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quarta-feira, junho 22, 2011

Participantes da Exposição Nacional do Trajo ao Vivo

Tendo em consideração o magnifico espectáculo a que assisti em Porto de Mós, pareceu-me que se deveria referenciar os grupos participantes.

A FFP fez-me o favor de remeter a relação dos grupos que participaram, o qual agradeço, aproveitando para felicitar os elementos do 74 ranchos presentes pelo extraordinário trabalho que têm feito em prol da defesa do património cultural português.
Aqui fica a listagem deste grupos e a região que representam.
Bem hajam!


Grupo Folclórico Casa do Povo de Arões
Baixo Minho - Ave
Grupo Folclórico de S. Martinho do Campo
Baixo Minho - Ave
Grupo Folclórico de Santa Cristina do Couto
Baixo Minho - Ave
Grupo Folclórico do Centro Social de Vila Nova de Sande
Baixo Minho - Ave
Rancho Etnográfico de Santa Maria de Negrelos
Baixo Minho - Ave
Grupo Folclórico "As Ceifeirinhas do Vale Mesio"
Entre Douro e Minho
Rancho Folclórico de Aldeia Nova
Douro Litoral - Norte
Rancho Folclórico de Gens
Douro Litoral - Norte
Rancho Folclórico de Zebreiros
Douro Litoral - Norte
Rancho Típico de S. Mamede de Infesta
Douro Litoral - Norte
Rancho Folclórico da Ass. Cult. e Desp. de Mindelo
Douro Litoral - Norte
Grupo Folclórico das Terras da Feira - Casa da Gaia
Douro Litoral - Centro
Grupo Etnográfico de Sandim (Casa da Eira)
Douro Litoral - Centro
Rancho Folclórico "As Lavradeiras de Pedroso"
Douro Litoral - Centro
Rancho Folclórico "As Trigueirinhas do Pisão"
Douro Litoral - Centro
Rancho Folclórico de Canelas
Douro Litoral - Centro
Rancho Folclórico de Canidelo
Douro Litoral - Centro
Rancho Folclórico de Danças e Cantares de Stª Maria do Olival
Douro Litoral - Centro
Rancho Folclórico de S. Tiago de Silvalde
Douro Litoral - Centro
Rancho Folclórico e Cultural de Nª Senhora do Monte de Pedroso
Douro Litoral - Centro
Rancho Regional Recordar é Viver de Paramos
Douro Litoral - Centro
Grupo de Danças e Cantares Regionais da Feira
Douro Litoral - Sul
Grupo de Danças e Cantares Regionais do Orfeão da Feira
Douro Litoral - Sul
Rancho Folclórico de Gouxaria
Ribatejo
Grupo Etnográfico Danças e Cantares de Alverca do Ribatejo
Ribatejo
Grupo Etnográfico de Danças e Cantares de Fermêdo e Mato
Douro Litoral - Sul
Grupo Folclórico "As Lavradeiras de S. João de Ver"
Douro Litoral - Sul
Grupo Folclórico de Palmaz
Douro Litoral - Sul
Rancho Folclórico "As Florinhas" de Caldas de S. Jorge
Douro Litoral - Sul
Grupo de Danças e Cantares de Cortegaça
Beira Litoral - Vareira
Grupo de Danças e Cantares de S. Pedro de Maceda
Beira Litoral - Vareira
Grupo Folclórico "As Tricanas de Ovar"
Beira Litoral - Vareira
Grupo Folclórico "O Cancioneiro de Ovar"
Beira Litoral - Vareira
Grupo Folclórico "Os Fogueteiros de Arada"
Beira Litoral - Vareira
Rancho Folclórico "Os Camponeses da Beira-Ria"
Beira Litoral - Vareira
Rancho Folclórico da Ribeira de Ovar
Beira Litoral - Vareira
Grupo Folclore Danças e Cantares do Fial
Beira Litoral - Baixo Vouga
Grupo Folclórico Cultural e Recreativo de Albergaria-a-Velha
Beira Litoral - Baixo Vouga
Grupo Folclórico e Etnográfico de Albergaria-a-Velha
Beira Litoral - Baixo Vouga
Rancho Folclórico da Casa do Povo de Angeja
Beira Litoral - Baixo Vouga
Rancho Folclórico e Etnográfico de Vale de Açores
Beira Litoral - Baixo Vouga
Grupo de Folclore do Melriçal
Beira Litoral - Gândara, Bairrada e Mondego
Grupo Folclórico Camponeses do Mondego
Beira Litoral - Gândara, Bairrada e Mondego
Grupo Folclórico e Etnográfico de Arzila
Beira Litoral - Gândara, Bairrada e Mondego
Rancho Folclórico e Etnográfico Zagalho e Vale do Conde
Beira Litoral - Gândara, Bairrada e Mondego
Grupo Etnográfico da Região da Lousã - GERL
Beira Litoral - Gândara, Bairrada e Mondego
Grupo Folclórico Danças e Cantares da Ass. Cult. Vilarinho
Beira Litoral - Gândara, Bairrada e Mondego
Rancho Folclórico da Casa do Povo de Espariz
Beira Alta - Serrana
Rancho Folclórico da Casa do Povo de Ponte de Sor
Alentejo
Rancho Folclórico da Casa do Povo de Redondo
Alentejo
Rancho Folclórico da Casa do Povo de Tábua
Beira Alta - Serrana
Rancho Folclórico de Gouveia
Beira Alta - Serrana
Rancho Folclórico de Boidobra
Beira Baixa
Rancho da Região de Leiria
Alta Estremadura
Rancho Folclórico "As Lavadeiras do Vale do Lena"
Alta Estremadura
Rancho Folclórico "As Tecedeiras" de Bidoeira de Cima
Alta Estremadura
Rancho Folclórico "Flores Verde Pinho" do Coimbrão
Alta Estremadura
Rancho Folclórico Alegrias do Campo de Carnide
Alta Estremadura
Rancho Folclórico da Sociedade Recreativa Cabeça Veada
Alta Estremadura
Rancho Folclórico de S. Guilherme
Alta Estremadura
Rancho Folclórico do Penedo
Alta Estremadura
Rancho Folclórico dos Moleanos
Alta Estremadura
Rancho Folclórico dos Soutos da Caranguejeira
Alta Estremadura
Rancho Folclórico Luz dos Candeeiros
Alta Estremadura
Rancho Folclórico Peixeiras da Vieira
Alta Estremadura
Rancho Folclórico Rosas do Lena
Alta Estremadura
Rancho Folclórico da Freguesia de Pussos
Alta Estremadura
Rancho Folclórico de Mira de Aire
Alta Estremadura
Rancho Folclórico e Etnográfico de Casais de Revelhos
Templários
Grupo Folclórico "Os Camponeses" D. Maria
Estremadura Centro - Saloia
Grupo Folclórico "Os Saloios" da Póvoa da Galega
Estremadura Centro - Saloia
Rancho Folclórico "As Lavadeiras" do Sabugo
Estremadura Centro - Saloia
Rancho Folclórico e Etnográfico "Danças e Cantares" da Mugideira
Estremadura Centro - Saloia
Rancho Folclórico São Miguel do Milharado
Estremadura Centro - Saloia

segunda-feira, outubro 22, 2007

Trajo “Arraiano” – Idanha-a-Nova – Beira Baixa

Este trajo é proveniente de uma região fronteiriça, entre Portugal e Espanha, com grandes tradições de contacto, sobretudo comercial. Sendo famosas as histórias do contrabando entre ambos países.
Era usado tanto pelas mulheres solteiras como pelas casadas em determinadas datas festivas.
Fazia também parte deste trajo uma casaca muito cintada, com peitilho de veludo pregueado de cor diferente. As mangas eram justas, com o punho enfeitado com folhos e rendas. Sobre a casaca, usava-se o xaile de caxemira.
Os xailes de caxemira, bordados manualmente a seda, formando motivos florais, e orla guarnecida de franjas de lã, que vinham antigamente de Espanha, foram mais tarde substituídos pelos estampados de Alcobaça.
A mulher usava blusa de algodão branco, abotoada na frente e decorada com rendas ou bordados. Saia de lã, com tons alegres e vivos, pregueada, excepto na frente (saia de barriga lisa) decorada com barras pretas. Sobre a saia, avental preto, decorado com bordados e galões.
Cruzado sobre o peito, um lenço florido com cores vivas, com as pontas caídas sobre as costas. Na cabeça, lenço de lã estampado, cruzado na nuca e atado na testa.
Calça meias rendadas brancas e sapatos ou chinelas.
Adornam as orelhas com argolas de ouro e ao pescoço usam a “coleira” que é a primeira peça de ouro, oferecida pelos pais.
Na imagem todas as mulheres usam um adufe. Trata-se de um instrumento de precursão de forma quadrangular, de armação em madeira e revestido a couro, que acompanha os cantares das mulheres beirãs.
O pequeno filme que se segue é exemplificativo da forma como se toca o adufe, acompanhado, neste caso, uma das canções mais emblemáticas da Beira Baixa, “Senhora do Almurtão”.

