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quarta-feira, fevereiro 04, 2015

Aventais da Nazaré

Quando pensamos na Nazaré de imediato a associamos ao seu traje característico, em particular o da mulher.
"Alzira" de Alberto Sousa
Ainda hoje, quem visita esta vila sobranceira ao mar podemos ver mulheres orgulhosamente exibindo os seus aventais. Não se trata apenas de um cartaz turístico, existe um efetivo orgulho no uso destes aventais, quer no quotidiano quer em cerimónias, como num casamento a que assisti no Sitio, onde várias mulheres usavam os seus ricos aventais.
Mas, tal como o trajo, o avental também sofreu uma evolução, sobretudo na altura, nos materiais e nos adornos.
Os exemplares que se seguem provieram dos acervos do Museu Dr. Joaquim Manso (Nazaré) e Museu Nacional de Etnologia (Lisboa) e retratam essa evolução.
Se inicialmente os aventais possuíam duas ou três alturas e eram adornados com rendas e tules, atualmente, apenas têm uma altura e são proliferamente bordados. Também o cetim substituiu o merino e a seda.
Assim, ordenamos os exemplares por altura, o que reflete a época da sua confeção.

Datação: Primeira metade do séc. XX d.C.
Matéria: Merino
Dimensões (cm): altura: 100;
Descrição: Usado no traje de festa. Avental de cós direito. As fitas são aplicadas no remate lateral do cós. É confecionado em dois folhos de alturas iguais. Entremeios de tule bordado alternando com grupos de préguas. O último remata com renda semelhante.
Incorporação: Adquirido a Maria José Frade


Datação: XX d.C.
Matéria: Merino
Dimensões (cm): altura: 90;
Descrição: Usado no traje de festa. Avental de merino cor-de-rosa. O cós é direito e as fitas são aplicadas no remate lateral deste. Confecionado em dois folhos, o primeiro desce do cós e termina onde o segundo começa. O de cima é bordado à mão e o de baixo tem duas fiadas de bainhas abertas trabalhadas à mão.
Incorporação: Adquirido a Maria José Frade.

Datação: Princípios do século XX d.C.
Matéria: Cambraia de algodão
Dimensões (cm): altura: 86;
Descrição: Usado no traje de festa. Avental de cambraia cor-de-rosa claro. O cós faz ligeira inclinação ao centro e as fitas são aplicadas no remate lateral do cos. Confecionado em um só folho é enfeitado com entremeios de renda ao alto e de lado. É rematado com renda semelhante.
Incorporação: Oferta de Auta Freire




Datação: XIX d.C. - XX d.C.
Matéria: Cetim (seda)
Dimensões (cm): altura: 84; largura: 130;
Descrição: Usado no traje de festa. Avental de cetim de cor preta, de formato trapezoidal, feito de duas alturas de tecido. A meio da primeira altura, do lado esquerdo, surge um bolso afunilado de cetim de cor preta. A extremidade inferior da primeira altura apresenta um ornamento semelhante ao do bolso (motivo fitográfico: um pé com dois ramos, executado a linha de cor vermelha, do qual brotam algumas folhas executadas a linha de cor branca e uma flor, executada a linha de cor rosa clara), mas que se dispõe em ramos contínuos, transversais. A primeira altura termina formando espécie de basta, a qual cobre um pouco da segunda altura. A segunda altura, mais curta, apresenta, interiormente, adorno fitográfico semelhante aos anteriores, próximo das extremidades do avental, dispondo-se em "U". As orlas inferiores e laterais são de corte semicircular formando lobulados. Porém, estes assemelham-se a trevos que, nas zonas de contiguidade, não formam vértice, mas sim um outro trevo mais pequeno, invertido.

