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quarta-feira, novembro 23, 2011

O Xaile - Contributo para a Recuperação de um Património Imaterial

No passado dia 19 de Novembro de 2011 tive o grato prazer de apresentar o tema “O Xaile - Contributo para a Recuperação de um Património Imaterial” nas XVII Jornadas Técnicas de Etno-folcore organizadas pela Associação de Folclore e Etnografia da Região do Mondego na Casa Municipal da Cultura, em Coimbra.
Estas Jornadas contaram ainda com o contributo da Srª Dr.ª Madalena Braz Teixeira e da Sr.ª Dna Maria Alcide Rodrigues, bem como, com a colaboração do Sr. Inspector Lopes Pires.
Foi um dia dedicado ao Xaile, que culminou com um desfile de magnificas peças dirigido pelo Sr. Dr. Joaquim Correia, Presidente da AFERM.
O público, constituído na sua maioria por elementos de ranchos folclóricos da região, aderiu e participou nos vários debates que se foram fazendo.
Quem esteve presente teve uma oportunidade única de enriquecer os seus conhecimentos sobre esta magnifica peça, que nesta região atingiu o seu expoente máximo.
Sem dúvida que Coimbra é a Capital do Xaile.

De forma muito breve deixo de seguida um resumo da minha apresentação, já que o trabalho que produzi possui muitas páginas e será difícil a sua publicação integral. No entanto quem o pretender pode solicitá-lo pelo e-mail c.alvescardoso@gmail.com.

“O Xaile - Contributo para a Recuperação de um Património Imaterial”

AS ORIGENS DO XAILE
Os primeiros destes xailes vieram de Caxemira, na Índia, "descobertos" por viajantes (principalmente ingleses) que os traziam como presentes para esposas, mães e filhas.
Diz-se que, em 1796, um persa cego chamado Yehyah Sayyid visitou Cachemira e governador afegão ofereceu-lhe um xaile. Sayyid, por sua vez, ofereceu-o ao Quediva do Egipto, que o presenteou a Napoleão e o deu a sua esposa a Imperatriz Josefina de Beauharnais.
Em França causou inveja e em breve as mulheres elegantes procuraram por todo os meios obter o seu próprio xaile de Caxemira.
Os xailes tornaram-se o desejo de qualquer dama elegante da europa e américa.
A raridade, elevado preço e muita procura fomenta o surgimento de imitações em França, Alemanha e Inglaterra, produzidas com lã de cabra, lã merina, de seda e de algodão.

INTRODUÇÃO EM PORTUGAL
O xaile terá chegado a Portugal sensivelmente na mesma altura que ao resto da europa, diz-se que também trazido por marinheiros regressados do oriente.
Francisco Ribeiro da Silva detectou a presença de um xaile entre o rol das mercadorias confiscadas na Alfandega do Porto entre 1789 e 1791.
Como é óbvio, sendo um artigo contrabandeado significa que existe uma procura, um mercado, que é apetecível e que seria um produto apenas ao alcance de alguns privilegiados. Por via do contrabando os ricos não privilegiados conseguiam obter produtos que os colocava a par dos privilegiados e, aparentemente, o xaile seria um excelente sinal exterior de riqueza.
O Dicionário de António Morais Silva (2ª edição de 1813) define “Chalé, s.m. (do Hespanhol) – lenço pintado de marca mayor, que as mulheres trazem pelos ombros, dobrado de sorte que fique em três pontas, sendo o lenço quadrado. Os ingleses chamão chales a uma porção de certo longor, e largura de tecido mui fino de lã de camello, de comum amarela, que as mulheres lançavão ao pescoço, e as pontas enrolavão em redor do corpo até à cintura, e são assás caros; vêi da Índia Oriental (a Shale).”
A inscrição da palavra “Chalé” no dicionário de António Morais Silva significa que esta peça de vestuário era já conhecida e utilizada em Portugal no primeiro quartel do sec.XIX.
Por outro lado, a referência à origem espanhola estará directamente relacionada com o “Manton de Manila”. Ao que se diz foi inventado pelas operárias das fábricas de tabaco em Sevilha. As folhas de tabaco vinham das Filipinas embrulhadas em panos chineses velhos, muito ornamentados e de forma quadrangular. As mulheres cortavam-nos e colocavam-nos em triângulo sobre os ombros deixavam os braços livres para trabalhar e simultaneamente protegiam do frio. Era prático, mesmo para uma saída rápida à rua.
António Morais Silva faz ainda referência à origem do xaile, situando-a na Índia Oriental e à sua difusão entre as mulheres da sociedade inglesa.
Como é do conhecimento geral, entre nós a moda foi sempre muito influenciada pelo estrangeiro e este terá sido o principal motor para a introdução do xaile em Portugal, sendo mais plausível que a palavra xaile provenha da denominação inglesa “shawl”, do que da sua origem persa Shãl (shawl, chalé, xale, xaile).
Certo é que os primeiros xailes foram importados e simbolizavam estatuto social e poder económico só ao alcance de alguns.