Referência Bibliográfica: O Trajo Regional em Portugal, Tomaz Ribas, Difel, 2004
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terça-feira, novembro 06, 2007

O bordado de Castelo Branco – Beira Baixa











Os Bordados Tradicionais de Castelo Branco, antigamente designados por “bordados a frouxo”, caracterizam-se por um desenho muito próprio, identificável quer pelos motivos que utilizam quer pela forma de os desenhar.

A designação de hoje dada aos bordados, “Bordado de Castelo Branco”, foi criado em pleno séc. XX e teve como resultado associar este bordado à região de Castelo Branco. Estes trabalhos são realmente mais abundantes na região da Beira Baixa, no entanto, podemos também encontrar alguns exemplares, ainda que em menor número, em todo o território nacional e mesmo na Estremadura Espanhola.

É possível atribuir os exemplares mais antigos ao séc. XVII.

Parecem ter tido como finalidade, suprir a necessidade de providenciar uma cobertura. A produção caseira, para consumo caseiro, de peças têxteis era o modo de produção normal e quotidiano das populações, a cargo das mulheres. O gosto em ornamentar o têxtil, quer ainda no tear, quer já depois de tecido e mesmo confeccionado, é provavelmente tão antigo quanto a tecelagem. A utilização dessas peças, talvez tenha ocorrido, numa primeira fase, em momentos de festividade e, numa fase posterior, passaram a integrar o quotidiano familiar.

Os Bordados de Castelo Branco sempre tiveram o seu maior expoente nas colchas, possuindo um aspecto simbólico.

As raparigas, em idade de casar, enfeitavam o seu leito com as colchas de grande decoração e policromia junto à janela que dava para a rua onde passaria o rapaz, para que este a visse e, possivelmente, ficasse impressionado e enamorado.

Se por um lado estas peças faziam parte do enxoval das raparigas em idade de casar, elas foram utilizadas num primeiro momento, especialmente em dias de festa, para posteriormente serem elementos que começaram a integrar o quotidiano familiar.

Ao longo dos anos, a arte dos Bordados de Castelo Branco sofreu influências orientais com a inclusão de motivos persas, da Índia e da China, mas também consideráveis influências da Renascença, do Barroco dos brocados e damascos, para além da inventiva popular.

Os motivos bordados possuem uma simbologia muito própria. O pássaro bicéfalo representa Duas Almas Num Corpo Só; as albarradas a Família; as árvores a Vida; os dois pássaros os Desposados; a coroa real o sinal da Autoridade Patriarcal e os encadeados, a cadeia indestrutível do casamento.

Assim, os Cravos alegorizam o Homem; as rosas a Mulher; os lírios a Virgindade; os corações o Amor; as gavinhas a Amizade; a hera a firme Afeição; os jasmins a Virtude; o galo a Virilidade; as romãs e as pinhas a união e a solidariedade indissolúvel da Família; as frangas e os galaripos a Prole bendita e os lagartos, o amuleto da felicidade sempre muito desejada.

Nos nossos dias este trabalho é preservado pela Escola de Bordados Regionais, incorporada no Museu Tavares Proença Júnior, que vê o passado destes bordados como um património de grande importância e o qual deve ser preservado. No entanto, considera que a oficina – escola do museu não deve situar-se apenas num papel de era copista da produção passada, mas deverá ser um ponto de partida para a expressão rústica dos artesãos contemporâneos, caso contrário esse imobilismo poderia provocar a morte lenta desta tradição. Existe ainda a preocupação de não se provocarem rupturas abruptas e sem enquadramento, nos casos das alterações nos pormenores dos desenhos.

Se pensarmos que a capacidade criativa e expressiva dos bordados de Castelo Branco nasceu das antigas bordadeiras, então não poderemos asfixiar a capacidade criativa das bordadeiras contemporâneas.

A actual oficina – escola aposta numa criação de bordados que sejam ao mesmo tempo renovados e de qualidade.

Técnica dos bordados de castelo branco

Os bordados de Castelo Branco são efectuados em tecido de linho com bordados a fio de seda frouxo, isto é, que não foi torcido, com a ajuda de um bastidor circular. Os aros são encontrados em diversos tamanhos e são acolchoados, possuindo um suporte para mesa ou chão.

Estica-se o tecido no bastidor com um guardanapo de papel entre a argola exterior e o bordado, para que o arco não marque o tecido.

O ponto que mais se aplica nos bordados é o cheio frouxo ou “ponto largo”, também designado ponto de Castelo Branco, que mais não é que uma variante do “ponto de oriente” ou da “Hungria” ou de “Bolonha”. Aparece em todos os trabalhos, mas predomina nos de carácter popular acompanhado de outros mais simples. Torna-se económico porque cobre apenas a superfície superior.

A bordadeira enfia a agulha por baixo e estende o fio até à extremidade oposta. Prende o fio e regressa ao ponto de partida. Num movimento de vai e vem, cobre a superfície que deseja bordar.

No avesso ficam apenas os pontarecos que prendem a seda. Terminada esta operação, lança fios paralelos que distam aproximadamente um centímetro dos outros, no sentido perpendicular ao bordado. Estes fios são presos por pontos espaçados de meio centímetro. Denominam-se prisões e aqui uma alusão ao casamento que é a prisão de dois seres que se amam.

Outros pontos mais complexos e alguns de origem oriental, vão enriquecer as colchas híbridas e em especial as eruditas.

Os pontos mais conhecidos são: frouxo, pé de flor, atrás, cadeia, espinha, lançado, lançado espinhado, margarida, recorte simples, recorte contrariado, galo, galo travado, galo com variantes, nó, embutido, fundo, matiz, formiga, asna, coroa, pena, grilhão.

A aplicação dos pontos depende do gosto da bordadeira que procura equilibrá-los de modo a formar uma textura agradável.

Escolhidos os motivos simbólicos que vão preencher o campo e a barra, faz-se o seu desenho em folhas de papel vegetal. Como as colchas são de simetria binária, basta apenas fazer um desenho de um quarto da colcha.

Numa mesa comprida ou no chão estende-se o linho de origem caseira. Antigamente o pano era riscado a tinta, hoje emprega-se o papel químico de preferência amarelo porque deixa marcas suaves.

Seis bordadeiras, três de cada lado, bordam o linho segundo as cores e os pontos escolhidos.

Terminado o bastidor, desmancha-se e enrola-se a parte bordada, ficando a outra livre para se continuar o trabalho. Assim se vai procedendo até ficar pronta.

É novamente estendida sobre uma mesa ou no chão para se verificar se há algum engano que seja preciso corrigir.

Num tear apropriado uma das bordadeiras tece ainda uma franja que é aplicada depois de a colcha ser passada a ferro.

O trabalho fica concluído com a aplicação de um forro de chita.

A colcha dá muito trabalho e as seis bordadeiras demoram um mês ou mais a executar.

Referência Bibliográfica:
Silva, Paulo Fernando Teles de Lemos, Bordados Tradicionais Portugueses, Dissertação de Mestrado em Design e Marketing - Área de Especialização em Têxtil, Universidade do Minho, 2006
Bordado de Castelo Branco. Catálogo de Desenhos. Colchas I,
Museu de Francisco Tavares Proença Júnior, Lisboa, IPM, 1992

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Site recomendado: Fátima Paixão

domingo, fevereiro 03, 2008

Pescadores do Tejo - Ortiga – Beira Baixa


Ortiga é uma freguesia do Concelho de Mação e distrito de Santarém, encontrando-se na confluência de três províncias - Ribatejo, da Beira Baixa e do Alto Alentejo - soube fundir as três culturas e moldá-las com usos e costumes muito próprios, determinados sobretudo pela omnipresença do rio Tejo.

Os trajos desta região não eram muito ricos, já que a terra é pobre e o povo tinha magras posses, havendo no entanto alguma variedade, especialmente no trajo da mulher. A sua confecção é modesta e o corte simples, sóbrio e pouco colorido, apesar de bem cuidado, notando-se os tons escuros a condizer com a paisagem envolvente. De uma maneira geral, as mulheres sabiam costurar e por vezes os trajos que usavam durante muito tempo, iam sofrendo pequenas alterações e adaptações, de forma a serem aproveitados ao máximo, já que as posses eram poucas e não permitiam que se fizessem trajos novos com frequência.

O trajo que vos apresento é o dos Pescadores do rio Tejo, já que este serve de fronteira à freguesia e naturalmente influenciava a forma de viver das suas gentes.

O homem veste camisa de riscado, colete de cotim sem botões, calça de cotim, cinta preta, barrete preto e calça tamancos ou botas grosseiras.

A mulher veste blusa de riscado ou chita, saia de lã ou fazenda, avental de riscado e lenço de merino ou algodão. As saias de baixo eram em flanela ou algodão, calça meias de cordão sem pé e tamancos.

