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quarta-feira, abril 09, 2014

Chancas


Chancas de Coimbra
Datação: XIX d.C. - XX d.C.

Matéria: Madeira; Metal; Cabedal

Dimensões (cm): altura: 16,5; largura: 13,3; comprimento: 29;

Descrição: Chancas (par) de rasto em madeira e gáspea, talão e cano, de cabedal de cor acastanhada. O rasto é constituído por salto, enfranque e pata. O salto é baixo e afunilado. Apresenta cinco cardas de ferro, espalhadas pelos limites do topo do salto, em círculo. O enfranque é curvilíneo, em continuação com a pata. Esta apresenta, espalhadas pelos seus limites e semeadas no interior, cardas de ferro. A unir o rasto à gáspea, ao talão e ao cano, uma banda de cabedal de cor castanha, pregada de espaço a espaço por pregos metálicos de cabeça larga batida. Na zona da biqueira, esta banda forma espécie de meia-lua protectora. Na chanca do lado esquerdo, surge, na metade do lado direito, vindo do início da pata até meio da biqueira, uma barra de ferro, sobreposta à madeira do rasto e à tira de cabedal, seguindo os contornos desta, mas com menor amplitude na biqueira. É presa à madeira por meio de quatro pregos, igualmente espaçados. A gáspea apresenta, na chanca do lado direito, justapostas à biqueira, duas tiras de sola de cor preta, pregadas em cada lado, ao rasto, com pregos metálicos. Ambas as chancas apresentam língua, que se sobrepõe ao pé. Termina com os cantos arredondados a meio do enfranque. Um pouco antes de tal terminação, pela parte de dentro, inicia-se o talão. Este é subido, cobrindo toda a zona do calcanhar. Sobre a totalidade do talão e parte da gáspea, surge um cano baixo, de duas peças cosidas entre si, atrás, por meio de uma terceira tira muito fina do mesmo material, disposta no sentido da altura. É aberto à frente, ao centro. O corte frontal do cano forma uma espécie de aba de limites arredondados, uma de cada lado da língua da gáspea. A extremidade inferior de tais abas forma um bico. Este é coincidente com o ponto a 2/3 da largura, e metade do comprimento da gáspea. De tal vértice, segue um arco côncavo descendente até tocar o rasto, ponto este que é coincidente com o início da gáspea. As abas do cano são atravessadas por seis ilhós, dispostas equidistantes, no sentido da altura. Tais ilhós são atravessadas por uma fina fita de cabedal - atacadores. Alinhada com a abertura do cano, mas no lado oposto, uma presilha em laço. Sobre o cano, na parte de trás da chanca, vindo do rasto até cerca de 2/3 da altura, um segundo talão, de formato hiperbólico.
 
Chancas
Datação: XIX d.C. - XX d.C.

Matéria: Madeira; Metal; Cabedal; Tecido

Dimensões (cm): altura: 16,5; largura: 10; comprimento: 27;

Descrição: Chancas (par) de rasto em madeira e gáspea e cano, de cabedal de cor acastanhada. O rasto é constituído por salto, enfranque e pata. O salto é baixo. Apresenta vestígios de aplicação de sola (?) com as mesmas dimensões da área de aplicação, no topo. O enfranque é curvilíneo, em continuação com a pata. Esta apresenta, a contornar os seus limites externos, vestígios de espécie de ferradura em sola (?), pregada à madeira com pregos metálicos. A gáspea é unida ao rasto por meio de pregos metálicos de cabeça larga e batida, dispostos muito juntos. As orelhas são subidas, encontrando-se unidas ao centro da parte de trás da chanca. Sob as gáspeas, surge o cano, baixo. Apresenta atrás, ao centro, um pequeno talão trapezoidal, cuja aresta superior, a mais pequena, é presa à extremidade superior do cano por meio de uma ilhós e de um botão metálico. Desce daí, alargando-se até às orelhas. A parte da frente do cano, ao centro, é aberta até à junção com a gáspea. Apresenta de cada lado da abertura, sete ilhós equidistantes, colocadas no sentido da altura. Tais ilhós são atravessadas por um atacador de cor acastanhada. A parte de dentro do cano, é guarnecida com uma tira de cabedal, à volta da boca e de cada um dos lados da abertura. Sobre a boca, atrás, ao centro, uma presilha de cabedal. Sob a abertura, uma língua independente, de formato lobular.

Chancas de Seia/Sabugueiro
Datação: XIX d.C. - XX d.C.

Matéria: Madeira (amieiro); Metal; Couro

Dimensões (cm): altura: 18,5; largura: 9; comprimento: 26,5;

Descrição: Soco de rasto de madeira de amieiro e gáspea de couro atanado - curtido em casca de carvalho em pó conferindo-lhe uma cor creme escura. O rasto apresenta salto, enfranque e pata. O salto é alto. O enfranque é curvilíneo, em continuação com a pata. Esta apresenta um bico de formato redondo. A união entre rasto e gáspea é guarnecida com tira de cabedal pregada, equidistante, a toda a volta, com pregos metálicos de cabeça larga e batida. A gáspea é muito subida, fazendo cano. É de uma única peça. Esta inicia-se no lado interior da chanca, junto ao início do enfranque. Daí, segue em arco convexo ascendente até ao centro da largura, de onde parte um corte rectilíneo para cima, constituindo uma das abas da abertura. Segue assim os contornos do rasto, indo terminar numa outra aba, justaposta à anterior. Esta extremidade, entra sob o arco inicial da outra extremidade, apresentando aí duas costuras espaçadas, executadas a linha grossa de cor castanha. Tais costuras seguem os contornos no arco e estendem-se até à abertura da chanca. Cada aba apresenta cinco furos dispostos equidistantes no sentido da altura. São atravessados por uma fina fita de couro - atacadores. Interiormente, surge uma língua, cosida sob a abertura da gáspea. Na extremidade oposta à abertura, junto à boca, ao centro, surge uma presilha no mesmo material, em laço. Na zona do calcanhar, um talão de formato semicircular, cosido superiormente à gáspea. Tal costura é executada a fio grosso de cor creme e é visível no exterior.

Chancas da Calheta
Datação: XIX d.C. - XX d.C.

Matéria: Madeira (cedro); Cabedal; Metal (ferro); Metal

Dimensões (cm): altura: 22; largura: 11; comprimento: 31;

Descrição: Chancas (par) com rasto em madeira de cedro. Este é constituído por salto, enfranque e pata. O salto é alto e afunilado. O enfranque é contínuo com a pata, sendo esta de ponta levantada. Todo o perímetro do rasto é percorrido por uma espécie de ferradura de ferro, com cravos de espaço a espaço. Apresentam talão e gáspeas em cabedal branco. O talão é alto, afunilando à medida que se encaminha para a parte anterior do pé. Aí, divide-se em dois, formando duas abas. São ambas furadas com cinco ilhós metálicas, pelas quais passa um atacador do mesmo cabedal. A união entre gáspeas, talão e o rasto é efetuada por meio de uma tira de cabedal de cor castanha, pregada de espaço a espaço.

Fonte: O Trajar do Povo em Portugal
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quinta-feira, janeiro 23, 2014

A Seda é um Mistério


Tradicionalmente a seda era usada nos bordados característicos das colchas da região de Castelo-Branco; nos panos de esquife, que ocultavam o morto que ia a enterrar embrulhado num lençol, constituindo o elemento nobilíssimo do préstito e cujo uso só aqui registamos; nos entremeios de panos e lençóis de linho; e em tecidos, juntamente com linho, para toalhas de variado uso, guardanapos, panos ornamentais, etc.