A CONJECTURA SOCIOECONÓMICA E A POPULARIZAÇÃO DO XAILE
O xaile só chega às camadas populares no início do sec.XX, em resultado de um conjunto de circunstâncias socioeconómicas favoráveis.
Fim das convulsões sociais e políticas da 1ª metade sec.XIX (Invasões francesas / guerra civil);
Incremento de uma revolução industrial tardia, iniciada com o Fontismo (1868-1889);
Evolução tecnológica (mecanização);
Melhoria das vias de comunicação e do escoamento da produção (aumento da rede ferroviária e rodoviária);
Matérias-primas abundantes e baratas.
Alguns exemplos:
Rede rodoviária - 476Km - 1850 / 11.754km – 1907
Rede ferroviária - 69Km - 1856/ 2.898Km – 1910
Indústria têxtil principal empregadora entre 1850 e 1913 (61% em 1852 e 37% em 1911)
Em 1890 os salários dos tecelões entre 280 réis/dia e 800 réis/dia (Covilhã)
Na indústria entre os 360 réis/dia e os 500 réis/dia para os homens e os 160 réis/dia e os para as 220 réis/dia mulheres.
Salário médio na poda em Vila Real entre 139 réis/dia e os 185 réis/dia
Um xaile dos Pirinéus nos Armazéns do Grandela em 1913/14 custava entre 3.600 e 5.500 réis.
Uma operária fabril ganhava entre 4.160 e 5.720 réis/mês

DE ARTIGO DE LUXO A PEÇA DA INDUMENTÁRIA POPULAR FEMININA
A mulher camponesa sempre usou pelas costas uma espécie de agasalho, uma saia dobrada, capa, capucha, capoteira ou mantéu e finalmente apareceu o xaile.
O xaile, beneficiando da nova conjectura torna-se mais acessível às bolsas populares e contribui também imenso para o desenvolvimento da indústria.
Por outro lado a preferência popular pelo xaile resulta de:
Prático no uso diário - permitia maior amplitude e liberdade de movimentos;
Durabilidade - grande resistência, o que os tornava mais duráveis:
Facilidade de manter e acondicionar - não necessitavam de grandes cuidados com limpeza e ocupavam pouco espaço quando arrecadados;
Compunha a figura – uma mulher envolta num xaile escondia a pobreza do seu trajar e dando-lhe dignidade.
O xaile está presente em todas as ocasiões da vida da mulher-mãe.
Aconchega o recém-nascido e retribui a parteira;
Aos domingos e dias de festa é um complemento do melhor fato;
Peça de enxoval e complemento do trajo de noiva;
Resguardo do frio e da chuva;
Nos momentos de tristeza embiocava a cara e escondia a sofrimento. No luto cobria o corpo e xaile de cor é tingido de preto,pois noutra cor não teria mais utilidade;
Serve de mortalha;
É a peça que melhor passa de mãe para filha, uma vez que na maioria das vezes nada mais havia para herdar;
O Xaile é o “tapa misérias”.

Embora possamos encontrar xailes em todas as regiões do país, o gosto, os costumes locais e a riqueza da região ditaram preferências por determinados tipos de xaile.
Em Trás-os-Montes e nas Beiras o xaile é negro, seja domingueiro ou de uso diário. No Alentejo, Ribatejo e Algarve além do negro, surgem outras cores, como o castanho ou o cinzento, lisos ou com padrões sóbrios.
O xaile adquire expressão máxima na região da beira litoral, sobretudo nos distritos de Aveiro e Coimbra, que considero a “Capital do Xaile”. Nesta região, o gosto popular pelo uso do xaile enquanto complemento e adorno do traje, levou ao uso de uma multiplicidade de tecidos de materiais diversos, de padrões, de estampados e de cores inaudito e singular, fomentando uma indústria e um conjunto de artes e ofícios intimamente relacionado com esta peça de vestuário.
O xaile está intimamente ligado à figura da mulher e à sua vivência.