Fonte: Grupo Etnográfico e Folclórico da Liga Regional de Melhoramentos de Ortiga

segunda-feira, novembro 12, 2007

Trajo de Sega ou Ceifa – Refugio – Beira Baixa

Sendo trajes de trabalho estão adaptados às tarefas a que se destinam, práticos, simples e confortáveis.
O trajo masculino é composto por camisa de riscado, com cós e peitilho aberto sobre o peito, manga comprida arregaçada. Calça de cotim azul-escuro e ceroulas de riscado azul-claro, ajustadas nos tornozelos com nastros. Na cabeça, lenço tabaqueiro de algodão vermelho, com pontas laterais sobre as abas do chapéu de feltro preto. Botas de bezerro. Transporta uma manta de retalhos e uma foice.
O traje feminino é constituído por blusa de algodão estampada, gola de bico, ajustada na frente com botões, manga comprida com punho.
Saiote de lã vermelho, debruado com fita preta, resguardado na frente por amplo avental de riscado, com bolso de chapa e refegos na orla. Algibeira de tecido estampado e chave suspensa na cintura. Calça meias de algodão e sapatos de ourelo.
Referência Bibliográfica: O Trajo Regional em Portugal, Tomaz Ribas, Difel, 2004
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domingo, outubro 25, 2015

CAPUCHA DE CASTRO D’AIRE – BEIRA ALTA

Já neste blog publiquei alguns artigos sobre a capucha. Trata-se de uma peça de vestuário para agasalho usada tanto por mulheres como por homens das serranias deste a Beira Baixa a Trás-os-Montes e Minho.
Recentemente juntei à minha coleção esta capucha oriunda das fragas da Serra de Montemuro, concretamente do concelho de Castro D’Aire (atualmente escreve-se Castro Daire), confecionada em burel no início do sec. XX.
Trata-se de uma peça robusta, usada e muito, sendo visível o desgaste da sua utilização recorrente nas tarefas do dia-a-dia, a que se soma a idade e exposição aos elementos a que esteve sujeita. É precisamente essa robustez que lhe conferiu a longevidade e permitiu que chegasse aos nossos dias.
A diferença desta capucha as demais existentes na região é o capelo de forma triangular (p.ex. o da Serra do Caramulo é circular). Neste caso o desgaste do habitual transporte de cargas à cabeça provocou um orifício de cerca de 3 cm de diâmetro, no entanto, para prolongar a vida da capucha, a proprietária cozeu à mão um pedaço de burel do avesso do capelo.
Ficam de seguida as imagens, que valem mais que mil palavras.



Capelo do avesso

Dimensões da capucha

Dimensões do capelo
Outros artigos relacionados:
Capucha do Caramulo; A Capucha; Capucha – Beira Interior; BeiraInterior; Costumes do Minho: Mulher de Castro Laboreiro e o Jangadeiro;

terça-feira, novembro 29, 2011

Xailes usados no início do sec.XX

Não sendo exaustivo, até pela enorme variedade existente, deixo de seguida alguns exemplos de xailes que foram usados no início do sec.XX.


Xaile de Flanela – Em lã cardada, em preto, azul e castanho, xaile popular de agasalho.
Xaile Mescla – Liso em sarja de lã fios de várias cores, xaile popular.
Xaile Africano – Fio cardado fazendo relevos, com predomínio do preto e cinzento, xaile de agasalho.
Xaile Barra de Cetim ou Barrinhas – Xaile de lã fina com barra em ponto de cetim, franja torcida ou franja em cadeia de cor preta, havendo de muitas cores. Xaile popular de todo o país.




Xaile Barra Azul – Liso ou em ponto de sarja, franja em nós, fundo escuro normalmente urdido em castanho e trama em preto, as barras eram em azul muito vivo, xaile popular, característico da zona Centro do país.
Xaile Double – De sarja em lã cardada, face principal em preto e outra de cor diversa, xaile popular de agasalho no nosso país.
Xaile de Cercadura – De lã cardada em ponto de sarja, a barra de fios de borbotos ou argolas, em preto e de cores, xaile popular para senhora de meia-idade.
Xaile Xadrez – Feito em estambre (fio de lã penteada) em seda natural, em xadrez, franja torcida, em preto ou de varias cores, xaile da classe média.




Xaile de Barra de Seda – Corpo em estambre e barra de seda, a barra era formada por vários desenhos representando motivos populares, em preto e de outras cores, xaile de cerimónia da classe média, este xaile também podia ser fabricado em fio de algodão.


Xaile de Seda – xaile em seda lavrada, em preto e de outras cores, xaile de cerimónia da classe média, este xaile também podia ser fabricado em fio de algodão.


Xaile de Argolinha – Em argolinha a urdir, em varias cores, xaile popular domingueiro, era um xaile caro e único vendido a peso, era usado por todo o país e muito na moda na Beira Alta.
Xaile de Argola Liso – Lã cardada a urdir, a tramar fio cardado e argola, em preto, argola pode ser preta ou de várias as cores, xaile popular, muito grosso e pesado, usado nas regiões nortenhas ou na beira-mar.
Xaile Feltrado – De lã cardada; pêlos aveludados lisos, em várias cores, xaile de agasalho, as senhoras usavam-no muito nos serviços caseiros e agrícolas. Trata-se de um xaile de lã, muito industrializado e utilizado por todo o país. Também conhecido por Xaile dos Pirinéus e em Coimbra como xaile “camotex”.


Xaile de Relevo - Lã cardada, muito áspero, duas faces, ambas em preto, ou uma preta e a outra em verde, azul e castanho, xailes populares mais para senhoras de classe média, xaile muito caro, xaile muito usado no norte do país e zonas mais frias. Em Coimbra existe é conhecido por “montanhac”.


Xaile Manta – Lã merina em ponto de tafetá, não tem franjas é de vários tipos de xadrez em preto e branco, xaile domingueiro e de romaria usado mais nas mulheres casadas.
Xaile de Linha – Era urdido com fio na trama em lã cardada ou penteada, em preto, xaile pesado e duro para as raparigas e mulheres de posição média.
Xaile de Sarja – Liso em ponto de sarja, franja torcida, inicialmente, só em preto, depois outras cores e em xadrez, xaile muito popular e vendido por todo o país
Xaile Primavera – Estambre a tramar e seda a urdir, ou de algodão e seda, de franja cadiada muito entrelaçado, em várias cores e desenhos, com predomínio do xadrez em preto e branco, xaile domingueiro das raparigas da zona de Coimbra e Aveiro, normalmente utilizado na primavera, dai o seu nome.
Xaile Tricana – Lã merina estrangeira, franjas de seda muito compridas e entrelaçadas, vários desenhos e várias cores, sobretudo cores garridas, xaile de romaria muito usado na zona centro do nosso país.
Xaile Chinês – Denominação atribuída genericamente aos xaile que reproduzem motivos orientais, sendo estampados ou tecidos.
O xaile estampado normalmente tem como base um xaile de merino. No xaile tecido, os motivos resultam da utilização de fios chinés tanto na teia como na trama. São fios que sofreram diferentes colorações por tinto ou por estampagem.

Xaile Chinês Tecido



Xaile Chinês Estampado



Xaile de Merino – Em estambre de lã estrangeira, preto de cerimónia, muito usado nos casamentos, missa e dias de festa e no luto, xaile caro, usado pelas senhorasde meia-idade.


Xaile Tapete – Em seda natural ou em fio de estambre, muito lavrado, cheio de desenhos e cores representando animais, folhas, flores, frutos, e combinações geométricas, usado pelas senhoras da cidade de classe aburguesada, ou para ornamentação de salas.


Xaile Fantasia – xailes bordados a seda ou cetim sobre tecido de lã, merino ou outra, sobretudo
com motivos florais. Muito utilizados na região riana da Beira Baixa e Alto Alentejo, nomeadamente, Idanha-a-Nova, Alpalhão e Nisa. No Alto Alentejo era utilizado em ocasiões diferentes, conforme o uso da localidade. Em algumas localidades era apenas utilizado no Carnaval, outras, era uma peça de adorno para dias especiais e mesmo complemento do trajo da noiva. Existem ainda xailes de fantasia estampados. Na região centro um dos mias conhecidos é o xaile penas de pavão, por ser esse o motivo da estampa.




Xaile Pêlo de Rato – Xaile em pêlo de seda que faz lembrar o pelo de um rato, muito lustroso, podendo ser liso ou lavrado. Existindo em castanho, preto e cinzento. Franjado comprido de seda torneada.

quarta-feira, junho 27, 2012

Chapéu de Alcains – Castelo Branco – Beira Baixa

Quem, há uma dúzia de anos, atravessasse os campos de Idanha-a-Nova ou percorresse muitas aldeias do distrito de Castelo Branco, notaria que as gentes do povo, os que mourejam de sol a sol, usavam, geralmente, pesados chapéus de lã, de abas largas e copa baixa, os bem conhecidos chapéus de Alcains, do custo de nove vinténs.

Veio a guerra (1914-1918), e o turbilhão de transformações que ela devia operar, os pobres àbeiros quase desapareceram, sendo já hoje muitos raros, mesmo na arraia de Idanha.