Datação: XX d.C.
Matéria: Merino
Técnica: Bordado à mão
Dimensões (cm): altura: 82;
Descrição: Usado no traje de festa. Avental de merino preto, com lustro, bordado à mão. É composto por dois folhos. No primeiro, registam-se motivos florais bordados a ponto cheio e a ponto pé-de-flor. Na extremidade esquerda, uma borboleta bordada a ponto cheio e a richelieu. O segundo folho termina em recortes, formando parras.
Incorporação: Doado por Auta Freire

Datação: XIX d.C. - XX d.C.
Matéria: Popelina (algodão); Tule
Dimensões (cm): altura: 80; largura: 120;
Descrição: Usado no traje de festa. Avental de popelina de algodão de formato trapezoidal, constituído por três alturas de pano, separadas entre si por dois largos entremeios de tule. Nas suas extremidades laterais, tem duas fitas rematadas, que caem livremente. A primeira altura de pano apresenta, do lado esquerdo, um bolso que termina em bico. Os entremeios de tule apresentam bordados a matiz executados com linha de cor branca. Representam motivos fitográficos, espaçados entre si: flores e ramos com algumas folhas.

Datação: XX d.C.
Matéria: Merino
Dimensões (cm): altura: 80; largura: 130;
Descrição: Usado no traje de festa. Avental de merino preto. O cós é franzido e as fitas são aplicadas no remate lateral do mesmo. De dois folhos iguais, o primeiro desce do cós e termina onde o segundo começa e são bordados na extremidade com motivos florais e geométricos em tons d e amarelo e verde.
Incorporação: Adquirido a Deolinda Santos Caria

Datação: XX d.C. - Anos 1950
Matéria: Algodão (popelina)
Dimensões (cm): altura: 78;
Descrição: Usado no traje de festa. Avental de popelina às riscas bordado a ponto de cruz nos intervalos de desenho em losangos feito por ponto à-jour à máquina. O cós é arredondado acompanhando a linha da cintura e bordado a ponto favo-de-mel.
Incorporação: Adquirido a Ana Carlos Chita

Datação: XX d.C.
Matéria: Seda vermelha
Dimensões (cm): altura: 74;
Descrição: Usado no traje de festa. Avental de seda vermelha bordado à máquina, pela ponta e a toda a volta, motivos florais e geométricos em cor branca. No cós, que é arredondado acompanhando a linha da cintura, a roda do avental é apanhada por pontos favos-de-mel.
Incorporação: Adquirido a Maria Amaro Serra Vigía

Datação: 1940 d.C.
Matéria: Cetim
Dimensões (cm): altura: 74;
Descrição: Usado no traje de festa. Avental de cetim verde. Confecionado em duas alturas de pano, sendo um deles dividido em dois, costurados de um e de outro lado do pano inteiro. Cós de corte arredondado acompanhando a linha da cintura. As fitas prendem no remate lateral do cós. Bordado à mão, com pequenos raminhos a ponto cheio, matiz e pé-de-flor. Bainha larga. Nas bainhas e no cós, ponto "À-jour".
Incorporação: Adquirido a Laura Saldanha

Datação: XIX d.C. - XX d.C.
Matéria: Popelina (?) (algodão)
Dimensões (cm): altura: 73; largura: 101;
Descrição: Avental de popelina (?) de algodão de cor lilás, de formato trapezoidal. É feito de três alturas do mesmo tecido. Um pouco abaixo do cós, do lado esquerdo surge um pequeno bolso de fundo arredondado e lobulado. A união da primeira altura de tecido com a segunda é feita um pouco acima da extremidade inferior da primeira, por duas costuras espaçadas entre si, executadas a linha de cor branca. Desse ponto, a extremidade inferior da primeira altura cai livremente sobre a segunda formando espécie de basta. A orla desta basta apresenta corte lobular idêntico ao do bolso. A segunda altura de tecido é a mais curta. O remate com a primeira altura cria-lhe pequeníssimas pregas, que se estendem a todo o comprimento, abrindo pelo avental. A terceira altura é bainhada na orla, sendo que apresenta um pouco acima da bainha, um friso de motivos vegetalistas estilizados, executados a linha grossa de cor branca. Este friso consiste na repetição do seguinte motivo, da esquerda para direita: espécie de flor de cujo centro brota um ramo horizontal em "S", que se une a outro, o qual termina numa outra flor.

