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quinta-feira, julho 31, 2014

Chapéus de Homem – Alentejo e Algarve

Em 1947 Jorge Dias é convidado para coordenar o sector de Etnografia do Centro de Estudos de Etnologia Peninsular (CEEP), chamando de imediato um conjunto de investigadores da sua confiança para com ele trabalhar nesse Centro – Margot Dias, Fernando Galhano, Ernesto Veiga de Oliveira e Benjamim Pereira. Estes investigadores estariam também na origem e desenvolvimento, alguns anos mais tarde, do projeto do Museu de Etnologia (atualmente Museu Nacional de Etnologia).

Do acervo que o Museu Nacional de Etnologia possui na categoria "Vestuário e Adereços", destacam-se alguns chapéus de homem das regiões do Alentejo e Algarve, recolhidos nos concelhos de Estremoz, Borba, Cuba, Serpa e Loulé.
 
Fig.1
Denominação: Chapéu de Homem (Fig.1)
Datação: XIX d.C. - XX d.C.
Matéria: Feltro (fibra animal); Gorgorão (algodão); Pergamoide; Tecido; Plástico; Papel
Dimensões (cm): altura: 9; largura: 31; diâmetro: 34;

Descrição: Chapéu em feltro de cor preta.
Apresenta uma copa de secção transversal oval, de formato cilíndrico.
A base da copa é adornada com uma fita de gorgorão de algodão de cor preta, cujas pontas se unem, lateralmente, através de três pequenos botões forrados a gorgorão de cor preta, dispostos na diagonal.
As abas são um pouco reviradas para cima.
A sua orla é debruada por uma fina fita de gorgorão.
Interiormente, a zona de passagem das abas para a copa apresenta uma aplicação de pergamoide de cor preta, com a seguinte inscrição a dourado: "ABREU / CUBA". Apresenta também uma etiqueta de cor branca, colada, escrita a esferográfica: "8 a n(?) x / e 7% / 9011".
A copa é forrada a tecido de cor branca.
No topo, o tecido é estampado com um logótipo de cor azul e vermelha que refere: "FÁBRICA DE CHAPÉUS / Globo / SS & DLda / S. JOÃO DA MADEIRA / ABREU / CUBA". Nesta zona, o tecido é plastificado.
Entre o tecido de cor branca e o pergamoide surge uma pequena etiqueta em papel de cor verde com o número "57".
Proveniência: Beja / Cuba

Fig.2

Denominação: Chapéu de Homem (Fig.2)
Datação: XIX d.C. - XX d.C.
Matéria: Feltro (fibra animal); Gorgorão (algodão); Pergamoide
Dimensões (cm): altura: 10; largura: 25; comprimento: 29;

Descrição: Chapéu em feltro de cor preta.
Apresenta uma copa cónica, de topo côncavo.
A passagem da copa para as abas é adornada por uma fita de gorgorão de cor preta que, lateralmente, forma uma laçada.
A orla das abas é também debruada por uma fina fita do mesmo material. Interiormente, a zona de passagem da copa para as abas apresenta uma aplicação, para dentro da copa, de uma fita de pergamoide de cor preta gravada com a seguinte inscrição: "JOAQUIM DA SILVA / FAZENDAS E CHAPÉUS / ALTE".
Proveniência: Recolha atribuída a José Cavaco Vieira, na freguesia de Alte, concelho de Loulé.

Fig.3

Denominação: Chapéu de Homem (Fig.3)
Datação: XIX d.C. - XX d.C.
Matéria: Feltro (fibra animal); Gorgorão (algodão); Pergamoide; Tecido; Plástico
Dimensões (cm): altura: 10; largura: 26; comprimento: 29;

Descrição: Chapéu em feltro de cor preta.
Apresenta uma copa cónica, de topo arredondado.
A passagem da copa para as abas é adornada por uma fita de gorgorão de cor preta que, lateralmente, forma uma laçada.
A orla das abas é ligeiramente revirada para fora. É também debruada por uma fina fita do mesmo material.
Interiormente, a zona de passagem da copa para as abas apresenta uma aplicação, para dentro da copa, de uma fita de pergamoide de cor castanha gravada com a seguinte inscrição: "FRANCISCO MANUEL RAMOS, Jor / SERPA". No lado oposto desta inscrição surge o nome "RITA" escrito a esferográfica.
O interior da copa é forrado a tecido de cor branca. No topo surge a seguinte inscrição: "COMERCIAL / FRANCISCO MANUEL RAMOS, Jor / SERPA", com um logótipo de uma figura feminina caminhando sobre um globo. Nesta zona o tecido é plastificado.
Proveniência: Beja / Serpa
 
Fig.4
Denominação: Chapéu de Homem (Fig.4)
Datação: XIX d.C. - XX d.C.
Matéria: Feltro (fibra animal); Gorgorão (algodão); Pergamoide
 Dimensões (cm): altura: 10; largura: 31; comprimento: 34;

Descrição: Chapéu em feltro de cor preta.
Apresenta uma copa cónica, de topo convexo. A passagem da copa para as abas é adornada por uma fita de gorgorão de cor preta que, lateralmente, forma uma laçada.
As abas são reviradas para cima. A sua orla é também debruada por uma fina fita do mesmo material.
Interiormente, a zona de passagem da copa para as abas apresenta vestígios de uma aplicação de uma fita de pergamoide de cor castanha.
Proveniência: Beja / Serpa


Fig.5
Denominação: Chapéu de Homem (Fig.5)
Datação: XIX d.C. - XX d.C.
Matéria: Feltro (fibra animal); Gorgorão (algodão); Pergamoide
Dimensões (cm): altura: 8; largura: 40; comprimento: 44;

Descrição: Chapéu em feltro de cor preta.
Apresenta uma copa cónica, de topo côncavo. A passagem da copa para as abas é adornada por uma fita de gorgorão de cor preta que, lateralmente, forma uma espécie de laçada.
As abas são reviradas para cima. A sua orla é também debruada por uma fina fita do mesmo material. Interiormente, a zona de passagem da copa para as abas apresenta a aplicação de uma fita de pergamoide de cor castanha.
Proveniência: Évora / Borba


Fig.6
Denominação: Chapéu de Homem (Fig.6)
Datação: XIX d.C. - XX d.C.
Matéria: Feltro (fibra animal); Gorgorão (algodão); Tecido (lã)
Dimensões (cm): altura: 20; diâmetro: 35;

Descrição: Chapéu em forma de calote, em feltro de cor preta.
A meio da altura apresenta a aplicação transversal de uma fita em gorgorão de algodão de cor preta que forma uma laçada lateralmente. Esta fita é também percorrida por uma fita mais fina, elástica, de cor preta. 
A orla do chapéu é também percorrida por uma fina aplicação de gorgorão. Interiormente, o chapéu tem aplicado duas fitas em tecido de lã de tom esverdeado, que caem livremente, e que atam o chapéu à volta do pescoço.
Proveniência: Estremoz / Orada
 
Fontes:
Museu Nacional de Etnologia
www.matriznet.imc-ip.pt
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sexta-feira, julho 25, 2014

Socos Femininos do Algarve


Estes socos fazem parte de um conjunto de objetos que o Museu Nacional de Etnologia possui no seu acervo da região do Algarve, recolhidos, de uma forma geral, a José Cavaco Vieira, na freguesia de Alte, concelho de Loulé.