sábado, novembro 12, 2011

XVII Jornadas Técnicas de Etno-Folclore



No próximo dia 19 de Novembro vão decorrer as XVII Jornadas Técnicas de Etno-Folclore na Casa Municipal da Cultura em Coimbra, numa organização da Associação de Folclore e Etnografia da Região do Mondego, uma iniciativa a não perder.
Programa
10.00 – ABERTURA DO SECRETARIADO
10.30 – SESSÃO SOLENE DE ABERTURA
11.30 – CAFÉ
11.45 – O XAILE — CONTRIBUTO À RECUPERAÇÃO DE UM PATRIMÓNIO IMATERIAL - Dr. Carlos Cardoso
12.15 – DISCUSSÃO DOS TEMAS APRESENTADOS
MODERADOR: Dr. Mário Nunes
13. 00 – ALMOÇO LIVRE
15.00 – A ORIGEM DO VESTUÁRIO: A MANTA E O XAILE; A CONSERVAÇÃO DOS TÊXTEIS - Mestre Madalena Bráz Teixeira
15.45 – CAFÉ
16.00 – DEMONSTRAÇÃO DA TÉCNICA DE FRANJAR - Maria Alcide Rodrigues
16.15 — MOSTRA DO XAILE AO VIVO
17.00 – DISCUSSÃO DOS TEMAS APRESENTADOS
MODERADOR: Inspector Lopes Pires