Em Portugal, a indústria da seda nunca alcançou grande projeção económica. Fradesso da Silveira, em 1869, analisando o panorama da sericicultura, notava que parte da produção do sirgo era vendida para países europeus, fabricantes de seda, designadamente França e Itália, cabendo-nos apenas 14% do trabalho mais laborioso da produção, e àqueles industriais 86% pelo trabalho mais leve da transformação. Os processos de fiação manual comummente usados nas nossas aldeias foram amplamente verberados como “agentes da destruição da seda”. A severidade desta visão não atinge certas situações caracterizadas por modelos de economia familiar específicos, regidos por uma lógica própria, como a que se pode verificar no caso de Maria Teresa Frade. Aqui, a noção quantitativa esbate-se num pano de fundo em que a qualidade e mesmo um sentido estetizante são dominantes.

Em Trás-os-Montes, onde a prática de laboração doméstica teve certa importância, nomeadamente na região de Bragança, Miranda do Douro, Mogadouro e Moncorvo, aproveitavam a seda residual dos casulos que a borboleta furou – os “capelos” –, a anafaia – as “condas” –, e os “maranhos”, que são a parte final dos fios que envolvem o bicho. Esses desperdícios eram fiados à mão, com roca e fuso, obtendo desse modo um fio mais grosseiro, que tingido de várias cores, constituía o elemento decorativo das cobertas de cama, segundo a técnica do repuxado de trama sobre urdidura de linho – o “borboto” ou “felpa” –, as quais atingiram um elevado nível qualitativo, designadamente em Urros, Moncorvo. Na Beira Baixa, contrariamente, não se conhece o aproveitamento desse tipo de seda.

Em Castelo-Branco, a produção tradicional da seda destinava-se, para além de outros materiais têxteis, constituía uma componente indispensável da confeção das colchas decoradas que, ao longo dos séculos, adquiriram uma dimensão emblemática desta região. Tal processo inicia-se com a criação do bicho-da-seda, associada ao cultivo da amoreira que serve de alimento às larvas que produzem a matéria-prima. Na sua dimensão tradicional, a cadeia operatória de produção do fio da seda consiste na extração do fio dos casulos, após a cozedura deste, na dobagem e enovelamento do fio.
A produção da seda inicia-se com os cuidados prestados aos bichos-da-seda para assegurar a sua alimentação e reprodução. O ciclo reprodutivo destes inicia-se logo após a conclusão da sua metamorfose, que ocorre dentro dos casulos, de larvas em borboletas, entregando-se machos e fêmeas de imediato ao ato reprodutivo. Este corresponde a um período curto, cerca de três dias, caracterizado pela excitação da sedução, fecundação, ovulação, perda de vitalidade e morte. As fêmeas produzem cerca de 300 ovos cada. A semente que daí resulta é colocada numa caixa de papelão, forrada de papel branco no fundo, e guardada numa divisão da casa que regista de Inverno as temperaturas mais altas. De meados de Março em diante os ovos são objeto de uma observação atenta, diária. Quando se dá a eclosão, as minúsculas larvas são colocadas em tabuleiros, juntamente com folhas de amoreira muito tenras, para seu alimento. Seguidamente, esses bichos são dispostos em outros tabuleiros, numa distribuição que atende ao grau do seu desenvolvimento. Em geral são usados os tabuleiros de tender o pão, com o fundo forrado de jornais.

O bicho-da-seda alimenta-se exclusivamente de folhas de amoreira, que são colhidas diariamente por Maria Teresa Frade. O bicho-da-seda tem um ciclo de vida de cerca de 30 / 40 dias assinalado por quatro mudas de pele. A qualidade e abundância alimentar pode encurtar esse período. Quando pequenos, são-lhes dadas folhas duas vezes por dia, aumentando esse número à medida do seu crescimento. A limpeza das camas é feita duas a três vezes por semana.

A intimidade de Maria Teresa Frade com as lagartas permite-lhe saber, sobretudo através da cor, quanto está iminente a feitura dos casulos. Na previsão desse passo, recolhe num pinhal pequenos ramos, selecionando aqueles que têm uma caruma mais miúda e rala. Os ramos de pinheiro são então colocados num dos lados dos tabuleiros, encostados à parede, e rapidamente os bichos se apropriam deles, começando a fazer os casulos, que ficam completos ao fim de três dias, atingindo o estado de crisálida passados cinco dias e o de adulto cerca de dez a quinze dias depois. O período final desta fase exige redobrada atenção de modo a evitar a eclosão, que destruiria a seda. Os casulos são retirados dos ramos, selecionam-se os machos (casulos mais bicudos), e as fêmeas (mais redondos), para reprodução, a semente, e os restantes são expostos ao sol, sobre um lençol, para matar a borboleta com o calor.

 
Na sequência da cadeia operatória, Maria Teresa Frade procede à recolha e arranjo de ramos de carqueja. Os casulos são limpos à mão retirando-lhes a anafaia.

Ferve-se água num caldeiro e lança-se nele uma quantidade de casulos equivalente à capacidade de uma bacia dos velhos lavatórios, mantendo-os a ferver durante dois ou três minutos. O caldeiro é retirado da fogueira e levado para dentro do palheiro onde teve lugar a criação do bicho-da-seda e decorre a operação da fiação. Esta exige a participação de duas pessoas.





 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Para o efeito deverá servir-se de um argadilho, colocado ao lado do caldeiro, num plano superior, e no qual se vão enrolando os fios da seda, captados pela outra auxiliar, com a ajuda de um ramo de carqueja, em maior ou menor número, conforme a grossura desejada do fio final. É uma tarefa que exige grande subtileza, operando apenas no núcleo de casulos que sustentam o fio, refazendo-o à medida da gradual progressão do trabalho. O comprimento do fio de cada casulo chega a atingir mil metros. Para a tecelagem o fio é mais grosso; para o bordado é mais fino.



Antes de se retirar a meada do argadilho esta é devidamente atada e depois posta a secar ao ar livre. Para que a seda perca uma certa rigidez, a meada é metida numa panela com água a ferver, juntamente com uma quantidade de sabão equivalente ao seu peso, perdendo a tonalidade amarela, que volta a retomar após várias córas.


Em outros tempos, Maria Teresa Frade vendia muita seda para bordados. Hoje, toda a produção é aplicada na tecelagem, especialmente em toalhas de linho. Para o efeito, a meada é dobada em novelos e, quando se procede à urdidura da teia de linho, intercalam-se séries de fios de seda, que sobressaem em barras longitudinais, que outras similares da trama cruzam, conforme o padrão decorativo imaginado. A teia, após a urdidura, é montada no tear. Neste género de tecido – “montagem com crivo” – usam-se três liços que se manejam de acordo com o remetido nos liços e as configurações da textura que se pretende obter.
 

O processo de transmissão de competências e técnicas tradicionais associadas à produção e transformação da seda era realizado intergeracionalmente, através da aprendizagem informal e exclusivamente com recurso à oralidade.