Datação: 1936 d.C.
Matéria: Cetim fulgurante
Dimensões (cm): altura: 73; largura: 115;
Descrição: Avental de festa em cetim fulgurante cor-de-rosa. Cós franzido. Fitas aplicadas no remate lateral do mesmo. De dois folhos - o primeiro desce do cós e termina onde o segundo começa. É rematado a toda a volta por motivos florais bordados a "Richelieu".
Incorporação: Oferta de Celeste Lúcio dos Santos

Datação: 1926 d.C.
Matéria: Cetim preto
Técnica: Bordado a "ponto de cruz"
Dimensões (cm): altura: 72,5;
Descrição: Usado no traje de festa. Avental de cós de corte arredondado acompanhando a linha da cintura. As fitas são aplicadas no remate lateral do cós. O franzido é obtido pelo "ponto favo" que decora a parte superior do avental. Bordado em vários tons, com motivos florais, a "ponto de cruz". A bainha é presa a ponto "à-jour".
Incorporação: Adquirido a Laura Saldanha

Datação: XX d.C.
Matéria: Seda preta
Dimensões (cm): altura: 71; largura: 109;
Descrição: Avental de festa em seda preta, bordado à mão, a ponto cruz e com pontos "à-jour", motivos florais de várias cores. O cós é arredondado, acompanhando a linha da cintura, e as fitas são aplicadas no remate lateral do mesmo.
Incorporação: Adquirido a Guiomar Chicharro

Datação: XX d.C.
Matéria: Algodão
Dimensões (cm): altura: 68,5;
Descrição: Avental de uso quotidiano de "riscado" de várias cores. Cós de corte arredondado acompanhando a linha da cintura. Fitas aplicadas no remate lateral do cós. Bainha larga encimada por duas nervuras. Dois bolsos chapados.
Incorporação: Adquirido a Mário Paulo Sousinha

Datação: XX d.C.
Matéria: Seda preta
Dimensões (cm): altura: 65;
Descrição: Avental de festa de seda preta. O cós é de corte arredondado, acompanhando a linha da cintura, e as fitas são aplicadas no remate lateral do cós. É bordado à mão em vários tons, com motivos florais, a "ponto de cruz". O cós é rematado com pontos "à-jour" amarelos, tal como a bainha.
Incorporação: Oferta de Gilberto Silvério Palmeira e Cipriano B. Louraço

Datação: XX d.C.
Matéria: Seda preta
Dimensões (cm): altura: 65;
Descrição: Avental de seda preta usado no traje de festa, bordado à máquina, pela ponta e a toda a volta, motivos florais e geométricos. No cós, que é arredondado e acompanha a linha da cintura, a roda do avental é apanhada por pontos favo-de-mel.
Incorporação: Doado por Deolinda Conde


Datação: 1970 d.C. - 1980 d.C.
Matéria: Cetim salmão
Dimensões (cm): altura: 55;
Descrição: Avental de cetim salmão bordado à máquina a pontos cheio, matiz e cordoné, usado no traje de festa. A prender as bainhas, ponto "à-jour". O cós é de corte arredondado acompanhando a linha da cintura e as fitas prendem no remate lateral do cós.
Incorporação: Oferta de Zulmira Estrelinha e Maria Orlanda Estrelinha

Datação: 1970 d.C. - 1980 d.C.
Matéria: Cetim (sintético) amarelo.
Dimensões (cm): altura: 55;
Descrição: Avental de cetim amarelo bordado à máquina a pontos cheio, matiz e cordoné, formando umas flores, usado no traje de festa. A prender as bainhas ponto "à-jour". O cós é de corte arredondado acompanhando a linha da cintura e as fitas pendem no remate lateral do cós.
Incorporação: Oferta de Zulmira Estrelinha e Maria Orlanda Estrelinha

Datação: 1970 d.C. - 1980 d.C.
Matéria: Cetim castanho
Dimensões (cm): altura: 54;
Descrição: Avental de festa em cetim castanho bordado à máquina a pontos cheio, matiz e cordoné. A prender as bainhas ponto "à-jour". O cós é de corte arredondado acompanhando a linha da cintura e as fitas prendem no remate lateral do cós.