sexta-feira, novembro 06, 2009

O Xaile

O uso do xale ou xaile (do persa Shāl) é muito antigo, pelo menos no Oriente, defendo-se que será originário de Caxemira, o seu principal centro produtor. No ocidente o seu uso surge apenas no princípio do século XIX.
O uso do Xaile parece ter sido introduzido na Europa por volta de 1798 por soldados Franceses que fizeram a campanha no Egipto. Eram caríssimos, sendo mais finos os que se faziam do pêlo de uma cabra que existia no norte da Índia e a sua confecção levava cerca de um ano. Em 1818, os Franceses, começaram a imitar o Xaile de Caxemira, mas a urdidura era de seda e a trama em pêlo de cabra do Tibete e lã merina ou Australiana, mantendo a riqueza das cores e a beleza dos desenhos tipicamente orientais, mas à medida que o seu uso se foi divulgando, qualquer matéria ou desenho servia para a sua confecção.
Em Portugal entraram lentamente. Os primeiros xailes teriam sido trazidos pelos capitães de navios que os ofereciam a suas esposas. Inicialmente foram utilizados como ornamento da casa, só posteriormente começaram a aparecer em bailes envolvendo os ombros das senhoras.
Na classe popular, podemos dizer que o Xaile não é inteiramente novidade, sempre a mulher camponesa usou pelas costas uma espécie de agasalho, uma saia dobrada ou uma capa ou mantéu.
A grande difusão em Portugal, resulta do facto de a sua entrada ter coincidido com o desenvolvimento da indústria de tecelagem. A produção em série torna o Xaile mais acessível às bolsas populares.
Existem vários tipos de Xailes
Xaile de Sarga – Liso em ponto de sarja, franja torcida, inicialmente, só em preto, depois noutras cores e em xadrez.
Xaile Barra Azul – Liso ou em ponto de sarja, franja em nós, fundo escuro normalmente urdido em castanho e trama em preto, as barras eram em azul muito vivo, xaile popular, característico da zona Centro do pais.
Xaile Barra de Cetim ou Barrinhas – Em ponto de cetim com barras noutro ponto de cetim, franja torcida e também com franja em cadeia de cor preto, xaile popular de todo o país.
Xaile Xadréz-Feito em estambre (fio de lã penteada) em seda natural, em xadrez franja torcida, em preto e de várias outras cores. Era o preferido da classe média.
Xaile de Barra de Seda – Corpo em estambre e barra de seda, a barra era formada por vários desenhos representando motivos populares, em preto e de outras cores. Xaile de cerimónia da classe média, este Xaile também podia ser fabricado em fio de algodão ou fibra vegetal.
Xaile Double – De sarja em lã cardada, face principal em preto e outra de cor diversa, era um xaile popular de agasalho.
Xaile Mescla – Liso em sarja de lã fios de várias cores.
Xaile de Flanela – Em lã cardada, vai à percea levantar o pêlo, em preto, azul e castanho, era um excelente agasalho.
Xaile Pirinéus ou Feltrado – De lã cardada, pêlo aveludado liso, em várias cores, xaile de agasalho, as senhoras usavam-no muito nos serviços caseiros.
Xaile Africano – Fio cardado fazendo relevos, em cores, com predomínio do preto e cinzento, xaile de agasalho.
Xaile de Cercadura – De lã cardada em ponto de sarja, a barra de fios de borbotos ou argolas, em preto e de cores, xaile popular para senhora de meia-idade.
Xaile de Argola Liso – Lã cardada a urdir, a tramar fio cardado e argola, em preto, argola pode ser preta ou de várias as cores, xaile popular, muito grosso e pesado, usado nas regiões nortenhas ou na beira-mar.
Xaile de Ramagem ou Relevo – Lã cardada e ramagem feita de fio de argola, duas faces, ambas em preto, ou uma preta e a outra em verde, azul e castanho. Xailes populares mais para senhoras de classe média, muito caros e usados nas zonas mais frias.
Xaile de Argolinha – Em argolinha a urdir, em varias cores, xaile popular domingueiro, era um xaile caro e único vendido a peso, tinha entre um a dois quilos por volta de 1925 cada quilo custava 220 escudos era usado por todo o pais e muito na moda na Beira Alta.Xaile de Linha – Era urdido com fio na trama em lã cardada ou penteada, em preto, xaile pesado e duro para as raparigas e mulheres de posição média.
Xaile Primavera – Estambre a tramar e seda a urdir, ou de algodão e seda, de franja cadiada muito entrelaçado, em várias cores e desenhos, com predomínio do xadrez em preto e branco. Xaile domingueiro das raparigas da zona de Coimbra e Aveiro.
Xaile Tricana – Lã merina estrangeira, franjas de seda muito compridas e entrelaçadas, vários desenhos e varias cores, sobretudo cores garridas. Xaile de romaria muito usado nas zonas centro do nosso país.
Xaile Manta – Lã merina em ponto de tafetá, não tem franjas é de vários tipos de xadrez em preto e branco, xaile domingueiro e de romaria usado mais nas mulheres casadas.
Xaile de Merino – Em estambre de lã estrangeira, preto de cerimonia, muito usado nos casamentos, missa e dias de festa e no luto, xaile caro, usado pelas senhoras de meia-idade.Xaile Tapete ou Fantasia - Em seda natural ou em fio de estambre, muito lavrado, cheio de desenhos e cores representando animais, folhas, flores, frutos, e combinações geométricas, usado pelas senhoras da cidade de classe aburguesada ou para ornamentação de salas.

quinta-feira, setembro 18, 2008

O BARQUEIRO DO MONDEGO


O Rio Mondego, até princípios do século XX, era a única via de comunicação importante da região, dando emprego a muita gente das suas proximidades como Barqueiros, Calafetes, Carreiros, Estanqueiros, etc.
O Barqueiro do Mondego, tinha como função conduzir a Barca serrana, no transporte de lenha, carqueja e carvão para Coimbra ou Figueira da Foz. No sentido inverso, era possível receber mercadorias por mar e embarca-las rio acima. Assim, para além de peixe (seco ou salgado), sal, louça de Coimbra, vinho, etc. Paralelamente com o transporte de mercadorias, também transportavam lentes e estudantes da Universidade de Coimbra, que iam passar férias às suas terras Natais.
A Barca serrana deslocava-se com a ajuda de remos, da vela, da corrente do rio e por vezes das varas (quando havia menos água), espetando-as no fundo do rio e andando pelo bordo, apoiando a vara contra o lado do peito, virados para a ré. Tinham que colocar um pano grosso, para protegerem o peito, mas mesmo assim fazia “mossa”.
O traje do Barqueiro do Mondego era composto por ceroulas até aos joelhos, uma camisola de lã, um colete, um garroço para o frio e os pés descalços ou com alpercatas de pano.
Para dormir, as barcas possuíam na proa ou na ré, umas cavidades “Leito”, onde os barqueiros dormiam, sendo o colchão de esteiras de palha, colocados por cima do estrado, e tendo como cobertores, a vela ou sacos, e dormiam com os pés para o bico.
Muitos eram os portos importantes ao longo do Rio Mondego, para carregarem e descarregarem mercadoria. Dos quais destacamos o Porto da Raiva, como sendo o mais importante, e considerado um dos maiores do país, até meados do séc. XIX. Porto este que diz a tradição, que a povoação da Raiva, era então situada na Foz do Rio Alva.
Aqui chegados, as mercadorias eram descarregadas, e depositadas em locais apropriados, e depois eram levadas em carros de bois “Os Carreiros”, e distribuídas pelos concelhos de Penacova, Arganil, Tábua, Mortagua e Oliveira do Hospital.
Nos portos de Coimbra, os barqueiros quando procediam ao carregamento ou descarregamento das barcas, tinham de calçar as alpercatas de pano, se fossem apanhados descalços pelos guarda rios, eram multados, se porventura andassem com um pé calçado e outro descalço, pagavam metade da multa.