Maria Teresa Frade é natural da aldeia da Silvosa no Concelho de Oleiros. A atividade profissional do seu marido, obrigo Maria Teresa Frade a viver na cidade de Castelo Branco, onde construiu no quintal da nova casa citadina um pequeno e elementar edifício, onde instalou os equipamentos necessários para se poder dedicar à prática da tecelagem manual, que fora ao longo da sua vida de solteira, uma das grandes paixões.

Logo que as condições económicas o consentiram, o casal adquiriu uma parcela de terreno na periferia da cidade, modelando-o rapidamente a seu gosto, mercê dum saber empírico profundo, desenvolvendo um micro espaço agrário extremamente diversificado. Quando passou a residir em Castelo Branco plantou três dessas árvores, de modo a assegurar a produção da seda necessária à atividade da tecelagem. Em outros tempos vendia seda para bordados, mas mais recentemente a produção foi aplicada na tecelagem, especialmente em toalhas de linho.


O presente artigo foi elaborado a partir do texto A seda é um mistério, da autoria de Benjamim Pereira, editado na brochura que acompanha a edição em VHS do filme homónimo realizado por Catarina Alves Costa em 2003.
Para além do registo de conhecimentos e de saber-fazer multisecular, de que Maria Teresa Frade era na região uma das últimas detentoras no momento desta investigação, é também a sua voz que aí ecoa e foram as suas próprias palavras (“A seda é um mistério…”) que resultaram no título dos documentos finais.

A Seda é um Mistério (2003)
Realizadora: Catarina Alves Costa
Copyright: © Laranja Azul / IMC, IP.

Imagens: Catarina Alves Costa
Fonte: MatrizPCI

quinta-feira, janeiro 16, 2014

CHAPÉUS FEMININOS


Ao longo da região costeira entre o Douro e o Tejo sujem nas indumentárias populares femininas a utilização de pequenos chapéus, alguns com trajes de festa, outros de uso diário e associados a determinadas atividades.

Os exemplares que de seguida descrevo resultam da recolha efetuada pelo site Trajar do Povo em Portugal.


Região da Gândara - Bairrada
Matéria: Tecido; Veludo; Pena de Pavão
Dimensões (cm):altura: 8; diâmetro: 19,5;
Descrição:

Chapéu de tecido de cor preta. As abas são paralelas à copa, sendo reviradas até à altura desta. A copa é de tecido de cor preta. O topo é abatido. Apresenta uma fita de veludo de cor preta, que se prolonga pelo centro e pelos limites do topo da copa. É arrepanhada de espaço a espaço formando espécie de laços de extremidades lobuladas. De um dos lados, apresenta uma pena de pavão de cor preta, a qual sai para fora dos limites do chapéu. As abas são cilindriformes. São revestidas a veludo de cor preta. Tal revestimento prolonga-se um pouco para o interior do chapéu. O interior da copa é forrado a tecido de fundo de cor creme.


Leiria / Pombal / Ranha de Baixo
Matéria: Feltro; Veludo; Penas; Tecido; Pergamoide
Dimensões (cm): altura: 7,5; diâmetro: 20;
Descrição:

Chapéu de feltro de cor preta e abas paralelas à copa, reviradas até à altura desta. A copa apresenta a toda a volta, uma banda de veludo de cor preta. Esta, em metade do perímetro é repuxada e plissada, formando pequenos laços de extremidades recortadas em "ziguezague". Numa dessas extremidades apresenta duas penas de ave: uma pequena de cor vermelha e outra maior de cor preta. A aba, cilindriforme, é forrada a veludo de cor preta. Interiormente, o chapéu é forrado a tecido de cor branca. Ao centro, vestígios de uma inscrição de fabricante: espécie de esfera que contém um chapéu no interior, encimada por uma coroa e ladeada por uma figura humana. A orla da extremidade inferior da copa é forrada por cima do tecido de cor branca, por uma banda larga de pergamoide (?) lavrada com pequenas quadrículas. Tal banda é cosida ao corpo do chapéu por linha de cor preta.


Vila Nova de Gaia / Grijó / Murracezes
Matéria: Feltro; Veludo; Seda; Tecido; Pergamoide
Dimensões (cm):altura: 6; diâmetro: 18,5;
Descrição:
Chapéu de tecido de cor preta e abas paralelas à copa, reviradas até à altura desta. A copa é baixa, de tecido de cor preto e de formato redondo. As abas, cilindriformes, são revestidas a veludo de cor preta. No espaço criado entre a copa e a extremidade da aba, uma aplicação a toda a volta de pequenas borlas de seda de cor preta. O interior da copa é forrado a tecido de cor esverdeada. No centro, vestígios de uma inscrição do fabricante. A guarnecer a orla, pelo interior do chapéu, por cima do forro, uma banda de pergamoide (?) pintada de cor vermelha.


Vila Nova de Gaia / Grijó / Murracezes
Matéria: Feltro; Veludo; Seda
Dimensões (cm): altura: 8,5; diâmetro: 19,5;
Descrição:
Chapéu de tecido de cor preta e abas paralelas à copa, reviradas até à altura desta. A copa é baixa, de tecido de cor preta e de formato redondo. As abas, cilindriformes, são revestidas a veludo de cor preta. No espaço criado entre a copa e a extremidade da aba, uma aplicação a toda a volta de pequenas borlas de seda de cor preta. Interiormente, na extremidade inferior da aba apresenta uma pequena etiqueta de cor branca e formato rectangular com o número "1" impresso à máquina, a tinta de cor preta.


Vila Nova de Gaia / Grijó / Murracezes
Fabricante: Carlos Alberto - Porto
Matéria: Feltro; Veludo; Gorgorão (seda) (?); Tecido; Pergamoide
Dimensões (cm): altura: 9; diâmetro: 30;
Descrição:

Chapéu de feltro de cor preta e abas direitas, um pouco levantadas nas extremidades. A copa é baixa, de tecido de cor preta e de formato redondo. O topo parece ser calcado nas extremidades, de modo a fazer um pequeno refego a toda a volta. Na extremidade inferior da copa, aplicação de uma fita de gorgorão (?) de seda (?) de cor preta. Esta forma, lateralmente, uma laçada. A fita é cosida ao corpo do chapéu com largos pontos em espécie de alinhavo, executados a linha de cor castanha escura. A extremidade das abas tem aplicação de uma fita fina de veludo de cor preta. Interiormente, na extremidade inferior da copa, uma banda larga de pergamoide (?) de cor castanha escura. De um lado, a seguinte inscrição inserida num emblema dourado encimado por uma águia :"NUNES DA CUNHA & Cª. Ltd. S. JOÃO DA MADEIRA." / "MARCA REGISTADA" / "CONDESTÁVEL". Do lado oposto a este, a seguinte inscrição marcada a baixo-relevo no pergamoide (?): "CARLOS ALBERTO" / "CHAPELEIRO" / "R. FORMOSA 39 (?) Tel 8857 (?)" / "PORTO". Em cada um dos lados do chapéu, presos à banda de pergamoide (?), duas fitas finas de tecido de cor creme, para ajustar o chapéu à cabeça, através de uma laçada no pescoço.

