A apresentar mensagens correspondentes à consulta nazaré ordenadas por data. Ordenar por relevância Mostrar todas as mensagens
A apresentar mensagens correspondentes à consulta nazaré ordenadas por data. Ordenar por relevância Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, outubro 13, 2014

AS ALGIBEIRAS NO TRAJE POPULAR III – ESTREMADURA, BAIXO VOUGA, ALENTEJO E ALGARVE

Este artigo é a continuação da abordagem a este tema iniciado em AS ALGIBEIRAS NO TRAJE POPULAR I – MINHO e AS ALGIBEIRAS NO TRAJE POPULAR II – DOURO LITORAL E TRÁS-OS-MONTES, passando a apresentar exemplares provenientes das coleções do Museu Dr. Joaquim Manso e do Museu Nacional de Etnologia.

MUSEU DR. JOAQUIM MANSO

Autor: Celeste Lúcio dos Santos
Datação: XX d.C.
Matéria: Tecido de algodão e várias outras fibras
Dimensões (cm): altura: 32; largura: 20;12;
Descrição: Bolsa de retalhos de diferentes cores e qualidades. De corte arredondado, com duas entradas na parte da frente. Na parte superior e de cada lado, leva um fitilho de algodão para cingir a cintura. A metade inferior é subcircular e tem a aparência de um vaso cintado de boca larga. É debruada a toda a volta por uma tira de tecido florido
Proveniência: Nazaré.
Origem: Este objeto, que fazia parte da indumentária da Nazarena e ainda em uso sobretudo nas mulheres de mais idade, tem vindo a ser substituído pelos vulgares porta-moedas. A algibeira não constituía um elemento decorativo, ao contrário do que acontecia no norte do país, mas antes utilitário. Para uma maior segurança era resguardada sob a "saia de cima", junto à abertura da mesma, sempre do lado direito e fixada à "saia de baixo" por um alfinete de dama. Este objeto, de grande importância para a mulher Nazarena transportar o dinheiro que necessitava no seu quotidiano ou até as suas economias ou "papéis de valor", continha, muitas vezes, um amuleto (conhecido por "Breve") como forma de proteção e ou superstição religiosa.



 
 Datação: XX d.C.
Matéria: Tecido de algodão e fibras sintéticas (terylene)
Dimensões (cm): altura: 36; largura: 21,5;
Descrição: Bolsa para guardar dinheiro feita de tecido de cor preta por se tratar de viúva. De corte arredondado, tem duas entradas na frente e uma atrás, sendo esta de cor castanha. Na parte superior e de cada lado leva um fitilho de algodão para cingir à cintura. É debruada a toda a volta por uma tira de tecido também de cor preta.
Incorporação: Doação - D. Deolinda Xalabardo Meca
Proveniência: Nazaré.

  
Datação: 2008 d.C.
Matéria: Tecido de lã (escocês) e algodão
Dimensões (cm): altura: 34,5; largura: 20,5;
Descrição: Bolsa para guardar o dinheiro feita de retalhos de diferentes cores, sendo as predominantes vermelho e castanho. De corte arredondado, tem duas entradas à frente e uma atrás. Na parte superior e de cada lado, leva uma fita de lã fina para cingir a cintura. É debruada a toda a volta por um fitilho de algodão azul-escuro.
Incorporação: Compra - Adquirido a Casa Crispim - Nazaré

 
 
 
MUSEU NACIONAL DE ETNOLOGIA

Datação: XIX d.C. - XX d.C.
Matéria: Tecido (lã); Tecido; Escocês (algodão?)
Dimensões (cm): altura: 28,5; largura: 17,5;
Descrição: Algibeira periforme, de tafetá de lã de cor rosa à frente e tecido de padrões geométricos atrás. É debruada, a toda a volta, por uma fita de escocês de algodão (?). A decoração frontal consiste numa cercadura em ziguezague, a qual segue, aproximadamente, os limites da algibeira. O ziguezague é executado a linha de cor vermelha. É ornado nos seus vértices exteriores por pequenos pontos de lã de cor amarela e, nos seus vértices interiores, por pequenos pontos de lã de cor azul escura. No centro da cercadura, em baixo, a meio, apresenta espécie de cálice de cor azul escura, de duas asas e de base triangular de cor amarela. A ladeá-lo, dois "X" executados a lã de cor vermelha. Do cálice brota uma flor, orientada no sentido longitudinal, cujo caule é executado a lã de cor vermelha e as pétalas, a lã de cor verde. Deste caule central brotam, diagonalmente, quatro outras flores (duas de cada lado): as inferiores, de caule executado a lã de cor verde a pétalas a lã de cor amarela; as duas superiores de caule executado a lã de cor amarela e pétalas a lã de cor azul escura. As pétalas da flor central são ladeadas por iniciais, uma de cada lado: do lado esquerdo, um "C"; do lado direito, espécie de "B". A ladear a abertura da algibeira, em sentido longitudinal, dentro da cercadura, acima das iniciais, uma linha em ziguezague, executada a lã de cor verde. O tecido que forra o interior da abertura da algibeira apresenta uma espécie de reticulado de cor rosa sobre o qual se dispõem barras delgadas transversais de cor rosa, acompanhadas a todo o comprimento por pequenos quadrados de cor vermelha, alternadas com barras delgadas formadas por três linhas intermitentes: verdes as exteriores e vermelha a interior. O tecido de trás da algibeira é do mesmo tipo do forro da abertura.
Proveniência: Alcobaça / Turquel