Par de Socos com rasto em madeira, constituído por salto, enfranque e pata.
O salto é largo, assim como o enfranque, que apresenta uma descontinuidade com a pata.
A parte de cima dos socos é feita separadamente.
A base é de couro de cor castanha. Na zona da palmilha, o couro estende-se um pouco para os lados. É depois virado para fora e pregado, de espaço a espaço, ao rasto.
As gáspeas são em tecido de lã de cor cinzenta, fechado no calcanhar. Apresentam um quadriculado de cor branca, verde e azul. À frente, apresenta a aplicação de um retângulo de pele de animal, com pelo de cor castanha.
Datação: XIX d.C. - XX d.C.
Material: Tecido (lã); Fibras animais; Madeira; Couro; Metal (ferro)
Dimensões (cm): altura: 11; largura: 9; comprimento: 25;

Fontes:
Museu Nacional de Etnologia

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Chinelas Minhotas; Alpercatas-Açores; O Calçado Tradicional; Tamancose Socos Entre Douro e Minho; Pé Descalço; Socas barrosãs já não ressoam nacalçada - Montalegre; Chancas; Calçado popular;

segunda-feira, julho 21, 2014

Calçado popular


Botas de Cano - Matosinhos
Datação: XIX d.C. - XX d.C.

Matéria: Madeira; Metal (ferro); Cabedal

Dimensões (cm): altura: 53; largura: 17; comprimento: 31;

Descrição: Botas (par) de cano alto e rasto em madeira; e gáspea, talão e pala de cabedal de cor acastanhada. O rasto apresenta vestígios de tingimento a cor vermelha. É constituído por salto, enfranque e pata. O salto é baixo e apresenta, a ladear os contornos exteriores formando espécie de ferradura, uma aplicação de tira de sola de cor preta, semeada com cardas de ferro justapostas às suas extremidades. O enfranque é curvilíneo, em continuação com a pata. Esta, apresenta três aplicações de sola: duas de lado e uma, à frente, com os contornos da biqueira. São todas semeadas com cardas de ferro, de formato circular. A unir o rasto à gáspea e ao talão, uma banda de sola de cor preta, pregada de espaço a espaço por pregos metálicos de cabeça pequena batida. Na zona da biqueira, apresenta, em vez desta banda, uma outra, de formato semicircular, que a cobre e à dianteira do rasto. A gáspea e o talão, embora simétricos, são de igual formato, apresentando uma boca que forma um lóbulo ao centro. A esta boca está costurado um cano do mesmo material, que estende até acima dos joelhos, formando uma pala - um grande lóbulo na parte dianteira. A costura é visível através de duas fileiras executadas a linha de cor branca, nos contornos superiores das gáspeas. O cano é feito de uma só peça de cabedal, sendo que é cosido, longitudinalmente, do lado interior da bota a linha de cor branca. Na extremidade superior de tal costura, e na do lado oposto a esta, espécie de presilha de cabedal. As presilhas do lado interior da bota, apresentam um anel feito em corda.


Sapatos Homem - Algarve
Datação: XIX d.C. - XX d.C.

Matéria: Sola; Calfe; Metal

Dimensões (cm): altura: 8; largura: 10; comprimento: 27,5;

Descrição: Sapatos (par) com rasto em sola. Este apresenta um salto baixo, constituído por duas camadas de sola pregadas e coladas. A parte superior dos sapatos é constituída por gáspeas, talão e biqueira. Todas estas peças são em calfe de vitela de cor preta. As gáspeas estendem-se sobre o peito do pé, formando, nesta zona, uma língua. O talão percorre a zona do calcanhar, diminuindo a sua altura, e formando duas orelhas que se sobrepõem à língua das gáspeas. Estas apresentam três furos, dados longitudinalmente, por onde passa um atacador de cor preta. A biqueira, do mesmo material, forma uma meia-lua de orla ponteada à máquina e furada em pequenos círculos, de espaço a espaço. O interior dos sapatos é forrado a couro, apresentando também, sobre o rasto, uma palmilha em couro de cor branca.
Proveniência: Faro / Loulé / Alte.



Botas - Baixo Alentejo
Datação: XIX d.C. - XX d.C.

Matéria: Couro; Borracha; Metal

Dimensões (cm): altura: 27; largura: 10; comprimento: 25;

Descrição: Botas (par) com rasto em couro, constituído por salto, enfranque e pata.

O salto é alto e afunilado. É forrado a borracha de cor preta, à qual estão aplicados vários pregos metálicos. O enfranque é esguio e a pata de bico ligeiramente levantado. Esta zona é completamente recoberta de pregos metálicos. Pregadas ao rasto surgem as gáspeas de couro. A elas, na orla interior, está aplicado, por dentro, um talão alto, formando um cano. Este é aberto longitudinalmente, à frente, ao centro. Apresenta, em cada aba quinze ilhós metálicas. Por entre as abas, surge uma língua de couro que está aplicada na extremidade inferior da abertura, por baixo do talão e das gáspeas.
Proveniência: Beja /Serpa

 
Botas da Pesca do Bacalhau
Datação: XX d.C.

Matéria: Cabedal e madeira

Dimensões (cm): altura: 58;

Descrição: Par de botas que cobrem o pé e parte da perna até aos joelhos.

Origem / Historial: Estas botas de bacalhoeiro pertenceram ao pescador Armando Bizarro Valverde, da Nazaré. Era o calçado que os pescadores usavam quando escalavam o bacalhau.
 
Proveniência: Nazaré.
 
 
 
 
Fontes:
Museu de Arte Popular.
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segunda-feira, fevereiro 24, 2014

Rituais da morte e o luto no traje


De todos os mistérios de vida dois são certos, o nascimento e a morte. Se o primeiro é encarado com alegria e regozijo, o segundo é trágico e triste, muito embora a doutrina cristã defenda ressurreição da alma.

