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terça-feira, janeiro 27, 2009

Camponesa - Montargil - Alentejo

A freguesia de Montargil situa-se numa zona de transição Alentejo/Ribatejo, mas o seu folclore reflecte ainda o facto de durante muitos anos, embora sazonalmente, aqui terem trabalhado pessoas vindas de outras terras, caso dos “tiradores de cortiça” do Algarve, e dos “ratinhos” vindos das Beiras em “tempo de ceifa”, É a aculturação, é o encontro de culturas, é o moldar de uma cultura muito específica.
É essencialmente uma “comunidade rural”, com a sua identidade não quer abdicar e maneira de ser, que o Rancho Folclórico de Montargil tenta preservar e divulgar.
O traje ou a “Copa”, era noutros tempos um factor que muito caracterizava quem o vestia, e o Rancho Folclórico de Montargil apresenta o mais fiel possível a “copa” que os seus antepassados usaram.
Vestia-se pobre em Montargil, o que não significa que em especial a mulher não vestisse “bonito “.O fato de “camponesa” era sempre igual, com uma ou outra pequena alteração em função da actividade que ia desempenhar, e a natural mudança de utensílio de trabalho.
Tanto quanto sabemos, este trajo de camponesa é característico unicamente desta região de transição entre o Alentejo e o Ribatejo, o que demonstra bem como localmente se criou uma cultura muito própria.
Era constituído pelas seguintes peças:
Blusa com abas e” mangos” (estes de meia velha ou do riscado da saia); Saia de riscado escuro, arregaçada e atada no cós.” Podendo no entanto usar uma saia mais curta, que não seria arregaçada”. Ceroulas de ganga atadas nos tornozelos com fitas de nastro; Chapéu sobre o lenço, e este, consoante o trabalho, atado atrás, em cima sobre o chapéu ou à frente; Meias escuras de cordão; Sapato de atanado e sola, sendo que, dependendo do trabalho executado, podiam andar descalças.
Refira-se ainda, que quando a caminho do trabalho, algumas camponesas levavam um curto avental que tiravam ao chegar lá. Era também nessa altura que, e se disso fosse caso a saia era arregaçada e presa no cós.

sexta-feira, julho 11, 2008

Serra do Cadeirão - Cortelha - Algarve

O Grupo Etnográfico da Serra do Caldeirão, foi fundado em 2003, na aldeia da Cortelha, em pleno Concelho de Loulé.
O objectivo principal da constituição deste grupo foi a divulgação e o estudo da cultura e etnografia da Serra do Caldeirão, neste momento o grupo é composto por cerca de 60 elementos e representa as danças e cantares do interior algarvio.
No filme que se segue pode-se ver alguns dos seus trajes ao som de um corridinho, mas aconselha-se uma visita ao site da Associação dos Amigos da Cortelha.

