A apresentar mensagens correspondentes à consulta coimbra ordenadas por relevância. Ordenar por data Mostrar todas as mensagens
A apresentar mensagens correspondentes à consulta coimbra ordenadas por relevância. Ordenar por data Mostrar todas as mensagens

domingo, janeiro 06, 2008

O Traje Académico de Coimbra

Muito embora não possamos caracterizar o trajo académico como um trajo popular, este merece ser referenciado. Por um lado, possuímos uma das mais antigas universidades da Europa em Coimbra, onde os estudantes sempre possuíram um trajo característico e que os identificava. Por outro lado, este faz parte do imaginário popular daquela cidade e sofreu uma evolução natural influenciado pelo tempo e pelos usos.
Na Idade Média, e em parte até ao Liberalismo, o peso do gosto individual na forma de vestir era muito menor do que actualmente. A indumentária devia reflectir claramente o lugar de cada indivíduo na ordem social. Assim, o vestuário dos elementos da Corporação Universitária tinha que espelhar de alguma forma a pertença a essa corporação. Haviam diversas limitações oficiais a esse vestuário, de forma a torná-lo sóbrio, decente, e a impedir que colidisse com os privilégios e características próprias dos trajes de outros elementos da sociedade (certas cores e certos tecidos, por exemplo, estavam reservados a determinados estatutos sociais).

Nos Estatutos da Universidade de Coimbra de 1431, D. João I mandou que os mestres e doutores, indo leccionar ou a quaisquer outros actos escolares dentro dos limites da universidade, andassem em aparato geral ou doutoral, os docentes licenciados ou bacharéis em hábito honesto até aos tornozelos e os outros escolares em trajos honestos, pelo menos até à meia perna.
D. João III, na "Ordenança para os estudantes da Universidade de Coimbra", de 1539, impõe regras ao uso do trajo académico, como já o havi
a feito D.Manuel I em 1503, determinando:
"Não poderão os sobreditos nem outros alguns estudantes trazer barras nem debruns de pano em vestido algum; nem isso mesmo poderão traz
er vestido algum de pano frizado; nem poderão trazer barretes de outra feição senão redondos; e assim hei por bem que os pelotes e aljubetes que houverem de trazer sejam de comprido três dedos abaixo do joelho ao menos; e assim não poderão trazer capas algumas de capelo, somente poderão trazer lobas abertas ou cerradas ou mantéus sem capelo; não trarão golpes nem entretalhos nas calças nem trarão lavor branco nem de cor alguma em camisas nem lenços";
D. João IV, nos Estatutos de 1653 (chamados Estatutos Velhos), também efectua uma série de restrições.
Mas como seria o traje dos estudantes nesta época?

Universidade estava intimamente ligada à Igreja, era efectivamente uma instituição eclesiástica, e uma grande parte dos estudantes e mestres
eram clérigos. É pois natural que os universitários adoptassem uma maneira de vestir eclesiástica.
O vestuário dos estudantes de Coimbra nos séculos XVI e XVII caracterizava-se por:

"Loba ou Sotaina, decorada à frente, de alto a bai
xo, com uma fileira de pequenos botões, abotoada pelas costas com botões ou cordeis, a qual descia até à meia perna; uma Capa com gola e alamares ou cordão de borlas; um Barrete arredondado ou de cantos; Calção sem entretalhos ou golpes, meias e Botas ou Borzeguins. Os estudantes colegiais traziam os Hábitos das respectivas Ordens, salvo os dos Colégios seculares de S. Pedro e S. Paulo que tinham um Hábito semelhante aos escolares colegiais de Salamanca [...]. Este Trajo usado nas Faculdades também era extensivo aos Lentes, ressalvando-se apenas o pormenor de a Sotaina dos Mestres chegar ao calcanhar, enquanto a do estudante chegava à meia perna. Através dos Estatutos de 1653, dados por D. João IV, ficamos a saber que nesta época ainda se usavam barretes redondos ou de cantos para cobrir a cabeça e não o Gorro comprido, o qual se começou a trazer mais tarde, talvez nos começos do século XVIII. Estes Estatutos conferem ao estudante liberdade para trazer debaixo da Batina coletes e camisas, só mais tarde se tornando obrigatório o costume de envergar Volta Branca e Cabeção Negro [...]."
As lobas dos colégios eram de cores va
riadas (dentre as que não eram proibidas, claro): em Todos os Santos usavam o pardo, em S. Miguel roxo escuro, em S. Paulo castanho escuro, etc. Mas o preto viria a dominar.

Desta forma, no seu início, o objectivo principal do Traje Académico, não era, como muitas vezes se diz, igualizar os estudantes, mas antes fazer distinguir os académicos na sociedade. Apesar da falta de uniformização, os estudantes eram obrigados a usar um traje académico. De notar que essa obrigatoriedade era permanente, nas aulas ou fora delas, dentro do território académico da cidade de Coimbra.
A uniformização plena do traje académico aconteceu possivelmente na passagem do século XVII para o XVIII.

Nos finais do século XVIII o Traje Académico, seria assim composto:
"Todo o cidadão que se condecora com
o título de homem de bem, para decentemente aparecer no meio dos outros, carece para seu adorno externo, [...] enquanto estudante, de Verão, de sete [cousas], vem a ser:- cabeção, volta, camisa, batina, meias, sapatos, e fivelas; e de Inverno, de nove, porque entram calções e colete, que de Verão são inteiramente desnecessários."