Por ser um assunto difícil de abordar na nossa sociedade, os trajes de luto e os rituais da morte raramente são representados pelos grupos etnográficos e folclóricos.

Não querendo ser extenso nesta matéria, procurei alguns apontamentos etnográficos que caracterizassem estes momentos da vivência de qualquer pessoa.

Os rituais fúnebres, além de possibilitarem contactos afetivos e de conforto entre parentes, apresentam simbologias que pretendem concretizar o ocorrido.



Retrato de mulheres, sec.XX, Museu de Arte Popular,
Instituto dos Museus e da Conservação, I.P. / Ministério da Cultura
Em Portugal os rituais da morte são profundamente influenciados pela tradição católica, resultando num protocolo rígido na representação da infelicidade da família enlutada perante a sociedade.

O preto era a cor do luto e quer homens, mulheres ou crianças, despojavam-se das demonstrações exteriores alegria, havendo uma enorme preocupação em cumprir o luto devido por morte de um familiar. No caso de pais ou filhos eram de 18 meses a 2 anos, de um irmão 1 ano, avós 8 meses e tios 3 meses.

Se havia um casamento marcado adiava-se, a matança não era feita, não havia festas até passar o tempo de luto fechado, depois começava-se a aliviar o luto até aos 2 anos.

O anúncio da morte de alguém era feito pelo toque do sino da igreja (o chamado “dobrar” que ainda hoje assim se faz em algumas regiões) e depressa passava de boca-em-boca o nome do falecido.

Os defuntos não iam para a igreja, eram velados em casa. A casa era desprovida de quaisquer elementos decorativos e até o relógio era levado para casa de uma vizinha para não se ouvir o barulho do pêndulo. A casa era despojada de móveis e a vizinhança emprestava as cadeiras. Em algumas aldeias a água que havia nos cântaros era deitada fora e também se tiravam os enchidos que estavam na chaminé.

O corpo era arranjado, vestido com a melhor roupa, muitas vezes já previamente predestinada (o fato da mortalha), e ficava em cima da cama, até que no dia seguinte era enrolado numa colcha, metido no caixão e saíam com ele a pé para o cemitério. Junto à cama era colocado um copo ou uma taça, com um raminho, com o qual se aspergia o morto.
"Carpideiras no funeral de Juan Lara" - 1951 - Cáceres - W.Eugene Smith

Com grandes prantos, fazendo elogios ao falecido e maldizendo a sorte carpidava-se o morto demonstrando a dor da família enlutada, tarefa relegada para os elementos femininos da família, ou “contratavam-se” carpideiras para demonstrar que o falecido era muito querido.

Se era uma criança (os anjinhos ou injinhos), o corpo era colocado numa urna branca e levado ao cemitério por crianças mais velhas. Se era uma rapariga donzela, vestiam-na de noiva com uma grinalda.

Depois do funeral era a vizinhança que cozinhava para a família enlutada e que ajudavam na limpeza e arrumação da casa. No Alentejo a casa não era caiada, nem nessa altura, nem durante o tempo do luto.

Durante todo o tempo de luto fechado os amigos e a vizinhança mais próxima repartiam o que havia com a família enlutada, respeitando a infelicidade e ajudando uns aos outros.

No que respeita à missa de 7º dia, está relacionada com a tradição católica e às referências na Bíblia ao luto de 7 dias:

·         O luto de Jacó durou 7 dias (Gn 50,10)
·         Saul foi enterrado e fizeram um jejum de 7 dias (1Sm 31,13)
·         O povo chorou a morte de Judite durante 7 dias (Jt 16,24)
·         O luto por um morto dura 7 dias (Eclo 22,11)

O Luto no Trajo


Viúva - Rancho Folc. Casa do Povo da Glória do Ribatejo
Em Portugal os rituais da morte entre os finais do sec.XIX e início do sec.XX têm origens muito antigas e diversas influências culturais, resultando num protocolo rígido na representação da dor da família enlutada perante a sociedade

Na tradição popular portuguesa o luto era profundamente vivido e socialmente controlado. Essa vivência fazia com que fossem colocados de lado os trajos mais vistosos, muitas vezes para o resto da vida, como aconteceu com o traje de branqueta da Póvoa do Varzim após o naufrágio de 1892, que enlutou a maioria das famílias dessa região, apenas sendo ressuscitado em 1936 por Santos Graça.

Pormenores do luto no trajo feminino:

Por morte de um parente, as mulheres vestiam-se de preto e quase tapavam o rosto, sendo socialmente apontadas ou marginalisadas aquelas que não o fizessem. Era sinal de respeito quase religioso.


Retrato de camponesa, sec.XX, Museu de Arte Popular,
Instituto dos Museus e da Conservação, I.P. / Ministério da Cultura
A mulher cobre a cabeça com o mais singelo dos lenços negros e as capas, saias de costas, xailes e biucos criam um “casulo” interiorizando a dor e isolando-a do mundo que a rodeia de forma a se tornar invisivel à sociedade.

No Alentejo e Algarve a mulher não tirava o lenço da cabeça nem o xaile das costas. Mesmo no trabalho do campo, de Verão ou Inverno, as mulheres usavam grandes xailes em bico, meias, lenço e chapéu.

No Minho surge o Traje Escuro ou Dó em sinal de luto ou quando um parente partia para o estrangeiro. Usado para simbolizar dor pela separação, motivada por ausência temporária ou mesmo definitiva de um parente. Na verdade, a diferença marcante dos demais trajes, deve-se a tonalidade que no caso presente e como não poderia deixar de ser predomina a cor preta.

Na Póvoa do Varzim a mulher usava casaco e saia pretos, lenço preto na cabeça, embiocado, e uma saia de costas, também preta, muito semelhante à saia de vestir, com pregas miúdas junto à cintura, embora mais curta e com menos roda. Colocada sobre a cabeça, envolve o corpo até à cintura. O trajo de luto anulava praticamente a figura da mulher. Como sinal de tristeza profunda, de renúncia ao conforto e desprendimento dos bens materiais, esconde o rosto dos olhares intrusos e anda descalça.


"Mulher da Nazaré", Artur Pastor
Também na Nazaré a capa, colocada sobre a cabeça, esconde a cara da mulher e o seu sofrimento, nesta altura chapéu perde o tradicional pom-pom de lã.