 

Portugal / Porto / Maia

Fabricante: Neves (?)
Matéria: Pelúcia; Tecido (seda); Metal; Tecido; Pergamoide
Dimensões (cm): altura: 6,5; diâmetro: 25,5;
Descrição:

Chapéu de pelúcia de cor preta e abas direitas, um pouco levantadas nas extremidades, especialmente nas laterais. Apresenta uma copa muito baixa, de formato redondo. A altura da copa é guarnecida com uma banda de renda (?) de cor branca. Sobre esta, uma fita de seda de cor verde. Dada a sobreposição, a primeira é visível apenas acima da segunda. Tal fita apresenta à frente um laço, adornado ao centro com uma peça metálica. A peça é uma espécie de anel, cujo aro é constituído por cinco pequenos círculos contendo uma pedra de cor violeta em cada um. Atrás, a fita forma uma laçada. As extremidades da laçada, longas, caem livremente para fora dos limites do chapéu. Do lado esquerdo da aba, pregado ao interior revirado desta, um outro laço, pequeno, da mesma fita, com aplicação de banda de renda no interior. O interior da copa é forrado a tecido de fundo de cor branca riscado a linhas finíssimas de tonalidade mais escura. Ao centro, uma etiqueta de papel de cor castanha escura e formato circular com o brasão de Portugal no meio, e a seguinte inscrição à volta: "NEVES" / "PORTO - RUA DE SANTO ANTONIO - 114" Na orla da extremidade inferior da copa, por cima do tecido do forro, uma banda larga de pergamoide (?) de cor bordeou. Tal banda é cosida ao corpo do chapéu a linha de cor preta. Sobre esta banda, uma pequena etiqueta de papel de cor branca e formato rectangular com o número "3" impresso à máquina, a tinta de cor preta.



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Chapéu de Alcains
Chapéu dePalha
A IndústriaChapeleira e o Traje Tradicional
O Fabrico deChapéus em São João da Madeira





segunda-feira, agosto 12, 2013

O Ouro no Traje da Mulher – Entre Douro e Minho


O ouro que cada mulher ostentava, conforme a sua quantidade, indicava o seu estatuto social.
A joalharia portuguesa era um adorno complementar do traje. Num mundo de constantes flutuações políticas e económicas, a posse do ouro era tida, a par da terra, como o único investimento passível de ser transmitido de geração em geração.
“O povo dizia: “roupa quanta rompas, terra quanta vejas e ouro quanto possas”.
Os brincos são verdadeiros pontos de luz que iluminam, realçam e embelezam o rosto da mulher.
No passado, nenhuma mulher tinha sequer a veleidade de se apresentar em público sem brincos. Aliás, ninguém a desculpava. O povo era até cruel e impiedoso com ela. Mulher sem brincos não passava de uma “mulher fanada”. Por mais humilde e pobre que fosse, a mulher jamais se atreveria, quer no seu dia-a-dia, quer em dias de festa, feira e romaria a sair à rua sem eles. Apenas existia alguma compreensão e benevolência para a falta de brincos se, eventualmente, estes tivessem sido oferecidos, em momentos de grande angústia e desespero, a alguma divindade para cumprimento de qualquer promessa. Mesmo assim, a tolerância era relativa e muito curta no tempo. A mulher tinha que providenciar no sentido de adquirir de novo este importante adorno.
Na figura abaixo visualizam-se alguns dos brincos mais usados na região Entre Douro e Minho, destacando-se, em primeiro lugar, as arrecadas à carniceira. Rapariga que se prezasse, removia “mundos e fundos” para poder adquirir o popular traje à lavradeira, que envergava em grandes ocasiões, mas jamais o exibia sem colocar nas orelhas as avantajadas e vistosas arrecadas à carniceira.

As arrecadas à carniceira, também chamadas argolas de Barcelos ou de Cigana, muito em uso, especialmente nessa região. Estas peças começaram a ser muito divulgadas a partir do princípio deste século, em especial pelas mulheres dos talhantes (daí o seu nome) daquela cidade, atestando a sua situação económica com tamanhos que atingiam, por vezes, dimensões desproporcionadas. São peças ocas, de ouro polido com canovão de secção quadrada, de ganchos, com grande incorporação de mão-de-obra.

Arrecada à Carniceira

As arrecadas são as peças com antepassados mais antigos, aproximadamente 2.500 anos e com os mesmos motivos amuléticos. Forma lunular na “janela” ou “pelicano” na parte próxima dos ganchos; pequenas calotas côncavas dispersas (chocalhos afugentadores de maus espíritos); “SS” de filigrana (estilização de pássaros voando); triângulo invertido como remate (símbolo da fertilidade). São peças manuais em filigrana.

Arrecadas



Os brincos de meia libra refletem a utilização de moedas como adorno, não só como pendentes de cordões mas também das orelhas, sendo normalmente utilizadas libras ou meias libras.



Brincos de Meia Libra

Sendo assim, é imperioso que todos os agrupamentos folclóricos jamais olvidem este pormenor: no trabalho, a mulher não ostentava quaisquer elementos em ouro, mas os brincos jamais se separavam dela em todas as situações.

Fontes:
Conselho Técnico de Entre Douro e Minho
Viana Social e Cultural



quarta-feira, julho 03, 2013

TRAJE DE DOMINGAR OU DE FESTA DAS TERRAS DA MAIA - DOURO LITORAL


Até 1843, as antigas Terras da Maia comportavam 74 freguesias compreendidas entre o Oceano Atlântico e o Monte Córdova (Santo Tirso), do Rio Ave à Foz do Douro, passando por Nevogilde, Cedofeita, Paranhos, Gondomar, Ermesinde, Santa Maria da Reguenga, Santo Tirso, Macieira da Maia a Azurara.

Na Maia o traje de domingar ou de festa era por excelência o mais representativo pelo negro das saias de baetão com barra de veludo. Junto ao corpo saias brancas de linho rendadas, culotes e as meias feitas à mão e rendadas que não deixavam mostrar um milímetro do seu corpo.

Sobre todas estas saias caía um avental comprido adornado na barra com rendas de algodão da mesma cor e, por vezes um ou outro vidrilho em contraste com as blusas brancas de linho alvo de neve com colete estampado de pequenas flores coloridas, ajustado a corpo, cobrindo-se com um belo e colorido lenço de merino vermelho ou amarelo, verde ou azul e por vezes castanho.

Na cabeça a mulher maiata cobria-se com maravilhosos lenços ora de seda, bibinete ou filó de três pontas soltas sobreposto com um chapeuzinho de feltro de veludo de aba revirada e redondo, adornado com um pequeno espelho, tinha também duas fitas pretas com breu caindo sobre o lenço branco bordado à mão.
 
Nas orelhas as libras de cavalinho e arrecadas de ouro.

quarta-feira, agosto 01, 2012

A Banheira de S. João da Foz do Douro

Vamos a banhos!

Perde-se no tempo o aparecimento figura do banheiro, associada aos banhos de mar um pouco por todo o país, cuja época áurea ocupa toda a segunda metade do século XIX e a primeira metade do século XX.
No entanto, esta era atividade exclusivamente masculina, com exceção da praia de S. João da Foz do Douro.
Guilherme Braga, em 1869, na sua obra “O Mar da Delfina”, descreve, sucintamente, sob a forma de poema, a Custódia como «…. uma das mais antigas e afamadas banheiras de S. João da Foz».
A banheira, robusta e vigorosa, é-nos apresentada por Ramalho Ortigão, no “Álbum de Costumes Portugueses” de 1881, como proveniente «…de uma estirpe de outras banheiras, e constitue pelos seus caracteres heriditários uma casta distincta…», sendo que «…sem esse privilégio selectivo, de nascença, nenhuma mulher tomaria por offício dar banhos, passando oito ou nove horas por dia, durante quatro meses do anno, mettido no mar até ao peito».