quinta-feira, dezembro 20, 2007

O NATAL NO ALGARVE

O Natal tem muitas tradições em Portugal. Muitas delas foram introduzidas a partir do sec. XIX, outras têm origens mais remotas. Em contraponto, ao Pai Natal, a tradição portuguesa está intimamente relacionado com o Presépio e o Culto ao Menino Jesus. Existem em diversas regiões, reminiscências de tradições anteriores ao presépio criado por S. Francisco de Assis. A tradição do presépio medieval em escadaria e com o Menino no trono, típica do Algarve, mas que também se pode encontrar na Ilha da Madeira, a chamada lapinha, construída com três ou mais passadas (degraus) e ornamentada com frutas e searinhas. Nos Açores, o presépio com o Menino em pé denomina-se altarinho, com searinhas a ornamentá-lo e, nas paredes da sala, ramos de laranjeira com laranjas. Mas também pode ser encontrado no Brasil e em quase todas as nações da América Central e do Sul.
De seguida, descrevo a tradição algarvia com base na obra do Pe. José da Cunha Duarte, Natal no Algarve: raízes medievais.
No século XIX, no barrocal algarvio, nove dias antes do Natal, preparava-se a casa para armar o presépio ou armar o Menino,
Revestia-se uma cómoda com uma toalha branca e com larga renda pendente. Em cima, colocava-se um pequeno trono em escadaria, que imitava o altar-mor da igreja. À medida que se elevava, os degraus eram mais estreitos. Outras vezes, colocavam-se as medidas de cereal, em escadaria, para se formar o trono. Este era coberto com um lençol ou toalhas de linho, com uma dobra de lençol de lindas rendas, com panos bordados pela dona da casa ou pelas filhas solteiras, onde abundavam motivos de cor azul e encarnada.
Construído o trono, começava-se por ornar o Menino. As searinhas, germinadas dentro de chávenas ou pires pequenos, eram colocadas, no trono, com arte.
O trono era ladeado de jarras com verdura, onde sobressaía a murta, o loureiro, o alecrim, a aroeira e a nespereira. Nas paredes da sala, onde estava armado o Menino, colocavam-se também ramos de laranjeira, com laranjas, de loureiro ou ainda de nespereira. Outras famílias faziam um arco de verdura, à frente do trono.
Finalmente, colocava-se o Menino. O vestidinho fora já cuidadosamente lavado e passado a ferro. Outras vezes, vestia-se o Menino de novo. Este era o encanto das crianças, que não se cansavam de olhar para Ele, apesar do seu aspecto não invocar grande piedade, pois fora feito por um vulgar artesão. A mãe preparava uma lamparina (copo com azeite e pavio com fios de linho) e colocava-a em cima de um pratinho, à frente do Menino.
Uma característica, muito peculiar do Barrocal, é ornamentar o trono com laranjas. Ao lado do presépio colocam-se também cachos de laranjas dependurados na parede. Na zona marítima de Olhão, nas primeiras décadas do século XX, as searinhas estavam dentro das latas de conserva de sardinha.
A presença das searinhas no presépio é compreendida pelo povo como uma bênção. São colocadas para o Menino “as abençoar” e para “dar muito pão às sementeiras”. Depois das festas, havia também o costume de colocar as searinhas no campo para crescerem porque estavam abençoadas. Mais tarde, o trigo recolhido era para mezinhas caseiras.
As imagens do Menino Jesus devem-se essencialmente aos pinta-santos ou faz-santos algarvios que surgiram no século XIX. Estes procuraram reproduzir as imagens dos imaginários, sobretudo o Menino Jesus e Jesus crucificado que, no Algarve, se chama Pai do Céu. A maioria das famílias algarvias, da zona do Barrocal e da Serra, no Sotavento, tinham em casa uma destas imagens. Era costume os pais oferecerem aos filhos, como prenda de casamento, a imagem do Menino Jesus e/ou do Pai do Céu, para ser colocada na casa de fora do novo lar. Na orla marítima, encontra-se a mesma tradição, sobretudo nos concelhos de Castro Marim e Tavira.

sexta-feira, novembro 02, 2007

A mulher em casa – Algarve

O núcleo familiar é muito estimado em Portugal. No início do sec.XX era comum a coabitação dos jovens casais com pais ou sogros e quando não era possível, construía-se uma casa ao lado e o núcleo familiar permanecia unido. A mulher é rainha em sua casa.
No também no Algarve a mulher desempenha um importante papel na gestão da económica familiar.
Nos momentos de prosperidade gostava de mostrar o ouro, no entanto, estes geralmente não eram duradouros e a mulher recorria ao ourives ou ao estabelecimento de penhores.
A mulher algarvia vestia cores garridas, mas quando o homem estava ausente imperava o negro.
No interior da casa e nas lides do dia-a-dia, a mulher usa lenço de cabeça, de tecido de algodão estampado, que aperta na frente.
A blusa é de tecido de algodão em tons de azul. Corte simples, aberta na frente e mangas compridas com punhos.
Saia em tecido de algodão azul formando riscas, a extremidade inferior possui um folho do mesmo tecido.
O avental é de tecido de algodão azul estampado em tons policromados, formando motivos florais, possuindo na extremidade inferior nervuras e folho do mesmo tecido.
Calça sapatos de carneira ou tamancos de madeira com a parte superior em cabedal.
Bibliografia recomendada: Orla Marítima, Traje do Algarve - Museu Nacional do Traje
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segunda-feira, setembro 24, 2007

