uma saia comprida e rodada de cor preta, o segundo, afigura-se como uma capa muito ampla, mais farta lateralmente que nas costas.
No caso da utilização do manto, o capelo era armado com cartão e atado pela cintura, a mulher segurava-o com as mãos de modo a encobrir o rosto. Com o capote, o capelo era utilizado sobre os ombros. Neste caso, estamos perante um amplo capuz suportado por um arco de osso de baleia, sendo a sua rigidez conferida pelo forro de cânhamo.

Estamos assim perante três trajes, que para além da sua função de abafo, remete o papel da mulher para a total exclusão da sociedade, uma vez que, completamente coberta jamais alguém descobriria a sua identidade.

Dos três trajes apenas o dos Açores é ainda hoje identificado pelo público em geral, já que se tornou num símbolo dessa região e é amplamente divulgado pelos ranchos folclóricos. Quanto aos restantes, correm o risco de caírem no esquecimento e no ostracismo, já que não sendo bonitos ou ricos, não são mostrados pelos grupos das suas regiões de origem.

Bibliografia:
PITA, António, Côca ou Mantilha - Século XIX - Uma Traje de Festa e de Solenidade do Alto Alentejo – Câmara Municipal de Castelo de Vide, Secção de Arqueologia, Maio1999

Braz Teixeira, Madalena, Trajes Míticos da Cultura Regional Portuguesa, 1994, Museu Nacional do Traje.

Ormonde, Helena, in O Traje do Litoral Português, Museu Etnográfico e Arqueológico Dr. Joaquim Manso, Câmara Municipal da Nazaré

quinta-feira, dezembro 20, 2007

O NATAL NO ALGARVE

O Natal tem muitas tradições em Portugal. Muitas delas foram introduzidas a partir do sec. XIX, outras têm origens mais remotas. Em contraponto, ao Pai Natal, a tradição portuguesa está intimamente relacionado com o Presépio e o Culto ao Menino Jesus. Existem em diversas regiões, reminiscências de tradições anteriores ao presépio criado por S. Francisco de Assis. A tradição do presépio medieval em escadaria e com o Menino no trono, típica do Algarve, mas que também se pode encontrar na Ilha da Madeira, a chamada lapinha, construída com três ou mais passadas (degraus) e ornamentada com frutas e searinhas. Nos Açores, o presépio com o Menino em pé denomina-se altarinho, com searinhas a ornamentá-lo e, nas paredes da sala, ramos de laranjeira com laranjas. Mas também pode ser encontrado no Brasil e em quase todas as nações da América Central e do Sul.
De seguida, descrevo a tradição algarvia com base na obra do Pe. José da Cunha Duarte, Natal no Algarve: raízes medievais.
No século XIX, no barrocal algarvio, nove dias antes do Natal, preparava-se a casa para armar o presépio ou armar o Menino,
Revestia-se uma cómoda com uma toalha branca e com larga renda pendente. Em cima, colocava-se um pequeno trono em escadaria, que imitava o altar-mor da igreja. À medida que se elevava, os degraus eram mais estreitos. Outras vezes, colocavam-se as medidas de cereal, em escadaria, para se formar o trono. Este era coberto com um lençol ou toalhas de linho, com uma dobra de lençol de lindas rendas, com panos bordados pela dona da casa ou pelas filhas solteiras, onde abundavam motivos de cor azul e encarnada.
Construído o trono, começava-se por ornar o Menino. As searinhas, germinadas dentro de chávenas ou pires pequenos, eram colocadas, no trono, com arte.
O trono era ladeado de jarras com verdura, onde sobressaía a murta, o loureiro, o alecrim, a aroeira e a nespereira. Nas paredes da sala, onde estava armado o Menino, colocavam-se também ramos de laranjeira, com laranjas, de loureiro ou ainda de nespereira. Outras famílias faziam um arco de verdura, à frente do trono.
Finalmente, colocava-se o Menino. O vestidinho fora já cuidadosamente lavado e passado a ferro. Outras vezes, vestia-se o Menino de novo. Este era o encanto das crianças, que não se cansavam de olhar para Ele, apesar do seu aspecto não invocar grande piedade, pois fora feito por um vulgar artesão. A mãe preparava uma lamparina (copo com azeite e pavio com fios de linho) e colocava-a em cima de um pratinho, à frente do Menino.
Uma característica, muito peculiar do Barrocal, é ornamentar o trono com laranjas. Ao lado do presépio colocam-se também cachos de laranjas dependurados na parede. Na zona marítima de Olhão, nas primeiras décadas do século XX, as searinhas estavam dentro das latas de conserva de sardinha.
A presença das searinhas no presépio é compreendida pelo povo como uma bênção. São colocadas para o Menino “as abençoar” e para “dar muito pão às sementeiras”. Depois das festas, havia também o costume de colocar as searinhas no campo para crescerem porque estavam abençoadas. Mais tarde, o trigo recolhido era para mezinhas caseiras.
As imagens do Menino Jesus devem-se essencialmente aos pinta-santos ou faz-santos algarvios que surgiram no século XIX. Estes procuraram reproduzir as imagens dos imaginários, sobretudo o Menino Jesus e Jesus crucificado que, no Algarve, se chama Pai do Céu. A maioria das famílias algarvias, da zona do Barrocal e da Serra, no Sotavento, tinham em casa uma destas imagens. Era costume os pais oferecerem aos filhos, como prenda de casamento, a imagem do Menino Jesus e/ou do Pai do Céu, para ser colocada na casa de fora do novo lar. Na orla marítima, encontra-se a mesma tradição, sobretudo nos concelhos de Castro Marim e Tavira.

sexta-feira, novembro 02, 2007

A mulher em casa – Algarve

O núcleo familiar é muito estimado em Portugal. No início do sec.XX era comum a coabitação dos jovens casais com pais ou sogros e quando não era possível, construía-se uma casa ao lado e o núcleo familiar permanecia unido. A mulher é rainha em sua casa.
No também no Algarve a mulher desempenha um importante papel na gestão da económica familiar.
Nos momentos de prosperidade gostava de mostrar o ouro, no entanto, estes geralmente não eram duradouros e a mulher recorria ao ourives ou ao estabelecimento de penhores.
A mulher algarvia vestia cores garridas, mas quando o homem estava ausente imperava o negro.
No interior da casa e nas lides do dia-a-dia, a mulher usa lenço de cabeça, de tecido de algodão estampado, que aperta na frente.
A blusa é de tecido de algodão em tons de azul. Corte simples, aberta na frente e mangas compridas com punhos.
Saia em tecido de algodão azul formando riscas, a extremidade inferior possui um folho do mesmo tecido.
O avental é de tecido de algodão azul estampado em tons policromados, formando motivos florais, possuindo na extremidade inferior nervuras e folho do mesmo tecido.
Calça sapatos de carneira ou tamancos de madeira com a parte superior em cabedal.
Bibliografia recomendada: Orla Marítima, Traje do Algarve - Museu Nacional do Traje
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segunda-feira, setembro 24, 2007