Datação: XX d.C. - 1970-1980
Matéria: Cetim verde
Dimensões (cm): altura: 53;
Descrição: Avental de festa em cetim verde-escuro bordado à máquina a pontos cheio, matiz e cordoné. A prender as bainhas ponto "à-jour". O cós é de corte arredondado acompanhando a linha da cintura e as fitas prendem no remate lateral do cós.
Incorporação: Oferta de Zulmira Estrelinha e Maria Orlanda Estrelinha

Datação: XX d.C. - Anos 1980
Matéria: Tecido de algodão (popelina)
Dimensões (cm): altura: 51,5;
Descrição: Avental de tecido de algodão, popelina, branco com riscas azuis e brancas, para usar no traje "da semana". O cós acompanha a linha da cintura e as fitas prendem no remate lateral deste. A prender as bainhas do avental, um entremeio de renda feita à mão. Tem bolsos chapados.
Incorporação: Oferta de Maria Manuela da Justina Vagos Conde

Datação: XX d.C. - Anos 1980
Matéria: Tecido de algodão
Dimensões (cm): altura: 48,5;
Descrição: Avental de tecido de algodão cinzento com ramagens nos tons de verde, branco, amarelo e cinzento, para usar no traje "da semana". O cós acompanha a linha da cintura e as fitas prendem no remate lateral deste. A prender as bainhas do avental, dos bolsos e das fitas uma fitinha de seda verde e duas filas de "pontos" da mesma cor.
Incorporação: Oferta de Maria Manuela da Justina Vagos Conde

quinta-feira, janeiro 22, 2015

O OURO POPULAR PORTUGUÊS IV

Desde a Antiguidade Clássica que se tornou corrente a utilização de moedas, medalhas ou outra peças como ornamentos, quer em alfinetes como em pingentes de colares ou cordões. Estes ornamentos, mais que o estatuto pessoal do seu utilizador, possuíam uma simbologia própria, associada muitas vezes ao divino ou à crença popular no além.
Muito embora existam ornamentos com representação iconográfica semelhante em épocas anteriores, é a estética do sec.XVIII que influência a joalheria popular do sec.XIX e início do sec.XX e que hoje parece renascer por influência dos “opinion makers” da indústria da moda (e ainda bem!).
É sobre esses ornamentos que vos vamos falar neste quarto artigo desta série dedicada ao Ouro Popular Português.

CUSTÓDIAS
Assim designadas por, na parte central, existir uma peça que sugere o expositor do Santíssimo. São também chamadas relicários, “relicairos”, “lábias” e “brasileiras”.
As mais populares são joias em filigrana, um pouco aberta e não muito apurada, embora existem algumas, feitas em Gondomar, com filigrana mais fina.
Chamam-lhes “lábias”, pela semelhança com os lábios da parte superior.
Brasileiras” porque, na altura em que os homens de Castelo de Neiva emigravam para o Brasil, quando vinham a Portugal visitar a mulher ou a namorada, tinham obrigatoriamente de comprar esta peça, mesmo que fossem imensos os sacrifícios feitos para esta aquisição, pois muitos dos que iam para estas paragens, vinham ainda mais pobres, mas esta era uma forma de demonstrar o contrário. A custódia era então orgulhosamente exibida, na missa dominical, e à saída, perante tal exibição, o povo diria “Olha a brasileira!” - daí a peça passar a ter essa designação.

PEÇAS OU MEDALHAS
São moedas autênticas embelezadas com espalhafatosas cercaduras chamadas “encastoamentos, nas quais se inserem umas presilhas com a finalidade de segurar a moeda sem lhe causar danos que altere o seu valor numismático. As moedas mais utilizadas eram as libras de cavalinho e cara de mulher (Rainha Vitória) - pois as caras de homem (Jorge V) não eram muito do agrado da mulher minhota - moedas de cinco e dez mil reis.
MEMÓRIAS
As memórias tinham quase sempre uma função saudosa. Eram transformadas em cofre, onde se encerrava uma madeixa de cabelo, fragmento de vestuário, pequena frase ou simples letra, breve oração, fotografia, bem como outras relíquias que constituem terna recordação de quem já não é deste mundo.