No que se refere às joias, durante o luto fechado apenas utilizavam os brincos, aos quais eram cozidos uns paninhos pretos para disfarçar o brilho do ouro, ou então, para quem tinha essa possibilidade, usava brincos com pedras escuras: azeviche, granada, hematita, e ônix.

Em Portugal, no concelho da Batalha, nas minas de Alcanadas (Barrojeiras e de Chão Preto), até ao início do século XX, era extraído o azeviche utilizado na realização de jóias usadas durante os períodos de luto da família pela Família Real Portuguesa. Também era extraido azeviche em Peniche.



Brincos de 1880 em azeviche. Acervo do Metropolitan Museum

Pormenores do luto no trajo masculino:

Aos homens eram impostas menos regras sociais que ás mulheres, para além do resguardo do tempo de luto obrigatório.
Genericamente o homem também adoptava o fato preto, ou da cor mais escura que tinha. Mesmo no trabalho passa a vestir-se integralmente de preto.
No Alentejo e Algarve os homens andavam com a barba grande pelo menos durante 1 mês e não iam à taberna. Em algumas localidades usavam um lenço amarado à cabeça por debaixo do boné ou do chapéu.
O uso do Gabão também era comum, sobretudo na Póvoa do Varzim e Nazaré. Este era feito de tecido de lã castanha (saragoça) com cabeção, capuz e mangas compridas. Nas frentes, carcela e bolsos metidos a costura era pespontada a branco. Forro de branqueta. O capuz cobria não só a cabeça, mas ocultava o próprio rosto, resguardando-o de olhares estranhos

quarta-feira, outubro 10, 2012

Os Negros na Cultura Popular Portuguesa

No “Álbum de Costumes Portugueses”, de 1887, Júlio Cesar Machado e Fialho de Almeida descrevem três figuras “O Preto Caiador”, “Preta do Mexilhão” e o “Preto de S. Jorge”, perante estas figuras e conhecendo um pouco da história da escravatura em Portugal, questionamo-nos sobre a influência destes africanos arrancados às suas nações na nossa cultura popular.

Para entendermos se existem eventuais influencias, é necessário conhecer um pouco da história da escravatura, pois era essa a condição da maioria desses negros.
Desde as suas origens, Portugal conhecia o regime da escravidão, não apenas devido à norma de transformar os mouros vencidos na guerra em cativos ou servos, mas através de relações de comércio com mercadores árabes ou mesmo pela ação de pirataria realizada diretamente pelos seus navios na região do Mediterrâneo fronteira ao Norte de África.

Havia desde meados do século XIV postos de venda de cativos na Rua Nova de Lisboa, onde se comerciavam peças trazidas inclusive de Sevilha - que em Castela funcionava como entreposto - e, segundo um documento encontrado pelo pesquisador no Convento de Chelas, uma das freiras desta casa lá comprara por 150 libras em 1368 a um mercador sevilhano uma jovem moura de pele branca chamada Moreima.
Através das trocas comerciais os portugueses entraram em contacto mais íntimo com negros africanos das regiões denominadas pelos mouros de bailad-as-Sudan, o além-Sara para o sul, habitado pelos negros islamizados do Sudão, e das áreas ocidentais vizinhas dos rios Níger e Senegal, ao norte do Equador.

As primeiras remessas de negros da Guiné para Portugal na segunda metade do século XV.
As consecutivas tentativas de conquista resultam sempre no sequestro de numerosos “inimigos”, não fosse talvez esse o verdadeiro propósito. Foram escravos idos das Ilhas Canárias que proporcionaram um núcleo económico rentável na ilha da Madeira através da extração de madeira e produção de açúcar de cana.

De notar que as bulas Dum Diversus e Divino Amore Communiti, de 18 de Junho de 1452, que autorizavam o direito de filhar pagãos e reduzi-los à escravidão, haviam sido concedidas pelo papa Nicolau V em concordância com os argumentos dos portugueses que alegavam despesas com as navegações, assegurando a exploração tranquila da mão-de-obra escrava em esquemas de produção agrícola para exportação.
Uma das dificuldades de determinação do número de escravos negros africanos que entraram em Portugal desde o início do século XV é o facto ser empregado invariavelmente o termo negro para designar, de forma genérica, todos os tipos raciais de pele morena com quem se relacionavam.

Como resultado de um longo processo de observação, o povo passou a denominar o tipo de negro de pele mais escura com o nome da cor que por comparação lhe correspondia na linguagem comum, ou seja, a preta. A partir de então, um negro cuja pele fosse tão escura que lembrasse a cor preta começou a ser chamado homem preto e logo, por economia, preto. O termo negro continuaria a constituir, oficialmente, o nome genérico para a gente das mais variadas graduações de cor de pele, a partir do amorenado ou pardo até os tons mais fechados, mas, para o povo em geral, o negro mais caracteristicamente africano passaria a ser sempre o preto.
Ainda assim, estima-se que o número de escravos em Portugal era bastante elevado.

Em 1551 a capital lusitana teria cerca de 100.00 habitantes, dos quais 9.900 eram escravos, ou seja 9,9% da população. Ao longo dos sec. XVI e XVII a mão-de-obra escrava representava já 10% da população total do Algarve e Alentejo e também era visível no Norte de Portugal e em outras regiões.

O motivo da substituição do jornaleiro livre pelos escravos, não poderia ser a falta de gente em Portugal mas sim, o regime da grande propriedade, do latifúndio, que imperava no Alentejo e se arrastaria por centenas de anos.
A utilização incessante dessa mão-de-obra, de meados do século XV até à segunda metade do século XVII, fixou-se e estabilizou-se em certas áreas do mundo agrícola, declinando, porém, no século XVIII, em virtude da gradual redução no ritmo da substituição desse tipo específico de trabalho. Mas, mesmo em declínio, não cessou de existir, alimentada pela circunstância cruel de o filho de escravos herdar a condição dos pais, e, assim, quando em 1761 o Alvará de 19 de Setembro, providenciado pelo marquês de Pombal, determina o fim da entrada de escravos em Portugal, apenas nas províncias a sul do Tejo ainda trabalham nos campos 4.000 a 5.000 escravos.
O próprio texto do Alvará de Libertação demonstra que foram as razões de ordem econômica responsáveis pela extinção do trabalho escravo na agricultura portuguesa: com a exploração do ouro brasileiro das Minas Gerais a exigir cada vez maior número de escravos, o desvio desse tipo de mão-de-obra para território português constituía um desfalque na conquista da riqueza mais rápida, pela via colonial.