- Origem da indústria? Motivo da decadência?

Não se conhece a origem nem a data exacta da instalação do fabrico. Pelo depoimento de pessoas da localidade, creio poder afirmar que ela vem de tempos distantes, e que, não há muito ainda, empregava mais de uma dúzia de industriais.

Porque decaiu então esta indústria, se outras, como o linho, criaram, com a guerra, novos alentos e arregimentaram novas tecedeiras?

Os chapéus de Alcains são feitos exclusivamente de lã, e esta subiu a preços incomportáveis.

Os compradores, gente simples do campo, fugindo à carestia e levados na onda do luxo, começaram a desprezá-los. Os chapéus de lã de Alcains mal puderam, por isso, resistir à concorrência dos de feltro.

- Processo de fabrico?

Os chapéus de Alcains são feitos, como se disse de lã, exclusivamente de lã, comprada na região, que, depois de lavada, escarameada, cardada, em-arcada e bastida, é levada à cabeça (forma de azinho do feitio de uma cabeça).

Na operação de lavagem, não vale falar por ser bem conhecida.

Escaramear consiste em separar e desfazer os aglomerados de lã.

Cardar o mesmo é passar a lã por entre as cardas, - placas de bicos de aço muito afiados e muito juntos. A cardação é feita no burrinho, banco com uma carda fixa onde o cardador se senta e manobra, com as mãos, em movimento regular e continuo, de encontro à caixa fixa, uma carda móvel.

Em-arcar consiste em desfiar ainda mais a lã separando-a bem e tornando-a fofa e leve. A em-arcação é feita com uma vara de madeira, de pouco mais de dois metros, que tem presa às extremidades uma corda em forma de aro, espécie de arco de rabeca. Preso, o arco, ao teto e suspenso sobre uma mesa, o chapeleiro estica a corda, entrelaça nela a lã e fá-la saltar, uma e muitas vezes, até a lã, ficar fofa, muito leve, bem separada e desfiada.

Bastir equivale a empastar ou fazer a papa.

A lã é deitada numa plancha (grande bacia de folha de cobre de 60 a 65 centímetros de diâmetro e 15 de profundidade) e ali embebida em água. Acesa uma fornalha por debaixo da plancha, a lã toma, com o aquecimento e consequente evaporação de água, a forma pastosa.

A pasta é levada para a cabeça, o chapeleiro, passa sobre ele, vezes em conto, o ferro de passar e o chapéu fica assim moldado.

Enxuto, em seguida, ao sol, debruado e forrado com um pobre forro de chita de várias cores, vai para o mercado, e do mercado para as maiores inclemências do calor e do temporal, proteger e abrigar tantos que, de sol a sol, mourejam na conquista do pão de cada dia.

Texto de Jaime Lopes Dias in Tradições e Costumes da Beira

sábado, outubro 27, 2007

Trajo Domingueiro – Malpica do Tejo – Beira Baixo

Este é um traje de festa feminino da 1ª metade do século XX, onde se destaca a camisa com “folhadura e renda larga da moda velha” feita pelas mãos das mulheres.
A camisa é de linho de corte tradicional, isto é, com cabeção e fralda. Decote guarnecido com folhos de renda, caído sobre os ombros. Peitilho abotoado no centro, dec
orado com pregas e bainhas abertas e bainhas abertas. As mangas são largas e pregueadas na parte superior e bordadas junto aos punhos.
O colete de lã vermelho possui um grande decote quadrado e cavas profundas, sendo ajustado na frente com cordão e decorado com gregas de várias cores.

A saia de cima é de castorina vermelha, sem cós, mas com fita na cintura, ornamentada na orla com motivos florais recortados, cercadas de tecido preto, em forma de barra. Avental de sarja preta, com algibeira, decorado na orla com gregas de várias cores.
Na cabeça, lenço de algodão estampado com várias cores atado atrás e laço cor-de-rosa ao pescoço. Calça meias de algodão branco rendadas e sapatos pretos.
Ornamenta-se com argolas de ouro nas orelhas e cordões de ouro ao peito.

Referência Bibliográfica: O Trajo Regional em Portugal, Tomaz Ribas, Difel, 2004
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quinta-feira, janeiro 23, 2014

A Seda é um Mistério


Tradicionalmente a seda era usada nos bordados característicos das colchas da região de Castelo-Branco; nos panos de esquife, que ocultavam o morto que ia a enterrar embrulhado num lençol, constituindo o elemento nobilíssimo do préstito e cujo uso só aqui registamos; nos entremeios de panos e lençóis de linho; e em tecidos, juntamente com linho, para toalhas de variado uso, guardanapos, panos ornamentais, etc.

Em Portugal, a indústria da seda nunca alcançou grande projeção económica. Fradesso da Silveira, em 1869, analisando o panorama da sericicultura, notava que parte da produção do sirgo era vendida para países europeus, fabricantes de seda, designadamente França e Itália, cabendo-nos apenas 14% do trabalho mais laborioso da produção, e àqueles industriais 86% pelo trabalho mais leve da transformação. Os processos de fiação manual comummente usados nas nossas aldeias foram amplamente verberados como “agentes da destruição da seda”. A severidade desta visão não atinge certas situações caracterizadas por modelos de economia familiar específicos, regidos por uma lógica própria, como a que se pode verificar no caso de Maria Teresa Frade. Aqui, a noção quantitativa esbate-se num pano de fundo em que a qualidade e mesmo um sentido estetizante são dominantes.

Em Trás-os-Montes, onde a prática de laboração doméstica teve certa importância, nomeadamente na região de Bragança, Miranda do Douro, Mogadouro e Moncorvo, aproveitavam a seda residual dos casulos que a borboleta furou – os “capelos” –, a anafaia – as “condas” –, e os “maranhos”, que são a parte final dos fios que envolvem o bicho. Esses desperdícios eram fiados à mão, com roca e fuso, obtendo desse modo um fio mais grosseiro, que tingido de várias cores, constituía o elemento decorativo das cobertas de cama, segundo a técnica do repuxado de trama sobre urdidura de linho – o “borboto” ou “felpa” –, as quais atingiram um elevado nível qualitativo, designadamente em Urros, Moncorvo. Na Beira Baixa, contrariamente, não se conhece o aproveitamento desse tipo de seda.

Em Castelo-Branco, a produção tradicional da seda destinava-se, para além de outros materiais têxteis, constituía uma componente indispensável da confeção das colchas decoradas que, ao longo dos séculos, adquiriram uma dimensão emblemática desta região. Tal processo inicia-se com a criação do bicho-da-seda, associada ao cultivo da amoreira que serve de alimento às larvas que produzem a matéria-prima. Na sua dimensão tradicional, a cadeia operatória de produção do fio da seda consiste na extração do fio dos casulos, após a cozedura deste, na dobagem e enovelamento do fio.
A produção da seda inicia-se com os cuidados prestados aos bichos-da-seda para assegurar a sua alimentação e reprodução. O ciclo reprodutivo destes inicia-se logo após a conclusão da sua metamorfose, que ocorre dentro dos casulos, de larvas em borboletas, entregando-se machos e fêmeas de imediato ao ato reprodutivo. Este corresponde a um período curto, cerca de três dias, caracterizado pela excitação da sedução, fecundação, ovulação, perda de vitalidade e morte. As fêmeas produzem cerca de 300 ovos cada. A semente que daí resulta é colocada numa caixa de papelão, forrada de papel branco no fundo, e guardada numa divisão da casa que regista de Inverno as temperaturas mais altas. De meados de Março em diante os ovos são objeto de uma observação atenta, diária. Quando se dá a eclosão, as minúsculas larvas são colocadas em tabuleiros, juntamente com folhas de amoreira muito tenras, para seu alimento. Seguidamente, esses bichos são dispostos em outros tabuleiros, numa distribuição que atende ao grau do seu desenvolvimento. Em geral são usados os tabuleiros de tender o pão, com o fundo forrado de jornais.

O bicho-da-seda alimenta-se exclusivamente de folhas de amoreira, que são colhidas diariamente por Maria Teresa Frade. O bicho-da-seda tem um ciclo de vida de cerca de 30 / 40 dias assinalado por quatro mudas de pele. A qualidade e abundância alimentar pode encurtar esse período. Quando pequenos, são-lhes dadas folhas duas vezes por dia, aumentando esse número à medida do seu crescimento. A limpeza das camas é feita duas a três vezes por semana.

A intimidade de Maria Teresa Frade com as lagartas permite-lhe saber, sobretudo através da cor, quanto está iminente a feitura dos casulos. Na previsão desse passo, recolhe num pinhal pequenos ramos, selecionando aqueles que têm uma caruma mais miúda e rala. Os ramos de pinheiro são então colocados num dos lados dos tabuleiros, encostados à parede, e rapidamente os bichos se apropriam deles, começando a fazer os casulos, que ficam completos ao fim de três dias, atingindo o estado de crisálida passados cinco dias e o de adulto cerca de dez a quinze dias depois. O período final desta fase exige redobrada atenção de modo a evitar a eclosão, que destruiria a seda. Os casulos são retirados dos ramos, selecionam-se os machos (casulos mais bicudos), e as fêmeas (mais redondos), para reprodução, a semente, e os restantes são expostos ao sol, sobre um lençol, para matar a borboleta com o calor.