Mulher da Fábrica de Conservas – Algarve


No final do sec.XIX surgem no Algarve as primeiras fábricas de conservas de peixe. A primeira surgiu em Vila Real de Santo António em 1879 pelas mãos de um italiano de nome A.Parodi. Quase de imediato, começaram a surgir pequenas fábricas conserveiras, atingindo, em 1945, 246 unidades.
As mulheres constituíam a principal mão-de-obra desta indústria, trabalhando em condições deploráveis.
A sirene da fábrica era o sinal mais esperado. O seu toque anunciava a chegada de peixe fresco e, consequentemente, a possibilidade de trabalho durante algumas horas. Nessa altura, uma turba de mulheres corria para a fábrica, na esperança de serem as primeiras e as escolhidas para trabalhar.
Inicialmente, não existiam condições de higiene e esta reflectia-se na indumentária das operárias, no entanto, com a evolução dos tempos foram sendo introduzidas algumas normas, nomeadamente, a obrigatoriedade do uso de vestuário de cores claras, lenços na cabeça e aventais de cor branca.
A operária da fábrica de conservas usava um lenço de cabeça de algodão branco, estampado com motivos florais. Bata de trabalho, também em algodão de cor clara, de corte simples e sem gola. Aberta na frente e de manga comprida, com punhos. Saia de algodão de cor escura, com aplicações do mesmo tecido. Avental com peitilho de linho branco, comprido, cobrindo quase totalmente a saia, possui um bolso estampado no lado direito. Calça tamancos de madeira com a parte superior em cabedal.
Referencia Bibliográfica: Andrade Sancho, Emanuel in Traje do Algarve – Orla Marítima, Museu Nacional do Traje, 2001
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sexta-feira, agosto 17, 2007

Trajo de trabalhadores Serrenhos - Algarve


A designação “serrenho” é dada aos homens e mulheres da Serra do Caldeirão e que partiam à procura de trabalho sazonal nas terras do Barrocal.
O homem veste gabão de corte direito, em tecido de lã (soriano), com capuz e sem mangas, cobrindo o corpo até aos joelhos. Camisa de riscado com cós, peitilho e presilhas. Calças de serrubeco, ajustadas na cintura com cinta preta de lã. Na cabeça, barrete preto de lã com borla e carapinha da mesma cor. Lenço tabaqueiro atado ao pescoço. Calça botas de carneira ensebadas. Suspende ao ombro a balsa com tampa, uma espécie de bolsa maleável com tampa para o transporte de alimentos, feita de palma entrelaçada.
O gabão era talhado em tecido caseiro pisado, sendo uma peça de agasalho na estação fria.

A mulher veste gabão de soriano, com capuz e sem manga, descendo até às ancas. Bata de talhe idêntico ao da camisa, mais curta, abotoada na frente com botões de osso. Saia comprida de estemenha, tecido misto de lã e linho, protegida por avental de riscado guarnecido com folho. Na cabeça, lenço de algodão branco estampado com pequenos motivos florais a preto, atado sob o queixo.

Nestes trajes salienta-se o uso de tecidos provenientes das tecelagens caseiras da serra algarvia, como o soriano e a estemenha. A qualidade e resistência destes tecidos tornava-os preferidos para a confecção de agasalhos, quer no trabalho do campo como da beira-mar, como na apanha do marisco e da morraça. A cor escura ajudava a ocultar ou disfarçar a sujidade e o desgaste.