Mulher da Fábrica de Conservas – Algarve


No final do sec.XIX surgem no Algarve as primeiras fábricas de conservas de peixe. A primeira surgiu em Vila Real de Santo António em 1879 pelas mãos de um italiano de nome A.Parodi. Quase de imediato, começaram a surgir pequenas fábricas conserveiras, atingindo, em 1945, 246 unidades.
As mulheres constituíam a principal mão-de-obra desta indústria, trabalhando em condições deploráveis.
A sirene da fábrica era o sinal mais esperado. O seu toque anunciava a chegada de peixe fresco e, consequentemente, a possibilidade de trabalho durante algumas horas. Nessa altura, uma turba de mulheres corria para a fábrica, na esperança de serem as primeiras e as escolhidas para trabalhar.
Inicialmente, não existiam condições de higiene e esta reflectia-se na indumentária das operárias, no entanto, com a evolução dos tempos foram sendo introduzidas algumas normas, nomeadamente, a obrigatoriedade do uso de vestuário de cores claras, lenços na cabeça e aventais de cor branca.
A operária da fábrica de conservas usava um lenço de cabeça de algodão branco, estampado com motivos florais. Bata de trabalho, também em algodão de cor clara, de corte simples e sem gola. Aberta na frente e de manga comprida, com punhos. Saia de algodão de cor escura, com aplicações do mesmo tecido. Avental com peitilho de linho branco, comprido, cobrindo quase totalmente a saia, possui um bolso estampado no lado direito. Calça tamancos de madeira com a parte superior em cabedal.
Referencia Bibliográfica: Andrade Sancho, Emanuel in Traje do Algarve – Orla Marítima, Museu Nacional do Traje, 2001
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terça-feira, julho 31, 2007

Apanhador de Medronho – Algarve

Uma das bebidas mais populares e apreciadas do Algarve é sem dúvida a aguardente de medronho.
O trajo de trabalho do homem algarvio era geralmente sempre o mesmo, sofrendo pequenas alterações com a introdução de algumas peças ou acessórios específicos para o desempenho de determinada actividade.
É o que sucede com o trajo do apanhador de medronho, já que, ao vestir um par de ceroulas sobre as calças de cotim, procura protege-las das nódoas causadas pelos frutos maduros. Estas manchas eram difíceis de retirar dos tecidos de cor, mas facilmente eliminados do tecido branco, após sucessivas barrelas e coras.
Este trajo era composto por uma camisa de riscado, com cós e peitilho. “Gribalda” de riscado preto e branco com cós, espelho e frente franzida, abotoada e com as pontas atadas sobre a cintura. No peito, do lado direito, uma algibeira com pala e botão, onde guarda o tabaco. As calças eram de cotim azul, sobrepostas por ceroulas de pano cru, ajustadas nos tornozelos com fita de nastro. Na cabeça, chapéu preto de aba larga e copa redonda. Calça botas de atanado. Na mão, segura um cesto de cana com asa a tiracolo.

Referência Bibliográfica: O Trajo Regional em Portugal, Tomaz Ribas, Difel, 2004


Site recomendado: São Bartolomeu de Messines

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quinta-feira, novembro 02, 2006

As Salineiras do Algarve


O Algarve possui condições naturais óptimas para a produção de sal. Esta actividade tem raízes longínquas e ainda hoje possui grande importância para a economia da região.
Actualmente a produção de sal é quase totalmente mecanizada, no entanto, não podemos esquecer aqueles que trabalhavam arduamente nas salinas.
As salineiras que nos meses de Verão transportavam à cabeça o sal que os homens juntavam nos corredores das salinas.
O carrego do sal à cabeça, em grandes alcofas de esparto, era feito quase sempre em condições penosas de trabalho intensivo.
O sol intenso do Verão, o sal que corroe a pele e ainda os níveis intensos de claridade que caracterizam as salinas, contribuíram para a indumentária característica da salineira.
Do sal que queimava a pele as mulheres defendiam-se usando um lenço em forma rebuço que lhes libertava apenas o olhar, por vezes utilizavam um velho chapéu para aumentar a protecção da cabeça. Embora andassem descalças, protegiam as pernas com perneiras de lã ou tecido espesso. As saias eram forçosamente atadas acima do joelho por um cordel para facilitar a subida dos íngremes declives das salinas. Nas mãos usavam velhas peúgas de lã que faziam as vezes das luvas que não tinham.
Assunto relacionado neste blog: O biuco do algarve

quinta-feira, julho 31, 2014

Chapéus de Homem – Alentejo e Algarve

Em 1947 Jorge Dias é convidado para coordenar o sector de Etnografia do Centro de Estudos de Etnologia Peninsular (CEEP), chamando de imediato um conjunto de investigadores da sua confiança para com ele trabalhar nesse Centro – Margot Dias, Fernando Galhano, Ernesto Veiga de Oliveira e Benjamim Pereira. Estes investigadores estariam também na origem e desenvolvimento, alguns anos mais tarde, do projeto do Museu de Etnologia (atualmente Museu Nacional de Etnologia).

Do acervo que o Museu Nacional de Etnologia possui na categoria "Vestuário e Adereços", destacam-se alguns chapéus de homem das regiões do Alentejo e Algarve, recolhidos nos concelhos de Estremoz, Borba, Cuba, Serpa e Loulé.
 
Fig.1
Denominação: Chapéu de Homem (Fig.1)
Datação: XIX d.C. - XX d.C.
Matéria: Feltro (fibra animal); Gorgorão (algodão); Pergamoide; Tecido; Plástico; Papel
Dimensões (cm): altura: 9; largura: 31; diâmetro: 34;

Descrição: Chapéu em feltro de cor preta.
Apresenta uma copa de secção transversal oval, de formato cilíndrico.
A base da copa é adornada com uma fita de gorgorão de algodão de cor preta, cujas pontas se unem, lateralmente, através de três pequenos botões forrados a gorgorão de cor preta, dispostos na diagonal.
As abas são um pouco reviradas para cima.
A sua orla é debruada por uma fina fita de gorgorão.
Interiormente, a zona de passagem das abas para a copa apresenta uma aplicação de pergamoide de cor preta, com a seguinte inscrição a dourado: "ABREU / CUBA". Apresenta também uma etiqueta de cor branca, colada, escrita a esferográfica: "8 a n(?) x / e 7% / 9011".
A copa é forrada a tecido de cor branca.
No topo, o tecido é estampado com um logótipo de cor azul e vermelha que refere: "FÁBRICA DE CHAPÉUS / Globo / SS & DLda / S. JOÃO DA MADEIRA / ABREU / CUBA". Nesta zona, o tecido é plastificado.
Entre o tecido de cor branca e o pergamoide surge uma pequena etiqueta em papel de cor verde com o número "57".
Proveniência: Beja / Cuba

Fig.2

Denominação: Chapéu de Homem (Fig.2)
Datação: XIX d.C. - XX d.C.
Matéria: Feltro (fibra animal); Gorgorão (algodão); Pergamoide
Dimensões (cm): altura: 10; largura: 25; comprimento: 29;

Descrição: Chapéu em feltro de cor preta.
Apresenta uma copa cónica, de topo côncavo.
A passagem da copa para as abas é adornada por uma fita de gorgorão de cor preta que, lateralmente, forma uma laçada.
A orla das abas é também debruada por uma fina fita do mesmo material. Interiormente, a zona de passagem da copa para as abas apresenta uma aplicação, para dentro da copa, de uma fita de pergamoide de cor preta gravada com a seguinte inscrição: "JOAQUIM DA SILVA / FAZENDAS E CHAPÉUS / ALTE".
Proveniência: Recolha atribuída a José Cavaco Vieira, na freguesia de Alte, concelho de Loulé.