 
Na sequência da cadeia operatória, Maria Teresa Frade procede à recolha e arranjo de ramos de carqueja. Os casulos são limpos à mão retirando-lhes a anafaia.

Ferve-se água num caldeiro e lança-se nele uma quantidade de casulos equivalente à capacidade de uma bacia dos velhos lavatórios, mantendo-os a ferver durante dois ou três minutos. O caldeiro é retirado da fogueira e levado para dentro do palheiro onde teve lugar a criação do bicho-da-seda e decorre a operação da fiação. Esta exige a participação de duas pessoas.





 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Para o efeito deverá servir-se de um argadilho, colocado ao lado do caldeiro, num plano superior, e no qual se vão enrolando os fios da seda, captados pela outra auxiliar, com a ajuda de um ramo de carqueja, em maior ou menor número, conforme a grossura desejada do fio final. É uma tarefa que exige grande subtileza, operando apenas no núcleo de casulos que sustentam o fio, refazendo-o à medida da gradual progressão do trabalho. O comprimento do fio de cada casulo chega a atingir mil metros. Para a tecelagem o fio é mais grosso; para o bordado é mais fino.



Antes de se retirar a meada do argadilho esta é devidamente atada e depois posta a secar ao ar livre. Para que a seda perca uma certa rigidez, a meada é metida numa panela com água a ferver, juntamente com uma quantidade de sabão equivalente ao seu peso, perdendo a tonalidade amarela, que volta a retomar após várias córas.


Em outros tempos, Maria Teresa Frade vendia muita seda para bordados. Hoje, toda a produção é aplicada na tecelagem, especialmente em toalhas de linho. Para o efeito, a meada é dobada em novelos e, quando se procede à urdidura da teia de linho, intercalam-se séries de fios de seda, que sobressaem em barras longitudinais, que outras similares da trama cruzam, conforme o padrão decorativo imaginado. A teia, após a urdidura, é montada no tear. Neste género de tecido – “montagem com crivo” – usam-se três liços que se manejam de acordo com o remetido nos liços e as configurações da textura que se pretende obter.
 

O processo de transmissão de competências e técnicas tradicionais associadas à produção e transformação da seda era realizado intergeracionalmente, através da aprendizagem informal e exclusivamente com recurso à oralidade.

Maria Teresa Frade é natural da aldeia da Silvosa no Concelho de Oleiros. A atividade profissional do seu marido, obrigo Maria Teresa Frade a viver na cidade de Castelo Branco, onde construiu no quintal da nova casa citadina um pequeno e elementar edifício, onde instalou os equipamentos necessários para se poder dedicar à prática da tecelagem manual, que fora ao longo da sua vida de solteira, uma das grandes paixões.

Logo que as condições económicas o consentiram, o casal adquiriu uma parcela de terreno na periferia da cidade, modelando-o rapidamente a seu gosto, mercê dum saber empírico profundo, desenvolvendo um micro espaço agrário extremamente diversificado. Quando passou a residir em Castelo Branco plantou três dessas árvores, de modo a assegurar a produção da seda necessária à atividade da tecelagem. Em outros tempos vendia seda para bordados, mas mais recentemente a produção foi aplicada na tecelagem, especialmente em toalhas de linho.


O presente artigo foi elaborado a partir do texto A seda é um mistério, da autoria de Benjamim Pereira, editado na brochura que acompanha a edição em VHS do filme homónimo realizado por Catarina Alves Costa em 2003.
Para além do registo de conhecimentos e de saber-fazer multisecular, de que Maria Teresa Frade era na região uma das últimas detentoras no momento desta investigação, é também a sua voz que aí ecoa e foram as suas próprias palavras (“A seda é um mistério…”) que resultaram no título dos documentos finais.

A Seda é um Mistério (2003)
Realizadora: Catarina Alves Costa
Copyright: © Laranja Azul / IMC, IP.

Imagens: Catarina Alves Costa
Fonte: MatrizPCI

terça-feira, dezembro 29, 2009

Mulher da cidade do Porto


A gravura é baseada em relato de viagem anterior a 1844: trajo citadino de arruar, predominando o preto da saia e do amplo manto de merino que recobre a cabeça e descai quase até à meia perna. Este manto parece constituir uma variante do modelo que então se usava na Ilha Terceira, Beira Baixa (Monsanto), alguns povoados do Alentejo e no sul de Espanha. A versão portuense não comporta entretela na zona da cabeça e não aperta na linha da cintura.

Fonte: http://virtualandmemories.blogspot.com/
Assuntos relacionados neste blog: Côca, Biuco e Capelo

quinta-feira, julho 26, 2007

Trajos da Eira – Boidobra – Beira Baixa

Estamos perante trajos de Verão, usados aquando da limpeza do cereal na eira. Os tecidos são simples e frescos, cobrindo todo o corpo, evitando que o pó entre em contacto com a pelo, causando irritações desagradáveis.
A mulher no trabalho da eira usa blusa de algodão riscado, com pequena gola em banda, abotoada à frente com botões, manga comprida com punho. Saia de tecido de algodão vermelho, franzida na cintura e protegida na frente por um avental comprido de algodão estampado, com bolsos.
Na cabeça usa um lenço de algodão estampado, com as pontas laterais atadas sobre o chapéu de palha de abas largas, calça socos com rasto de pau. São instrumentos de trabalho a pá e o forcado.

O homem veste camisa de algodão de manga comprida, ou, por vezes, apenas a camisola interior de malha. Veste calças de cotim em tons de azul, ajustadas na cintura pela faixa preta. Por debaixo das calças, veste ceroulas de tecido de algodão, ajustadas junto aos tornozelos com fita de nastro. Na cabeça, para proteger do impiedoso sol de Verão, chapéu de palha de aba larga e ao pescoço lenço tabaqueiro, que lembra a necessidade de limpar o suor do rosto durante o trabalho árduo.
Calça socas sem meias. Como instrumento de trabalho usa o malho e para aplacar a sede traz presa à cinta uma cabaça.

Fonte: Ribas, T., O Trajo Regional em Portugal, Difel, 2004

Artigos relacionados: Encontrão 2007

quarta-feira, dezembro 17, 2014

Mitificação e paisagem simbólica: o caso do Estado Novo

Por Joaquim Sampaio

Resumo
A paisagem resulta de um processo complexo de forças onde se reconfiguram elementos visíveis mais ou menos imediatos, aos quais se associam construções simbólicas que intervêm na sua estrutura, permitindo compreendê-la com outra profundidade. No caso do Estado Novo, o papel de António Ferro, à frente do SPN/SNI, foi determinante para a construção de representações territoriais a partir de políticas folcloristas baseadas em ideais românticos e nacionalistas construídos desde finais do século XIX, nomeadamente no conceito de Casa Portuguesa, que se refletiu em iniciativas como o Concurso da Aldeia Mais Portuguesa de Portugal, uma das realizações apoteóticas daquele estadista. A visão ruralista e folclorista do regime salazarista e de António Ferro cristalizou imagens de um Portugal atemporal de paisagens estetizadas e de camponeses transformados em jardineiros da paisagem.

Quatro décadas de governação do Estado Novo produziram marcas profundas na sociedade portuguesa e, consequentemente, na mitificação e construção de paisagens. Dessa governação, interessa-nos abordar, particularmente, o papel folclorista do Secretariado de Propaganda Nacional – SPN – criado em 1933, que viria a tomar a designação de Secretariado Nacional de Informação, Cultura Popular e Turismo – SNI – em 1945. À frente deste organismo esteve António Ferro, figura emblemática e incontornável da época, que em 1932 sugeriu a Salazar que criasse um organismo responsável pela propaganda do regime, capaz de promover a «Política do Espírito» (Ó, 1999), fomentando políticas culturais de acordo com os interesses ideológicos do governo. É neste sentido que iremos ver que António Ferro surge como doutrinador do regime durante os anos 30 e 40, deixando as suas impressões na geografia deste país.
Salazar manteve Portugal à margem da modernização, numa ruralidade que garantisse a serenidade social, assentando na trilogia Deus-Pátria-Família. O povo camponês continuava nas suas tradições seculares, longe da escolarização e do desenvolvimento económico, compondo as paisagens de sempre de Silva Porto ou de José Malhoa, mergulhado na sua religiosidade, na sua pobreza, sob protecção do ditador que prometia defendê-los da decadência, promover a decência, a moral pública e o puritanismo conservador, tornando Portugal num país de subservientes e de provincianos, como refere Fernando Pessoa em O Caso Mental Português, em 1932, onde nem as elites são suficientemente formadas, acusando uma ausência de atitude crítica. A completar o atavismo português, a população urbana também foi mantida longe das inovações estrangeiras, da forte industrialização e modernização que constituíram “os trinta gloriosos” em países como, por exemplo, a França.(...)