As características medievais e clericais da Universidade de Coimbra começam a diminuir com a reforma do Marquês de Pombal, em 1772. Mas é só com o triunfo do Liberalismo em 1834 que começa verdadeiramente a aparecer uma universidade laica.
A Capa e Batina não são abolidas, apesar do seu carácter clerical e de várias outras críticas. Mas passa a ser obrigatória apenas dentro da Universidade.
"No meu tempo, ainda a quase totalidade dos estudantes andav
a sempre de capa e batina. [...] Ainda assim, já por lá começavam a aparecer os janotas, a que nós chamávamos os polainudos, que em saindo da aula se vestiam à futrica e iam para a Baixa de luvas amarelas e charuto!"O Romantismo do século XIX fomenta a idéia do estudante boémio, cábula, poeta ou músico, namoradeiro, etc. E a Capa e Batina é indissociável desse estudante romântico.
Nessa época e ainda hoje assim deve ser, a capa e batina não era um uniforme; era o símbolo da honra, da fraternidade e da mútua protecção. O espírito académico, a sua união nos grandes momentos de interesse comum, imperava sobre todo o organismo académico, convertendo toda a comunidade em uma só entidade.
Agora sim, aparece a defesa do Traje Académico como factor de igualização dos estudantes. Possuindo ainda uma vantagem económica, sendo cómodo, o seu desgaste era sinónimo de respeitabilidade, era o emblema do veterano.
Em 1860 a Capa e Batina ainda mantinha um aspecto bastante clerical:

"O vestuário é capa e batina; capa até ao tornozelo, com gola militar; batina curta até ao joelho, dois dedos abaixo; calção, meia preta de laia, sapato e volta em vez de gravata, como o padre.

No Inverno, no meu tempo, como se desenvolvia uma formidável epidemia de bexigas e tifo, era permitido andar de calça preta, caída, em vez de meia e calção.
Anda-se em cabelo, apesar de fazer parte do uniforme o gorro, saco preto que posto na cabeça cai pelas costas. Empregavam-no em carregar livros, frutas e outros místeres.

Andar em cabelo e muito bem calçado era o grande luxo.

A capa tem alamares para abotoar. Usa-se de muitas maneiras e bem traçada torna-se um traje muito elegante. Além de decorativa, é um magnífico cobertor”.

A partir de 1863 o Traje liberaliza-se bastante, nomeadamente no uso de calças em vez de calções. "O gorro era já raro pelas costas abaixo, ou caído em cima da orelha. A maior parte andava em cabelo, alguns traziam um pequeno boné preto como os de viagem, e as batinas já não eram as antigas lobas, que chegavam ao meio das canelas, mas umas batininhas que só chegavam aos joelhos (mais um casaco afogado do que outra coisa) - e a respeito de meia preta e volta de padre, só nos actos, e a volta às vezes era de papel, e as meias de algum teólogo!”

Os estudantes, cada vez mais burgueses e atraídos por ideias republicanas e anti-clericais, não sentiam qualquer identificação com um hábito eclesiástico, e, através do desrespeito pelas normas de uso do Traje Académico, iam-no de facto modificando.

Em 1898, "[A calça] nem sempre é preta. A gravata, umas vezes encarnada, outras branca e só por esquecimento é que ela é preta, como o regulamento ordena. A capa é usada com frequência dobrada e deitada sobre um dos ombros, trazendo-a muitas vezes na mão. E aqueles que querem usar bengala fazem-no, muito embora isso não deva ser permitido a quem se apresenta de capa e batina."

Aos usos da capa sobre um dos ombros ou na mão, António Nunes acrescenta "colocada no braço em jeito de gabardine [...] ou enrolada no colarinho, ‘para diferenciar os estudantes dos seminaristas e padres’". É interessante notar que muitas décadas depois de o uso da capa enrolada no colarinho se ter generalizado se mantiveram duas situações de excepção, provavelmente ambas em sinal de respeito pelo sagrado: na missa (capa simplesmente pelas costas, sem dobras no colarinho) e em sinal de luto (com a batina fechada - possivelmente em imitação da antiga batina eclesiástica - e a capa não só sem dobras mas também apertada com os colchetes do colarinho - possivelmente reminiscência de quando a capa tinha cordões).No final do sec XIX é introduzida a Batina com bandas de cetim e pregas posteriores. Isto é, a total substituição da Batina propriamente dita por uma verdadeira sobrecasaca. A estabilização das cores da gravata, colete e calças no preto e a generalização de algumas destas variantes (como a Batina-sobrecasaca), que só se deram já na República, para se ver atingido o Traje Académico que se tem mantido praticamente inalterado nas últimas décadas.



segunda-feira, abril 09, 2007

Tricanas de Coimbra 1900

José Augusto Teixeira remeteu-me uma imagem de duas tricanas aguadeiras de cerca de 1900, junto ao Jardim da Sereia em Coimbra, extraída do livro “Coimbra e Região” de Nelson Correia Borges.
Fica aqui uma prestimosa colaboração que muito agradeço.

No texto podemos ler:

SÃO AS TRICANAS

Como tudo o que é de Coimbra – bom e mau – se não parece com mais coisa nenhuma, as tricanas de Coimbra são também elas sós, e, por conseguinte – incomparáveis!
Como andam sempre muito afinadinhas, desde os pés até à cabeça vão-se os olhos a olhar para elas, e fica a gente a dizer consigo que nunca viu mulheres assim … Sua chinelinha de biqueira, em que só lhes cabe metade do pé; sua meia branca, ou às riscas, muito esticada; saia de chita, das cores mais claras, deixando ver os tornozelos e acima dos tornozelos duas polegadas de perna; aquela aventalinho muito pequenino, que é mais um chic do que outra coisa: o chambre de chita clara, aberto no peito em decote quadrado; e então o xaile de barras, ou a capoteira, passando por baixo do braço direito, e lançando (com elegância que se não descreve, mas que os estudantes copiaram para as suas capas) por cima do ombro esquerdo!
Ao algo de tudo isto, uma cara quási sempre bonita, e espirrando sempre vivacidade; e naqueles braços, naquelas pernas, naquele busto, quando gesticulam, quando marcham, quando estão paradas, qualquer coisa que deve ser a própria graça – como só artistas a apreciam!
São as tricanas!
Trindade Coelho, in illo tempore