Fig.3

Denominação: Chapéu de Homem (Fig.3)
Datação: XIX d.C. - XX d.C.
Matéria: Feltro (fibra animal); Gorgorão (algodão); Pergamoide; Tecido; Plástico
Dimensões (cm): altura: 10; largura: 26; comprimento: 29;

Descrição: Chapéu em feltro de cor preta.
Apresenta uma copa cónica, de topo arredondado.
A passagem da copa para as abas é adornada por uma fita de gorgorão de cor preta que, lateralmente, forma uma laçada.
A orla das abas é ligeiramente revirada para fora. É também debruada por uma fina fita do mesmo material.
Interiormente, a zona de passagem da copa para as abas apresenta uma aplicação, para dentro da copa, de uma fita de pergamoide de cor castanha gravada com a seguinte inscrição: "FRANCISCO MANUEL RAMOS, Jor / SERPA". No lado oposto desta inscrição surge o nome "RITA" escrito a esferográfica.
O interior da copa é forrado a tecido de cor branca. No topo surge a seguinte inscrição: "COMERCIAL / FRANCISCO MANUEL RAMOS, Jor / SERPA", com um logótipo de uma figura feminina caminhando sobre um globo. Nesta zona o tecido é plastificado.
Proveniência: Beja / Serpa
 
Fig.4
Denominação: Chapéu de Homem (Fig.4)
Datação: XIX d.C. - XX d.C.
Matéria: Feltro (fibra animal); Gorgorão (algodão); Pergamoide
 Dimensões (cm): altura: 10; largura: 31; comprimento: 34;

Descrição: Chapéu em feltro de cor preta.
Apresenta uma copa cónica, de topo convexo. A passagem da copa para as abas é adornada por uma fita de gorgorão de cor preta que, lateralmente, forma uma laçada.
As abas são reviradas para cima. A sua orla é também debruada por uma fina fita do mesmo material.
Interiormente, a zona de passagem da copa para as abas apresenta vestígios de uma aplicação de uma fita de pergamoide de cor castanha.
Proveniência: Beja / Serpa


Fig.5
Denominação: Chapéu de Homem (Fig.5)
Datação: XIX d.C. - XX d.C.
Matéria: Feltro (fibra animal); Gorgorão (algodão); Pergamoide
Dimensões (cm): altura: 8; largura: 40; comprimento: 44;

Descrição: Chapéu em feltro de cor preta.
Apresenta uma copa cónica, de topo côncavo. A passagem da copa para as abas é adornada por uma fita de gorgorão de cor preta que, lateralmente, forma uma espécie de laçada.
As abas são reviradas para cima. A sua orla é também debruada por uma fina fita do mesmo material. Interiormente, a zona de passagem da copa para as abas apresenta a aplicação de uma fita de pergamoide de cor castanha.
Proveniência: Évora / Borba


Fig.6
Denominação: Chapéu de Homem (Fig.6)
Datação: XIX d.C. - XX d.C.
Matéria: Feltro (fibra animal); Gorgorão (algodão); Tecido (lã)
Dimensões (cm): altura: 20; diâmetro: 35;

Descrição: Chapéu em forma de calote, em feltro de cor preta.
A meio da altura apresenta a aplicação transversal de uma fita em gorgorão de algodão de cor preta que forma uma laçada lateralmente. Esta fita é também percorrida por uma fita mais fina, elástica, de cor preta. 
A orla do chapéu é também percorrida por uma fina aplicação de gorgorão. Interiormente, o chapéu tem aplicado duas fitas em tecido de lã de tom esverdeado, que caem livremente, e que atam o chapéu à volta do pescoço.
Proveniência: Estremoz / Orada
 
Fontes:
Museu Nacional de Etnologia
www.matriznet.imc-ip.pt
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sexta-feira, julho 25, 2014

Socos Femininos do Algarve


Estes socos fazem parte de um conjunto de objetos que o Museu Nacional de Etnologia possui no seu acervo da região do Algarve, recolhidos, de uma forma geral, a José Cavaco Vieira, na freguesia de Alte, concelho de Loulé.


Par de Socos com rasto em madeira, constituído por salto, enfranque e pata.
O salto é largo, assim como o enfranque, que apresenta uma descontinuidade com a pata.
A parte de cima dos socos é feita separadamente.
A base é de couro de cor castanha. Na zona da palmilha, o couro estende-se um pouco para os lados. É depois virado para fora e pregado, de espaço a espaço, ao rasto.
As gáspeas são em tecido de lã de cor cinzenta, fechado no calcanhar. Apresentam um quadriculado de cor branca, verde e azul. À frente, apresenta a aplicação de um retângulo de pele de animal, com pelo de cor castanha.
Datação: XIX d.C. - XX d.C.
Material: Tecido (lã); Fibras animais; Madeira; Couro; Metal (ferro)
Dimensões (cm): altura: 11; largura: 9; comprimento: 25;

Fontes:
Museu Nacional de Etnologia

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segunda-feira, abril 05, 2010

Mulheres de Capote e Lenço – Algarve


Esta gravura representa as mulheres do Algarve no final do sec. XVIII, quanto se cobriam em público conforme ditavam o cânones da época. Esta tradição ainda existia em algumas localidades na primeira metade do sec.XX, como pode ler em Côca, Biuco e Capelo.

sábado, agosto 08, 2009

O Homem da Taberna - Algarve

A taberna, em qualquer região de Portugal, constituía (direi antes, constitui, já que ainda existem algumas) o centro social por excelência de uma localidade. Trata-se de um lugar exclusivamente masculino, onde, entre umas rodadas de vinho ou aguardente, se jogava às cartas, ao dominó, á moeda. Está claro, em lugar de jogos de azar, com bebida á mistura, as desavenças eram frequentes. Mas na taberna também se sabe das novidades, se contrata trabalho, fala-se dos namoros, de futebol e de politica.
A grande perturbação familiar surgia quando o homem começava a ser frequentador habitual da taberna descurando a família. Não raras vezes, a mulher entrava na taberna e arrastava o marido para casa, era a suprema humilhação, que nem sempre servia de lição.
Os 3 trajes que vos apresento, são exemplos de trajos quotidianos de inverno do homem algarvio da primeira metade do sec.XX, provavelmente pescadores de mar alto, ou em época de defeso, operários, etc., gente simples … gente de trabalho.

Boné de tecido de lã preta. Casaco de tecido de lã grossa estampado de xadrez em tons de castanho e verde, aberto na frente e com manga comprida. Camisa de flanela formando xadrez em tons de vermelho de manga comprida, colarinho chanfrado, aberta na frente, aplicação de bolso sobre o peito do lado esquerdo.
Calças de fazenda de lã cinzenta e preta. Lenço tabaqueiro. Botas em pele de carneira.

Boina castanha. Camisa de tecido de lã formando xadrez policromado de manga comprida, aberta na frente, com aplicação de bolso com pala sobre o lado esquerdo. Colete de fazenda de lã cinzenta, interior guarnecido com lã de ovelha, aberto na frente e aplicação de três bolsos. Capote com gola de pelo. Calças de tecido de algodão em tons de preto e branco. Lenço tabaqueiro. Tamancos de madeira e cabedal castanho.

Boina em tons de castanho. Camisa de tecido de algodão em tons de azul e branco em xadrez, colarinho chanfrado, aberta na frente, manga comprida, com aplicação de bolsos com pala. Colete de soriano castanho, aberto na frente, com dois bolsos. Calças em fazenda de lã grossa. Samarra cinzenta com gola de pêlo de carneiro. Botas de carneira.

Fonte bibliográfica: “Orla Marítima – Traje do Algarve”, Museu Nacional do Traje

sexta-feira, agosto 17, 2007

Trajo de trabalhadores Serrenhos - Algarve


A designação “serrenho” é dada aos homens e mulheres da Serra do Caldeirão e que partiam à procura de trabalho sazonal nas terras do Barrocal.
O homem veste gabão de corte direito, em tecido de lã (soriano), com capuz e sem mangas, cobrindo o corpo até aos joelhos. Camisa de riscado com cós, peitilho e presilhas. Calças de serrubeco, ajustadas na cintura com cinta preta de lã. Na cabeça, barrete preto de lã com borla e carapinha da mesma cor. Lenço tabaqueiro atado ao pescoço. Calça botas de carneira ensebadas. Suspende ao ombro a balsa com tampa, uma espécie de bolsa maleável com tampa para o transporte de alimentos, feita de palma entrelaçada.
O gabão era talhado em tecido caseiro pisado, sendo uma peça de agasalho na estação fria.