CRUZES
As cruzes são os símbolos iconográficos que atravessaram os séculos do cristianismo, não só como símbolos de Fé, mas também como identificação incontestável da religião do seu detentor, o que em determinadas épocas foi muito importante.
Surgem assim vários modelos de cruzes, do mais simples ao mais elaborado, respondendo quer ao gosto quer à capacidade financeira do povo.

CRUZ BARROCA
Eram feitas através do processo de estampagem do metal com o recurso a moldes, sendo oca, mas que dava a perceção de um objeto pesado e portanto valioso.
Como não revelavam a imagem do Crucificado, também eram designadas por “cruz de ouro mal obrado”.



CRUZ DE MALTA OU ESTRELA
São cruzes feitas em filigrana muito elaborada e guarnecidas com curiosos esmaltes.
Trata-se do símbolo da Ordem dos Cavaleiros de Malta (Cavaleiros Hospitalários), que me Portugal teve grande implantação desde o sec.XIII.

CRUZ DE RAIOS
Cruz em canovão com avantajado resplendor, arredondado, aureolando quase totalmente Jesus. Por via de regra, mostra muitas vezes a Senhora da Soledade aos pés do Filho.

CORAÇÕES
Os corações é outra das temáticas muito utilizadas na joalheria, surgindo com várias técnicas e feitios.  

CORAÇÕES OPADOS (ocos e bojudos)
Fabricam-se através da técnica da estampagem em chapa muito fina e são decorados com finos fios de filigrana ou um granulado. Têm motivos de amor, florais ou religiosos. Podem ser flamejantes ou chamados duplos, por terem como que um duplo coração por cima do maior, mais não sendo que a estilização de chamas.
Eram estes os mais usados pela mulher vianesa.  

CORAÇÕES DE FILIGRANA
Os corações de filigrana que aparecem hoje muitas vezes ao peito da vianesa não eram usados noutros tempos com tal frequência, por um lado, por causa da sua grande mão-de-obra que os tornava mais caros, e por outro, os fabricantes na tentativa de os tornarem mais acessíveis faziam-nos normalmente em prata dourada, metal considerado menos nobre ao gosto do povo.
Convém esclarecer, que ainda hoje a prata dourada é metal utilizado na maior parte dos que atualmente se fabricam. 

LAÇA
A Laça é uma joia de intervenção real, depois, popularizada. Formada por duas peças. Foi atribuída a D. Maria Ana de Áustria, a célebre “laça das esmeraldas”. É a primeira joia verdadeira do Minho, constituída por uma laçada dupla e decoração de fios enrolados, podendo ter um diamante ao centro. O seu nome provém da argola que tem por trás para ser usada com uma fita de seda. Mais tarde, tomaram a forma que tem hoje – coração invertido.


No próximo artigo desta série falaremos de JOALHERIA MASCULINA

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quinta-feira, janeiro 08, 2015

O OURO POPULAR PORTUGUÊS III


CORDÕES E COLARES

Além dos brincos, o cordão, cuja riqueza se media pelo número de voltas ao pescoço, e algumas peças (medalhas, cruzes ou pingentes) eram os objectos mais desejados pelas mulheres de todas as regiões.

  
Cordão
Cordões - São fios com dois metros e vinte (podendo, neste caso, dar quatro voltas ao pescoço). Podem ser de elos redondos (como os manuais de antigamente) ou em forma de pêra. Quanto ao peso, podem ser finos (linha), grossos (soga) e ocos. A seguir aos brincos o cordão era a peça mais utilizada em todo o país. No Minho primeiro eram adquiridos os “botões”, segundo o colar de contas e só depois o cordão de ouro.
Cordão Torso
Cordão de Grilhão





Trancelim
















Trancelins - Só depois do terceiro ou quarto cordão é que era adquirido o trancelim. Têm o mesmo comprimento dos cordões, mas os seus elos são trabalhados normalmente em filigrana não muito “apurada”.
Gramalheira