O projecto ideológico do Estado Novo apresentava um regime totalitário que assumiu a propaganda política para afirmar a «nova ordem», recorrendo à «essencialidade portuguesa», atemporal porque a assumiu como se existisse desde sempre, fazendo evidenciar valores e características culturais populares que «não colocassem dúvidas» quanto à sua origem de uma portugalidade geneticamente «comprovada», serenando os espíritos críticos e apaziguando dúvidas, procedendo «quer à revisão purificadora e autolegitimadora da memória histórica, quer à fabricação de um conceito integrador e unificador de “cultura portuguesa”, de raiz nacional-etnográfica», que passaria pela «reeducação» dos portugueses,garantindo «uma nação regenerada e reencontrada consigo própria, com a essência eterna e com o seu destino providencial» (Rosas, 2001).
Desse projecto fazia parte o que Fernando Rosas designa por «mito da ruralidade» (Idem), um Portugal tradicional cuja economia era essencialmente agrícola mas, mais do que isso, era um «estado de espírito», um estilo de vida que pretendia evidenciar as suas virtudes e se apresentava como a «verdadeira» identidade nacional, a força da «raça portuguesa», a nobreza do seu temperamento na sua vocação de país pobre mas honrado, vivendo numa mediocridade sem ambições, já que na dominação do Cardeal Cerejeira, forte aliado de Salazar, o contrário seria grande pecado. Daí que a propaganda do regime fizesse passar a ideia de um povo sereno, respeitador, alegre e feliz na harmonia dirigida por um paternalismo infantilizador.

As virtudes do «português» precisavam de ser valorizadas, recuperadas e revividas, às quais o aparelho do Estado procedeu a grande investimento. Dos vários organismos que tinham a missão de trabalhar essas virtudes, podem ser destacadas a Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho – FNAT – criada em 1935, a Legião Portuguesa, fundada no ano seguinte, e a Junta Central das Casas do Povo –JCCP–, cujos objectivos se orientavam para a doutrinação do povo, para a manipulação ideológica através do «bom gosto», da «cultura popular» e do «carácter do povo português», para encenações que resultavam numa cultura do espectáculo.

De todo o aparelho do Estado, o SPN/SNI surgiu como o organismo responsável pela estetização do país, pela criação de mitos, pela «invenção» de paisagens, resultado da ideologia do regime salazarista e do desenvolvimento e concretização de ideias de António Ferro, autor da «Política do Espírito» e da folclorização de Portugal, retomando conceitos que foram desenvolvidos desde finais do século XIX, relacionados com o romantismo e o nacionalismo, entre os quais o de casa portuguesa.

O SPN/SNI deu visibilidade a aldeias, monumentos, etnografias, criou postais ilustrados da vida portuguesa bucólica, pitoresca, sublime, criou imaginários de paisagens, eternizando-as, mitificando-as, purificando-as, tornando-as inocentes, fundando-as enquanto natureza e eternidade, dando-lhes uma clareza que não é a da explicação, mas a da constatação (cf. Barthes, 2007). (...)

A mitificação encontra-se associada à construção de paisagens simbólicas. Elas deixam de ser paisagens «anónimas» para surgirem com conotações, cheias de significados e significações2. (...)

·         1. O mito da Casa Portuguesa
Os processos de objectificação da cultura popular portuguesa constituíram um dos aspectos centrais do discurso nacionalista do Estado Novo, sobrelevando determinadas características, do que supostamente seria verdadeiramente português, genuíno, original, conduzindo ao «reaportuguesar» da cultura nacional, tendo como referência as fundações da nacionalidade. O tema em volta da casa portuguesa é um bom exemplo de como a paisagem é objecto de instrumenta

Há uma vasta investigação sobre a temática dos mitos. (...)
Desde finais do século XIX que se criou um movimento na defesa da existência de uma habitação popular portuguesa (França, 1990; Leal, 2000), do qual se destacou Raul Lino (1879-1974), que viria a ser o seu maior conceptualizador e divulgador, procurando a institucionalização da casa portuguesa.
(...)
Referindo com frequência o «bom gôsto», contrariando a «decadência do sentimento artístico», e o «péssimo gosto [de] usar cousas fingidas quando se não podem ter as verdadeiras» (Idem), para sustentar as ideias da casa portuguesa, A Nossa Casa identifica-se com o «encanto produzido por essas boas casas portuguesas de há meio século atrás», apresentando-se como «casitas sorridentes, sempre alegres na sua variada caiação», com a «lhaneza das suas portas largas e convidativas, a linha doce dos seus telhados de beira saliente com os cantos graciosamente revirados, o aspecto conciliador dos seus alpendres, as trepadeiras garridas respirando suficiência» e as suas «chaminés hospitaleiras e fartas» (Idem), defendendo o que é supostamente português, usando materiais de produção (industrial ou artesanal) portuguesa, em simbiose com a natureza e com as «nossas tradições» para não desarmonizarem «no meio da nossa paisagem».

A insistência do «bom gosto», omnipresente em toda a obra, rejeitava qualquer forma de construção estrangeirada, em alusões directas ou indirectas ao chalet e a outras formas de construção que se afastassem do receituário de casa portuguesa proposto pelo autor. Os «apontamentos», tanto de A nossa Casa como de Casas Portuguesas, foram escritos para educar os gostos dos portugueses, mas não os «simples», os pobres. Quando Raul Lino referia que «construir é educar», pensava em primeiro lugar nos arquitectos e nos que se encontravam associados à construção, mestres-de-obras, mas também à burguesia e às elites portuguesas.
A educação do «bom gosto» encontrava-se sempre associada à ornamentação, ao asseio, ao «temperamento romântico», à alegria, como se Portugal fosse um país onde não existisse miséria, casas populares decadentes, e onde não houvesse enorme variedade construtiva, desde as cabanas e palheiros a casas sem condições mínimas de habitabilidade.

A casa portuguesa, um conceito que perdurou durante décadas, foi posto em causa com a publicação dos dois primeiros volumes do Inquérito à Habitação Rural, em 1943, realizado pelos engenheiros do Instituto Superior de Agronomia, onde se mostrava que as condições de habitação não eram o «ninho» nem a «casa dos simples» de Raul Lino. Havia, antes, más construções por Portugal fora e condições de vida difíceis [as aldeias embora situadas numa] paisagem rica de tons verdes e frescura de água […] constituem conjuntos de aspecto pobre, senão miserável. […] Retalhados de caminhos de piso irregular, encharcados de águas […], atravancados de lenhas e estrumes – passeio de homens e animais e recreio de crianças sujas, piolhosas e assustadiças que precocemente saem do berço, a gatinhar, para acompanhar porcos e galinhas – estes aglomerados populacionais oferecem o espectáculo de quase todas as condições de que os homens se rodeavam em tempos primitivos.

A obra de Raul Lino, nomeadamente A Nossa Casa e, mais tarde, Casas Portuguesas, associada a um discurso harmonioso, tradicional, nacionalista e atemporal, interessou ao Estado Novo, pelo menos numa primeira fase fascizante, em que Salazar teve necessidade de encontrar discursos conciliadores de vários sectores da sociedade com o do seu regime totalitarista, sendo necessário lutar contra a «desnacionalização» e incentivando o «reaportuguesamento» tal como vimos anteriormente, coadunando-se perfeitamente com as políticas desenvolvidas pelo SPN/SNI, nomeadamente com a realização do concurso da Aldeia Mais Portuguesa de Portugal.

·         2. A Política folclorista do SPN/SNI
O regime salazarista procurou controlar os vários sectores da sociedade portuguesa através de um aparelho de Estado forte e com um discurso que reproduzia o modelo defendido pelo chefe do governo.
 
Tal como vimos, o SPN surgiu por sugestão de António Ferro a Salazar, constituindo-se como o organismo responsável pela transmissão da boa imagem do regime e de Portugal. O seu papel era, assim, propagandista, servindo-se da rádio, do cinema e da imprensa escrita para divulgar as suas ideias, mas as suas acções foram mais longe, promovendo exposições, encenando festas populares e cortejos, apostando num modelo estético ruralista e conservador, promovendo o «bom gosto» e a «Política do Espírito», desenvolvendo «desde a Beleza moral à Beleza plástica», controlando a política cultural do governo através da estrutura que António Ferro dirigia.
 
A criação do SPN estava directamente vocacionada para duas missões. Uma, de índole cultural, deveria promover as condições necessárias ao estudo dos usos e costumes de Portugal, mergulhando nas tradições do povo, preservando-as e divulgando-as. A segunda, claramente propagandística, assumindo um papel doutrinador, foi servir-se da cultura popular para educar o gosto dos portugueses segundo os valores estéticos do regime e para controlar as massas.
 