A mulher veste gabão de soriano, com capuz e sem manga, descendo até às ancas. Bata de talhe idêntico ao da camisa, mais curta, abotoada na frente com botões de osso. Saia comprida de estemenha, tecido misto de lã e linho, protegida por avental de riscado guarnecido com folho. Na cabeça, lenço de algodão branco estampado com pequenos motivos florais a preto, atado sob o queixo.

Nestes trajes salienta-se o uso de tecidos provenientes das tecelagens caseiras da serra algarvia, como o soriano e a estemenha. A qualidade e resistência destes tecidos tornava-os preferidos para a confecção de agasalhos, quer no trabalho do campo como da beira-mar, como na apanha do marisco e da morraça. A cor escura ajudava a ocultar ou disfarçar a sujidade e o desgaste.

Fonte: O Trajo Regional em Portugal, Tomaz Ribas, Difel, 2004
Site recomendado:
Câmara Municipal de São Brás de Alportel

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segunda-feira, julho 30, 2007

Cabreiro – Algarve

O traje do cabreiro não difere do trajo do trabalhador rural, apenas nos acessórios específicos para a actividade a que se dedica.
Consigo traz tudo o que necessita para o seu dia atrás do rebanho de cabras.
A “balsa” de esparto para a merenda, a cabaça para a água, o “cucharro” de cortiça para beber, o cajado para se apoiar, a funda para atirar pedra.
Nestas longas e lentas caminhadas pelos campos a flauta é a sua companheira.
Veste camisa de riscado, fechada na frente por botões de osso, sobre a qual usa um colete de cotim. Sobre estas duas peças uma outra camisa de riscado azul e branco, atado à frente, ao nível da cintura, com um nó, sendo guarnecida com um bolso no peito, onde guarda o tabaco. Calças de cotim idêntico ao colete, protegidas por safões de pele de carneiro, ajustados na cintura e na parte interior das pernas, com presilhas e botões. Reforçando a protecção das pernas usa polainas de couro, fechadas com presilhas. Calça botas de carneira.
Na cabeça usa chapéu de feltro de aba larga e ao pescoço traz um lenço tabaqueiro para limpar o rosto do suor.

Referência Bibliográfica: O Trajo Regional em Portugal, Tomaz Ribas, Difel, 2004
Site recomendado: São Bartolomeu de Messines
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quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Morraceiro – Algarve

A recolha da morraça era um recurso de sobrevivência muito comum no litoral algarvio.
A morraça é uma variedade de alga abundante nessa zona costeira e era utilizado como adubo das terras e na alimentação dos animais.
Funcionava como uma actividade subsidiária, sobretudo nos períodos de defeso em que a actividade pesqueira não podia ser exercida, para complementar o rendimento familiar que muitas vezes era minguado. A apanha da morraça era um trabalho essencialmente masculino. De forquilha em riste, o homem recolhia as algas que as ondas lhes lançava aos pés. Após ser recolhida nas ilhas do Sotavento, a morraça era transportada em barcos e, a partir das localidades costeiras, distribuída ao lombo de animais ou em carroças por todo o Algarve.

O homem do mar veste alça de fazenda grossa, de surrobeco cinzento, arregaçadas até aos joelhos, que eram apertadas na cintura com um cordel de sisal entrançado.
As ceroulas, ou calcetas, de tecido de lã azul claro, formando xadrez, chegando à altura da canela.
Anda sempre descalço, no rigor do Inverno usa tairocas de sola de madeira ou tamancos com presilhas de cabedal e meias de lã.
Na cabeça usa o barrete redondo com uma pequena borla, muitas vezes feito com os restos de lã de várias cores. Posteriormente começou a usar o boné de pano grosso, com pala nas orelhas e que aperta debaixo do queixo.
A camisa é de flanela de xadrez de cores garridas, de colarinho chanfrado e mangas compridas.
Para proteger do frio usavam um Gabão de tecido de soriano com capuz, aberto na frente, com mangas compridas, atado com um cordel à cintura.

segunda-feira, junho 08, 2015

BLUSAS DOMINGUEIRAS DA NAZARÉ


As duas blusas que apresento são provenientes da Nazaré e foram executadas no final da década de 40 do sec.XX, para serem utilizadas por uma criança, fazendo parte da minha coleção.

Datação: Séc. XX
Matéria: Algodão (chita), plástico (botões), viscose/poliéster (renda)
Técnica: Estampagem
Proveniência: Oferta da utilizadora

 



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sexta-feira, dezembro 19, 2014

O Ouro Popular Português I

O território hoje ocupado por Portugal foi em tempos remotos bastante ricos em ouro, cobre e estanho, e chegou a constituir uma das maiores reservas auríferas da Europa, como referem Plínio e Estrabão.

Com o declínio do ouro no mediterrâneo, Fenícios e Tartessos (sec.VII a.c.) rumam é península ibérica, introduzindo técnicas de manufatura e influências artísticas, nomeadamente a filigrana. No entanto, a filigrana só surgirá na ourivesaria popular a partir do sec.XIX.  

Ricardo Severo, José Fortes e Rocha Peixoto estabelecem uma comparação entre os brincos e arrecadas saídos das oficinas do norte com as suas parentes da proto-história, com semelhanças não só na forma como na técnica e decoração, estabelecendo assim uma tradição historiográfica na ourivesaria popular portuguesa que chegaria aos nossos dias.

Com a produção semi-industrial, não mecanizada, mais acessível a uma nova camada da população, lavradores abastados e pequenos comerciantes e industriais, a produção de ourivesaria atingiu maior variedade e importância a partir da 2ª metade do sec.XIX.

O Ouro como Acessório Popular

Muito embora existam algumas diferenças pontuais, podemos dizer que a relação do povo com o ouro é idêntica em todo o país, havendo uma predominância da sua utilização na ourivesaria feminina.

No entanto, ouro não era só adquirido por gosto, mas também como aforro seguro para momentos de aflição, principalmente junto de ourives feirantes (vendiam exclusivamente em feiras) ou ambulantes (deslocavam-se de bicicleta de terra em terra apregoando o seu produto, oriundos sobretudo de Guimarães e Cantanhede).

Quanto ao uso de ouro pelas mulheres do povo podemos verificar a existência diferenças entre as várias regiões, quer de gosto como de quantidade.

Essas diferenças estão diretamente relacionadas com a capacidade económica da mulher, sendo o uso de ornamentos em ouro é mais ostentoso a norte que a sul e no litoral em relação ao interior.

Em primeiro lugar, verifica-se uma relação direta entre a fertilidade das terras e a produção de excedentes agrícolas geradores de riqueza monetária. Podemos efetuar uma comparação entre o Alto Minho Litoral (Viana) e o Alto Minho Interior (Castro Laboreiro), uma vez que, na região litoral a terra é mais fértil que nas áreas serranas temos excedentes de produção geradores de riqueza passível de investimento em ouro.

O vimaranense António da Costa Miranda (físico e cirurgião), no início do sec.XVII, dissertando sobre a extraordinária riqueza existente na sua comarca em taças de ouro e prata, explica que “A causa porque metem mais fazendas em taças, é porque a terra é muito apertada e não terem onde meter mais gados do que têm, nem haver herdades na terra em que se empreguem seus dinheiros”.

Com base nesta ideia, podemos compreender, por um lado, a existência de relatos no sec. XIX, sobre a profusão de ouro entre os lavradores e pequenos burgueses minhotos, e por outro, perceber que nas zonas serranas do Alto Minho, Trás-os-Montes ou Beira, com pouca terra fértil, o rendimento fosse canalizado para o gado caprino ou ovino pela abundância de pastagem, em detrimento do investimento em ouro.