Colares de Gramalheira - A gramalheira (ou “gremalheira” ou “cramalheira”), sobrepondo-se e destacando-se dos demais adornos, é uma peça que, por razões económicas, não é muito popularizada - mas é de excecional efeito. Sobretudo quando, como em muitos exemplares, o respetivo colar exibe ornatos – muitas vezes com propriedade chamados “escamas” – tendo por intermédio bem urdida malha. Liga-o na parte em que arma o seio, um “botão” em forma de meia – laranja (não ultrapassando o diâmetro de sua base o de um vulgar botão de gabardina ou sobretudo), com gomos esmaltados alternando as cores azul e branca, circundado de pedrarias de fraco custo e dele irradiando, sinteticamente, em posições opostas, duas tiras rematadas por borlas emparelhadas com lindíssimo “florão” - semelhante, no formato e tamanho, a um ovo de galinha cortado ao meio, de alto-a-baixo. O “florão” é obrado em ouros diferentes e enfeitado com pedras, pequenas e redondas, azuis, vermelhas e brancas, idênticas às do “botão”. Pelo seu reduzido valor são tais pedras ditas “fanfarronas” e, como facilmente se deduz, será o “florão” (medalha de gramalheira), a completar apoteoticamente tão estimada joia.


COLARES DE CONTAS
As peças de ouro popular com antepassados mais longínquos são as contas. Nas civilizações muito antigas e primitivas, em que se desconhecia a tecnologia do metal, usavam-se os colares com as mais variadas pedras e pérolas - estas, não tanto pela sua beleza, mas pela forma esférica. Posteriormente, irão aparecer contas maciças dos mais variados metais. A mais antiga conta em ouro maciço encontrada em território português data do 3º milénio a. C. e foi descoberta na zona de Sintra. As atuais contas de Viana - ocas, e que antigamente ainda eram bem mais leves - são descendentes diretas das gregas, fenícias, romanas e etruscas, sendo estas últimas as que mais se assemelham às de agora. A granulação ou polvilhado e a filigranação envolvente não passavam dum mero adorno, pois o que sempre prevaleceu foi a sua forma esférica e arredondada. Esta forma é encontrada, para além das contas, nos brincos parolos ou de chapola. O colar de contas era adquirido pela mulher de Viana antes do tão desejado cordão. Era muitas vezes comprado conta a conta à custa das poucas economias dessas jovens, em geral provenientes da venda de ovos ou do comércio de frangos.
Colar de Contas de Viana
As contas usavam-se em número variável, consoante a localidade, mas nunca, como agora, a rodear completamente o pescoço. As contas iam só até ao meio do pescoço ligadas por um fio de correr. Podia aumentar ou diminuir-se o colar consoante a necessidade, e este terminava na parte de trás com um “pompom”. O fio era feito manualmente, em algodão, e poderia ser vermelho, amarelo ou azul. Os “pompons” eram das mesmas cores ou com fios mesclados.
O colar de contas raramente era usado sem uma “pendureza”, normalmente uma borboleta, uma cruz de canovão raiada com resplendor de filigrana ou uma custódia.
Contas de Viana - com forma esférica, círculos de filigrana e um granito ao centro -eram estas as mais usuais.


Colar de Pipo - com forma oval e com estrias em forma de mola.


Contas de Pipo

Brasileiras- eram muito procuradas pela nossa emigração brasileira nos anos 20 do séc. passado, daí a designação
No próximo artigo desta série falaremos de PEÇAS, CUSTÓDIAS, MEMÓRIAS E CRUZES
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segunda-feira, dezembro 22, 2014

O Ouro Popular Português II

Brincos

Antes de mais, convém referir que a palavra arrecada constituía um denominador geral para aquilo a que hoje chamamos brincos, só no final do sec.XIX passaram a designar um tipo específico de brincos.

Em todos os tempos e lugares os brincos são, entre os adornos, os de preferência indeclinável, estando muitas vezes arreigado à superstição, como proteção dos espíritos malignos.