O poder real foi obrigado a reiterar o Alvará de 12 anos depois, porque muitos proprietários de escravos, não desejando perder o capital aplicado na compra das suas máquinas de produzir trabalho, continuavam a explorá-las clandestinamente.
Preta do Mexilhão
De facto os escravos foram usados pelos portugueses como fornecedores de força de trabalho em empresas agro-industriais (caso da fabricação de açúcar nas ilhas atlânticas); como trabalhadores em obras públicas (desbravamento de matas, aterro de pântanos e construção de prédios); em serviços de bordo em navios; trabalhos portuários de carga e descarga; como remadores de galés e barcos de transporte; vendedores de água (negras do pote) e de peixe; como vendedores ambulantes de carvão; em serviços públicos municipais (remoção dos dejetos domiciliares pelas chamadas negras de canastras); como artesãos (mesteirais); como negros de ganho nas ruas (ao serviço de senhores particulares); como trabalhadores em lagares de azeite (onde chegavam a mestres); e, ainda, «na cultivação do campo e no serviço ordinário», tal como informaria em 1655 o padre Manuel Severim de Faria nas suas Notícias de Portugal, admirado com o número de escravos empregados na «cultivação da terra» e nos serviços domésticos (atividade em que realmente predominavam e serviam em maior número nas cidades, principalmente em Lisboa).

O Preto Caiador
 
A partir do século XVI, surgiram em Lisboa e noutras cidades e vilas da província, principalmente no Alentejo, confrarias de negros africanos com propósitos religiosos dedicadas a São Jorge ou Nª Srª do Rosário, disfarçando em aparente conversão os seus cultos africanos.

O convento de São Domingos, dos dominicanos, em Lisboa, era frequentado por uma confraria de negros: - Confraria de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Lisboa. Dessa forma conseguiam preservar-se de acusações de heresia, a constituição de fundos destinados a compra de alforria e a participação na vida social paralelas às dos brancos, em vários aspetos da atividade comunitária.
Em “Álbum de Costumes Portugueses”, Fialho de Almeida descreve o “Preto de S. Jorge”, como membro de uma confraria que teria direito a incorporar a procissão do CORPUS CHRISTI, com os demais ofícios.

Descreve ainda a honra que estes homens tinham na sua pertença à confraria, sendo a cor da pele o principal ditame, teria de ser do mais retinto ébano e quando uma degenerada geração saia mulata engraxava-se a pele.
Preto de S.Jorge
Como já foi referido anteriormente, esta mão-de-obra escrava foi muito utilizada na agricultura sobretudo a sul do Tejo.
Remanescências dessa presença foram relatados por José Leite de Vasconcelos em Etnografia Portuguesa, Livro II.

«Ultimamente tive ocasião de ver alguns exemplares dos mesmos Mulatos (...).  Eles próprios dizem que são atravessadiços, isto é, "mestiços", em sentido geral. A cor varia: há indivíduos que são, por assim dizer, pálidos ou morenos, e outros muito foscos, quase pretos (...). Os vizinhos chamavam dantes a esta gente Pretos do Sado ou Pretos de São Romão, porque havia lá realmente muitos pretos. "São Romão era uma ilha de Pretos", ouvi referir a vários mulatos; ou "algum tempo havia lá muito preto encarapinhado". Ainda hoje se usa Preto como alcunha ou apelido: "Fulano Preto, Fulana José Preta"! Pouco a pouco a raça vai-se diluindo no grosso da população circunvizinha (...). Pena é que não se descobrisse ainda algum documento que nos esclarecesse acerca da data em que na Ribeira do Sado se fixou a raça africana ("raça negra") cujos descendentes estão diante de nós.»

De facto, nas povoações das margens do rio Sado é fácil identificar traços negroides nalguns moradores: cabelo encarapinhado, pele morena, lábios grossos, nariz largo …

De facto, em Alcácer do Sal, nas povoações de São Romão de Sádão e Rio de Moinhos,  é bem conhecida a existência dos "Pretos de S. Romão" que, fruto da miscigenação, se misturaram com a população branca e foram gradualmente perdendo as suas características africanas. Tal como se perdeu a memória da razão da sua fixação desta população.

Julga-se que seria um colonato de escravos, ai estabelecido por serem supostamente imunes ao paludismo, localmente conhecido por febre terçã ou sezões, um mal endémico, pois a região, durante séculos um território desabitado, tinha a fama de insalubridade e era rodeada de charnecas e gândaras.

De qualquer modo, volvidos muitos séculos, a memória popular, sempre curta para guardar factos históricos, apenas fez perdurar a lenda da "Ilha de Pretos" e as cantigas que ainda hoje ecoam ao ritmo do Ladrão:

Quem quezer ver moças
Da cor do cravão,
Vá dar um passeio

Até S. Romão.

 
Veja o nosso Sado,

Não tenha receio,

Até São Romão

Vá dar um passeio.

 
Quando eu chegui

À Rebêra do Sado

Vi lá uma preta

De beco virado.

 
Se tiver resposta

Responda-me à letra

De beco virado

Vi lá uma preta.

 
O Senhor dos Mártires

Cá da Carvalheira

É o pai dos pretos

De toda a Ribeira.

 
Lavrador João

Quem lho diz sou eu:

Se ele é pai dos Pretos

Também o é seu.

 

Esta presença negro-africana também se verifica nos topónimos de muitas ruas, como por exemplo: Rua das Pretas, Rua do Poço dos Negros … ou no nome de muitas povoações como no concelho de Vinhais existe a freguesia de S.Bartolomeu de Negredo, no de Barcelos a de Santa Eulália de Negreiros e o lugar chamado do Preto e no de Santo Tirso encontram-se S. Mamede de Negrelos, S.Tomé de Negrelos, Santa Maria de Negrelos. Vale de Negros é o nome de um povoado do concelho de Ancião, Pero Negro o de um outro no concelho de Arruda dos Vinhos. Nos concelhos de Montalegre e de Óbidos temos, respetivamente, as freguesias de Santa Maria Madalena de Negrões e como já dissemos, a de Negros ou A dos Negros.

No concelho de Loulé há o lugar chamado Cerro dos Negros, no de Almeirim há uma povoação com o nome Paços de Cima ou dos Negros. Dois povoados dos concelhos de Albufeira e de Silves chamam-se Guiné, no concelho de Alvito existe a povoação chamada Horta de Guiné. A dos Pretos, Monte dos Pretos e Quinta da Preta são os nomes de povoações dos concelhos de Leiria, Estremoz e Alcobaça, …, enfim, demonstra-se assim a importância que estas populações teriam em determinadas regiões para que servissem de referência a um determinado lugar.