quinta-feira, setembro 18, 2008

O BARQUEIRO DO MONDEGO


O Rio Mondego, até princípios do século XX, era a única via de comunicação importante da região, dando emprego a muita gente das suas proximidades como Barqueiros, Calafetes, Carreiros, Estanqueiros, etc.
O Barqueiro do Mondego, tinha como função conduzir a Barca serrana, no transporte de lenha, carqueja e carvão para Coimbra ou Figueira da Foz. No sentido inverso, era possível receber mercadorias por mar e embarca-las rio acima. Assim, para além de peixe (seco ou salgado), sal, louça de Coimbra, vinho, etc. Paralelamente com o transporte de mercadorias, também transportavam lentes e estudantes da Universidade de Coimbra, que iam passar férias às suas terras Natais.
A Barca serrana deslocava-se com a ajuda de remos, da vela, da corrente do rio e por vezes das varas (quando havia menos água), espetando-as no fundo do rio e andando pelo bordo, apoiando a vara contra o lado do peito, virados para a ré. Tinham que colocar um pano grosso, para protegerem o peito, mas mesmo assim fazia “mossa”.
O traje do Barqueiro do Mondego era composto por ceroulas até aos joelhos, uma camisola de lã, um colete, um garroço para o frio e os pés descalços ou com alpercatas de pano.
Para dormir, as barcas possuíam na proa ou na ré, umas cavidades “Leito”, onde os barqueiros dormiam, sendo o colchão de esteiras de palha, colocados por cima do estrado, e tendo como cobertores, a vela ou sacos, e dormiam com os pés para o bico.
Muitos eram os portos importantes ao longo do Rio Mondego, para carregarem e descarregarem mercadoria. Dos quais destacamos o Porto da Raiva, como sendo o mais importante, e considerado um dos maiores do país, até meados do séc. XIX. Porto este que diz a tradição, que a povoação da Raiva, era então situada na Foz do Rio Alva.
Aqui chegados, as mercadorias eram descarregadas, e depositadas em locais apropriados, e depois eram levadas em carros de bois “Os Carreiros”, e distribuídas pelos concelhos de Penacova, Arganil, Tábua, Mortagua e Oliveira do Hospital.
Nos portos de Coimbra, os barqueiros quando procediam ao carregamento ou descarregamento das barcas, tinham de calçar as alpercatas de pano, se fossem apanhados descalços pelos guarda rios, eram multados, se porventura andassem com um pé calçado e outro descalço, pagavam metade da multa.

Fonte: Rancho Típico de Miro "Os Barqueiros do Mondego" do Grupo de Solidariedade Social, Desportivo, Cultural e Recreativo de Miro

terça-feira, novembro 29, 2011

Xailes usados no início do sec.XX

Não sendo exaustivo, até pela enorme variedade existente, deixo de seguida alguns exemplos de xailes que foram usados no início do sec.XX.


Xaile de Flanela – Em lã cardada, em preto, azul e castanho, xaile popular de agasalho.
Xaile Mescla – Liso em sarja de lã fios de várias cores, xaile popular.
Xaile Africano – Fio cardado fazendo relevos, com predomínio do preto e cinzento, xaile de agasalho.
Xaile Barra de Cetim ou Barrinhas – Xaile de lã fina com barra em ponto de cetim, franja torcida ou franja em cadeia de cor preta, havendo de muitas cores. Xaile popular de todo o país.




Xaile Barra Azul – Liso ou em ponto de sarja, franja em nós, fundo escuro normalmente urdido em castanho e trama em preto, as barras eram em azul muito vivo, xaile popular, característico da zona Centro do país.
Xaile Double – De sarja em lã cardada, face principal em preto e outra de cor diversa, xaile popular de agasalho no nosso país.
Xaile de Cercadura – De lã cardada em ponto de sarja, a barra de fios de borbotos ou argolas, em preto e de cores, xaile popular para senhora de meia-idade.
Xaile Xadrez – Feito em estambre (fio de lã penteada) em seda natural, em xadrez, franja torcida, em preto ou de varias cores, xaile da classe média.




Xaile de Barra de Seda – Corpo em estambre e barra de seda, a barra era formada por vários desenhos representando motivos populares, em preto e de outras cores, xaile de cerimónia da classe média, este xaile também podia ser fabricado em fio de algodão.


Xaile de Seda – xaile em seda lavrada, em preto e de outras cores, xaile de cerimónia da classe média, este xaile também podia ser fabricado em fio de algodão.


Xaile de Argolinha – Em argolinha a urdir, em varias cores, xaile popular domingueiro, era um xaile caro e único vendido a peso, era usado por todo o país e muito na moda na Beira Alta.
Xaile de Argola Liso – Lã cardada a urdir, a tramar fio cardado e argola, em preto, argola pode ser preta ou de várias as cores, xaile popular, muito grosso e pesado, usado nas regiões nortenhas ou na beira-mar.
Xaile Feltrado – De lã cardada; pêlos aveludados lisos, em várias cores, xaile de agasalho, as senhoras usavam-no muito nos serviços caseiros e agrícolas. Trata-se de um xaile de lã, muito industrializado e utilizado por todo o país. Também conhecido por Xaile dos Pirinéus e em Coimbra como xaile “camotex”.


Xaile de Relevo - Lã cardada, muito áspero, duas faces, ambas em preto, ou uma preta e a outra em verde, azul e castanho, xailes populares mais para senhoras de classe média, xaile muito caro, xaile muito usado no norte do país e zonas mais frias. Em Coimbra existe é conhecido por “montanhac”.