Quando uma menina nascia (com cerca de 1 mês) furava-se as orelhas com uma agulha nova com linha, molhada em azeite para escorregar melhor, e durante algum tempo (normalmente 7 dias) a linha ficava na orelha até a ferida cicatrizar. Se infetava, a mãe tratava a ferida com o seu próprio leite até curar.

Os primeiros brincos (“ais”, “botões” ou “argolinhas”) eram oferta da madrinha de baptismo juntamente com o vestido. Em caso de fatalidade, as mesmas peças podiam ser vendidas para comprar a mortalha; o padrinho pagava o caixão. À medida que a criança crescia, estes brincos eram substituídos por outros maiores de acordo com os gostos e aspirações da jovem.

Os novos brincos eram oferecidos pelos pais ou comprados pela própria, com o fruto das pequenas economias domésticas que iam arrecadando com os anos.

Raras eram as mulheres que não usavam brincos e estes acompanhavam-nas diariamente, a sua presença era imprescindível em todos os momentos. Eles simbolizam não só adornos e ostentação mas também sinal de estabilidade da economia doméstica.

Quando em luto, retiravam as argolas. O mais frequente era, no caso de não poderem comprar uns brincos mais adequados de azeviche ou ónix, cozerem uns paninhos pretos para disfarçar o brilho do ouro.

Por fim, quando morriam, os brincos que traziam nas orelhas acompanhavam-nas na tumba. Em algumas regiões eram oferecidos pela família à mulher que fosse ajudar a vestir o corpo.

A propósito do ouro costuma-se dizer “para a missa o que puderdes, para a feira quanto tiverdes

Se no Minho as mulheres se vergam com o peso do ouro, o uso dos brincos era generalizado a todo o país.

Em Mogadouro (Trás-os-Montes), as mulheres usavam brincos ou arrecadas e na região de Viseu, como em toda a Beira Alta, aos domingos e dias de festa ou romaria, as preocupações com o traje eram reforçadas com as arrecadas. As de Coimbra seguem-lhe o exemplo e as varinas a todas ultrapassam em dias de passeio e cerimónia.

Na região da Bairrada as arrecadas assumiam um grande valor tanto ao nível económico como afetivo-emocional, daí serem muitas vezes condicionadoras na colocação do lenço de forma a não as ocultar.

A nazarena também gosta de ouro. O grande brio e aspiração das mulheres do mar é possuírem brincos, em forma de medalha, com o retrato do marido, dentro de um aro de ouro. Aparentemente estes brincos seriam desconhecidos noutras regiões, no entanto, as medalhas com retratos dos maridos ou familiares tiveram em voga na região setentrional do país, mas usadas ao peito, penduradas nos cordões ou em fios.

À medida que caminhamos para Sul os estudos sobre o uso de ouro são raros. No entanto teriam o mesmo valor económico e afetivo que era atribuído noutras regiões, embora a quantidade e riqueza fosse menos exuberante.

É alentejana a seguinte quadra:

Gargantilha, brincos de ouro,
Tudo hei-de mandar vender;
Caiu o meu bem nas sortes,
Soldado não há-de ser.

 
Tipos de Brincos

Argolas – As argolas (outrora também designadas como pensamentos, bichas ou arriéis) constituem um dos diversos tipos de arrecadas. Definem-se como sendo enfeites, geralmente em forma de arco, com um gancho, que as mulheres penduram em orifícios abertos nas orelhas, podendo ser simples, de chapa batida lisa ou ornamentada, de sanguessuga ou roliça. Conforme a sua forma também eram conhecidas como africanas, farinheiras (no Alentejo), argolas indianas, de regueifa, de carretilha, de leque, ou carniceiras, tomando por vezes o nome de uma cidade “Coimbra” ou “Barcelos”.
 

 Argolas Carniceiras – também conhecidas como de “Barcelos”, chamavam-se assim pelo facto de adquiridas pelas mulheres dos talhantes de Barcelos, pessoas abastadas, que gostavam de ostentar estas argolas grossas. Na Póvoa de Lanhoso são também conhecidas como Argolas à Marchanta. Existindo várias variações que vão do liso às com motivos decorativos.