Uma outra influência é na origem do fado, que parece despontar da imensa popularidade nos séculos XVIII e XIX da Modinha, e da sua síntese popular com outros géneros afins, como o Lundu, um género musical proveniente de angola.

Não conseguindo estabelecer maiores pontos de contacto entre a cultura africana e a portuguesa que subsistam e sejam detetado na nossa etnografia, fica aqui o nosso contributo para algo que nos parece importante, a presença dos Negros na nossa cultura. Certos ficamos de que nas nossas veias, circula um caldo de culturas e de povos, no qual certamente se encontra o africano.

Bibliografia:



Álbum de Costumes Portugueses, 1887

quarta-feira, novembro 23, 2011

O Xaile - Contributo para a Recuperação de um Património Imaterial

No passado dia 19 de Novembro de 2011 tive o grato prazer de apresentar o tema “O Xaile - Contributo para a Recuperação de um Património Imaterial” nas XVII Jornadas Técnicas de Etno-folcore organizadas pela Associação de Folclore e Etnografia da Região do Mondego na Casa Municipal da Cultura, em Coimbra.
Estas Jornadas contaram ainda com o contributo da Srª Dr.ª Madalena Braz Teixeira e da Sr.ª Dna Maria Alcide Rodrigues, bem como, com a colaboração do Sr. Inspector Lopes Pires.
Foi um dia dedicado ao Xaile, que culminou com um desfile de magnificas peças dirigido pelo Sr. Dr. Joaquim Correia, Presidente da AFERM.
O público, constituído na sua maioria por elementos de ranchos folclóricos da região, aderiu e participou nos vários debates que se foram fazendo.
Quem esteve presente teve uma oportunidade única de enriquecer os seus conhecimentos sobre esta magnifica peça, que nesta região atingiu o seu expoente máximo.
Sem dúvida que Coimbra é a Capital do Xaile.

De forma muito breve deixo de seguida um resumo da minha apresentação, já que o trabalho que produzi possui muitas páginas e será difícil a sua publicação integral. No entanto quem o pretender pode solicitá-lo pelo e-mail c.alvescardoso@gmail.com.

“O Xaile - Contributo para a Recuperação de um Património Imaterial”

AS ORIGENS DO XAILE
Os primeiros destes xailes vieram de Caxemira, na Índia, "descobertos" por viajantes (principalmente ingleses) que os traziam como presentes para esposas, mães e filhas.
Diz-se que, em 1796, um persa cego chamado Yehyah Sayyid visitou Cachemira e governador afegão ofereceu-lhe um xaile. Sayyid, por sua vez, ofereceu-o ao Quediva do Egipto, que o presenteou a Napoleão e o deu a sua esposa a Imperatriz Josefina de Beauharnais.
Em França causou inveja e em breve as mulheres elegantes procuraram por todo os meios obter o seu próprio xaile de Caxemira.
Os xailes tornaram-se o desejo de qualquer dama elegante da europa e américa.
A raridade, elevado preço e muita procura fomenta o surgimento de imitações em França, Alemanha e Inglaterra, produzidas com lã de cabra, lã merina, de seda e de algodão.

INTRODUÇÃO EM PORTUGAL
O xaile terá chegado a Portugal sensivelmente na mesma altura que ao resto da europa, diz-se que também trazido por marinheiros regressados do oriente.
Francisco Ribeiro da Silva detectou a presença de um xaile entre o rol das mercadorias confiscadas na Alfandega do Porto entre 1789 e 1791.
Como é óbvio, sendo um artigo contrabandeado significa que existe uma procura, um mercado, que é apetecível e que seria um produto apenas ao alcance de alguns privilegiados. Por via do contrabando os ricos não privilegiados conseguiam obter produtos que os colocava a par dos privilegiados e, aparentemente, o xaile seria um excelente sinal exterior de riqueza.
O Dicionário de António Morais Silva (2ª edição de 1813) define “Chalé, s.m. (do Hespanhol) – lenço pintado de marca mayor, que as mulheres trazem pelos ombros, dobrado de sorte que fique em três pontas, sendo o lenço quadrado. Os ingleses chamão chales a uma porção de certo longor, e largura de tecido mui fino de lã de camello, de comum amarela, que as mulheres lançavão ao pescoço, e as pontas enrolavão em redor do corpo até à cintura, e são assás caros; vêi da Índia Oriental (a Shale).”
A inscrição da palavra “Chalé” no dicionário de António Morais Silva significa que esta peça de vestuário era já conhecida e utilizada em Portugal no primeiro quartel do sec.XIX.
Por outro lado, a referência à origem espanhola estará directamente relacionada com o “Manton de Manila”. Ao que se diz foi inventado pelas operárias das fábricas de tabaco em Sevilha. As folhas de tabaco vinham das Filipinas embrulhadas em panos chineses velhos, muito ornamentados e de forma quadrangular. As mulheres cortavam-nos e colocavam-nos em triângulo sobre os ombros deixavam os braços livres para trabalhar e simultaneamente protegiam do frio. Era prático, mesmo para uma saída rápida à rua.
António Morais Silva faz ainda referência à origem do xaile, situando-a na Índia Oriental e à sua difusão entre as mulheres da sociedade inglesa.
Como é do conhecimento geral, entre nós a moda foi sempre muito influenciada pelo estrangeiro e este terá sido o principal motor para a introdução do xaile em Portugal, sendo mais plausível que a palavra xaile provenha da denominação inglesa “shawl”, do que da sua origem persa Shãl (shawl, chalé, xale, xaile).
Certo é que os primeiros xailes foram importados e simbolizavam estatuto social e poder económico só ao alcance de alguns.