Em segundo lugar, temos a questão da propriedade da terra. Ser proprietário da terra, quer a trabalhe ou não, é sinónimo de maior possibilidade de lucro, pois para os rendeiros o valor da terra significava um compromisso a satisfazer independentemente dos ganhos.

Em regiões em que predomina o sistema latifundiário, como no Alentejo, Ribatejo e Algarve, poucos eram os ganhos para o povo que trabalhava a terra. Aproveitava-se os rendimentos de uma campanha agrícola sazonal bem-sucedida (apanha da azeitona, cortiça, plantio do arroz, etc.), ou a venda de algum animal criado na economia doméstica, altura em que conseguia amealhar uma quantia mais elevada, para comprar uma peça de ouro.    

Podemos assim concluir que, relativamente às populações agrícolas o uso de ouro como adorno do traje, com maior ou menor ostentação, é o resultado da existência de excedentes passíveis da criação de riqueza e de possibilidades de investimento em algo mais útil para o povo, como terra ou gado.

No que se refere às populações do litoral a relação da mulher com o ouro é idêntica. Ele representa status social e sinónimo de fainas bem-sucedidas, sendo mostrado sobretudo em dias de festa, sendo muitas vezes empenhado no inverno, altura em que o mar não permitia a pesca. Assim, o ourives estava muito próximo do penhorista.
(Este artigo terá continuação nos próximos dias)

quarta-feira, dezembro 17, 2014

Mitificação e paisagem simbólica: o caso do Estado Novo

Por Joaquim Sampaio

Resumo
A paisagem resulta de um processo complexo de forças onde se reconfiguram elementos visíveis mais ou menos imediatos, aos quais se associam construções simbólicas que intervêm na sua estrutura, permitindo compreendê-la com outra profundidade. No caso do Estado Novo, o papel de António Ferro, à frente do SPN/SNI, foi determinante para a construção de representações territoriais a partir de políticas folcloristas baseadas em ideais românticos e nacionalistas construídos desde finais do século XIX, nomeadamente no conceito de Casa Portuguesa, que se refletiu em iniciativas como o Concurso da Aldeia Mais Portuguesa de Portugal, uma das realizações apoteóticas daquele estadista. A visão ruralista e folclorista do regime salazarista e de António Ferro cristalizou imagens de um Portugal atemporal de paisagens estetizadas e de camponeses transformados em jardineiros da paisagem.

Quatro décadas de governação do Estado Novo produziram marcas profundas na sociedade portuguesa e, consequentemente, na mitificação e construção de paisagens. Dessa governação, interessa-nos abordar, particularmente, o papel folclorista do Secretariado de Propaganda Nacional – SPN – criado em 1933, que viria a tomar a designação de Secretariado Nacional de Informação, Cultura Popular e Turismo – SNI – em 1945. À frente deste organismo esteve António Ferro, figura emblemática e incontornável da época, que em 1932 sugeriu a Salazar que criasse um organismo responsável pela propaganda do regime, capaz de promover a «Política do Espírito» (Ó, 1999), fomentando políticas culturais de acordo com os interesses ideológicos do governo. É neste sentido que iremos ver que António Ferro surge como doutrinador do regime durante os anos 30 e 40, deixando as suas impressões na geografia deste país.
Salazar manteve Portugal à margem da modernização, numa ruralidade que garantisse a serenidade social, assentando na trilogia Deus-Pátria-Família. O povo camponês continuava nas suas tradições seculares, longe da escolarização e do desenvolvimento económico, compondo as paisagens de sempre de Silva Porto ou de José Malhoa, mergulhado na sua religiosidade, na sua pobreza, sob protecção do ditador que prometia defendê-los da decadência, promover a decência, a moral pública e o puritanismo conservador, tornando Portugal num país de subservientes e de provincianos, como refere Fernando Pessoa em O Caso Mental Português, em 1932, onde nem as elites são suficientemente formadas, acusando uma ausência de atitude crítica. A completar o atavismo português, a população urbana também foi mantida longe das inovações estrangeiras, da forte industrialização e modernização que constituíram “os trinta gloriosos” em países como, por exemplo, a França.(...)

O projecto ideológico do Estado Novo apresentava um regime totalitário que assumiu a propaganda política para afirmar a «nova ordem», recorrendo à «essencialidade portuguesa», atemporal porque a assumiu como se existisse desde sempre, fazendo evidenciar valores e características culturais populares que «não colocassem dúvidas» quanto à sua origem de uma portugalidade geneticamente «comprovada», serenando os espíritos críticos e apaziguando dúvidas, procedendo «quer à revisão purificadora e autolegitimadora da memória histórica, quer à fabricação de um conceito integrador e unificador de “cultura portuguesa”, de raiz nacional-etnográfica», que passaria pela «reeducação» dos portugueses,garantindo «uma nação regenerada e reencontrada consigo própria, com a essência eterna e com o seu destino providencial» (Rosas, 2001).
Desse projecto fazia parte o que Fernando Rosas designa por «mito da ruralidade» (Idem), um Portugal tradicional cuja economia era essencialmente agrícola mas, mais do que isso, era um «estado de espírito», um estilo de vida que pretendia evidenciar as suas virtudes e se apresentava como a «verdadeira» identidade nacional, a força da «raça portuguesa», a nobreza do seu temperamento na sua vocação de país pobre mas honrado, vivendo numa mediocridade sem ambições, já que na dominação do Cardeal Cerejeira, forte aliado de Salazar, o contrário seria grande pecado. Daí que a propaganda do regime fizesse passar a ideia de um povo sereno, respeitador, alegre e feliz na harmonia dirigida por um paternalismo infantilizador.

As virtudes do «português» precisavam de ser valorizadas, recuperadas e revividas, às quais o aparelho do Estado procedeu a grande investimento. Dos vários organismos que tinham a missão de trabalhar essas virtudes, podem ser destacadas a Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho – FNAT – criada em 1935, a Legião Portuguesa, fundada no ano seguinte, e a Junta Central das Casas do Povo –JCCP–, cujos objectivos se orientavam para a doutrinação do povo, para a manipulação ideológica através do «bom gosto», da «cultura popular» e do «carácter do povo português», para encenações que resultavam numa cultura do espectáculo.

De todo o aparelho do Estado, o SPN/SNI surgiu como o organismo responsável pela estetização do país, pela criação de mitos, pela «invenção» de paisagens, resultado da ideologia do regime salazarista e do desenvolvimento e concretização de ideias de António Ferro, autor da «Política do Espírito» e da folclorização de Portugal, retomando conceitos que foram desenvolvidos desde finais do século XIX, relacionados com o romantismo e o nacionalismo, entre os quais o de casa portuguesa.

O SPN/SNI deu visibilidade a aldeias, monumentos, etnografias, criou postais ilustrados da vida portuguesa bucólica, pitoresca, sublime, criou imaginários de paisagens, eternizando-as, mitificando-as, purificando-as, tornando-as inocentes, fundando-as enquanto natureza e eternidade, dando-lhes uma clareza que não é a da explicação, mas a da constatação (cf. Barthes, 2007). (...)

A mitificação encontra-se associada à construção de paisagens simbólicas. Elas deixam de ser paisagens «anónimas» para surgirem com conotações, cheias de significados e significações2. (...)