Xaile Manta – Lã merina em ponto de tafetá, não tem franjas é de vários tipos de xadrez em preto e branco, xaile domingueiro e de romaria usado mais nas mulheres casadas.
Xaile de Linha – Era urdido com fio na trama em lã cardada ou penteada, em preto, xaile pesado e duro para as raparigas e mulheres de posição média.
Xaile de Sarja – Liso em ponto de sarja, franja torcida, inicialmente, só em preto, depois outras cores e em xadrez, xaile muito popular e vendido por todo o país
Xaile Primavera – Estambre a tramar e seda a urdir, ou de algodão e seda, de franja cadiada muito entrelaçado, em várias cores e desenhos, com predomínio do xadrez em preto e branco, xaile domingueiro das raparigas da zona de Coimbra e Aveiro, normalmente utilizado na primavera, dai o seu nome.
Xaile Tricana – Lã merina estrangeira, franjas de seda muito compridas e entrelaçadas, vários desenhos e várias cores, sobretudo cores garridas, xaile de romaria muito usado na zona centro do nosso país.
Xaile Chinês – Denominação atribuída genericamente aos xaile que reproduzem motivos orientais, sendo estampados ou tecidos.
O xaile estampado normalmente tem como base um xaile de merino. No xaile tecido, os motivos resultam da utilização de fios chinés tanto na teia como na trama. São fios que sofreram diferentes colorações por tinto ou por estampagem.

Xaile Chinês Tecido



Xaile Chinês Estampado



Xaile de Merino – Em estambre de lã estrangeira, preto de cerimónia, muito usado nos casamentos, missa e dias de festa e no luto, xaile caro, usado pelas senhorasde meia-idade.


Xaile Tapete – Em seda natural ou em fio de estambre, muito lavrado, cheio de desenhos e cores representando animais, folhas, flores, frutos, e combinações geométricas, usado pelas senhoras da cidade de classe aburguesada, ou para ornamentação de salas.


Xaile Fantasia – xailes bordados a seda ou cetim sobre tecido de lã, merino ou outra, sobretudo
com motivos florais. Muito utilizados na região riana da Beira Baixa e Alto Alentejo, nomeadamente, Idanha-a-Nova, Alpalhão e Nisa. No Alto Alentejo era utilizado em ocasiões diferentes, conforme o uso da localidade. Em algumas localidades era apenas utilizado no Carnaval, outras, era uma peça de adorno para dias especiais e mesmo complemento do trajo da noiva. Existem ainda xailes de fantasia estampados. Na região centro um dos mias conhecidos é o xaile penas de pavão, por ser esse o motivo da estampa.




Xaile Pêlo de Rato – Xaile em pêlo de seda que faz lembrar o pelo de um rato, muito lustroso, podendo ser liso ou lavrado. Existindo em castanho, preto e cinzento. Franjado comprido de seda torneada.

quarta-feira, novembro 23, 2011

O Xaile - Contributo para a Recuperação de um Património Imaterial

No passado dia 19 de Novembro de 2011 tive o grato prazer de apresentar o tema “O Xaile - Contributo para a Recuperação de um Património Imaterial” nas XVII Jornadas Técnicas de Etno-folcore organizadas pela Associação de Folclore e Etnografia da Região do Mondego na Casa Municipal da Cultura, em Coimbra.
Estas Jornadas contaram ainda com o contributo da Srª Dr.ª Madalena Braz Teixeira e da Sr.ª Dna Maria Alcide Rodrigues, bem como, com a colaboração do Sr. Inspector Lopes Pires.
Foi um dia dedicado ao Xaile, que culminou com um desfile de magnificas peças dirigido pelo Sr. Dr. Joaquim Correia, Presidente da AFERM.
O público, constituído na sua maioria por elementos de ranchos folclóricos da região, aderiu e participou nos vários debates que se foram fazendo.
Quem esteve presente teve uma oportunidade única de enriquecer os seus conhecimentos sobre esta magnifica peça, que nesta região atingiu o seu expoente máximo.
Sem dúvida que Coimbra é a Capital do Xaile.

De forma muito breve deixo de seguida um resumo da minha apresentação, já que o trabalho que produzi possui muitas páginas e será difícil a sua publicação integral. No entanto quem o pretender pode solicitá-lo pelo e-mail c.alvescardoso@gmail.com.

“O Xaile - Contributo para a Recuperação de um Património Imaterial”

AS ORIGENS DO XAILE
Os primeiros destes xailes vieram de Caxemira, na Índia, "descobertos" por viajantes (principalmente ingleses) que os traziam como presentes para esposas, mães e filhas.
Diz-se que, em 1796, um persa cego chamado Yehyah Sayyid visitou Cachemira e governador afegão ofereceu-lhe um xaile. Sayyid, por sua vez, ofereceu-o ao Quediva do Egipto, que o presenteou a Napoleão e o deu a sua esposa a Imperatriz Josefina de Beauharnais.
Em França causou inveja e em breve as mulheres elegantes procuraram por todo os meios obter o seu próprio xaile de Caxemira.
Os xailes tornaram-se o desejo de qualquer dama elegante da europa e américa.
A raridade, elevado preço e muita procura fomenta o surgimento de imitações em França, Alemanha e Inglaterra, produzidas com lã de cabra, lã merina, de seda e de algodão.