A CONJECTURA SOCIOECONÓMICA E A POPULARIZAÇÃO DO XAILE
O xaile só chega às camadas populares no início do sec.XX, em resultado de um conjunto de circunstâncias socioeconómicas favoráveis.
Fim das convulsões sociais e políticas da 1ª metade sec.XIX (Invasões francesas / guerra civil);
Incremento de uma revolução industrial tardia, iniciada com o Fontismo (1868-1889);
Evolução tecnológica (mecanização);
Melhoria das vias de comunicação e do escoamento da produção (aumento da rede ferroviária e rodoviária);
Matérias-primas abundantes e baratas.
Alguns exemplos:
Rede rodoviária - 476Km - 1850 / 11.754km – 1907
Rede ferroviária - 69Km - 1856/ 2.898Km – 1910
Indústria têxtil principal empregadora entre 1850 e 1913 (61% em 1852 e 37% em 1911)
Em 1890 os salários dos tecelões entre 280 réis/dia e 800 réis/dia (Covilhã)
Na indústria entre os 360 réis/dia e os 500 réis/dia para os homens e os 160 réis/dia e os para as 220 réis/dia mulheres.
Salário médio na poda em Vila Real entre 139 réis/dia e os 185 réis/dia
Um xaile dos Pirinéus nos Armazéns do Grandela em 1913/14 custava entre 3.600 e 5.500 réis.
Uma operária fabril ganhava entre 4.160 e 5.720 réis/mês

DE ARTIGO DE LUXO A PEÇA DA INDUMENTÁRIA POPULAR FEMININA
A mulher camponesa sempre usou pelas costas uma espécie de agasalho, uma saia dobrada, capa, capucha, capoteira ou mantéu e finalmente apareceu o xaile.
O xaile, beneficiando da nova conjectura torna-se mais acessível às bolsas populares e contribui também imenso para o desenvolvimento da indústria.
Por outro lado a preferência popular pelo xaile resulta de:
Prático no uso diário - permitia maior amplitude e liberdade de movimentos;
Durabilidade - grande resistência, o que os tornava mais duráveis:
Facilidade de manter e acondicionar - não necessitavam de grandes cuidados com limpeza e ocupavam pouco espaço quando arrecadados;
Compunha a figura – uma mulher envolta num xaile escondia a pobreza do seu trajar e dando-lhe dignidade.
O xaile está presente em todas as ocasiões da vida da mulher-mãe.
Aconchega o recém-nascido e retribui a parteira;
Aos domingos e dias de festa é um complemento do melhor fato;
Peça de enxoval e complemento do trajo de noiva;
Resguardo do frio e da chuva;
Nos momentos de tristeza embiocava a cara e escondia a sofrimento. No luto cobria o corpo e xaile de cor é tingido de preto,pois noutra cor não teria mais utilidade;
Serve de mortalha;
É a peça que melhor passa de mãe para filha, uma vez que na maioria das vezes nada mais havia para herdar;
O Xaile é o “tapa misérias”.

Embora possamos encontrar xailes em todas as regiões do país, o gosto, os costumes locais e a riqueza da região ditaram preferências por determinados tipos de xaile.
Em Trás-os-Montes e nas Beiras o xaile é negro, seja domingueiro ou de uso diário. No Alentejo, Ribatejo e Algarve além do negro, surgem outras cores, como o castanho ou o cinzento, lisos ou com padrões sóbrios.
O xaile adquire expressão máxima na região da beira litoral, sobretudo nos distritos de Aveiro e Coimbra, que considero a “Capital do Xaile”. Nesta região, o gosto popular pelo uso do xaile enquanto complemento e adorno do traje, levou ao uso de uma multiplicidade de tecidos de materiais diversos, de padrões, de estampados e de cores inaudito e singular, fomentando uma indústria e um conjunto de artes e ofícios intimamente relacionado com esta peça de vestuário.
O xaile está intimamente ligado à figura da mulher e à sua vivência.

quarta-feira, agosto 10, 2011

Superstições com o vestuário

A nudez favorece a irradiação da força mágica, que reside no homem, e ao mesmo tempo fá-lo mais sensível a forças exteriores (Handw., IV, 514).
No concelho de Vila Velha de Ródão, freguesia do Fratel, e também em Oliveira do Hospital, Travanca de Lagos, Andorinha, dizem que os cães não ladram aos homens nus e que os ladrões se aproveitam disso.
Na Beira Alta, quando as mulheres cosem botões em roupas que as pessoas tenham vestidas, dizem: «Não coso vivo nem coso morto, coso o vestido porque está roto.»
Quando se cose e a linha embaraça, em Lisboa, para se desembaraçar vai-se cantarolando continuamente: «Desembaraça-te, linha, que eu te darei uma caixinha.» E no Algarve dizem:
Senhor Sant’Ana,
Por aqui passou,
Tudo quanto viu,
Tudo desempeçou.
Vestir a roupa virada é mau agouro (Abade José Tavares, Carviçais, Moncorvo, Abril de 1904), mas em Lisboa, vestir uma peça de roupa do avesso é sinal de que se vai receber uma prenda nesse dia (Cf.: Handy.: «Kleid tausch»).
Há na Capela da Senhora do Castelo (Carviçais, Moncorvo, informação do Abade José Tavares, 1904) uma santa com um chapéu na cabeça. Quem sofre de dores de dentes e põe sobre a cabeça o chapéu do santo fica curado.
Em Lisboa, crê-se que, se uma rapariga põe o chapéu de um homem, não se casa.
Durante algumas dezenas de anos foi costume, pelo menos em Lisboa, as mulheres nunca entrarem num templo, de cabeça descoberta: se não tinham chapéu e mantilha, colocavam um lenço de assoar.
Em Carviçais, Moncorvo (Abade José Tavares, 1904), crê-se que quem morre mascarado vai para o Inferno. Também ali se crê que é de muito mau agouro dormir com os sapatos no sobrado, voltados com as palmilhas para cima, ou com os sapatos à cabeceira, ou com o chapéu aos pés (ou com a candeia no chão). Também é aziago, algures, colocar os sapatos em disposição inversa.
Paremiologia:
«Quem tem capa sempre escapa».
«Capote no Verão, ou é rato ou é ladrão».

Bibliografia: Etnografia Portuguesa - vol.VI, J. Leite de Vasconcelos
Fonte: Portal do Folclore Português

segunda-feira, abril 04, 2011

O uso de chapéu

O chapéu surgiu para a protecção da cabeça, ainda nos povos primitivos da pré-história, das intempéries climáticas (sol escaldante, frio, chuva), como prerrogativa masculina - sendo o homem o responsável pela defesa da tribo ou do clã, sendo depois estendido para a caracterização dos níveis sociais: os reis usavam coroas, os sacerdotes a mitra e os guerreiros o elmo. Cerca de 3000 a.C., na Mesopotâmia, surgem os chapéus que trazem um misto de elmo com capuz, que uns mil anos depois (2.000 a.C.) evoluem para um formato mais aprimorado. Torna-se, neste mesmo período, um adereço de dignidade, nobiliárquica, militar e sacerdotal do Antigo Egipto. O primeiro chapéu que encontra em suas formas mais semelhantes com o formato "clássico" (ou seja, contendo as partes principais do adorno), é o pétaso grego um tipo de chapéu usado pelos antigos gregos e romanos, de abas largas e copa pouco elevada, feito normalmente de feltro de lã, couro ou palha. Era usado principalmente por fazendeiros e viajantes da Antiguidade, e era considerado como uma vestimenta tipicamente rural. O píleo era a versão sem abas do pétaso. O uso de chapéu foi estudado por José Leite de Vasconcelos e descrito em “ETNOGRAFIA PORTUGUESA" - Livro III.