Fonte: O Trajo Regional em Portugal, Tomaz Ribas, Difel, 2004
Site recomendado:
Câmara Municipal de São Brás de Alportel

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terça-feira, julho 31, 2007

Apanhador de Medronho – Algarve

Uma das bebidas mais populares e apreciadas do Algarve é sem dúvida a aguardente de medronho.
O trajo de trabalho do homem algarvio era geralmente sempre o mesmo, sofrendo pequenas alterações com a introdução de algumas peças ou acessórios específicos para o desempenho de determinada actividade.
É o que sucede com o trajo do apanhador de medronho, já que, ao vestir um par de ceroulas sobre as calças de cotim, procura protege-las das nódoas causadas pelos frutos maduros. Estas manchas eram difíceis de retirar dos tecidos de cor, mas facilmente eliminados do tecido branco, após sucessivas barrelas e coras.
Este trajo era composto por uma camisa de riscado, com cós e peitilho. “Gribalda” de riscado preto e branco com cós, espelho e frente franzida, abotoada e com as pontas atadas sobre a cintura. No peito, do lado direito, uma algibeira com pala e botão, onde guarda o tabaco. As calças eram de cotim azul, sobrepostas por ceroulas de pano cru, ajustadas nos tornozelos com fita de nastro. Na cabeça, chapéu preto de aba larga e copa redonda. Calça botas de atanado. Na mão, segura um cesto de cana com asa a tiracolo.

Referência Bibliográfica: O Trajo Regional em Portugal, Tomaz Ribas, Difel, 2004


Site recomendado: São Bartolomeu de Messines

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segunda-feira, julho 30, 2007

Cabreiro – Algarve

O traje do cabreiro não difere do trajo do trabalhador rural, apenas nos acessórios específicos para a actividade a que se dedica.
Consigo traz tudo o que necessita para o seu dia atrás do rebanho de cabras.
A “balsa” de esparto para a merenda, a cabaça para a água, o “cucharro” de cortiça para beber, o cajado para se apoiar, a funda para atirar pedra.
Nestas longas e lentas caminhadas pelos campos a flauta é a sua companheira.
Veste camisa de riscado, fechada na frente por botões de osso, sobre a qual usa um colete de cotim. Sobre estas duas peças uma outra camisa de riscado azul e branco, atado à frente, ao nível da cintura, com um nó, sendo guarnecida com um bolso no peito, onde guarda o tabaco. Calças de cotim idêntico ao colete, protegidas por safões de pele de carneiro, ajustados na cintura e na parte interior das pernas, com presilhas e botões. Reforçando a protecção das pernas usa polainas de couro, fechadas com presilhas. Calça botas de carneira.
Na cabeça usa chapéu de feltro de aba larga e ao pescoço traz um lenço tabaqueiro para limpar o rosto do suor.

Referência Bibliográfica: O Trajo Regional em Portugal, Tomaz Ribas, Difel, 2004
Site recomendado: São Bartolomeu de Messines
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quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Morraceiro – Algarve

A recolha da morraça era um recurso de sobrevivência muito comum no litoral algarvio.
A morraça é uma variedade de alga abundante nessa zona costeira e era utilizado como adubo das terras e na alimentação dos animais.
Funcionava como uma actividade subsidiária, sobretudo nos períodos de defeso em que a actividade pesqueira não podia ser exercida, para complementar o rendimento familiar que muitas vezes era minguado. A apanha da morraça era um trabalho essencialmente masculino. De forquilha em riste, o homem recolhia as algas que as ondas lhes lançava aos pés. Após ser recolhida nas ilhas do Sotavento, a morraça era transportada em barcos e, a partir das localidades costeiras, distribuída ao lombo de animais ou em carroças por todo o Algarve.