Fonte: Rancho Típico de Miro "Os Barqueiros do Mondego" do Grupo de Solidariedade Social, Desportivo, Cultural e Recreativo de Miro

quarta-feira, março 12, 2008

Trajes de Cantanhede – Beira-Litoral

O Grupo Folclórico Cancioneiro de Cantanhede é um dos mais fiéis embaixadores da etnografia do Distrito de Coimbra, mais particularmente, da região Gândara – Bairrada, quer em Portugal, quer nas suas deslocações além fronteiras.

No pequeno filme que se segue, pode-se observar a riqueza e diversidade dos trajos desta região.



Site recomendado:
Grupo Folclórico Cancioneiro de Cantanhede

Artigos relacionados: Beira-Litoral, Coimbra

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

Profissões antigas de Lisboa



Nota: Por lapso a imagem referente às lavadeiras não é de Lisboa, mas de Coimbra, as minhas desculpas pelo equivoco.


Carlos Cardoso

domingo, janeiro 06, 2008

O Traje Académico de Coimbra

Muito embora não possamos caracterizar o trajo académico como um trajo popular, este merece ser referenciado. Por um lado, possuímos uma das mais antigas universidades da Europa em Coimbra, onde os estudantes sempre possuíram um trajo característico e que os identificava. Por outro lado, este faz parte do imaginário popular daquela cidade e sofreu uma evolução natural influenciado pelo tempo e pelos usos.
Na Idade Média, e em parte até ao Liberalismo, o peso do gosto individual na forma de vestir era muito menor do que actualmente. A indumentária devia reflectir claramente o lugar de cada indivíduo na ordem social. Assim, o vestuário dos elementos da Corporação Universitária tinha que espelhar de alguma forma a pertença a essa corporação. Haviam diversas limitações oficiais a esse vestuário, de forma a torná-lo sóbrio, decente, e a impedir que colidisse com os privilégios e características próprias dos trajes de outros elementos da sociedade (certas cores e certos tecidos, por exemplo, estavam reservados a determinados estatutos sociais).

Nos Estatutos da Universidade de Coimbra de 1431, D. João I mandou que os mestres e doutores, indo leccionar ou a quaisquer outros actos escolares dentro dos limites da universidade, andassem em aparato geral ou doutoral, os docentes licenciados ou bacharéis em hábito honesto até aos tornozelos e os outros escolares em trajos honestos, pelo menos até à meia perna.
D. João III, na "Ordenança para os estudantes da Universidade de Coimbra", de 1539, impõe regras ao uso do trajo académico, como já o havi
a feito D.Manuel I em 1503, determinando:
"Não poderão os sobreditos nem outros alguns estudantes trazer barras nem debruns de pano em vestido algum; nem isso mesmo poderão traz
er vestido algum de pano frizado; nem poderão trazer barretes de outra feição senão redondos; e assim hei por bem que os pelotes e aljubetes que houverem de trazer sejam de comprido três dedos abaixo do joelho ao menos; e assim não poderão trazer capas algumas de capelo, somente poderão trazer lobas abertas ou cerradas ou mantéus sem capelo; não trarão golpes nem entretalhos nas calças nem trarão lavor branco nem de cor alguma em camisas nem lenços";
D. João IV, nos Estatutos de 1653 (chamados Estatutos Velhos), também efectua uma série de restrições.
Mas como seria o traje dos estudantes nesta época?