Entre Douro e Minho


De palha centeia para o sol (Baião); bordado, de palha, feito em Fafe: tem as abas com dobras alternadas (dobradas à maneira de ziguezague), o que lhe dá um aspecto de recorte; a copa é revestida de cordões entrançados e com uma espécie de botões também de trança, coloridos; às vezes têm umas estrelas de palha de cor; o chapéu de palha, tão querido da gente da Beira e de Entre Douro e Minho, creio que é desconhecido no Alentejo e no Algarve: um meridional julgar-se-ia descido da sua dignidade se pusesse na cabeça esse emblema do ratinho e do galego (galego, como os do sul chamam aos do norte); em Melgaço e na Cerveira vi os homens nas feiras com chapéus de pano; antigamente, talvez no início do século passado, o trajo domingueiro dos homens do Alto Minho incluía o chapéu de copa alta (cilíndrico como o chapéu alto, mas mais baixo), achatado em cima e de aba redonda; em 1928, um informador de mais de 80 anos, de Arcos de Valdevez, disse-me que noutros tempos os homens usavam carapuça a par de chapéu grosso; e também outrora as moças de Ermesinde usavam chapéus enfeitados à moda das senhoras (H. Beça, Ermesinde, p.90, Porto, 1921)

Trás-os-Montes

Chapéu de aba larga é luxo dos pimpões da Lombada; de palha, com fita colorida ou coberto com pingentes de palha na orla das abas (Vila Pouca de Aguiar).


Beira

Em Santa Comba Dão, os homens só usam chapéu de pano, não de palha. As mulheres, do campo, usam chapéu de homem, quando já estão velhos, e às vezes chapéus novos de palha. Os homens, na Guarda, usam chapéus de pano, à gandaresa. Os chapéus à gandaresa são feitos em S. João da Madeira, concelho de Oliveira de Azeméis; também lá se fabricam os chapéus à Vieira ou vieireiros, sendo os nomes provenientes da Gândara e da Vieira, onde são usados. Têm marca de papel, por dentro, onde está escrito «S. João da Madeira» ou «chapéu de 1ª», e também os há de «2ª», mais ordinários e mais baratos. Também em S. João da Madeira fabricam chapéus à camponesa, de aba larga, de pano grosso e com peninha de cor. As mulheres de Aveiro usavam antigamente chapéus desabados, maiores do que os de hoje, que são pequenos, como bonés; havia três espécies de abas: a grande, já desaparecida (Requeixo), a média, ainda usada pelas impilhadeiras, e a pequena, usada pela mulheres do campo, que também trazem chapéus como os dos homens. Em Soure, os homens só usam chapéus de pano. Os da Guarda usam chapéus de palha nas malhas, mas quando vão à cidade levam-nos de pano, desabado. Em Castendo (1896) usam chapéus de pano; em Castelo Branco (1916), chapéu de papöla, de aba larga; em Celorico da Beira, «àbeiro» por causa da aba larga; na Rapa, os homens, no serviço do campo, usam-nos de palha, no Verão, mas quando vão à caça, levam-nos de pano, feitos lá na terra. No concelho do Sabugal, usam chapéus modernos, ou de abas largas. No concelho de Arganil, não se usa chapéu de palha: se alguém aparecesse com ele, corriam-no logo; só às vezes, muito raramente, no Verão; usam sempre chapéu de feltro. Na Anadia, as mulheres usam chapéu pequeno, preto, redondo, com pena preta; as Ovarinas usam chapéu redondo, de aba larga e horizontal (em 1920), e as da Feira chapelinho preto, no alto da cabeça. O chapéu das mulheres de Cantanhede é como o das Ovarinas, tanto as de idade, como as novas, mas os destas são mais apurados e menores, e também redondos (1916).

Estremadura e Ribatejo

Chapelinho preto e redondo das mulheres do campo, de Leiria; algumas metem lenços entre as abas e a copa; uma ou outra velha traz um chapéu de pena, de homem; são curiosas as filas de vendedeiras, cada uma com o seu chapelinho preto, de pé ou sentadas, com as coisas para venda diante delas; do lenço, que usam sob o chapéu, as pontas caem sobre as costas (1918). Os camponeses do Ribatejo, no Inverno, usam chapéu em lugar de barrete. Os homens de Óbidos usam chapéu «d’aba-tela» ou à «toireira» (domingueiro) e no Verão chapéu de palha. Em Lisboa, quando, por brincadeira ou acaso, uma menina solteira põe na cabeça o chapéu de um rapaz solteiro ou de um homem casado, e se quiser casar, tem de dar um beijo no dono do chapéu.

Alentejo

O chapéu usado sobre o lenço, pelas mulheres de luto (Moura, etc.); de cortiça, feito por pastores (serra de Grândola); Alcácer do Sal; grosseiro, largo, com borla (concelhos de Portalegre, Portel, Nisa, Crato, Vidigueira); de Braga ou de S. João da Madeira, preto com uma borla (Alandroal); desabado (aguadeiro) de pano, em 1896; em Tolosa, as mulheres usam-no sobre o lenço, quando trabalham no campo, por vezes enfeitado com flores e fitas.

Algarve Chapéu de pano grosseiro, pelos homens (Portimão) e Monchique (1917), e, antigamente, desabado, com borla; de pano, pelas mulheres, sobre o lenço da cabeça, não só de jornada, mas a trabalharem à porta, e as crianças também põem; «O costume faz tudo», disse-me uma mulher do campo, ao notar-lhe eu o uso do chapéu de homem, na cabeça; compram-no elas e trazem-no sempre, tirando-o apenas para cumprimentarem, como os homens, creio eu (Portimão). Põem-no no campo as mulheres, quer casadas quer solteiras, mas estas, quando vão à vila, tiram-no para não parecerem casadas e poderem mais facilmente arranjar noivo.


Açores
Chapéu de copa pequeníssima e aba larga, com fita de cor, posto sobre um lenço (Pico); de palha (Faial); na ilha de S. Jorge «não há mulheres do campo. São tudo senhoras: tudo usa chapéu--- As criadas usam chapéu.» (De uma carta particular, escrita de Velas.)

Bibliografia: "ETNOGRAFIA PORTUGUESA" - Livro III - José Leite de Vasconcelos
Fonte: Blog do Portal do Folclore