INTRODUÇÃO EM PORTUGAL
O xaile terá chegado a Portugal sensivelmente na mesma altura que ao resto da europa, diz-se que também trazido por marinheiros regressados do oriente.
Francisco Ribeiro da Silva detectou a presença de um xaile entre o rol das mercadorias confiscadas na Alfandega do Porto entre 1789 e 1791.
Como é óbvio, sendo um artigo contrabandeado significa que existe uma procura, um mercado, que é apetecível e que seria um produto apenas ao alcance de alguns privilegiados. Por via do contrabando os ricos não privilegiados conseguiam obter produtos que os colocava a par dos privilegiados e, aparentemente, o xaile seria um excelente sinal exterior de riqueza.
O Dicionário de António Morais Silva (2ª edição de 1813) define “Chalé, s.m. (do Hespanhol) – lenço pintado de marca mayor, que as mulheres trazem pelos ombros, dobrado de sorte que fique em três pontas, sendo o lenço quadrado. Os ingleses chamão chales a uma porção de certo longor, e largura de tecido mui fino de lã de camello, de comum amarela, que as mulheres lançavão ao pescoço, e as pontas enrolavão em redor do corpo até à cintura, e são assás caros; vêi da Índia Oriental (a Shale).”
A inscrição da palavra “Chalé” no dicionário de António Morais Silva significa que esta peça de vestuário era já conhecida e utilizada em Portugal no primeiro quartel do sec.XIX.
Por outro lado, a referência à origem espanhola estará directamente relacionada com o “Manton de Manila”. Ao que se diz foi inventado pelas operárias das fábricas de tabaco em Sevilha. As folhas de tabaco vinham das Filipinas embrulhadas em panos chineses velhos, muito ornamentados e de forma quadrangular. As mulheres cortavam-nos e colocavam-nos em triângulo sobre os ombros deixavam os braços livres para trabalhar e simultaneamente protegiam do frio. Era prático, mesmo para uma saída rápida à rua.
António Morais Silva faz ainda referência à origem do xaile, situando-a na Índia Oriental e à sua difusão entre as mulheres da sociedade inglesa.
Como é do conhecimento geral, entre nós a moda foi sempre muito influenciada pelo estrangeiro e este terá sido o principal motor para a introdução do xaile em Portugal, sendo mais plausível que a palavra xaile provenha da denominação inglesa “shawl”, do que da sua origem persa Shãl (shawl, chalé, xale, xaile).
Certo é que os primeiros xailes foram importados e simbolizavam estatuto social e poder económico só ao alcance de alguns.

A CONJECTURA SOCIOECONÓMICA E A POPULARIZAÇÃO DO XAILE
O xaile só chega às camadas populares no início do sec.XX, em resultado de um conjunto de circunstâncias socioeconómicas favoráveis.
Fim das convulsões sociais e políticas da 1ª metade sec.XIX (Invasões francesas / guerra civil);
Incremento de uma revolução industrial tardia, iniciada com o Fontismo (1868-1889);
Evolução tecnológica (mecanização);
Melhoria das vias de comunicação e do escoamento da produção (aumento da rede ferroviária e rodoviária);
Matérias-primas abundantes e baratas.
Alguns exemplos:
Rede rodoviária - 476Km - 1850 / 11.754km – 1907
Rede ferroviária - 69Km - 1856/ 2.898Km – 1910
Indústria têxtil principal empregadora entre 1850 e 1913 (61% em 1852 e 37% em 1911)
Em 1890 os salários dos tecelões entre 280 réis/dia e 800 réis/dia (Covilhã)
Na indústria entre os 360 réis/dia e os 500 réis/dia para os homens e os 160 réis/dia e os para as 220 réis/dia mulheres.
Salário médio na poda em Vila Real entre 139 réis/dia e os 185 réis/dia
Um xaile dos Pirinéus nos Armazéns do Grandela em 1913/14 custava entre 3.600 e 5.500 réis.
Uma operária fabril ganhava entre 4.160 e 5.720 réis/mês

DE ARTIGO DE LUXO A PEÇA DA INDUMENTÁRIA POPULAR FEMININA
A mulher camponesa sempre usou pelas costas uma espécie de agasalho, uma saia dobrada, capa, capucha, capoteira ou mantéu e finalmente apareceu o xaile.
O xaile, beneficiando da nova conjectura torna-se mais acessível às bolsas populares e contribui também imenso para o desenvolvimento da indústria.
Por outro lado a preferência popular pelo xaile resulta de:
Prático no uso diário - permitia maior amplitude e liberdade de movimentos;
Durabilidade - grande resistência, o que os tornava mais duráveis:
Facilidade de manter e acondicionar - não necessitavam de grandes cuidados com limpeza e ocupavam pouco espaço quando arrecadados;
Compunha a figura – uma mulher envolta num xaile escondia a pobreza do seu trajar e dando-lhe dignidade.
O xaile está presente em todas as ocasiões da vida da mulher-mãe.
Aconchega o recém-nascido e retribui a parteira;
Aos domingos e dias de festa é um complemento do melhor fato;
Peça de enxoval e complemento do trajo de noiva;
Resguardo do frio e da chuva;
Nos momentos de tristeza embiocava a cara e escondia a sofrimento. No luto cobria o corpo e xaile de cor é tingido de preto,pois noutra cor não teria mais utilidade;
Serve de mortalha;
É a peça que melhor passa de mãe para filha, uma vez que na maioria das vezes nada mais havia para herdar;
O Xaile é o “tapa misérias”.

Embora possamos encontrar xailes em todas as regiões do país, o gosto, os costumes locais e a riqueza da região ditaram preferências por determinados tipos de xaile.
Em Trás-os-Montes e nas Beiras o xaile é negro, seja domingueiro ou de uso diário. No Alentejo, Ribatejo e Algarve além do negro, surgem outras cores, como o castanho ou o cinzento, lisos ou com padrões sóbrios.
O xaile adquire expressão máxima na região da beira litoral, sobretudo nos distritos de Aveiro e Coimbra, que considero a “Capital do Xaile”. Nesta região, o gosto popular pelo uso do xaile enquanto complemento e adorno do traje, levou ao uso de uma multiplicidade de tecidos de materiais diversos, de padrões, de estampados e de cores inaudito e singular, fomentando uma indústria e um conjunto de artes e ofícios intimamente relacionado com esta peça de vestuário.
O xaile está intimamente ligado à figura da mulher e à sua vivência.

segunda-feira, dezembro 22, 2014

O Ouro Popular Português II

Brincos

Antes de mais, convém referir que a palavra arrecada constituía um denominador geral para aquilo a que hoje chamamos brincos, só no final do sec.XIX passaram a designar um tipo específico de brincos.