Universidade estava intimamente ligada à Igreja, era efectivamente uma instituição eclesiástica, e uma grande parte dos estudantes e mestres
eram clérigos. É pois natural que os universitários adoptassem uma maneira de vestir eclesiástica.
O vestuário dos estudantes de Coimbra nos séculos XVI e XVII caracterizava-se por:

"Loba ou Sotaina, decorada à frente, de alto a bai
xo, com uma fileira de pequenos botões, abotoada pelas costas com botões ou cordeis, a qual descia até à meia perna; uma Capa com gola e alamares ou cordão de borlas; um Barrete arredondado ou de cantos; Calção sem entretalhos ou golpes, meias e Botas ou Borzeguins. Os estudantes colegiais traziam os Hábitos das respectivas Ordens, salvo os dos Colégios seculares de S. Pedro e S. Paulo que tinham um Hábito semelhante aos escolares colegiais de Salamanca [...]. Este Trajo usado nas Faculdades também era extensivo aos Lentes, ressalvando-se apenas o pormenor de a Sotaina dos Mestres chegar ao calcanhar, enquanto a do estudante chegava à meia perna. Através dos Estatutos de 1653, dados por D. João IV, ficamos a saber que nesta época ainda se usavam barretes redondos ou de cantos para cobrir a cabeça e não o Gorro comprido, o qual se começou a trazer mais tarde, talvez nos começos do século XVIII. Estes Estatutos conferem ao estudante liberdade para trazer debaixo da Batina coletes e camisas, só mais tarde se tornando obrigatório o costume de envergar Volta Branca e Cabeção Negro [...]."
As lobas dos colégios eram de cores va
riadas (dentre as que não eram proibidas, claro): em Todos os Santos usavam o pardo, em S. Miguel roxo escuro, em S. Paulo castanho escuro, etc. Mas o preto viria a dominar.

Desta forma, no seu início, o objectivo principal do Traje Académico, não era, como muitas vezes se diz, igualizar os estudantes, mas antes fazer distinguir os académicos na sociedade. Apesar da falta de uniformização, os estudantes eram obrigados a usar um traje académico. De notar que essa obrigatoriedade era permanente, nas aulas ou fora delas, dentro do território académico da cidade de Coimbra.
A uniformização plena do traje académico aconteceu possivelmente na passagem do século XVII para o XVIII.

Nos finais do século XVIII o Traje Académico, seria assim composto:
"Todo o cidadão que se condecora com
o título de homem de bem, para decentemente aparecer no meio dos outros, carece para seu adorno externo, [...] enquanto estudante, de Verão, de sete [cousas], vem a ser:- cabeção, volta, camisa, batina, meias, sapatos, e fivelas; e de Inverno, de nove, porque entram calções e colete, que de Verão são inteiramente desnecessários."

As características medievais e clericais da Universidade de Coimbra começam a diminuir com a reforma do Marquês de Pombal, em 1772. Mas é só com o triunfo do Liberalismo em 1834 que começa verdadeiramente a aparecer uma universidade laica.
A Capa e Batina não são abolidas, apesar do seu carácter clerical e de várias outras críticas. Mas passa a ser obrigatória apenas dentro da Universidade.
"No meu tempo, ainda a quase totalidade dos estudantes andav
a sempre de capa e batina. [...] Ainda assim, já por lá começavam a aparecer os janotas, a que nós chamávamos os polainudos, que em saindo da aula se vestiam à futrica e iam para a Baixa de luvas amarelas e charuto!"O Romantismo do século XIX fomenta a idéia do estudante boémio, cábula, poeta ou músico, namoradeiro, etc. E a Capa e Batina é indissociável desse estudante romântico.
Nessa época e ainda hoje assim deve ser, a capa e batina não era um uniforme; era o símbolo da honra, da fraternidade e da mútua protecção. O espírito académico, a sua união nos grandes momentos de interesse comum, imperava sobre todo o organismo académico, convertendo toda a comunidade em uma só entidade.
Agora sim, aparece a defesa do Traje Académico como factor de igualização dos estudantes. Possuindo ainda uma vantagem económica, sendo cómodo, o seu desgaste era sinónimo de respeitabilidade, era o emblema do veterano.
Em 1860 a Capa e Batina ainda mantinha um aspecto bastante clerical:

"O vestuário é capa e batina; capa até ao tornozelo, com gola militar; batina curta até ao joelho, dois dedos abaixo; calção, meia preta de laia, sapato e volta em vez de gravata, como o padre.