A doutrinação do SPN/SNI estava presente em muitos dos discursos de António Ferro e nas mensagens associadas à realização de espectáculos, exposições e outras iniciativas. Em 1933, afirmava este estadista: «convenceremos assim o povo, a pouco e pouco, de que pensamos nele, de que a sua felicidade e o seu bem-estar constituem uma das nossas maiores prioridades» (citado por Alves, 2007a).
 
A felicidade e o bem-estar do povo, sabemos hoje em que resultaram. As preocupações de Ferro traduziram-se mais numa política folclorista da cultura popular, encenando quadros da vida rural, ignorando e omitindo as condições de vida difíceis em que os camponeses vivam, cristalizando momentos fotográficos da estética da cultura portuguesa de acordo com a ideologia política do regime, tendo em vista transmitir uma imagem de nação pacífica, harmoniosa e com identidade própria. A doutrinação folclorista e ruralista do SPN/SNI divulgava paisagens campesinas bucólicas, rústicas e «puras», longe da modernização, fosse dos camiões da coca-cola, como vimos, ou de outros símbolos, mantendo os seus traços tradicionais e populares que ao olhar do citadino representavam o país verdadeiramente genuíno, exigindo a sua preservação e garante do que seria a identidade nacional.

Nota- A propósito de como a estrutura do Secretariado de Propaganda Nacional se complexificou com a sua passagem a Secretariado Nacional de Informação, Cultura Popular e Turismo, ver Paulo, 1994.
 
Tal como nas tendências culturais de finais do século XIX, o SPN/SNI associava a cultura popular a ruralidade, da qual, apesar de observada no presente, eram procuradas as suas origens, a sua «autenticidade», e, enquanto testemunho do passado, se tentava preservar antes que desaparecesse, celebrando-se as excelências das tradições populares (Leal, 2000). Contudo, tal como demonstra Vera Alves, apesar do trabalho dos investigadores e colaboradores do SPN/SNI, os estudos da cultura popular de matriz rural vão recuperar o conhecimento desenvolvido desde finais de Oitocentos até ao Estado Novo (Alves, 2007a), passando pelo Museu Etnográfico Português, criado em 1893, ou pelos trabalhos desenvolvidos por Rocha Peixoto, Leite de Vasconcelos, entre outros. É na «ingénua» moldura do barro, nas cantigas sem influências externas, nas tradições intactas e genuínas do povo, na sua pureza e alegria que o SPN/SNI procura encontrar o Portugal autêntico ao percorrer as recônditas aldeias de Portugal, com as suas paisagens rurais de «postais ilustrados» descritos nos Guias de Portugal publicados nos séculos XIX e XX.
 
Mas nem sempre as paisagens recônditas e genuinamente populares convinham àquele organismo. Os critérios para selecção de aldeias para o Concurso da Aldeia Mais Portuguesa de Portugal levantam muitas dúvidas, assim como a eleição de símbolos da arte popular para mostrar em Lisboa e noutras cidades do país ou do estrangeiro. No primeiro caso, por exemplo, as aldeias a concurso da província de Trás-os-Montes, Alturas do Barroso e Lamas de Olo, «teriam sido postas de parte devido às difíceis condições de acesso e a um “reconhecido primitivismo, que a nenhuma dava possibilidades de vitória (vitória que implicava sempre a recomendação feita a nacionais e estrangeiros de visitarem de futuro essa aldeia, como a mais portuguesa de Portugal)”» (Alves, 2007a). No segundo caso, a selecção era feita segundo critérios de impacte visual – como é o caso do efeito decorativo do galo de Barcelos, transformado num ícone da portugalidade – e pelo gosto estético de António Ferro e dos seus colaboradores, sendo rejeitados se considerados «desprovidos de qualidades estéticas» (Idem).

Nota: António Ferro deu visibilidade à visão bucólica e idílica dos Guias de Portugal, «um paiz cuja formosura, doçura de clima, e bonhomia dos seus habitantes, é digno de ser conhecido, e quiçá mais do que é, para que os estranhos o avaliem» (F. J. Almeida, 1880, Guia de Portugal. Lisboa: Typographia da Casa de Inglaterra. Citado por Pires, 2001).
A acção influenciadora do SPN/SNI reflectiu-se nos vários domínios da cultura popular portuguesa. Tendo como pressuposto a defesa da «tradição», controlava a arte popular. Na encomenda de peças para as várias iniciativas em várias cidades ou para o Museu de Arte Popular, eram rejeitadas peças que não fossem «genuinamente populares», quer porque apresentavam imagens «renovadas» quer porque a sua confecção recorria a produção não tradicional, nomeadamente a formas de «configuração industrializada» ou a «fantasias modernas», ou eram sugeridas modificações, como aconteceu na encomenda de um Tabuleiro de Tomar feita por Francisco Lage para o Museu de Arte Popular quando referia que «com esta decoração uniforme azul […], o tabuleiro resulta frio não sendo possível a sua valorização na sala a que estava destinado» (citado por Alves, 2007a).
 
O «genuinamente popular» gozou de estatuto especial e encontrou no SPN/SNI um trampolim para a visibilidade nacional e internacional, como é o caso dos tapetes de Arraiolos, que já antes tinham sido «objecto de uma intensa campanha organizada pela revista Terra Portuguesa que conduziu à revitalização de uma tradição que parecia encontrar-se então praticamente moribunda» (Leal, 2000). A reinvenção de tradições não se aplicou somente aos tapetes de Arraiolos mas também a outros casos que se enquadrassem na política folclorista de «bom gosto» do SPN/SNI.
 
Da acção deste organismo resultou a valorização de instrumentos de trabalho agrícola, da exploração do pormenor das peças, da miniaturização e do que deveria ser considerado «arte popular portuguesa». Como só lhe interessavam objectos de apreciável «beleza», capazes de cativarem os olhares dos visitantes das exposições e dos desfiles e de permitirem a construção de imagens associadas a paisagens idílicas e bucólicas, foram criados mitos que ainda hoje perduram, nomeadamente a visão romântica do mundo rural, quando na verdade existiam camponeses pobres, analfabetos e miseráveis que o Estado Novo quis esconder do mundo. A visão do «camponês esteta» e do camponês poeta (Alves, 2007a; 2007b), artista das maravilhas da arte popular portuguesa expostas no país e no estrangeiro, era um simulacro. Uma encenação conduzida por António Ferro e pelos seus colaboradores que determinavam os perfis dos actores e davam orientações precisas para os ensaios dos eventos e para a aquisição de peças de arte popular.
 
A estetização do camponês e do mundo rural levada a cabo pelo Estado Novo correspondia à imagem que António Ferro pretendia dar de Portugal através da sua «Política do Espírito» para que os visitantes das paisagens «genuínas» de Portugal pudessem apreciar uma ruralidade pacífica de agricultores transformados em jardineiros da paisagem. Essa ideia torna-se clara na propaganda veiculada pelas informações do SPN/SNI, nomeadamente pela Revista Panorama, Revista Portuguesa de Arte e Turismo, na qual aquele organismo publicava as ideias e imagens que o regime pretendia fazer passar para a opinião pública, em especial para a população urbana, sobretudo, para os estratos sociais mais elevados.
 
Essas imagens transportavam, como se sabe, uma forte carga sociopolítica, condicionando a forma como os visitantes viam as paisagens de Portugal, herdeiros de uma tradição oitocentista e de início do século XX. As paisagens descritas pelo regime correspondiam a um discurso que pode ser encontrado nos vários Guias de Portugal, de um país de belezas singulares que mereciam ser visitadas. Na apresentação de imagens turísticas de Portugal, publicadas na Cartilha da Terra Portuguesa, em 1950, António Ferro sublinha os seus «valores históricos paisagísticos e pitorescos» (citado por Pires, 2001):
Há muito que se fazia sentir a necessidade duma brochura prática, manejável, de algibeira, em que os turistas nacionais e estrangeiros se pudessem aperceber, rapidamente, do essencial da terra que visitam, entre dois comboios ou numa paragem curta de automóvel: os seus mais belos panoramas, monumentos principais, festas típicas, hotéis ou pousadas, as próprias especialidades culinárias. […] Consulte-se, portanto a «Cartilha da Terra Portuguesa» como se consulta um ficheiro que nos indica modestamente os dados essenciais do problema que desejamos tratar ou até as próprias fontes onde devemos beber. Seja como for, esta edição singela do Secretariado será, doravante, uma obra indispensável, de iniciação, para todos os devotos da nossa Pátria, o catecismo da sua Beleza.
 