·         1. O mito da Casa Portuguesa
Os processos de objectificação da cultura popular portuguesa constituíram um dos aspectos centrais do discurso nacionalista do Estado Novo, sobrelevando determinadas características, do que supostamente seria verdadeiramente português, genuíno, original, conduzindo ao «reaportuguesar» da cultura nacional, tendo como referência as fundações da nacionalidade. O tema em volta da casa portuguesa é um bom exemplo de como a paisagem é objecto de instrumenta

Há uma vasta investigação sobre a temática dos mitos. (...)
Desde finais do século XIX que se criou um movimento na defesa da existência de uma habitação popular portuguesa (França, 1990; Leal, 2000), do qual se destacou Raul Lino (1879-1974), que viria a ser o seu maior conceptualizador e divulgador, procurando a institucionalização da casa portuguesa.
(...)
Referindo com frequência o «bom gôsto», contrariando a «decadência do sentimento artístico», e o «péssimo gosto [de] usar cousas fingidas quando se não podem ter as verdadeiras» (Idem), para sustentar as ideias da casa portuguesa, A Nossa Casa identifica-se com o «encanto produzido por essas boas casas portuguesas de há meio século atrás», apresentando-se como «casitas sorridentes, sempre alegres na sua variada caiação», com a «lhaneza das suas portas largas e convidativas, a linha doce dos seus telhados de beira saliente com os cantos graciosamente revirados, o aspecto conciliador dos seus alpendres, as trepadeiras garridas respirando suficiência» e as suas «chaminés hospitaleiras e fartas» (Idem), defendendo o que é supostamente português, usando materiais de produção (industrial ou artesanal) portuguesa, em simbiose com a natureza e com as «nossas tradições» para não desarmonizarem «no meio da nossa paisagem».

A insistência do «bom gosto», omnipresente em toda a obra, rejeitava qualquer forma de construção estrangeirada, em alusões directas ou indirectas ao chalet e a outras formas de construção que se afastassem do receituário de casa portuguesa proposto pelo autor. Os «apontamentos», tanto de A nossa Casa como de Casas Portuguesas, foram escritos para educar os gostos dos portugueses, mas não os «simples», os pobres. Quando Raul Lino referia que «construir é educar», pensava em primeiro lugar nos arquitectos e nos que se encontravam associados à construção, mestres-de-obras, mas também à burguesia e às elites portuguesas.
A educação do «bom gosto» encontrava-se sempre associada à ornamentação, ao asseio, ao «temperamento romântico», à alegria, como se Portugal fosse um país onde não existisse miséria, casas populares decadentes, e onde não houvesse enorme variedade construtiva, desde as cabanas e palheiros a casas sem condições mínimas de habitabilidade.

A casa portuguesa, um conceito que perdurou durante décadas, foi posto em causa com a publicação dos dois primeiros volumes do Inquérito à Habitação Rural, em 1943, realizado pelos engenheiros do Instituto Superior de Agronomia, onde se mostrava que as condições de habitação não eram o «ninho» nem a «casa dos simples» de Raul Lino. Havia, antes, más construções por Portugal fora e condições de vida difíceis [as aldeias embora situadas numa] paisagem rica de tons verdes e frescura de água […] constituem conjuntos de aspecto pobre, senão miserável. […] Retalhados de caminhos de piso irregular, encharcados de águas […], atravancados de lenhas e estrumes – passeio de homens e animais e recreio de crianças sujas, piolhosas e assustadiças que precocemente saem do berço, a gatinhar, para acompanhar porcos e galinhas – estes aglomerados populacionais oferecem o espectáculo de quase todas as condições de que os homens se rodeavam em tempos primitivos.

A obra de Raul Lino, nomeadamente A Nossa Casa e, mais tarde, Casas Portuguesas, associada a um discurso harmonioso, tradicional, nacionalista e atemporal, interessou ao Estado Novo, pelo menos numa primeira fase fascizante, em que Salazar teve necessidade de encontrar discursos conciliadores de vários sectores da sociedade com o do seu regime totalitarista, sendo necessário lutar contra a «desnacionalização» e incentivando o «reaportuguesamento» tal como vimos anteriormente, coadunando-se perfeitamente com as políticas desenvolvidas pelo SPN/SNI, nomeadamente com a realização do concurso da Aldeia Mais Portuguesa de Portugal.

·         2. A Política folclorista do SPN/SNI
O regime salazarista procurou controlar os vários sectores da sociedade portuguesa através de um aparelho de Estado forte e com um discurso que reproduzia o modelo defendido pelo chefe do governo.
 
Tal como vimos, o SPN surgiu por sugestão de António Ferro a Salazar, constituindo-se como o organismo responsável pela transmissão da boa imagem do regime e de Portugal. O seu papel era, assim, propagandista, servindo-se da rádio, do cinema e da imprensa escrita para divulgar as suas ideias, mas as suas acções foram mais longe, promovendo exposições, encenando festas populares e cortejos, apostando num modelo estético ruralista e conservador, promovendo o «bom gosto» e a «Política do Espírito», desenvolvendo «desde a Beleza moral à Beleza plástica», controlando a política cultural do governo através da estrutura que António Ferro dirigia.
 
A criação do SPN estava directamente vocacionada para duas missões. Uma, de índole cultural, deveria promover as condições necessárias ao estudo dos usos e costumes de Portugal, mergulhando nas tradições do povo, preservando-as e divulgando-as. A segunda, claramente propagandística, assumindo um papel doutrinador, foi servir-se da cultura popular para educar o gosto dos portugueses segundo os valores estéticos do regime e para controlar as massas.
 
A doutrinação do SPN/SNI estava presente em muitos dos discursos de António Ferro e nas mensagens associadas à realização de espectáculos, exposições e outras iniciativas. Em 1933, afirmava este estadista: «convenceremos assim o povo, a pouco e pouco, de que pensamos nele, de que a sua felicidade e o seu bem-estar constituem uma das nossas maiores prioridades» (citado por Alves, 2007a).
 
A felicidade e o bem-estar do povo, sabemos hoje em que resultaram. As preocupações de Ferro traduziram-se mais numa política folclorista da cultura popular, encenando quadros da vida rural, ignorando e omitindo as condições de vida difíceis em que os camponeses vivam, cristalizando momentos fotográficos da estética da cultura portuguesa de acordo com a ideologia política do regime, tendo em vista transmitir uma imagem de nação pacífica, harmoniosa e com identidade própria. A doutrinação folclorista e ruralista do SPN/SNI divulgava paisagens campesinas bucólicas, rústicas e «puras», longe da modernização, fosse dos camiões da coca-cola, como vimos, ou de outros símbolos, mantendo os seus traços tradicionais e populares que ao olhar do citadino representavam o país verdadeiramente genuíno, exigindo a sua preservação e garante do que seria a identidade nacional.

Nota- A propósito de como a estrutura do Secretariado de Propaganda Nacional se complexificou com a sua passagem a Secretariado Nacional de Informação, Cultura Popular e Turismo, ver Paulo, 1994.
 
Tal como nas tendências culturais de finais do século XIX, o SPN/SNI associava a cultura popular a ruralidade, da qual, apesar de observada no presente, eram procuradas as suas origens, a sua «autenticidade», e, enquanto testemunho do passado, se tentava preservar antes que desaparecesse, celebrando-se as excelências das tradições populares (Leal, 2000). Contudo, tal como demonstra Vera Alves, apesar do trabalho dos investigadores e colaboradores do SPN/SNI, os estudos da cultura popular de matriz rural vão recuperar o conhecimento desenvolvido desde finais de Oitocentos até ao Estado Novo (Alves, 2007a), passando pelo Museu Etnográfico Português, criado em 1893, ou pelos trabalhos desenvolvidos por Rocha Peixoto, Leite de Vasconcelos, entre outros. É na «ingénua» moldura do barro, nas cantigas sem influências externas, nas tradições intactas e genuínas do povo, na sua pureza e alegria que o SPN/SNI procura encontrar o Portugal autêntico ao percorrer as recônditas aldeias de Portugal, com as suas paisagens rurais de «postais ilustrados» descritos nos Guias de Portugal publicados nos séculos XIX e XX.
 