Eduardo Sequeira, na obra “Á beira mar”, de 1889, dá-nos a sua impressão sobre a banheira, uma «…serviçal em extremo e sabe, com uma arte especial captivar a simpatia de todos, das crianças a quem anima, da rapasiada com quem confraternisa alegremente, e dos velhos cercando-os de considerações e respeitos, prodigalisando-lhes cuidados e confortos».
Alberto Pimentel, em 1893, na sua obra “O Porto Há Trinta Anos”, escreve sobre a banheira dizendo serem «.. algumas d´ellas raparigas bonitas e fortes», e Ramalho Ortigão na obra supra citada, completa, referindo que a sua diferença se impôs «…pelo trajo, pelas attitudes, pela expressão physionomica, pelo sorriso, em que o vermelho vivo das gengivas e o branco pérola dos dentes lembra uma frescura de guelra e a respiração salgada cheirando a sargaço, pelo olhar límpido e profundo…», descrevendo a fisionomia da sua banheira, Anna da Luz, e afirmando «…ficou-me para sempre, e ainda n´este momento a vejo, septuagenaria, alta e espadaúda, o cabello quasi todo branco, a face enrugada e brunida pelo sol, os grandes olhos mansos e ternos, as mangas arregaçadas, a saia de braqueta sempre molhada até à facha que lhe cingia a cintura, o chale de malha côr de pinhão trespassado no peito.».

Quanto ao trajo, um artigo no jornal “O imparcial da Foz”, de 18 de Setembro de 1904, refere que os «Banheiros e Banheiras, com os trajos profissionaes, largas toalhas aos hombros e bilhas com água nas mãos, crusam-se pelos arruamentos formados entre os quadrados das barracas.». Por sua vez o periódico ” O Progresso da Foz”, de 29 de Setembro de 1907, acrescenta que «…o banheiro, um velho lobo do mar, vestido de negro, sem perder de vista a boia de salvação que se pendura n´um varão de ferro cravado na areia, vela cuidadosamente pelos banhistas mais temerarios que tentam afastar-se da praia, e reprehende-os com benigna severidade.»
Vamos agora falar do dia da banheira e para isso, começamos por uma passagem da obra citada de Ramalho Ortigão, em que «…de madrugada, ao armar das barracas, quando ellas, accordadas com os primeiros massaricos prateados que debicam a salsugem da maré, entôam em côro de sopranos uma das muitas barcarolas locaes, uma aguda palpitação de poesia festival e triumphadora preenche o ar…»

O meio de transporte utilizado pelos banhistas para se deslocarem das suas casas para a praia dos banhos foi variado ao longo dos tempos, tendo sido primeiro utilizado o jumento, o carroção, o americano e, mais próximo de nós, o eléctrico. Sob a primeira forma de transporte fala-nos Alberto Pimentel, na obra supra citada, que «… os jumentos eram um meio de locomoção muito usado ainda no Porto para a jornada da Foz. Pessoas conhecidas umas das outras organizavam burricadas, que partiam de madrugada e iam choutando à beira do rio por entre nuvens de pó. De vez em quando, as senhoras cahiam dos burros, e toda a caravana parava à espera que se removesse aquelle vulgar incidente. Depois continuavam a jornada até à praia dos banhos onde os burros ficavam descançando enquanto as pessoas que elles haviam transportado iam tomar banho. Estas caravanas que chegavam ou que partiam, contribuíram para animar o espectáculo da praia dos banhos».
Segundo o jornal “O Progresso da Foz”, de 29 de Setembro de 1907, «… cada comboio que despeja na praia uma multidão de banhistas, que vae descendo até à beira-mar conversando ruidosamente, n´uma alegria communicativa, como que anteposando a sensação deleitosa d´um banho n´aquelle mar tão azul. Raparigas aos banhos, com leves vestidos claros, riem e chalaceiam, n´uma grazinada jovial e infantil.».

Sobre esta paisagem, o jornal “O imparcial da Foz, de 18 de Setembro de 1904, revela que «…os banhistas vão chegando, ainda com caras somnolentas e pouco animadas, parece tiritando de frio, entram nos pequenos cubiculos de lona, e vagarosamente, vão fazendo a toilette com que se hão-de apresentar ao velho deus Neptuno».
O facto de os banhistas irem a banho de madrugada deve-se, tal como diz o Sr Domingos Picão, sobrinho de banheiras de S.João da Foz, a estes se tomarem em jejum. O período de tempo, receitado pelo médico, para ir a banhos era geralmente, como refere em 1889, Eduardo Sequeira, na sua obra já citada, «…de vinte e cinco a trinta dias… não devendo o banhista tomar banho no próprio dia da chegada à praia, mas tão somente dous ou tres dias depois».

Depois de preparada a toilette para ir a banhos, e tal como descreve ”O Progresso da Foz”, de 29 de Setembro de 1907, «…principiam a sahir banhistas das barracas. Os homens, com as pernas e os braços à vela, uns enfezados e rachiticos tremendo de frio n´aquella deliciosa e amena manhã de Setembro, outros de formas musculares, quasi athleticos. As senhoras com toda a sua esthetica destruída pela deselegancia dos largos vestidos pretos guarnecidos de fitas brancas, os pés occultos em sapato de tecido fino, os cabellos setinosos domados por uma touca ornada de lacinhos. Algumas chegam às barracas com umas formas tão roliças e desenvolvidas e — oh; desilusão! — saem para o banho tão escoadas que dir-se-ia estarem as barracas povoadas de carnívoros». Da mesma forma, o jornal ” O imparcial da Foz”, de 18 de Setembro de 1904, diz-nos que «…apparecem os primeiros grupos já promptos para entrar nas selsas águas, banheiros de bilhas na mão despejam água nas cabeças dos mais nervosos, que correspondem com carantonhas capazes de metter medo ao próprio mar. Entram n´água os primeiros grupos, é signal dado para principio  da animação da praia, desde então até quasi ao meio dia, succedem-se uns aos outros, de forma que na praia d´Ourigo milhares de pessoas se banharam».

Artur Magalhães Basto, n´A Foz Há 70 anos, conta que «…mesmo em maré vaza, só os destemidos tomavam banho sem ir agarrados à mão do banheiro. E em geral os banhos demoravam apenas alguns minutos. Esperavam-se as ondas e contavam-se os mergulhos; um, dois, três!… e rua! — Quer dizer, imediatamente para a barraca».
«… Coragem e ávante!», era o dito utilizado pela banheira Rita, a quem tem medo do mar, num artigo no “Jornal do Porto” em 10 de Agosto de 1863.

Ainda n´A Foz Há 70 anos, Artur Magalhães Basto afirma conhecer  «…uma descrição da praia do Caneiro em 1873, em que surgem tipos que eu vi ainda há 20, 25, 30 anos e ainda hoje certamente aparecem. Este por exemplo : «o senhor gordo, nédio, droguista talvez». Vai tomar banho, desce solenemente a rua das barracas. Relanceia com gosto a vista pelos espectadores, todo cheio de si e da sua beleza plástica. Sonoro e enérgico, como quem dá voz de sentido a um batalhão, berra — Gamela! O banheiro traz-lhe uma gamela com água; o senhor gordo inclina a cabeça para a frente, como se fosse oferecer ao cutelo da guilhotina; e o banheiro despeja-lhe a água pela cabeça abaixo. Depois endireitando-se, bufa e avança para o mar — mas pára de repente, mal a água lhe chegou à boca do estômago».