No Inverno, no meu tempo, como se desenvolvia uma formidável epidemia de bexigas e tifo, era permitido andar de calça preta, caída, em vez de meia e calção.
Anda-se em cabelo, apesar de fazer parte do uniforme o gorro, saco preto que posto na cabeça cai pelas costas. Empregavam-no em carregar livros, frutas e outros místeres.

Andar em cabelo e muito bem calçado era o grande luxo.

A capa tem alamares para abotoar. Usa-se de muitas maneiras e bem traçada torna-se um traje muito elegante. Além de decorativa, é um magnífico cobertor”.

A partir de 1863 o Traje liberaliza-se bastante, nomeadamente no uso de calças em vez de calções. "O gorro era já raro pelas costas abaixo, ou caído em cima da orelha. A maior parte andava em cabelo, alguns traziam um pequeno boné preto como os de viagem, e as batinas já não eram as antigas lobas, que chegavam ao meio das canelas, mas umas batininhas que só chegavam aos joelhos (mais um casaco afogado do que outra coisa) - e a respeito de meia preta e volta de padre, só nos actos, e a volta às vezes era de papel, e as meias de algum teólogo!”

Os estudantes, cada vez mais burgueses e atraídos por ideias republicanas e anti-clericais, não sentiam qualquer identificação com um hábito eclesiástico, e, através do desrespeito pelas normas de uso do Traje Académico, iam-no de facto modificando.

Em 1898, "[A calça] nem sempre é preta. A gravata, umas vezes encarnada, outras branca e só por esquecimento é que ela é preta, como o regulamento ordena. A capa é usada com frequência dobrada e deitada sobre um dos ombros, trazendo-a muitas vezes na mão. E aqueles que querem usar bengala fazem-no, muito embora isso não deva ser permitido a quem se apresenta de capa e batina."

Aos usos da capa sobre um dos ombros ou na mão, António Nunes acrescenta "colocada no braço em jeito de gabardine [...] ou enrolada no colarinho, ‘para diferenciar os estudantes dos seminaristas e padres’". É interessante notar que muitas décadas depois de o uso da capa enrolada no colarinho se ter generalizado se mantiveram duas situações de excepção, provavelmente ambas em sinal de respeito pelo sagrado: na missa (capa simplesmente pelas costas, sem dobras no colarinho) e em sinal de luto (com a batina fechada - possivelmente em imitação da antiga batina eclesiástica - e a capa não só sem dobras mas também apertada com os colchetes do colarinho - possivelmente reminiscência de quando a capa tinha cordões).No final do sec XIX é introduzida a Batina com bandas de cetim e pregas posteriores. Isto é, a total substituição da Batina propriamente dita por uma verdadeira sobrecasaca. A estabilização das cores da gravata, colete e calças no preto e a generalização de algumas destas variantes (como a Batina-sobrecasaca), que só se deram já na República, para se ver atingido o Traje Académico que se tem mantido praticamente inalterado nas últimas décadas.