Em todos os tempos e lugares os brincos são, entre os adornos, os de preferência indeclinável, estando muitas vezes arreigado à superstição, como proteção dos espíritos malignos.

Quando uma menina nascia (com cerca de 1 mês) furava-se as orelhas com uma agulha nova com linha, molhada em azeite para escorregar melhor, e durante algum tempo (normalmente 7 dias) a linha ficava na orelha até a ferida cicatrizar. Se infetava, a mãe tratava a ferida com o seu próprio leite até curar.

Os primeiros brincos (“ais”, “botões” ou “argolinhas”) eram oferta da madrinha de baptismo juntamente com o vestido. Em caso de fatalidade, as mesmas peças podiam ser vendidas para comprar a mortalha; o padrinho pagava o caixão. À medida que a criança crescia, estes brincos eram substituídos por outros maiores de acordo com os gostos e aspirações da jovem.

Os novos brincos eram oferecidos pelos pais ou comprados pela própria, com o fruto das pequenas economias domésticas que iam arrecadando com os anos.

Raras eram as mulheres que não usavam brincos e estes acompanhavam-nas diariamente, a sua presença era imprescindível em todos os momentos. Eles simbolizam não só adornos e ostentação mas também sinal de estabilidade da economia doméstica.

Quando em luto, retiravam as argolas. O mais frequente era, no caso de não poderem comprar uns brincos mais adequados de azeviche ou ónix, cozerem uns paninhos pretos para disfarçar o brilho do ouro.

Por fim, quando morriam, os brincos que traziam nas orelhas acompanhavam-nas na tumba. Em algumas regiões eram oferecidos pela família à mulher que fosse ajudar a vestir o corpo.

A propósito do ouro costuma-se dizer “para a missa o que puderdes, para a feira quanto tiverdes

Se no Minho as mulheres se vergam com o peso do ouro, o uso dos brincos era generalizado a todo o país.

Em Mogadouro (Trás-os-Montes), as mulheres usavam brincos ou arrecadas e na região de Viseu, como em toda a Beira Alta, aos domingos e dias de festa ou romaria, as preocupações com o traje eram reforçadas com as arrecadas. As de Coimbra seguem-lhe o exemplo e as varinas a todas ultrapassam em dias de passeio e cerimónia.

Na região da Bairrada as arrecadas assumiam um grande valor tanto ao nível económico como afetivo-emocional, daí serem muitas vezes condicionadoras na colocação do lenço de forma a não as ocultar.

A nazarena também gosta de ouro. O grande brio e aspiração das mulheres do mar é possuírem brincos, em forma de medalha, com o retrato do marido, dentro de um aro de ouro. Aparentemente estes brincos seriam desconhecidos noutras regiões, no entanto, as medalhas com retratos dos maridos ou familiares tiveram em voga na região setentrional do país, mas usadas ao peito, penduradas nos cordões ou em fios.

À medida que caminhamos para Sul os estudos sobre o uso de ouro são raros. No entanto teriam o mesmo valor económico e afetivo que era atribuído noutras regiões, embora a quantidade e riqueza fosse menos exuberante.

É alentejana a seguinte quadra:

Gargantilha, brincos de ouro,
Tudo hei-de mandar vender;
Caiu o meu bem nas sortes,
Soldado não há-de ser.

 
Tipos de Brincos

Argolas – As argolas (outrora também designadas como pensamentos, bichas ou arriéis) constituem um dos diversos tipos de arrecadas. Definem-se como sendo enfeites, geralmente em forma de arco, com um gancho, que as mulheres penduram em orifícios abertos nas orelhas, podendo ser simples, de chapa batida lisa ou ornamentada, de sanguessuga ou roliça. Conforme a sua forma também eram conhecidas como africanas, farinheiras (no Alentejo), argolas indianas, de regueifa, de carretilha, de leque, ou carniceiras, tomando por vezes o nome de uma cidade “Coimbra” ou “Barcelos”.
 

 Argolas Carniceiras – também conhecidas como de “Barcelos”, chamavam-se assim pelo facto de adquiridas pelas mulheres dos talhantes de Barcelos, pessoas abastadas, que gostavam de ostentar estas argolas grossas. Na Póvoa de Lanhoso são também conhecidas como Argolas à Marchanta. Existindo várias variações que vão do liso às com motivos decorativos.

Argola em crescente – O crescente acentua a grossura central e diminui sensivelmente para as extremidades. Existindo variações conforme a secção, que pode ser plana, quadrangular, roliça ou arestada.

Argolas “Minhotas” – Em termos estruturais, as arrecadas apresentam formas ligeiramente diversas, variando entre o corpo discoudal, oval ou losangular. Superiormente a peça é dividida por duas hastes mais ou menos afastadas e profundas, formando um U, de onde parte a argola de suspensão auricular. Como elemento decorativo central surgem essencialmente bolotas ou cachos de uvas.



Arrecadas de viana – Castrejas (as complexas arrecadas como as de Laúndos, Afife e Estela) – Com a sua “janela”, ou “pelicano” ou “bambolina” na sua forma lunular com as respetivas campainhas, sempre em número ímpar, e que têm a virtude de afastar espíritos maléficos.


Brincos de chapola, parolos ou de luas - Chamavam-se de “chapola” por serem feitos em fina chapa de ouro, “parolos” por serem, outrora, usados pela mulher do campo, designada de “parola” pela citadina. Atualmente, estes brincos caíram em desuso nas aldeias e procurados pelos habitantes das cidades. As aldeãs, ao verem-nos, exclamam: “Sume-te diabo! Que brincos parolos!” Chamam-se de “luas” por terem, quase todos, quartos de lua em relevo


Botões


Exemplo de botões (Alentejo)

Exemplo de Botões (Alentejo)

 
 
 
 




Botões - Ofertava a madrinha de baptismo, à qual competia dar a mortalha se a menina viesse a “tornar-se anjinho do Senhor”! Por isso - mau grado – se a criancinha morresse vendiam-se os botões para ajudar o custeio do vestido que “levaria para o céu”! Se tal fatalidade não ocorresse, então, à medida que o crescimento dela se ia verificando, os “botões” ou “botõezinhos”, iam sendo trocados. Em algumas regiões tornaram-se o modelo preferido, por serem mais pequenos e menos onerosos.