O homem do mar veste alça de fazenda grossa, de surrobeco cinzento, arregaçadas até aos joelhos, que eram apertadas na cintura com um cordel de sisal entrançado.
As ceroulas, ou calcetas, de tecido de lã azul claro, formando xadrez, chegando à altura da canela.
Anda sempre descalço, no rigor do Inverno usa tairocas de sola de madeira ou tamancos com presilhas de cabedal e meias de lã.
Na cabeça usa o barrete redondo com uma pequena borla, muitas vezes feito com os restos de lã de várias cores. Posteriormente começou a usar o boné de pano grosso, com pala nas orelhas e que aperta debaixo do queixo.
A camisa é de flanela de xadrez de cores garridas, de colarinho chanfrado e mangas compridas.
Para proteger do frio usavam um Gabão de tecido de soriano com capuz, aberto na frente, com mangas compridas, atado com um cordel à cintura.

terça-feira, janeiro 23, 2007

Samarra

A Samarra é um abafo masculino oriundo do Ribatejo ao longo dos anos difundiu-se às regiões vizinhas da Estremadura e Alentejo, posteriormente, a todo o país, do Algarve a Trás-os-Montes.
Este casaco, executado em fazenda de lã cinzenta, castanha, azul-escura ou preta, de decote redondo, aperta à frente com carcela e 5 botões de massa, os bolsos são embutidos na vertical ou diagonal, as mangas são compridas com aplicação de botões ou com virola.
É forrado cetim acolchoado.
A gola é forrada de pele de raposa, inicialmente, esta pele provinha de um troféu de caça, com a sua expansão e por uma questão de preço, passaram também a serem guarnecidas com pele de borrego.

sexta-feira, novembro 17, 2006

O Pescador do Bacalhau


A pesca do bacalhau sempre atraiu os homens das regiões costeiras, as migrações com destino aos mais importantes centros bacalhoeiros do país, como Lisboa, Ílhavo e Figueira da Foz eram maciças. Provinham de todas as regiões do país, do Minho ao Algarve.
As campanhas desenrolavam-se de Março a Outubro nas águas geladas do Canadá, os homens enfrentavam condições de extrema dureza. Os densos nevoeiros e as violentas tempestades povoavam os dias.
Os agasalhos que levavam de casa incluíam ceroulas, calcetas, camisolas de flanela, meias, luvas e carapuças de lã. Quando saiam para o mar para a pesca nos dory, vestiam os seus oleados, ou seja, calças largas, casacos e aventais, fabricados em pano cru embebido em óleo de linhaça.
Quando escalavam o bacalhau os pescadores usavam umas botas que cobriam os pés e as pernas até aos joelhos.
Na cabeça usavam o sueste, um chapéu de tecido grosseiro, normalmente pano-cru, impermeabilizado com azeite ou óleo de linhaça. Tem aba de forma irregular descendo a parte mais alongada sobre a nuca.

quinta-feira, novembro 02, 2006

As Salineiras do Algarve


O Algarve possui condições naturais óptimas para a produção de sal. Esta actividade tem raízes longínquas e ainda hoje possui grande importância para a economia da região.
Actualmente a produção de sal é quase totalmente mecanizada, no entanto, não podemos esquecer aqueles que trabalhavam arduamente nas salinas.
As salineiras que nos meses de Verão transportavam à cabeça o sal que os homens juntavam nos corredores das salinas.
O carrego do sal à cabeça, em grandes alcofas de esparto, era feito quase sempre em condições penosas de trabalho intensivo.
O sol intenso do Verão, o sal que corroe a pele e ainda os níveis intensos de claridade que caracterizam as salinas, contribuíram para a indumentária característica da salineira.
Do sal que queimava a pele as mulheres defendiam-se usando um lenço em forma rebuço que lhes libertava apenas o olhar, por vezes utilizavam um velho chapéu para aumentar a protecção da cabeça. Embora andassem descalças, protegiam as pernas com perneiras de lã ou tecido espesso. As saias eram forçosamente atadas acima do joelho por um cordel para facilitar a subida dos íngremes declives das salinas. Nas mãos usavam velhas peúgas de lã que faziam as vezes das luvas que não tinham.
Assunto relacionado neste blog: O biuco do algarve

sexta-feira, agosto 18, 2006

Côca, Biuco e Capelo

A Côca, o Biuco e o Capelo são três trajes de diferentes regiões, Alto Alentejo, Algarve e Ilha Terceira (Açores), no entanto, apesar da distância geográfica existem muitas semelhanças entre eles e uma história comum.

