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sexta-feira, agosto 18, 2006

Côca, Biuco e Capelo

A Côca, o Biuco e o Capelo são três trajes de diferentes regiões, Alto Alentejo, Algarve e Ilha Terceira (Açores), no entanto, apesar da distância geográfica existem muitas semelhanças entre eles e uma história comum.

Sabemos hoje que os etruscos e os gregos vestiam o himation, ou seja, o manto, com o qual cobriam a cabeça. Possivelmente imitavam um costuma mais antigo. O Cristianismo adoptou para a imagem da Virgem o uso do manto à moda etrusca, isto é, sobre a cabeça. São Paulo introduz o costume das mulheres cobrirem a cabeça para que se distingam das mulheres descobertas ou meretrizes. Entrar na igreja com a cabeça coberta era sinal de respeito, submissão e humildade perante Deus.
Por toda a Europa surgiram diversas peças de vestuário que cobriam por inteiro o seu utilizador(a), nomeadamente, em França, Alemanha, Dinamarca, Itália, Espanha e Portugal.
Não se sabe quando este tipo de indumentária foi introduzido em Portugal, no entanto, podem-se encontrar registos da sua utilização desde 1609, no reinado de Filipe II, e existem autores que defendem a sua origem árabe.
Sabe-se no entanto, que a sua utilização abrangia a quase totalidade do território nacional, mas apenas no Alto Alentejo, no Algarve e nos Açores, esses trajes eram ainda utilizados até meados do século XX.
A sua utilização destinava-se a impedir o contacto da mulher com os transeuntes que com ela se cursassem na rua, ocultando a sua identidade. Para além de isolar a mulher do mundo exterior, permitia-lha também alguma liberdade, já que não sendo identificável podia movimentar-se livremente oculta dos olhos castradores da moralidade alheia.

O que são a Côca, o Biuco e o Capelo?

Estes três trajes femininos possuem pequenas variações, ou particulares alterações regionais, no entanto, a sua forma elementar baseava-se numa mantilha, com ou sem véu, amplamente distribuída, de norte ao sul do país, e que teve a generalizada denominação de biôco (ou biuco no Sul e rebuço no Norte).

Genericamente compõe-se de uma capa, mais amplas e compridas nos Açores e Algarve que no Alentejo, em cuja cabeça era coberta de forma a impedir que se visse a cara da sua utilizadora. É a forma como a cabeça é coberta que distingue os três trajes.


Côca –Alto Alentejo

As côcas terão sido um traje de noiva na nossa região, na segunda metade do século XIX. A tradição oral também afirma que a dimensão e colocação do véu tinha três posições distintas, consoante a classe a que pertencia a nubente.
Mas, como traje de noiva acabou por cair rapidamente em desuso enquanto tal, passando a ser fundamentalmente moda nas mulheres aristocratas ou da alta burguesia de todas as idades, quando estas saíam à rua para assistir a actos religiosos ou nas visitas, tão habituais nestas classes sociais entre finais do século XIX e princípios do XX.
Usavam uns biôcos, pegados a uma espécie de capa curta e que eram cobertos, no alto, por uma renda larga, que caía pelas costas. Na frente o biôco era armado em papelão, ou tarlatana, para se manter aberto. Em alguns, a renda era colocada, como já disse, caindo do alto da cabeça sobre as costas, outros porém, era posta em sentido contrário, isto é, sobre a cara. Completava o trajo uma saia de merino.
José Leite de Vasconcellos, observa que este seria o «trajo clássico de se ir à festa do Sacramento, que durava de quinta-feira do Corpo de Deus até à segunda-feira seguinte». O célebre investigador apresenta uma testemunha ocular que, entre os anos de 1862 e 1866, terá visto as mulheres assim embiocadas, e explica que este processo só era possível mediante a utilização de «um papelão curvo que encobria a cabeça, como as mantilhas de Mondim, coberto de preto e com pano nas costas».