segunda-feira, junho 04, 2007

Trajes de Gloria do Ribatejo

Encontrei recentemente o Rancho Folclórico “As Janeiras” de Glória do Ribatejo, que me fizeram o favor de descrever os seus singulares trajes do início do sec.xx.
Dna Rosário, começou por explicar-me que este não é um traje de festa, mas para ao domingo irem à praça procurar trabalho, servindo o mesmo à 2ª feira, quando se deslocavam para as herdades trabalhar.
Na impossibilidade de adquirirem tecidos mais vistosos as raparigas bordam e decoram as peças de vestuário conseguindo efeitos admiráveis. Este traje era confeccionado pelas mulheres para uso próprio, muitas vezes às escondidas, para que não houvesse outro igual, é um exemplo do engenho e da arte feminina.
Na cabeça usam um lenço de algodão arranjado de uma forma única, cruzado na nuca e atado no alto, onde se reúnem as pontas das costas, de forma a formar uma espécie de touca, sempre presos com alfinetes de cabeça preta.
A blusa, a que chamam casaco, é de manga comprida e confeccionada em gorgorina, sendo ricamente ornamentada com bordados, favos de mel e muitas preguinhas no peito (que necessitam de ser passajadas antes da lavagem, para que não se desmanchem). Aberto na frente, com abas, pode ter gola ou colarinho, conforme o gosto da mulher.
No peito, como sinal de compromisso, traziam a fotografia do namorado.
Na cintura, usam um cinto preto para adelgaçar a silhueta, a bolsa das moedas e um lenço bordado, para limpar as mãos do suar quando se dançava.
O avental era abundantemente bordado a ponto cruz, ou de tecido estampado. Quando usavam o dedal e a “melhadura” presa no avental, era sinal de que já tinham um compromisso com um patrão e que não poderiam aceitar outra oferta de trabalho.
A saia de cima era confeccionada em “chita aos olhos” ou em escocês e enfeitada a gosto. As saias de baixo (3) eram enfeitadas com bicos a condizer. O conjunto das saias e avental era apertado nas ancas por uma cinta, onde era bordado de forma visível o nome do namorado.
As mais abastadas usavam sapatos de carneira pretos (sem meias), enquanto que as demais traziam tamancos.
Como adorno, pendiam das orelhas, argolas “à moía”, chinesa ou brincos “à Coimbra”.
Como abafo punham sobre os ombros ou da cabeça, uma saia de castorinha.
Nos braços ou à cabeça, transportavam um saco, também ele feito e decorado a gosto, contendo a janta de 2ª feira, 1º dia de trabalho, já que os restantes mantimentos só chegavam às herdades mais tarde.



O traje do homem era também confeccionado pelas mulheres, era constituído por colete e calças pretas, barrete ou chapéu. Os homens que usavam chapéu, a quem chamavam “singualeiros”, eram detentores das suas próprias terras.
As camisas de riscado eram feita á mão e ornamentada a gosto.
Tal como a mulher, também o homem usava sinais exteriores do seu compromisso.
Desde logo, a bolsa do relógio, que usava no bolso do colete era feita pela namorada, bem como o “lenço dos amores” que usava preso à cinta. A cinta era preta, com bordado policromado a gosto, utilizando-se motivos naturais e florais.
Calçava sapatos de atanado pretos.

segunda-feira, abril 09, 2007

Tricanas de Coimbra 1900

José Augusto Teixeira remeteu-me uma imagem de duas tricanas aguadeiras de cerca de 1900, junto ao Jardim da Sereia em Coimbra, extraída do livro “Coimbra e Região” de Nelson Correia Borges.
Fica aqui uma prestimosa colaboração que muito agradeço.

No texto podemos ler:

SÃO AS TRICANAS

Como tudo o que é de Coimbra – bom e mau – se não parece com mais coisa nenhuma, as tricanas de Coimbra são também elas sós, e, por conseguinte – incomparáveis!
Como andam sempre muito afinadinhas, desde os pés até à cabeça vão-se os olhos a olhar para elas, e fica a gente a dizer consigo que nunca viu mulheres assim … Sua chinelinha de biqueira, em que só lhes cabe metade do pé; sua meia branca, ou às riscas, muito esticada; saia de chita, das cores mais claras, deixando ver os tornozelos e acima dos tornozelos duas polegadas de perna; aquela aventalinho muito pequenino, que é mais um chic do que outra coisa: o chambre de chita clara, aberto no peito em decote quadrado; e então o xaile de barras, ou a capoteira, passando por baixo do braço direito, e lançando (com elegância que se não descreve, mas que os estudantes copiaram para as suas capas) por cima do ombro esquerdo!
Ao algo de tudo isto, uma cara quási sempre bonita, e espirrando sempre vivacidade; e naqueles braços, naquelas pernas, naquele busto, quando gesticulam, quando marcham, quando estão paradas, qualquer coisa que deve ser a própria graça – como só artistas a apreciam!
São as tricanas!
Trindade Coelho, in illo tempore

sexta-feira, agosto 04, 2006

Tricana de Coimbra



Uma da figuras mais conhecidas da Cidade de Coimbra, cantada pelos estudantes, a Tricana fez do xaile a sua peça de luxo, usando-o sobre os ombros ou traçado sob o braço direito.
Os xailes preferidos eram os que reproduziam em tapete decorativos orientais, denominados «xailes chineses».
Veste saia preta de lã, com fitas de veludo; saia de baixo branca, com tira bordada; avental de popelina, blusa de “tubralco”; caixiné; xaile chinês a tiracolo; chinelos pretos.