Mas nem sempre as paisagens recônditas e genuinamente populares convinham àquele organismo. Os critérios para selecção de aldeias para o Concurso da Aldeia Mais Portuguesa de Portugal levantam muitas dúvidas, assim como a eleição de símbolos da arte popular para mostrar em Lisboa e noutras cidades do país ou do estrangeiro. No primeiro caso, por exemplo, as aldeias a concurso da província de Trás-os-Montes, Alturas do Barroso e Lamas de Olo, «teriam sido postas de parte devido às difíceis condições de acesso e a um “reconhecido primitivismo, que a nenhuma dava possibilidades de vitória (vitória que implicava sempre a recomendação feita a nacionais e estrangeiros de visitarem de futuro essa aldeia, como a mais portuguesa de Portugal)”» (Alves, 2007a). No segundo caso, a selecção era feita segundo critérios de impacte visual – como é o caso do efeito decorativo do galo de Barcelos, transformado num ícone da portugalidade – e pelo gosto estético de António Ferro e dos seus colaboradores, sendo rejeitados se considerados «desprovidos de qualidades estéticas» (Idem).

Nota: António Ferro deu visibilidade à visão bucólica e idílica dos Guias de Portugal, «um paiz cuja formosura, doçura de clima, e bonhomia dos seus habitantes, é digno de ser conhecido, e quiçá mais do que é, para que os estranhos o avaliem» (F. J. Almeida, 1880, Guia de Portugal. Lisboa: Typographia da Casa de Inglaterra. Citado por Pires, 2001).
A acção influenciadora do SPN/SNI reflectiu-se nos vários domínios da cultura popular portuguesa. Tendo como pressuposto a defesa da «tradição», controlava a arte popular. Na encomenda de peças para as várias iniciativas em várias cidades ou para o Museu de Arte Popular, eram rejeitadas peças que não fossem «genuinamente populares», quer porque apresentavam imagens «renovadas» quer porque a sua confecção recorria a produção não tradicional, nomeadamente a formas de «configuração industrializada» ou a «fantasias modernas», ou eram sugeridas modificações, como aconteceu na encomenda de um Tabuleiro de Tomar feita por Francisco Lage para o Museu de Arte Popular quando referia que «com esta decoração uniforme azul […], o tabuleiro resulta frio não sendo possível a sua valorização na sala a que estava destinado» (citado por Alves, 2007a).
 
O «genuinamente popular» gozou de estatuto especial e encontrou no SPN/SNI um trampolim para a visibilidade nacional e internacional, como é o caso dos tapetes de Arraiolos, que já antes tinham sido «objecto de uma intensa campanha organizada pela revista Terra Portuguesa que conduziu à revitalização de uma tradição que parecia encontrar-se então praticamente moribunda» (Leal, 2000). A reinvenção de tradições não se aplicou somente aos tapetes de Arraiolos mas também a outros casos que se enquadrassem na política folclorista de «bom gosto» do SPN/SNI.
 
Da acção deste organismo resultou a valorização de instrumentos de trabalho agrícola, da exploração do pormenor das peças, da miniaturização e do que deveria ser considerado «arte popular portuguesa». Como só lhe interessavam objectos de apreciável «beleza», capazes de cativarem os olhares dos visitantes das exposições e dos desfiles e de permitirem a construção de imagens associadas a paisagens idílicas e bucólicas, foram criados mitos que ainda hoje perduram, nomeadamente a visão romântica do mundo rural, quando na verdade existiam camponeses pobres, analfabetos e miseráveis que o Estado Novo quis esconder do mundo. A visão do «camponês esteta» e do camponês poeta (Alves, 2007a; 2007b), artista das maravilhas da arte popular portuguesa expostas no país e no estrangeiro, era um simulacro. Uma encenação conduzida por António Ferro e pelos seus colaboradores que determinavam os perfis dos actores e davam orientações precisas para os ensaios dos eventos e para a aquisição de peças de arte popular.
 
A estetização do camponês e do mundo rural levada a cabo pelo Estado Novo correspondia à imagem que António Ferro pretendia dar de Portugal através da sua «Política do Espírito» para que os visitantes das paisagens «genuínas» de Portugal pudessem apreciar uma ruralidade pacífica de agricultores transformados em jardineiros da paisagem. Essa ideia torna-se clara na propaganda veiculada pelas informações do SPN/SNI, nomeadamente pela Revista Panorama, Revista Portuguesa de Arte e Turismo, na qual aquele organismo publicava as ideias e imagens que o regime pretendia fazer passar para a opinião pública, em especial para a população urbana, sobretudo, para os estratos sociais mais elevados.
 
Essas imagens transportavam, como se sabe, uma forte carga sociopolítica, condicionando a forma como os visitantes viam as paisagens de Portugal, herdeiros de uma tradição oitocentista e de início do século XX. As paisagens descritas pelo regime correspondiam a um discurso que pode ser encontrado nos vários Guias de Portugal, de um país de belezas singulares que mereciam ser visitadas. Na apresentação de imagens turísticas de Portugal, publicadas na Cartilha da Terra Portuguesa, em 1950, António Ferro sublinha os seus «valores históricos paisagísticos e pitorescos» (citado por Pires, 2001):
Há muito que se fazia sentir a necessidade duma brochura prática, manejável, de algibeira, em que os turistas nacionais e estrangeiros se pudessem aperceber, rapidamente, do essencial da terra que visitam, entre dois comboios ou numa paragem curta de automóvel: os seus mais belos panoramas, monumentos principais, festas típicas, hotéis ou pousadas, as próprias especialidades culinárias. […] Consulte-se, portanto a «Cartilha da Terra Portuguesa» como se consulta um ficheiro que nos indica modestamente os dados essenciais do problema que desejamos tratar ou até as próprias fontes onde devemos beber. Seja como for, esta edição singela do Secretariado será, doravante, uma obra indispensável, de iniciação, para todos os devotos da nossa Pátria, o catecismo da sua Beleza.
 
O desfasamento entre o discurso oficial e a realidade era enorme. A «poesia dos simples» e do «camponês esteta» era desmoronada pelo campónio com os seus trajes andrajosos e caras de esfomeados. Ao contrário dos rasgados elogios às paisagens portuguesas e à arte popular portuguesa, como por exemplo à saia do trajo de Afife, que «é na verdade, uma saia de belíssimo efeito, onde se afirma um raro bom gosto aldeão!», ou sobre a indumentária de Santa Marta de Portuzelo, que é um «deslumbramento de coloração, uma verdadeira romaria de cores», e ao país folclorista de sardinheiras floridas nas janelas e nas soleiras das portas, num quadro romântico pintado por Raul Lino, aparecia o Portugal fora das actuações dos pauliteiros de Miranda no Albert Hall, longe das exposições e das comitivas que o percorriam, tal como Unamuno escrevia (citado por Alves, 2007a):
 
Vimos e oímos […] en Lisboa, en Braga, en Viana do Castelo, en Aveiro, coros populares de canto y baile, con típicos trajes comarcales, ricos de colorido y traza; coros con el cometido de mostrarnos la decretada alegría en el trabajo, el contento con el reparto de la pobreza; pero nada me habló más ni mejor que el no preparado concurso de pescadores humildes de la playa de Nazaret. Donde alguno se nos acercó a pedirnos una “esmolinha – una limosnita –, y como se la diéramos en calderilla española, nos dijo en castellano: “Muchas Gracias”.
 
O SPN/SNI não inventou o galo de Barcelos nem o tapete de Arraiolos mas soube aproveitá-los bem para as suas encenações e produções espectaculares de um Portugal de paisagens deslumbrantes.