Depois do banho tomado, “O Progresso da Foz” de 29 de Setembro de 1907, dá-nos uma impressão de como os «Banhistas saem do mar e regressam às barracas, todos muito apressados, cada prega do fato transformada em goteira, as roupas encharcadas a desenhar-lhes as formas com nitidez».

O mesmo jornal revela-nos o ambiente que se vive na praia, «sentados em pequenas cadeiras encostadas às barracas que se alinham em filas uniformes de cubos brancos, muitos banhistas conversam ou lêem os jornaes da manhã; uns esperando companheiros inseparáveis dos seus brinquedos aquáticos, outros, mais madrugadores, já refrescados pelo banho matinal, e outros que são levados à praia somente pelo prazer de admirar plásticas que se revelam mais ou menos perfeitas sob os fatos de banho, ou para trocar olhares cupidíneos com as suas Dulcinéas». Para além destes olhares cupidíneos, Alberto Pimentel, na sua obra atrás citada, diz-nos as banheiras serem «…agentes venaes de uma assídua correspondência amorosa que os Romeus e as Julietas trocavam entre si, graças à mediação interesseira das supracitadas banheiras».

O próprio Ramalho Ortigão confessou no “Álbum de Costumes Portugueses”, ter sido banheira Anna da Luz «… a alegria para o meu coração inquieto, e o contentamento para a minha alma resignada». O que é certo tal como, nos diz Alberto Pimentel, na sua obra já citada«…é que muitos casamentos vieram tramados da Foz, no fim da temporada de banhos, graças à intervenção opistolar das banheiras». É acrescenta, que no fim da temporada, «…ninguém tornava a pensar na Foz senão no estio, quando o médico aconselhava o uso de banhos do mar…».
Fontes:
RMMV [60 anos de......gratidão] 

Ramalho Ortigão in Álbum de Costumes Portugueses, 1888
Gravura de Manuel de Macedo in Álbum de Costumes Portugueses

terça-feira, março 06, 2012

Chapéu de Palha – Entre Douro e Minho

As diferentes regiões do país terão, certamente, os seus próprios modelos de chapéus, confecionados a partir da palha do centeio. Naturalmente que a nossa região também tem o seu modelo tipo de chapéu que, salvo um ou outro pormenor diferenciado entre terras mais afastadas, mas pouco relevante, se assemelha em todas elas.
A figura abaixo mostra-nos o tipo de chapéu, tanto masculino, como feminino, mais comum de Entre Douro e Minho.
Estes dois tipos de chapéu digamos que têm a mesma estética, todavia, existem algumas diferenças entre eles: enquanto que o da mulher tem a aba recurvada para baixo, o do homem tem-na para cima. Por outro lado, a aba do chapéu do homem era sempre adornada na sua extremidade com trança de bordo aos bicos, o da mulher poderia ser, ou não.
Estes são os únicos tipos de chapéu usados pelo povo, quer se dedicasse à lavoura, quer a outras profissões.
Convém referir que existiam chapéus, também de abas largas, mas arredondadas, com fita acetinada em redor da copa e com as pontas a descair na retaguarda, porém estes chapéus eram ostentados apenas por gente mais afidalgada.
Em alguns casos até os bordavam com fios de lã colorida.
O chapéu seguinte à direita é um produto da “revolução” verificada na indústria de chapelaria efetuada na década de 50 do século XX.
Por se assemelhar ao chapéu de feltro usado na época, rapidamente se popularizou em todas as terras, contudo, convém alertar que a época que os ranchos representam é muito anterior a esta. Sendo assim, torna-se imperioso retirá-lo rapidamente de circulação nas exibições públicas de modo a não ser passada uma imagem errada relativa aos usos das terras que os ranchos representam.
Fonte: Conselho Técnico de Entre Douro e Minho
Artigos relacionados: O uso do chapéu

quinta-feira, janeiro 26, 2012

Lenços de Cabeça – Entre Douro e Minho

O hábito da mulher cobrir a cabeça vem de tempos imemoriais. Nas catacumbas (conjunto de corredores e quartos subterrâneos debaixo da cidade de Roma, onde os cristãos se escondiam na época da perseguição), existem muitos desenhos nas paredes feitos por esses mesmos cristãos, onde aparecem mulheres com a cabeça coberta por um véu. A própria Bíblia diz-nos em Coríntios: toda a mulher que ora ou profetiza com a cabeça descoberta desonra a sua cabeça porque é a mesma coisa que estivesse rapada (nua).
Talvez inspirados nos véus antigos terão nascido os lenços usados pelas mulheres durante séculos. A história dos lenços da cabeça é assim uma história antiga e cheia de curiosidades.
Há quem afirme que os lenços, tal como os conhecemos hoje, remontam ao tempo de D. João VI. Quando o barco em que seguia a família real fugida para o Brasil sofreu uma praga de piolhos, a futura rainha, Carlota Joaquina, foi obrigada a rapar os cabelos. Como naquele tempo uma princesa careca era algo inconcebível, ela passou a usar lenços para cobrir a cabeça, causando até alguma estranheza nos súbditos ao desembarcar no Brasil, porém, logo o hábito pegou e as mulheres começaram a imitá-la. Certamente que poderá tratar-se de uma história, contudo, o lenço da cabeça foi uma peça extremamente importante e fundamental da indumentária da mulher.
Sendo assim, sejam em que circunstâncias forem, as componentes de qualquer grupo ou rancho folclórico, jamais deverão abdicar do uso do lenço, seja nos trajes mais ricos, ou nos mais pobres e simples.

Lenços chineses
Os lenços chineses foram dos mais populares da região. Os agrupamentos de folclore devem apostar neste género de lenço e banir aqueles que não se identificam com as nossas gentes.
Certamente que a variedade de cores e desenhos outrora à venda, há largas décadas que desapareceram, porém, presentemente, existem algumas imitações no mercado especializado que poderão ajudar a remediar a falta de originais.

Lenços de merino
Os lenços de merino de lã, conjuntamente com os lenços chineses, foram largamente preferidos pelas mulheres do povo para se alindarem e botar figura em festas e romarias. As cores e os bordados eram ao gosto da pessoa que os utilizava.
Presentemente já não existe este tipo de tecido, contudo, a vaiela lisa (algo aparentada com o merino) poderá substituí-lo de modo a minorar a falta do tecido original.

Lenços de tapete
Os lenços de tapete fizeram as delicias das senhoras de Ente Douro e Minho, essencialmente em dias de cerimónia. De tecido adamascado e fundo escuro, pincelados com fartas ramagens de tonalidades variadas, eram os preferidos pelas raparigas no dia do seu noivado, já que lhes conferiam aquele ar sóbrio e recatado que a sociedade impunha às noivas da época. Há muitas dezenas de anos que deixaram de aparecer no mercado, mesmo assim, alguns tecidos adamascados vão sendo usados em sua substituição.

Lenços de seda
Ainda mais antigos que os lenços de tapete são os lenços de seda. Havia-os de todas as cores. Foram caindo em desuso e gradualmente substituídos pelos de tapete, embora coabitassem durante dezenas de anos. Eram os preferidos para botar figura em dias de maior pompa e circunstância.
Foram desaparecendo do mercado muito antes da década de 50 do século XX, mesmo assim, muitas senhoras que os possuíam não se desfizeram deles, preferiram guardá-los no fundo das suas arcas para mais tarde recordar.