Sabemos hoje que os etruscos e os gregos vestiam o himation, ou seja, o manto, com o qual cobriam a cabeça. Possivelmente imitavam um costuma mais antigo. O Cristianismo adoptou para a imagem da Virgem o uso do manto à moda etrusca, isto é, sobre a cabeça. São Paulo introduz o costume das mulheres cobrirem a cabeça para que se distingam das mulheres descobertas ou meretrizes. Entrar na igreja com a cabeça coberta era sinal de respeito, submissão e humildade perante Deus.
Por toda a Europa surgiram diversas peças de vestuário que cobriam por inteiro o seu utilizador(a), nomeadamente, em França, Alemanha, Dinamarca, Itália, Espanha e Portugal.
Não se sabe quando este tipo de indumentária foi introduzido em Portugal, no entanto, podem-se encontrar registos da sua utilização desde 1609, no reinado de Filipe II, e existem autores que defendem a sua origem árabe.
Sabe-se no entanto, que a sua utilização abrangia a quase totalidade do território nacional, mas apenas no Alto Alentejo, no Algarve e nos Açores, esses trajes eram ainda utilizados até meados do século XX.
A sua utilização destinava-se a impedir o contacto da mulher com os transeuntes que com ela se cursassem na rua, ocultando a sua identidade. Para além de isolar a mulher do mundo exterior, permitia-lha também alguma liberdade, já que não sendo identificável podia movimentar-se livremente oculta dos olhos castradores da moralidade alheia.

O que são a Côca, o Biuco e o Capelo?

Estes três trajes femininos possuem pequenas variações, ou particulares alterações regionais, no entanto, a sua forma elementar baseava-se numa mantilha, com ou sem véu, amplamente distribuída, de norte ao sul do país, e que teve a generalizada denominação de biôco (ou biuco no Sul e rebuço no Norte).

Genericamente compõe-se de uma capa, mais amplas e compridas nos Açores e Algarve que no Alentejo, em cuja cabeça era coberta de forma a impedir que se visse a cara da sua utilizadora. É a forma como a cabeça é coberta que distingue os três trajes.


Côca –Alto Alentejo

As côcas terão sido um traje de noiva na nossa região, na segunda metade do século XIX. A tradição oral também afirma que a dimensão e colocação do véu tinha três posições distintas, consoante a classe a que pertencia a nubente.
Mas, como traje de noiva acabou por cair rapidamente em desuso enquanto tal, passando a ser fundamentalmente moda nas mulheres aristocratas ou da alta burguesia de todas as idades, quando estas saíam à rua para assistir a actos religiosos ou nas visitas, tão habituais nestas classes sociais entre finais do século XIX e princípios do XX.
Usavam uns biôcos, pegados a uma espécie de capa curta e que eram cobertos, no alto, por uma renda larga, que caía pelas costas. Na frente o biôco era armado em papelão, ou tarlatana, para se manter aberto. Em alguns, a renda era colocada, como já disse, caindo do alto da cabeça sobre as costas, outros porém, era posta em sentido contrário, isto é, sobre a cara. Completava o trajo uma saia de merino.
José Leite de Vasconcellos, observa que este seria o «trajo clássico de se ir à festa do Sacramento, que durava de quinta-feira do Corpo de Deus até à segunda-feira seguinte». O célebre investigador apresenta uma testemunha ocular que, entre os anos de 1862 e 1866, terá visto as mulheres assim embiocadas, e explica que este processo só era possível mediante a utilização de «um papelão curvo que encobria a cabeça, como as mantilhas de Mondim, coberto de preto e com pano nas costas».