·         3. A Aldeia Mais Portuguesa de Portugal
O Concurso da Aldeia Mais Portuguesa de Portugal, realizado em 1938, pretendia levar mais longe o poder de encenação do regime salazarista. As exposições nacionais e internacionais já não eram suficientes, era necessário viver a encenação na própria realidade, na própria paisagem, mostrando a identidade de Portugal, servindo de teatro às tradições populares. O evento foi notícia repetidamente, dando consagração absoluta a António Ferro e ao SPN/SNI.
 
 
Depois de um trabalho de selecção em cada província, entraram em competição doze povoações: Bucos e Vila Chã (Minho); Manhouce e Cambra (Beira Alta); Monsanto e Paúl (Beira Baixa); Azinhaga (Ribatejo); Almalaguez (Beira Litoral); Boassas (Douro Litoral); Nossa Senhora da Orada (Alto Alentejo); Peroguarda (Baixo Alentejo); e Alte (Algarve). As províncias de Trás-os-Montes e Estremadura ficaram de fora. Feita a selecção, em 18 de Setembro de 1938, um júri nacional começou a percorrer o país para visitar as aldeias concorrentes para eleger a «aldeia mais portuguesa». António Ferro presidia o júri constituído pela sua esposa – Fernanda de Castro –, pelo jornalista Gustavo Matos Sequeira, pelo musicólogo e folclorista Armando Leça, pelos etnógrafos Luís Chaves e Cardoso Marta e por Augusto Pinto. O júri era acompanhado por uma brigada fotográfica e cinematográfica e por repórteres nacionais e estrangeiros (Alves, 2007a). A campanha de «bom gosto» tinha chegado às aldeias portuguesas, agora transformadas em cenários-paisagem do que deveriam ser todas as aldeias, modelo estético que mudaria as paisagens de Portugal, e aí talvez o país ficasse um «jardim à beira-mar plantado».
 
 
Nas aldeias transformadas em cenários-paisagem, António Ferro e a sua comitiva poderiam apreciar a «arte do povo», essa «arte que pode considerar-se a linguagem espontânea, harmoniosa, das suas mãos», o que na realidade não correspondia à verdade, como se sabe, porque as encenações do SPN/SNI de espontâneo teriam muito pouco. Das aldeias visitadas, Monsanto foi aquela que parece ter impressionado mais os visitantes com a sua rusticidade e tipicidade, tornando-se, a partir de então, num símbolo da nacionalidade, tendo nascido mais um mito territorial que António Ferro anunciaria claramente em 1947: «mais uma terra maravilhosa, fisionomia desconhecida, ou quase desconhecida, dos portugueses que já a procuram e apontam, carinhosamente, no mapa do seu país, onde passou a existir uma luz mais» (citado por Alves, 2007a).
 
A ideia de percorrer o país e de mostrar a beleza das suas paisagens com o Concurso da Aldeia Mais Portuguesa de Portugal revela a visão propagandística de António Ferro pretender uma intenção turística, como se pode constatar no discurso que proferiu na gala da entrega do prémio Galo de Prata a Monsanto: (citado por Alves, 1997):
 
Monsanto ganhou o galardão porque traduziria uma realidade atemporal, preparada para receber os visitantes, encenando-se até ao pormenor, transformada num espectáculo de uma paisagem que ilustraria o melhor da raça portuguesa, sintetizando na sua graça a alegria e a cor deste povo esteta num quadro hiper-realista, já que todas as virtudes ali estariam representadas. Esta aldeia, nascida das rochas, enchia os olhos e a alma de turistas e de quem a visitava, como foi o caso de Cardoso Mata:
 
Os estereótipos estavam inventados: a noiva minhota, a tricana coimbrã, o galo de Barcelos, as filigranas, os pauliteiros de Miranda… e Monsanto, como a «aldeia mais portuguesa», modelo de tradição e bom gosto. Para além de reduzir o popular ao rural, segundo uma idealização estética do camponês transformado em jardineiro da paisagem, António Ferro pretendia «aportuguesar» as paisagens de Portugal, mesmo que isso significasse ignorar a realidade do país e as respectivas estruturas sociais.
 
 
A procura do «genuíno», a sobrevalorização do impacte visual dos objectos e a imagem atemporal da realidade fizeram do Concurso da Aldeia Mais Portuguesa de Portugal um dos pontos mais altos da política de estetização do regime, mesmo que a «maravilhosa intuição artística» do povo português resultasse de ensaios e encenações, como aconteceu em Monsanto.
 
Vejamos uma notícia de um jornal da época (citado por Alves, 2007a):
 
Logo a seguir começou o trabalho árduo, ininterrupto, aqui em Monsanto, para em tão pouco tempo se preparar tudo quanto era preciso, para um espectáculo de tamanha categoria. Estava em jogo o brio nacional pois que para o espectáculo estava convidado o Corpo Diplomático […].
Assim, depois de escolhidos os componentes dos diversos grupos e seus respetivos dirigentes, deu-se início aos trabalhos e arranjos de indumentária e pertences. […].
 
 
Sales Viana, perdendo noites sobre noites, teimando sempre, vai e volta a Monsanto, cuidando de tudo, não esquecendo dos mínimos pormenores, ralhando aqui, elogiando acolá, acarinhando os mais tímidos e entusiasmando os que às vezes, mostravam desânimo.
 
Afinal, a arte popular estava nas mãos dos artistas do SPN/SNI. Pintores, encenadores, etnógrafos e fotógrafos faziam parte da equipa de campanha estética e de educação do «bom gosto», como aconteceu, entre outros casos, na realização do Recinto das Aldeias da Exposição do Mundo Português, em 1940, onde mais uma vez foram criados simulacros a fazerem acreditar que as casas do mundo rural português seriam algumas das aguarelas de A Casa Portuguesa, de Raul Lino, e que os figurantes seriam a representação límpida dos camponeses, correspondendo às paisagens idílicas do Portugal rural habitadas por lindas meninas sorridentes, bem penteadas, de trajes festivos e cobertas de ouro ao peito a puxarem juntas de bois.
 
Exposição do Mundo Português, 1940
 
 

Conclusão
 
O discurso oficial do Estado Novo pretendia dar uma ideia de um país de «camponeses estetas», de um povo de poetas que vivia em paisagens rurais harmoniosas, cheias de graça que representavam o genuíno, o autêntico e tradicional da cultura portuguesa, confundindo-se com a própria identidade nacional. Contudo, esse conceito foi uma «invenção» de António Ferro e dos seus colaboradores, ao se servirem de ideais românticos e nacionalistas desenvolvidos desde finais do século XIX que o SPN/SNI soube aproveitar para concretizar a «Política do Espírito» e a doutrinação necessária ao regime salazarista, e os «camponeses estetas» não eram mais do que o resultado de uma política de estetização de camponeses e da construção idílica de paisagens de um Portugal rural de jardineiros da paisagem para consumo de turistas e visitantes.
 
Da política de estetização e de objectificação foram desenvolvidos mitos e representações de um Portugal que apresentava uma identidade nacional baseada na sua homogeneidade cultural, nas suas raízes cujas diferenças seriam cromáticas e não estruturais. Como afirma João Leal, «a diversidade não era apreendida enquanto tal, com todas as conflitualidades que transporta, mas antes uma variação cromática dentro do mesmo» (Leal, 2000).
 
António Ferro – e o SPN/SNI – foi responsável pela criação de mitos, de símbolos nacionais, de paisagens de galos de Barcelos e de aldeias tradicionais, mas o maior mito talvez tenha sido a construção de uma imagem bucólica, conservadora e fotográfica de um rural que, nalguns casos, parece continuar a fazer parte do imaginário português.

 
Fonte : CADERNOS CURSO DE DOUTORAMENTO EM GEOGRAFIA FLUP
Publicado em TRAJAR DO POVO EM PORTUGAL – 18.11.2014