Argola em crescente – O crescente acentua a grossura central e diminui sensivelmente para as extremidades. Existindo variações conforme a secção, que pode ser plana, quadrangular, roliça ou arestada.

Argolas “Minhotas” – Em termos estruturais, as arrecadas apresentam formas ligeiramente diversas, variando entre o corpo discoudal, oval ou losangular. Superiormente a peça é dividida por duas hastes mais ou menos afastadas e profundas, formando um U, de onde parte a argola de suspensão auricular. Como elemento decorativo central surgem essencialmente bolotas ou cachos de uvas.



Arrecadas de viana – Castrejas (as complexas arrecadas como as de Laúndos, Afife e Estela) – Com a sua “janela”, ou “pelicano” ou “bambolina” na sua forma lunular com as respetivas campainhas, sempre em número ímpar, e que têm a virtude de afastar espíritos maléficos.


Brincos de chapola, parolos ou de luas - Chamavam-se de “chapola” por serem feitos em fina chapa de ouro, “parolos” por serem, outrora, usados pela mulher do campo, designada de “parola” pela citadina. Atualmente, estes brincos caíram em desuso nas aldeias e procurados pelos habitantes das cidades. As aldeãs, ao verem-nos, exclamam: “Sume-te diabo! Que brincos parolos!” Chamam-se de “luas” por terem, quase todos, quartos de lua em relevo


Botões


Exemplo de botões (Alentejo)

Exemplo de Botões (Alentejo)

 
 
 
 




Botões - Ofertava a madrinha de baptismo, à qual competia dar a mortalha se a menina viesse a “tornar-se anjinho do Senhor”! Por isso - mau grado – se a criancinha morresse vendiam-se os botões para ajudar o custeio do vestido que “levaria para o céu”! Se tal fatalidade não ocorresse, então, à medida que o crescimento dela se ia verificando, os “botões” ou “botõezinhos”, iam sendo trocados. Em algumas regiões tornaram-se o modelo preferido, por serem mais pequenos e menos onerosos.

  
Brincos à Rainha ou à Vianesa
Brincos à Rainha ou à Vianesa - À moda da rainha, de mulher fidalga ou burguesa rica. São brincos muito elegantes e, ao contrário das arrecadas, são cópias adaptadas dos brincos e laças que apareceram em Portugal no reinado de D. Maria I.
Estes brincos eram a ambição de qualquer jovem quando se ia ourar.


Brincos à Rainha
(Estes exemplares faziam parte do conjunto de
joias privadas da Rainha Dna Amélia)


  
 
 
 
 
 


Brincos à Rei
Brincos à Rei - São muito parecidos com os brincos à Vianesa, mas mais elegantes, compostos por uma parte superior, uma parte média em forma de laço (herdeira da laça ou laçada) e uma parte terminal. - não aparece aquela parte móvel que se encontra ao centro duma das partes dos brincos à rainha. A designação não significa que eram usados pelos reis, ou fidalgos, mas para se distinguir dos brincos à rainha.


Brincos de Princesa
Brincos à Princesa – traduzem-se numa outra variante dos brincos à rainha.












Brincos com Pedras - Normalmente apresentam pedras azuis ou vermelhas, são curtos ou compridos, com uma pequena franja, onde balançam uns “penduricalhos”. Fazem conjunto com colares, tão em voga nos anos 40, mas que ainda se continuam a usar.

Brincos com pedra
Brincos com pedras
Brincos de meia libra - Os brincos de meia libra refletem a utilização de moedas como adorno, não só como pendentes de cordões mas também das orelhas, sendo normalmente utilizadas libras ou meias libras.
 
Outros tipos de brincos:
 
Argolas de Sanguessuga

 
 
 
Argolas Estampadas



Brincos Barrocos (Póvoa do Varzim)

Argolas Estampadas

 
Argolas de Filigrana

 
 
 
Brincos com Pedras

No próximo artigo desta série falaremos de CORDÕES E COLARES
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