O biôco (ou biuco) – Algarve

Raul Brandão escreve a propósito do biuco no seu livro "Os Pescadores", em 1922:
" Ainda há pouco tempo todas (as mulheres de Olhão) usavam cloques e bioco. O capote, muito amplo e atirado com elegância sobre a cabeça, tornava-as impenetráveis.
É um trajo misterioso e atraente. Quando saem, de negro envoltas nos biocos, parecem fantasmas. Passam, olham-nos e não as vemos. Mas o lume do olhar, mais vivo no rebuço, tem outro realce... Desaparecem e deixam-nos cismáticos. Ao longe, no lajedo da rua ouve-se ainda o cloque-cloque do calçado - e já o fantasma se esvaiu, deixando-nos uma impressão de mistério e sonho. é uma mulher esplêndida que vai para uma aventura de amor? De quem são aqueles olhos que ferem lume?... Fitou-nos, sumiu-se, e ainda - perdida para sempre a figura -, ainda o som chama por nós baixinho, muito ao longe-cloque..."
Trata-se de uma capa que cobre inteiramente quem a usava. A cabeça era oculta pelo próprio cabeção ou por um rebuço feito por qualquer xaile, lenço ou mantilha. As mulheres embiocadas pareciam “ursos com cabeça de elefante”
Oficialmente a sua extinção ocorreu em 1882 e por ordem de Júlio Lourenço Pinto, então Governador Civil do Algarve, foi proibido nas ruas e templos, embora continuasse a ser usado em Olhão até aos anos 30 do século XX em que foram vistos os últimos biocos.

O Capelo – Açores

À semelhança de outras regiões também a mulher açoriana usava agasalho capotes com capelo, diferindo o seu feitio de ilha para ilha.
Leite de Vasconcelos visitou os Açores no Verão de 1924 e testemunhou o uso de mantos e capotes pelas mulheres da ilha Terceira e do Faial. Com efeito até meados do século XX era frequente encontrar nos meios citadinos mulheres envoltas no seu capote preto e capelo armado.
Convém distinguir o manto do capote, o primeiro é uma saia comprida e rodada de cor preta, o segundo, afigura-se como uma capa muito ampla, mais farta lateralmente que nas costas.
No caso da utilização do manto, o capelo era armado com cartão e atado pela cintura, a mulher segurava-o com as mãos de modo a encobrir o rosto. Com o capote, o capelo era utilizado sobre os ombros. Neste caso, estamos perante um amplo capuz suportado por um arco de osso de baleia, sendo a sua rigidez conferida pelo forro de cânhamo.

Estamos assim perante três trajes, que para além da sua função de abafo, remete o papel da mulher para a total exclusão da sociedade, uma vez que, completamente coberta jamais alguém descobriria a sua identidade.

Dos três trajes apenas o dos Açores é ainda hoje identificado pelo público em geral, já que se tornou num símbolo dessa região e é amplamente divulgado pelos ranchos folclóricos. Quanto aos restantes, correm o risco de caírem no esquecimento e no ostracismo, já que não sendo bonitos ou ricos, não são mostrados pelos grupos das suas regiões de origem.

Bibliografia:
PITA, António, Côca ou Mantilha - Século XIX - Uma Traje de Festa e de Solenidade do Alto Alentejo – Câmara Municipal de Castelo de Vide, Secção de Arqueologia, Maio1999

Braz Teixeira, Madalena, Trajes Míticos da Cultura Regional Portuguesa, 1994, Museu Nacional do Traje.

Ormonde, Helena, in O Traje do Litoral Português, Museu Etnográfico e Arqueológico Dr. Joaquim Manso, Câmara Municipal da Nazaré