  
Brincos à Rainha ou à Vianesa
Brincos à Rainha ou à Vianesa - À moda da rainha, de mulher fidalga ou burguesa rica. São brincos muito elegantes e, ao contrário das arrecadas, são cópias adaptadas dos brincos e laças que apareceram em Portugal no reinado de D. Maria I.
Estes brincos eram a ambição de qualquer jovem quando se ia ourar.


Brincos à Rainha
(Estes exemplares faziam parte do conjunto de
joias privadas da Rainha Dna Amélia)


  
 
 
 
 
 


Brincos à Rei
Brincos à Rei - São muito parecidos com os brincos à Vianesa, mas mais elegantes, compostos por uma parte superior, uma parte média em forma de laço (herdeira da laça ou laçada) e uma parte terminal. - não aparece aquela parte móvel que se encontra ao centro duma das partes dos brincos à rainha. A designação não significa que eram usados pelos reis, ou fidalgos, mas para se distinguir dos brincos à rainha.


Brincos de Princesa
Brincos à Princesa – traduzem-se numa outra variante dos brincos à rainha.












Brincos com Pedras - Normalmente apresentam pedras azuis ou vermelhas, são curtos ou compridos, com uma pequena franja, onde balançam uns “penduricalhos”. Fazem conjunto com colares, tão em voga nos anos 40, mas que ainda se continuam a usar.

Brincos com pedra
Brincos com pedras
Brincos de meia libra - Os brincos de meia libra refletem a utilização de moedas como adorno, não só como pendentes de cordões mas também das orelhas, sendo normalmente utilizadas libras ou meias libras.
 
Outros tipos de brincos:
 
Argolas de Sanguessuga

 
 
 
Argolas Estampadas



Brincos Barrocos (Póvoa do Varzim)

Argolas Estampadas

 
Argolas de Filigrana

 
 
 
Brincos com Pedras

No próximo artigo desta série falaremos de CORDÕES E COLARES
Artigo Relacionado: O Ouro PopularPortuguês I

quarta-feira, março 12, 2008

Trajes de Cantanhede – Beira-Litoral

O Grupo Folclórico Cancioneiro de Cantanhede é um dos mais fiéis embaixadores da etnografia do Distrito de Coimbra, mais particularmente, da região Gândara – Bairrada, quer em Portugal, quer nas suas deslocações além fronteiras.

No pequeno filme que se segue, pode-se observar a riqueza e diversidade dos trajos desta região.



Site recomendado:
Grupo Folclórico Cancioneiro de Cantanhede

Artigos relacionados: Beira-Litoral, Coimbra

sexta-feira, agosto 04, 2006

Tricana de Coimbra



Uma da figuras mais conhecidas da Cidade de Coimbra, cantada pelos estudantes, a Tricana fez do xaile a sua peça de luxo, usando-o sobre os ombros ou traçado sob o braço direito.
Os xailes preferidos eram os que reproduziam em tapete decorativos orientais, denominados «xailes chineses».
Veste saia preta de lã, com fitas de veludo; saia de baixo branca, com tira bordada; avental de popelina, blusa de “tubralco”; caixiné; xaile chinês a tiracolo; chinelos pretos.

quinta-feira, outubro 30, 2014

A Rodilha ou “Sogra”


Não sendo propriamente um componente do traje, a rodilha ou “sogra” é sem dúvida um elemento indissociável de muitas das nossas figuras populares.

Na realidade trata-se de uma proteção utilizada pelas mulheres para facilitar o transporte à cabeça dos mais variados e pesados objetos.

Distinga-se aqui a rodilha (um pedaço de pano, torcido e enrolado redondo e que podia ter outros usos) da “sogra” (uma rodela almofadada de tecido ornamentado, mais a gosto das mulheres e com maior comunidade de uso), sendo esta a denominação mais comum em todo o território nacional.

O Museu Nacional de Etnologia possui alguns exemplares de “sogras” representativos de várias regiões portuguesas (também possui exemplares de outras culturas) que de seguida descrevemos.

Imagem 1
Imagem 1
Datação: XIX d.C. - XX d.C.
Matéria: Tecido (algodão); Tecido
Dimensões (cm): altura: 4; diâmetro: 14;
Descrição: Rodilha em forma de toro. A superfície é recoberta por finas fitas de tecido de algodão de cor cinzenta, por entre as quais passam, perpendicularmente, outras de cor vermelha e outras de cor verde, de forma a fazer um axadrezado.
Proveniência: Castelo Branco / Sertã
Origem / Historial: Esta rodilha foi feita pela avó da coletora Carla Antunes, Rosa Antunes, de 74 anos [2011]. Habita em Cernache do Bom Jardim, Sertã. Fê-la propositadamente para integrar as coleções do Museu de Etnologia. Carla Antunes refere que a rodilha é parte integral da cozinha daquela zona. Servia para colocar em cima da cabeça, entre o lenço que se usava e a carga, como sejam cântaros de água ou cestas de vime onde colocavam a lenha e pinhas, para não se ferir.
 