 
Datação: XIX d.C. - XX d.C.
Matéria: Riscado (algodão?); Tecido
Dimensões (cm): altura: 29; largura: 17,5;
Descrição: Algibeira periforme, de riscado de algodão (?) de cor preta na frente e tecido de cor cinzenta atrás. É debruada a toda a volta por uma fita de algodão de cor preta, que, na aresta superior, se prolonga para ambos os lados. A meio da altura apresenta, espaçados entre si, dois bolsos, de forro de tecido de cor cinzenta, debruados, em cima e em baixo do corte da abertura, por fita de algodão de cor preta. Ao centro, apresenta motivo hastiforme de tecido de cor azul debruado a fita de algodão de cor preta. Tal motivo é constituído por duas partes: é cortado a meio pelo bolso inferior e corta a meio, por sua vez, o bolso superior, sobrepondo-se-lhe, de baixo para cima, como uma pataleta. A parte inferior do motivo, a correspondente à pala do bolso inferior, tem, como elemento decorativo, uma costura executada a linha de cor preta, a qual segue, interiormente, os contornos da forma onde está inscrita. Na parte de trás, a algibeira apresenta um bolso ligeiramente deslocado do centro para cima.
Proveniência: Aveiro / Murtosa


Datação: XIX d.C. - XX d.C.
Matéria: Tecido (lã); Veludo (seda?); Flanela (lã); Lã
Dimensões (cm): altura: 31; largura: 18,5;
Descrição: Algibeira de formato periforme, com a parte da frente em tecido de lã de cor preta, e parte de trás em flanela industrial de três tipos: o de cima, de fundo vermelho, é estampado com motivos fitográficos estilizados de cor preta; o do meio apresenta um fundo de cor castanha estampado com motivos geométricos de cor laranja dispostos segundo um reticulado diagonal; no inferior, semelhante ao anterior, os motivos geométricos são de cor rosa. Entre a flanela superior e a do meio, abre-se um bolso transversal, da largura da algibeira. Todas as orlas da algibeira são debruadas por uma fita de cor preta. Na extremidade superior, tal fita estende-se para além dos limites laterais da algibeira, caindo livremente. No restante perímetro, a fita é adornada com uma linha de ponto espiga executado a fio de lã de cor amarela. A meio da altura, a algibeira apresenta uma abertura transversal. Acima e abaixo dela estão aplicados, simetricamente, dois retalhos triangulares, em veludo de seda (?) de cor castanha. As orlas dos retalhos são também adornadas com ponto espiga. No vértice superior e inferior, respetivamente, apresentam ainda uma espécie de flor / estrela bordada a fio de lã de cor amarela. Na parte inferior da algibeira, com o mesmo fio, estão bordadas as iniciais "B. R."
Proveniência: Évora / Estremoz

 
 
Datação: XIX d.C. - XX d.C.
Matéria: Tecido (algodão); Chita (algodão); Veludo (seda?); Renda (algodão); Lã
Dimensões (cm): altura: 24; largura: 17;
Descrição: Algibeira cordiforme com a parte da frente em tecido de algodão (?) de cor branca, e parte de trás em chita do mesmo material, de cor vermelha, estampada com motivos fitográficos de cor branca. À frente, na metade superior, surge a boca de um bolso, em forma de raia. Tanto as orlas da boca, como as da algibeira são debruadas por uma fita em veludo de seda (?) de tom esverdeado. Nos vértices superiores, tal fita prolonga-se, caindo livremente. Sobre o tecido de algodão (?) que constitui a frente da algibeira, surge um forro em renda de croché de cor castanha, formando um reticulado ortogonal. Nele estão bordados motivos ilegíveis, executados a fio de lã de cor branca, rosa, amarela e verde. Um desses motivos, abaixo da boca do bolso, aparente ser um coração de cor rosa e branca, contornado por ramificações nas cores atrás referidas.
Proveniência: Évora / Estremoz