O biôco (ou biuco) – Algarve

Raul Brandão escreve a propósito do biuco no seu livro "Os Pescadores", em 1922:
" Ainda há pouco tempo todas (as mulheres de Olhão) usavam cloques e bioco. O capote, muito amplo e atirado com elegância sobre a cabeça, tornava-as impenetráveis.
É um trajo misterioso e atraente. Quando saem, de negro envoltas nos biocos, parecem fantasmas. Passam, olham-nos e não as vemos. Mas o lume do olhar, mais vivo no rebuço, tem outro realce... Desaparecem e deixam-nos cismáticos. Ao longe, no lajedo da rua ouve-se ainda o cloque-cloque do calçado - e já o fantasma se esvaiu, deixando-nos uma impressão de mistério e sonho. é uma mulher esplêndida que vai para uma aventura de amor? De quem são aqueles olhos que ferem lume?... Fitou-nos, sumiu-se, e ainda - perdida para sempre a figura -, ainda o som chama por nós baixinho, muito ao longe-cloque..."
Trata-se de uma capa que cobre inteiramente quem a usava. A cabeça era oculta pelo próprio cabeção ou por um rebuço feito por qualquer xaile, lenço ou mantilha. As mulheres embiocadas pareciam “ursos com cabeça de elefante”
Oficialmente a sua extinção ocorreu em 1882 e por ordem de Júlio Lourenço Pinto, então Governador Civil do Algarve, foi proibido nas ruas e templos, embora continuasse a ser usado em Olhão até aos anos 30 do século XX em que foram vistos os últimos biocos.

O Capelo – Açores

À semelhança de outras regiões também a mulher açoriana usava agasalho capotes com capelo, diferindo o seu feitio de ilha para ilha.
Leite de Vasconcelos visitou os Açores no Verão de 1924 e testemunhou o uso de mantos e capotes pelas mulheres da ilha Terceira e do Faial. Com efeito até meados do século XX era frequente encontrar nos meios citadinos mulheres envoltas no seu capote preto e capelo armado.
Convém distinguir o manto do capote, o primeiro é uma saia comprida e rodada de cor preta, o segundo, afigura-se como uma capa muito ampla, mais farta lateralmente que nas costas.
No caso da utilização do manto, o capelo era armado com cartão e atado pela cintura, a mulher segurava-o com as mãos de modo a encobrir o rosto. Com o capote, o capelo era utilizado sobre os ombros. Neste caso, estamos perante um amplo capuz suportado por um arco de osso de baleia, sendo a sua rigidez conferida pelo forro de cânhamo.

Estamos assim perante três trajes, que para além da sua função de abafo, remete o papel da mulher para a total exclusão da sociedade, uma vez que, completamente coberta jamais alguém descobriria a sua identidade.

Dos três trajes apenas o dos Açores é ainda hoje identificado pelo público em geral, já que se tornou num símbolo dessa região e é amplamente divulgado pelos ranchos folclóricos. Quanto aos restantes, correm o risco de caírem no esquecimento e no ostracismo, já que não sendo bonitos ou ricos, não são mostrados pelos grupos das suas regiões de origem.

Bibliografia:
PITA, António, Côca ou Mantilha - Século XIX - Uma Traje de Festa e de Solenidade do Alto Alentejo – Câmara Municipal de Castelo de Vide, Secção de Arqueologia, Maio1999

Braz Teixeira, Madalena, Trajes Míticos da Cultura Regional Portuguesa, 1994, Museu Nacional do Traje.