Imagem 2
Imagem 2
Datação: XIX d.C. - XX d.C.
Matéria: Tecido (algodão); Tecido
Dimensões (cm): altura: 3; diâmetro: 12;
Descrição: Rodilha em forma de toro. A superfície é recoberta por fitas em tecido de lã de cor preta. O perímetro da rodilha é percorrido por cinco listas, espaçadas entre si, delineadas a fio de lã de cor vermelha. Entre a primeira e a segunda, e a quarta e a quinta surge um "ziguezague" feito a fio de lã de cor amarela. Entre a segunda e a quarta surgem pequenos segmentos longitudinais, feitos a fio de lã, ora de cor amarela, ora de cor rosa.
Proveniência: Portugal (não possui informação sobre a região onde foi recolhida)
 
Imagem 3
Imagem 3
Datação: XIX d.C. - XX d.C.
Matéria: Flanela (lã); Lã
Dimensões (cm): altura: 5; diâmetro: 15;
Descrição: Rodilha de formato cónico e centro vazado, forrada, exteriormente, a flanela de lã de cor preta. Na face lateral, brotam "levantados" do tecido, formando motivos florais: ora uma flor com as pétalas de cores: branco, amarelo e laranja, e interior de cores: verde e rosa; ora uma flor com as pétalas de cores: amarelo, rosa e branco, e interior de cores: laranja e verde. Estas flores são ladeadas por pequenos motivos foliares (?) de cores verde e rosa. Num dos topos da rodilha surgem duas listas em "ziguezague" bordadas a fio de lã de cores amarela e verde; no topo oposto as listas são de cores laranja e amarelo.
Proveniência: Braga / Caminha / Dem

Imagem 4
Imagem 4
Datação: XIX d.C. - XX d.C.
Matéria: Tecido (lã); Lã
Dimensões (cm): altura: 4,5; diâmetro: 18;
Descrição: Rodilha, de secção circular, em tecido de lã de cor preta. É adornada, nas faces superior e inferior, por um "zigue-zague" bordado com fio de lã de cor verde, laranja, amarelo, vermelho e rosa. A face lateral é completamente preenchida com pequenas borlas de lã, de cores: verde, branco, rosa, vermelho, azul, laranja, amarelo e roxo.
Proveniência: Viana do Castelo / Outeiro
 
Imagem 5
Imagem 5
Datação: XIX d.C. - XX d.C.
Matéria: Flanela (lã); Tecido (lã, algodão); Lã
Dimensões (cm): altura: 4,5; diâmetro: 14;
Descrição: Rodilha de formato cónico e centro vazado. A face interior do vazado é forrada a flanela de lã de cor preta. A esta está cosido um outro tecido de lã e algodão, que forra o exterior da rodilha. Este tecido apresenta listas de cores azul e verde. Na face lateral brotam, do mesmo tecido, "levantados" de cores roxa, verde e amarela, formando uma sequência transversal de losangos. Na face superior da rodilha surge, bordada a fio de lã de cor verde, a seguinte inscrição: "RECORDAÇÃO DE DEM". Na face oposta surge uma lista formada por pequenos retângulos justapostos bordados a fio de lã de cores azul e verde.
Proveniência: Braga / Caminha / Dem

Imagem 6
Imagem 6
Datação: XIX d.C. - XX d.C.
Matéria: Lã (?); Tecido (seda)
Dimensões (cm): altura: 4,4; diâmetro: 13;
Descrição: Rodilha em forma de toro. Superfície envolta em tiras finas de tecido de lã (?) de cor preta por onde, em certos pontos alternados, se entrecruzam, perpendiculares e espaçadas entre si, fitas de seda na seguinte ordem de cores: creme, verde escuro, azul escuro, rosa, amarelo, verde claro, verde claro, amarelo, rosa, azul escuro, verde escuro e creme. O conjunto de entrosamentos forma uma espécie de xadrez colorido.
Proveniência: Aveiro / Murtosa

Imagem 7
Imagem 7
Datação: XIX d.C. - XX d.C.
Matéria: Tecido (lã); Lã
Dimensões (cm): altura: 4,3; diâmetro: 12;
Descrição: Rodilha em forma de toro. Superfície envolta em tiras finas de tecido de lã (?) de cor preta. De frente, apresenta, a todo o perímetro, três barras finas transversais, espaçadas entre si, executadas com linha de lã. A superior é idêntica à inferior: a linha é de cor verde clara. Esta percorre o perímetro em duas voltas justapostas, passando entrecruzada com as tiras de tecido de cor preta. Na barra intermédia, a linha é de cor branca e laranja. A linha de cor branca percorre o perímetro em três voltas justapostas, passando entrecruzada com as tiras de tecido de cor preta. Nos espaços de entrecruzamento surgem, sobre o tecido, cruzes em "X", executadas a linha de cor laranja. As cruzes são contíguas às linhas de cor branca.
Proveniência: Aveiro / Murtosa

 
Imagem 8
Imagem 8
Datação: XIX d.C. - XX d.C.
Matéria: Tecido; lã
Dimensões (cm): altura: 2,3; diâmetro: 7;
Descrição: Rodilha em forma de toro. Superfície envolta em tiras finas de tecido de cor castanha escura. De frente, apresenta, a todo o perímetro, duas tiras finas, transversais e justapostas, de tecido de cor branca. Ambas se entrecruzam com as tiras de cor castanha escura, formando um axadrezado. As zonas de entrecruzamento alternam entre a tira superior e a tira inferior. A zona entre as tiras de cor branca apresenta três borlas de lã de cor vermelha situadas de modo a dividir o perímetro da rodilha em três partes de iguais dimensões.
Proveniência: Coimbra

Imagem 9
Imagem 9
Datação: XIX d.C. - XX d.C.
Matéria: Tecido
Dimensões (cm): altura: 5; diâmetro: 16;
Descrição: Rodilha em forma de toro. Superfície envolta em tiras finas de cor azul escura, através das quais, em certos pontos, se entrecruzam, perpendicularmente, tiras finas de cor branca. Formam-se assim, em todo o perímetro, seis largos losangos contíguos, axadrezados.
Proveniência: Castelo Branco / Oleiros / Orvalho / Foz do Giraldo