Lenços franjados
Os lenços das grandes feiras de gado, de lançar flores sobre os noivos à saída da igreja e das grandes festas populares eram, sem dúvida, os lenços franjados, denominados em algumas terras por lenços de frocos e em outras por lenços de merino e maiatos. Certamente que não se usaram em todas as terras, mas na sua grande maioria sim. A tonalidade vermelha predominou, contudo, terras havia que preferiam outras cores como, o amarelo, o azul, o verde...

Lenços de trabalho
No seu quotidiano, as senhoras usavam lenços em tecido de baixa qualidade (quase sempre em algodão estampado) por serem mais baratos e mais adequados à função que desempenhavam. Certamente que os lenços de domingar ou outros, quando estavam gastos, poderiam ser usados no trabalho, contudo, para o dia a dia, haviam lenços apropriados. Mesmo estes lenços, quando novos, não raro, eram usados aos domingos e em outras situações que exigiam um maior cuidado na forma de vestir.

Fonte: Conselho Técnico de Entre Douro e Minho

quinta-feira, janeiro 19, 2012

Figuras do Porto (e arredores) – A Vendedeira de Fruta



A Vendeira de Fructa no Porto, do Album de Costumes Portuguezes, edição das Livrarias Aillaud e Bertrand(Paris/Lisboa) com texto de Xavier da Cunha na ortografia original.

VENDEDEIRA DE FRUTA NO PORTO

Agrada-lhe? também a mim. Prova de que, o leitor e eu, temos ambos bom-gôsto! Nem real­mente fora acceitavel voto o de quem não sympathizasse com aquelle typo deveras esbelto da vendeira portuense que, a offerecer-nos fructas saborosas e aromáticas, faz quiçá lembrar a graciosidade tentadora com que no paraíso bíblico a lendária Eva presentava ao seu rendido companheiro sumarentos pomos.
Leitor que nunca da capital tenha alongado os passos, e que só por exemplares lisbonenses conheça a fructeira ambulante, mal imagina o que é no Porto a sua congénere! Mal imagina, porque, se ha bruteza que desconsole, é a da mulher-de-giga (collareja ou gallega) que pelas ruas de Lisboa nos vende hortaliça e fructa. O pregão da vendeira lisboeta poderá ser mais musical; poderá. Esta musicalidade, característica dos pregões olisyponenses, parece que vem já de longe. Quem ha que não tenha ouvido falar na cele­bre «Luizinha das camoezas», immortalizada em toantes por galanteador poeta do século XVII?

Figurinhas galantes como esta, não se encontram já hoje por Lisboa: que­brou-se-lhes o molde, creio eu; ficou tão somente a melodia tradicional dos pregões a espriguiçar se em mil requebros de incomparáveis fioriture.

No Porto, não: como fez notar o sagaz critério do nosso Castilho em um dos capítulos da sua Lisboa antiga, no Porto os pregões «são sêccos, áridos, apressados.» É que estamos na terra do trabalho, onde não ha tempo a per­der. A vendeira de fructas, por muito garrida que seja, não pode furtar-se á noção d'este fundamental principio de economia industrial. Ha n'ella o sangue phenicio a denunciar-se por uma irrequieta laboriosidade.

De Avintes, Valladares, e outros circumvizinhos logarejos na margem sul do Douro, eil-a todas as manhans em mercado errante pelas ruas da «cidade invicta.»

Pousa-lhe a canastra em sogra formada por um rolo de ourelos ou coisa parecida; abaixo da sogra, o chapéo de feltro escuro, em guisa de sombrero andaluz, com borlas de retroz, e larga faixa de veludilho a debruar-lhe a aba levantada; entre o chapéo e a cabeça, um lencito, cujas pontas se bamboleiam posteriormente incobrindo-Ihe o arrematar das tranças; segue-se o collete de ganga, ou de cotim, de lan ou de veludo, ás vezes ricamente bordado; nos braços alvejam-lhe nítidas, arregaçadas e fartas, as mangas da camisa; ao collete sobrepõe-se, dobrado em diagonal, um vistoso lenço de chita ou de seda, tarjado por phantasticos florões de ramagem vermelha ou côr-de-laranja; e por sobre o lenço pendentes do collo, os grossos grilhões a sustentarem corações filigranados, de envolta com crucifixos e devotas imagens, tudo de oiro fino, oiro de lei, em harmonia com as enormes arrecadas que lhe derrubam quasi as pequeninas orelhas; depois a saia de estamenha, ou de zuarte, — ou de linhas polychromicas, artisticamente combinada a harmonia do colorido,— saia de toda a roda, em pregas unidas e sobrepostas, que lhe representa a peça mais notável do vestuário; na deanteira o avental de barra; e a conchegar-lhe a saia, para facilitar a locomoção, em vez do cinto que usam as ovarinas, a vendeira portuense adopta ordinariamente um simples lenço enro­lado; desce-lhe a fímbria da saia té perto do tornozelo, o que não obsta a que se lhe destaquem bran­quíssimas como neve as meias de linho no pé calçado em soletas (umas pantufas de couro ou de poli­mento, de lan, de seda mesmo ou de veludo, com bordaduras ás vezes, entrada sempre larga, salto baixís­simo, quasi invisível, e borla espherica de typo mourisco a ultimar-lhe a ornamentação).

Agrada-lhe, ao leitor? Também a mim; também a mim. Prova incontestável, repito, de que nem o leitor, nem eu, perdemos ainda o bom-gôsto.

Xavier da Cunha

Fonte: Agostinho Barbosa Pereira in Coisas que se escrevem

domingo, janeiro 15, 2012

Figuras do Porto (e arredores) - A VAREIRA

 A Vareira (Porto), do Album de Costumes Portuguezes, edição das Livrarias Aillaud e Bertrand(Paris/Lisboa) com texto de Fiálho d´Almeida na ortografia original.

Chamam no Porto vareira á mulher d'0var e Espinho, que faz pelas ruas da cidade, em canastra, a venda do peixe: exactamente como a varina de Lisboa, de que a vareira em muito pouco ou em quasi nada differe. Sómente, como a cidade do Douro, apesar de se estar lisboetisando dia a dia, mercê das largas ruas com que a sulcam, e das construcções elegantes com que a matizam, conserva iilesos, no fundo dos seus arrabaldes e velhos bairros, travores de província accentuados, succede que a vareira transplantada da sua terra, para a cidade, nenhuma influencia solíreu da vida. Hoje o ambiente,permanece nos seus moradios da Ribeira e da Foz, como em Ovar, uma estatuela rústica e marinha, a que a cidade não desmanchou a garridice austera do trajo, nem tão pouco os hábitos de vida, as inflexões da pronuncia, e a constructura rija, gracil e primeva, da sua physionomia e da sua figura.