Ormonde, Helena, in O Traje do Litoral Português, Museu Etnográfico e Arqueológico Dr. Joaquim Manso, Câmara Municipal da Nazaré

sexta-feira, julho 21, 2006

Traje da mulher da Nazaré


Blusa – de chita com ramagens; brancas, com flores pretas ou vermelhas; vermelhas e outras cores, com flores brancas. Todas a blusas são justas de modo a desenharem os bustos, sem parecer comprimi-los, dando-lhes um aspecto de grande elegância.
Nas blusas dos domingos e dias de festa o decote em vez de franzido ou da tira alta, apresenta uma pequena gola voltada de bicos arredondados, guarnecida com um folho estreito, tal como o macho da frente. As mangas são bastante curtas – uma mão-travessa abaixo do cotovelo – terminando com uma renda de 10 cm de largura. Só recentemente as rendas passaram a ser maiores e as mangas mais curtas, quase pelo cotovelo.
A blusa terminava em aba usada sobre a saia, embora actualmente as mulheres a usem por dentro da saia.
Por debaixo da blusa, para formar o corpo, usavam um corpete de pano cru para o trabalho e de pano branco para os dias festivos.

Saia – conforme a ocasião a que se destinam, assim variam os tecidos; para trabalho, escocês grosseiro ou castorina; para os domingos e dias de festa, escocês de lã fina, cachemira e chita.
A roda é dada pelos panos, afeiçoada à cintura por meio de pregas estreitas, que partem de um dos lados do ventre, contornam a cintura pela parte posterior e vão até ao outro lado, não tendo pregas sobre o ventre ou tendo-as bastante largas para não fazerem enchimento sob o avental. As saias de trabalho são apenas armadas no cós.
Por entre a abertura deixada entre dois panos, a mulher tinha acesso à bolsa que as nazarenas guardavam sob a saia.
A saia de festa, quando eram feitas de chita, a orla era guarnecida com uma barra de veludo preto, com cerca de 15 cm. A esta barra corresponde pelo interior uma outra de chita vermelha. Acima da barra poderiam ainda ser colocadas mais uma ou duas, dependente do gosto pessoal.
Quando são feitas de escocês o plissado era mantido até à região das ancas por uma costura ou bordado.
Há ainda a considerar as saias de baixo (saiotes), para tufar as saias foram consideradas suficientes 3, posteriormente passaram a usar-se muitas, em número incerto, só recentemente se fixaram em sete.

Avental – De riscado para o trabalho e de popelina para os dias festivos. Em ambos os casos bastante grandes, acompanhando a saia lateralmente e no comprimento, cobrindo-a ou deixando ver uma orlazinha. Eram confeccionados de várias formas e feitios, com rendas e bordados a matiz, raminhos com flores e folhas, ou folhas e bagas.
Hoje os aventais de festa são geralmente de seda ou cetim, profusamente bordados com composições vistosas.

O lenço ou cachené – são adquiridos no mercado: de lã de algodão, geralmente de cores escuras com decorações simples de cores contrastantes. São usados atados das mais diversas maneiras, ou apenas sobre a cabeça caindo soltos.

Chapéu – é de feltro preto, de forma cilíndrica, e na parte superior da copa tem uma ligeira depressão. A aba é revirada.
Do lado direito tem a ornamentá-lo um pom-pom de lã. Ao chapéu das viúvas falta este enfeite.

Capa – para os dias festivos é de tecido fino, preto, de lã. Tem cabeção de veludo da mesma cor, é de debruado a fita preta lavrada. Para o trabalho era de baeta debruada a fita de lã lisa.
A capa é ampla de forma circular. Normalmente, a capa é usada pela cabeça sobre o lenço ou pelos ombros, só com o trajo de festa.

As nazarenas andam vulgarmente descalças. Calçadas, usam tamancos de pele preta com sola de madeira ou chinelos de trança.
Para o trajo de festa, as mulheres usam chinelas de verniz preto com salto de sola.
Em tempo de frio usam umas polainas de malha de lã branca (meias sem pé) que atam ou não com fita por debaixo do joelho.

Descrição do trajo da mulher da Nazaré, com base nas recolhas efectuadas no início do sec.XX., por Abílio Leal de Mattos e Silva.