O desfasamento entre o discurso oficial e a realidade era enorme. A «poesia dos simples» e do «camponês esteta» era desmoronada pelo campónio com os seus trajes andrajosos e caras de esfomeados. Ao contrário dos rasgados elogios às paisagens portuguesas e à arte popular portuguesa, como por exemplo à saia do trajo de Afife, que «é na verdade, uma saia de belíssimo efeito, onde se afirma um raro bom gosto aldeão!», ou sobre a indumentária de Santa Marta de Portuzelo, que é um «deslumbramento de coloração, uma verdadeira romaria de cores», e ao país folclorista de sardinheiras floridas nas janelas e nas soleiras das portas, num quadro romântico pintado por Raul Lino, aparecia o Portugal fora das actuações dos pauliteiros de Miranda no Albert Hall, longe das exposições e das comitivas que o percorriam, tal como Unamuno escrevia (citado por Alves, 2007a):
 
Vimos e oímos […] en Lisboa, en Braga, en Viana do Castelo, en Aveiro, coros populares de canto y baile, con típicos trajes comarcales, ricos de colorido y traza; coros con el cometido de mostrarnos la decretada alegría en el trabajo, el contento con el reparto de la pobreza; pero nada me habló más ni mejor que el no preparado concurso de pescadores humildes de la playa de Nazaret. Donde alguno se nos acercó a pedirnos una “esmolinha – una limosnita –, y como se la diéramos en calderilla española, nos dijo en castellano: “Muchas Gracias”.
 
O SPN/SNI não inventou o galo de Barcelos nem o tapete de Arraiolos mas soube aproveitá-los bem para as suas encenações e produções espectaculares de um Portugal de paisagens deslumbrantes.

·         3. A Aldeia Mais Portuguesa de Portugal
O Concurso da Aldeia Mais Portuguesa de Portugal, realizado em 1938, pretendia levar mais longe o poder de encenação do regime salazarista. As exposições nacionais e internacionais já não eram suficientes, era necessário viver a encenação na própria realidade, na própria paisagem, mostrando a identidade de Portugal, servindo de teatro às tradições populares. O evento foi notícia repetidamente, dando consagração absoluta a António Ferro e ao SPN/SNI.
 
 
Depois de um trabalho de selecção em cada província, entraram em competição doze povoações: Bucos e Vila Chã (Minho); Manhouce e Cambra (Beira Alta); Monsanto e Paúl (Beira Baixa); Azinhaga (Ribatejo); Almalaguez (Beira Litoral); Boassas (Douro Litoral); Nossa Senhora da Orada (Alto Alentejo); Peroguarda (Baixo Alentejo); e Alte (Algarve). As províncias de Trás-os-Montes e Estremadura ficaram de fora. Feita a selecção, em 18 de Setembro de 1938, um júri nacional começou a percorrer o país para visitar as aldeias concorrentes para eleger a «aldeia mais portuguesa». António Ferro presidia o júri constituído pela sua esposa – Fernanda de Castro –, pelo jornalista Gustavo Matos Sequeira, pelo musicólogo e folclorista Armando Leça, pelos etnógrafos Luís Chaves e Cardoso Marta e por Augusto Pinto. O júri era acompanhado por uma brigada fotográfica e cinematográfica e por repórteres nacionais e estrangeiros (Alves, 2007a). A campanha de «bom gosto» tinha chegado às aldeias portuguesas, agora transformadas em cenários-paisagem do que deveriam ser todas as aldeias, modelo estético que mudaria as paisagens de Portugal, e aí talvez o país ficasse um «jardim à beira-mar plantado».
 
 
Nas aldeias transformadas em cenários-paisagem, António Ferro e a sua comitiva poderiam apreciar a «arte do povo», essa «arte que pode considerar-se a linguagem espontânea, harmoniosa, das suas mãos», o que na realidade não correspondia à verdade, como se sabe, porque as encenações do SPN/SNI de espontâneo teriam muito pouco. Das aldeias visitadas, Monsanto foi aquela que parece ter impressionado mais os visitantes com a sua rusticidade e tipicidade, tornando-se, a partir de então, num símbolo da nacionalidade, tendo nascido mais um mito territorial que António Ferro anunciaria claramente em 1947: «mais uma terra maravilhosa, fisionomia desconhecida, ou quase desconhecida, dos portugueses que já a procuram e apontam, carinhosamente, no mapa do seu país, onde passou a existir uma luz mais» (citado por Alves, 2007a).
 
A ideia de percorrer o país e de mostrar a beleza das suas paisagens com o Concurso da Aldeia Mais Portuguesa de Portugal revela a visão propagandística de António Ferro pretender uma intenção turística, como se pode constatar no discurso que proferiu na gala da entrega do prémio Galo de Prata a Monsanto: (citado por Alves, 1997):
 
Monsanto ganhou o galardão porque traduziria uma realidade atemporal, preparada para receber os visitantes, encenando-se até ao pormenor, transformada num espectáculo de uma paisagem que ilustraria o melhor da raça portuguesa, sintetizando na sua graça a alegria e a cor deste povo esteta num quadro hiper-realista, já que todas as virtudes ali estariam representadas. Esta aldeia, nascida das rochas, enchia os olhos e a alma de turistas e de quem a visitava, como foi o caso de Cardoso Mata:
 
Os estereótipos estavam inventados: a noiva minhota, a tricana coimbrã, o galo de Barcelos, as filigranas, os pauliteiros de Miranda… e Monsanto, como a «aldeia mais portuguesa», modelo de tradição e bom gosto. Para além de reduzir o popular ao rural, segundo uma idealização estética do camponês transformado em jardineiro da paisagem, António Ferro pretendia «aportuguesar» as paisagens de Portugal, mesmo que isso significasse ignorar a realidade do país e as respectivas estruturas sociais.
 
 
A procura do «genuíno», a sobrevalorização do impacte visual dos objectos e a imagem atemporal da realidade fizeram do Concurso da Aldeia Mais Portuguesa de Portugal um dos pontos mais altos da política de estetização do regime, mesmo que a «maravilhosa intuição artística» do povo português resultasse de ensaios e encenações, como aconteceu em Monsanto.
 
Vejamos uma notícia de um jornal da época (citado por Alves, 2007a):
 
Logo a seguir começou o trabalho árduo, ininterrupto, aqui em Monsanto, para em tão pouco tempo se preparar tudo quanto era preciso, para um espectáculo de tamanha categoria. Estava em jogo o brio nacional pois que para o espectáculo estava convidado o Corpo Diplomático […].
Assim, depois de escolhidos os componentes dos diversos grupos e seus respetivos dirigentes, deu-se início aos trabalhos e arranjos de indumentária e pertences. […].
 
 
Sales Viana, perdendo noites sobre noites, teimando sempre, vai e volta a Monsanto, cuidando de tudo, não esquecendo dos mínimos pormenores, ralhando aqui, elogiando acolá, acarinhando os mais tímidos e entusiasmando os que às vezes, mostravam desânimo.
 
Afinal, a arte popular estava nas mãos dos artistas do SPN/SNI. Pintores, encenadores, etnógrafos e fotógrafos faziam parte da equipa de campanha estética e de educação do «bom gosto», como aconteceu, entre outros casos, na realização do Recinto das Aldeias da Exposição do Mundo Português, em 1940, onde mais uma vez foram criados simulacros a fazerem acreditar que as casas do mundo rural português seriam algumas das aguarelas de A Casa Portuguesa, de Raul Lino, e que os figurantes seriam a representação límpida dos camponeses, correspondendo às paisagens idílicas do Portugal rural habitadas por lindas meninas sorridentes, bem penteadas, de trajes festivos e cobertas de ouro ao peito a puxarem juntas de bois.
 
Exposição do Mundo Português, 1940
 
 

Conclusão
 
O discurso oficial do Estado Novo pretendia dar uma ideia de um país de «camponeses estetas», de um povo de poetas que vivia em paisagens rurais harmoniosas, cheias de graça que representavam o genuíno, o autêntico e tradicional da cultura portuguesa, confundindo-se com a própria identidade nacional. Contudo, esse conceito foi uma «invenção» de António Ferro e dos seus colaboradores, ao se servirem de ideais românticos e nacionalistas desenvolvidos desde finais do século XIX que o SPN/SNI soube aproveitar para concretizar a «Política do Espírito» e a doutrinação necessária ao regime salazarista, e os «camponeses estetas» não eram mais do que o resultado de uma política de estetização de camponeses e da construção idílica de paisagens de um Portugal rural de jardineiros da paisagem para consumo de turistas e visitantes.
 
Da política de estetização e de objectificação foram desenvolvidos mitos e representações de um Portugal que apresentava uma identidade nacional baseada na sua homogeneidade cultural, nas suas raízes cujas diferenças seriam cromáticas e não estruturais. Como afirma João Leal, «a diversidade não era apreendida enquanto tal, com todas as conflitualidades que transporta, mas antes uma variação cromática dentro do mesmo» (Leal, 2000).
 
António Ferro – e o SPN/SNI – foi responsável pela criação de mitos, de símbolos nacionais, de paisagens de galos de Barcelos e de aldeias tradicionais, mas o maior mito talvez tenha sido a construção de uma imagem bucólica, conservadora e fotográfica de um rural que, nalguns casos, parece continuar a fazer parte do imaginário português.

 
Fonte : CADERNOS CURSO DE DOUTORAMENTO EM GEOGRAFIA FLUP
Publicado em TRAJAR DO POVO EM PORTUGAL – 18.11.2014