Fina e ligeira, com a saia de sirguilha, muito curta, em pregas finas, amarrada por baixo dos quadris - os tornozelos destros, a mão carnuda e esfusada nos dedos - loira ou morena, mas quasi sempre de olhos claros, nariz correcto, cinta ondulosa e cabellos em desalinho, a vareira constitua um dos mais elegantes typos de mulher do povo que ha na Europa (eu ia a dizer que ha no mundo : haja modéstia!); e pela gentileza architectural da sua figura, reata e continua a corrente da formosura antiga, d'essas mulheres de Praxiteles, com pés chatos, cabecinha pequena, seios turgentes e attitudes clássicas, todas vibrantes ainda das reminiscências do Egypto e da Grécia artística, tanto ella já fica distante, no rythmo das formas, e na impeccavel modelação da anatomia, da nossa fémea civilisada das cidades, que os espartilhos e os trabalhos da vida deformaram, e a hystena contorce, e as perversões hereditárias vem chlorotisando e envilecendo.
Ha um quadrinho de género a admirar na margem Douro, n'uma manhã bem clara e luminosa, por baixo das arcadas da Ribeira... E' o d´um barco aproando ao velho caes saiitroso e recomido, que atfronta os arcos, por debaixo dos quaes rebanhos de vareiras, agachadas sobre as lages, as canastras no chão, contam o peixe. Todas conservam o costume de paratudo ou sirguilha escura, saia e collete, que lhes dão á silhouette uma certa austeridade esculptural. O collete é aberto em decote sobre o seio, e atacado adeante por um cordão, sob cujos zigue-zagues cruza um lenço de ramagens, vestindo os meios limões firmes do seio.

N'este vestuário da vareira ha apenas duas notas hilariantes: as filigranas de ouro, do peito e das ore¬lhas: e a algibeira de matiz estrepitoso, que a ovarina do Porto por uma presilha suspende a uma das voltas da cinta que lhe estrangula os flancos. Esta algibeira é ás vezes uma obra prima de agulha e colorido, feita de applicações de panno escarlate, azul, côr de canario, em volutas, florões, soes e ramagens, a que vem juntar-se filas de botões de madreperola, pequenas borlas de lã, bordados, silvas.

Na confecção d'esta algibeira está em embryão toda uma arte barbara e luxuriante, que as raparigas ensinam umas ás outras, e deixa á vontade, paru a nupcia das gammas polychromas, e para o traçado dos arabescos, a phantasia de cada ingénua bordadora. Não confundir a vareira, que vende peixe pelas ruas, e exclusivamente deriva das tribus que d'Ovar e Espinho emigraram para o Porto, com as Angots do mercado da Cordoaria, portuenses da gemma, e camaradas leaes da reboluda padeira d'Avintes e da sacerdotal lavradeira da Maia - que estas madamas, tão ligitimamente envaidecidas da sua genealogia intra-muros do heroico baluarte, (tripeira, em linguagem menos atlectada) teriam direito a molestar-se da nossa ignorância, e quem sabe se nol-a pagariam, chapando-nos com um robalo podre nas boxexas.

Alem de que, a vareira é uma figura áparte.

Longe ou perto do casebre em que haja nascido, eila é sempre o mesmo typo de formiga activa e fecundante, conservadora das tradições da sua raça, mantendo o vestuário de ha dois séculos, a despeito das modas e das transformações que lhe desfilam deante - indo de quando em quando a terra comprar um pedaço de chão com o producto das suas economias na cidade, e raras vezes escolhendo noivo que não seja um representante da sua tribu, creado com ella. paredes meias, sob os cercados da mesma ilha ou sob a telha-vã da mesma arribana. E isto faz com que dentro dos muros do Porto ou de Lisboa, em plena vida deliquescente, o typo d'ella se conserve e guarde inalterável, como um vivo modêlo de pittoresco, offertado á terre-glaise d'um modelador apaixonado pelo bello antigo.

FIÁLHO D´ALMEIDA

Fonte: Agostinho Barbosa Pereira in Coisas que se escrevem

segunda-feira, janeiro 02, 2012

Figuras do Porto (e arredores) - Padeira de Avintes

A Padeira de Avintes, do Album de Costumes Portuguezes, edição das Livrarias Aillaud e Bertrand(Paris/Lisboa) com texto de Ramalho Ortigão na ortografia original.



A PADEIRA DE AVINTES
A mulher representada n'esta pagina é conhecida em toda a cidade do Porto e seu termo pela designação genérica de Padeira de Avintes - o que não obsta a que de ordinário ella não seja, nem de Avintes nem Padeira. Prudente aviso á precipitação d'aquelles, que pelo simples aspecto social e pittoresco de seu semelhante, tão ousadamente se abalançam a determinar-lhe o sexo, a profissão e a naturalidade!
Aquella - se assim ouso exprimir-me - padeira, e - porque assim o digamos - de Avintes, habita a margem esquerda do rio Douro, na sua zona mais desafogada da angustia das fragas, mais verdejante e risonha, não prefixamente em Avintes, mas em qualquer ponto da borda d'agua desde o Areiinho até o ribeiro d'Arnellas.Vem á cidade, onde umas vezes vende carne de porco, outras vezes os famosos biscoitos de tosta, morenos e estalejantes, bem conhecidos nos chás pacatos das reuniões familiares e das assembléas recreativas, ou a brôa já de milho branco, já de pão de mistura, cuja grossa côdea lourejante, esquadraçada em manchas de escumalho cor de mel, scintilla ao sol como polvilhada de ambar.Na sua aldeia ribeirinha ella sacha e monda a horta, espadela e fia, bota a teia, engorda o porco, deita a gallinha, forneia, e faz barreia.
Mas, propriamente de profissão, barqueira é que ella é.
O seu bote, meio de carga, meio de passageiros, escuro, comprido, de baldaquino á popa como as gondolas do Rialto, é por ella remado em pé, com a longa pá, sem forquilha onde jogue sem estorvo que a sujeite ao pau do tolete, tão pesada, tão difficil de manejar! rio acima, rio abaixo, da banda de cá para a banda d'além, cantando o Belleisão, cantando o Ribeirinho, n'uma toada lenta e aguda, de uma saudosa expressão embaladora, em que o doce e frio mysterio das aguas correntes parece evolar-se melodicamente da profundidade do rio para a concavidade do céo.Os que vão dos Guindaes, da Ribeira, de Massarellos ou de Miragaya, jantar ao domingo em família, e em festa «pelo rio acima» a Quebrantões, ao Freixo, á quinta da Oliveira, preferem para a excursão fluvial, ao bote correcto e banal dos barqueiros de Gaya, o pittoresco, o vetusto, o festival pangaio da Padeira de Avintes, mordido pelo sol, despintado pelo tempo, aqui e alli descosido e descalafetado nas juntas do cavername, de toldo de linho em remendos, com a flamula em bico, de panninho vermelho, tre­mulando alegremente na ponta de uma vara de pinho.A recordação da patuscadinha campestre, da fritura e da salada comida na relva á sombra dos cas­tanheiros, entre o rumor da agua e o gorgeio dos ninhos, fica para sempre alliada na memória á silueta robusta e sadia da esbelta remadora, de cujo aspecto parece vir para nós, n'um ridente effluvio bucolico, a sensação dos fenos percorridos, dos morangaes atravessados n´uma tarde de verão, com o carreiro da alfazema atravez do quinteiro, o pôço ornado de craveiros e de manjaricos, as garrafas lacradas de verde refrescando na agua de bica, os vestidos de musselina, os ramalhetes de papoulas e de espigas de trigo, a alface ripada em jovial collaboração em torno da saladeira em ramagens, e os viveres que saem do cesto novo para a toalha desdobrada no chão, sob um picante e appetitoso aroma de rega, de cuentros e de cebolinho novo.
Ramalho Ortigão


Fonte: Agostinho Barbosa Pereira in "Coisas que se escrevem"