Datação: XIX d.C. - XX d.C.
Matéria: Tecido (lã); Chita (algodão); Sarja (algodão); Lã
Dimensões (cm): altura: 27; largura: 16;
Descrição: Algibeira com o formato de um retângulo de vértices inferiores arredondados. A parte da frente é em tecido de lã de cor preta. A parte de trás é forrada no mesmo tecido e, na extremidade inferior, a sarja de algodão da mesma cor. Todas as orlas da algibeira são debruadas por uma fita de lã de cor azul. Nos vértices superiores está aplicada uma fita semelhante, que se estende caindo livremente. Ao centro, surge a boca arqueada de um bolso interior. A sua orla é também debruada com uma fita de lã de cor azul. Interiormente, o bolso é forrado a chita de algodão de tom amarelado, estampada com motivos florais de cor roxa, branca e rosa. À frente, a algibeira apresenta bordados executados a fio de lã de cor verde, vermelha, azul, amarela, branca, rosa, laranja e roxo. Acima da boca do bolso, os bordados formam a inicial "D"; abaixo, formam um grande motivo foral.
Proveniência: Évora / Borba

 
 Datação: XIX d.C. - XX d.C.
Matéria: Flanela (lã); Tecido (lã); Tecido (lã, algodão?)
Dimensões (cm): altura: 27; largura: 20;
Descrição: Algibeira de formato trapezoidal, forrada, atrás e à frente, a flanela de lã de cor preta. As suas orlas são debruadas por uma fita de lã de cor azul. À frente, apresenta uma abertura triangular de arestas arqueadas. Na aresta inferior, está aplicado um retalho em tecido de lã de cor verde, listado, de espaço a espaço com três linhas longitudinais de "levantados" de cor preta. Este retalho apresenta uma forma simétrica à da abertura. Interiormente, a algibeira é forrada a tecido de lã e algodão (?) de cor branca e castanha, lavrado com listas transversais tracejadas nas mesmas cores, e bandas compostas por listas de cor branca, castanha e vermelha.
Proveniência: Loulé / Alte

 
Fonte:
Outros artigos relacionados:
AS ALGIBEIRAS NO TRAJE POPULAR I– MINHO
AS ALGIBEIRAS NO TRAJE POPULAR II– DOURO LITORAL E TRÁS-OS-MONTES

segunda-feira, julho 21, 2014

Calçado popular


Botas de Cano - Matosinhos
Datação: XIX d.C. - XX d.C.

Matéria: Madeira; Metal (ferro); Cabedal

Dimensões (cm): altura: 53; largura: 17; comprimento: 31;

Descrição: Botas (par) de cano alto e rasto em madeira; e gáspea, talão e pala de cabedal de cor acastanhada. O rasto apresenta vestígios de tingimento a cor vermelha. É constituído por salto, enfranque e pata. O salto é baixo e apresenta, a ladear os contornos exteriores formando espécie de ferradura, uma aplicação de tira de sola de cor preta, semeada com cardas de ferro justapostas às suas extremidades. O enfranque é curvilíneo, em continuação com a pata. Esta, apresenta três aplicações de sola: duas de lado e uma, à frente, com os contornos da biqueira. São todas semeadas com cardas de ferro, de formato circular. A unir o rasto à gáspea e ao talão, uma banda de sola de cor preta, pregada de espaço a espaço por pregos metálicos de cabeça pequena batida. Na zona da biqueira, apresenta, em vez desta banda, uma outra, de formato semicircular, que a cobre e à dianteira do rasto. A gáspea e o talão, embora simétricos, são de igual formato, apresentando uma boca que forma um lóbulo ao centro. A esta boca está costurado um cano do mesmo material, que estende até acima dos joelhos, formando uma pala - um grande lóbulo na parte dianteira. A costura é visível através de duas fileiras executadas a linha de cor branca, nos contornos superiores das gáspeas. O cano é feito de uma só peça de cabedal, sendo que é cosido, longitudinalmente, do lado interior da bota a linha de cor branca. Na extremidade superior de tal costura, e na do lado oposto a esta, espécie de presilha de cabedal. As presilhas do lado interior da bota, apresentam um anel feito em corda.


Sapatos Homem - Algarve
Datação: XIX d.C. - XX d.C.

Matéria: Sola; Calfe; Metal

Dimensões (cm): altura: 8; largura: 10; comprimento: 27,5;

Descrição: Sapatos (par) com rasto em sola. Este apresenta um salto baixo, constituído por duas camadas de sola pregadas e coladas. A parte superior dos sapatos é constituída por gáspeas, talão e biqueira. Todas estas peças são em calfe de vitela de cor preta. As gáspeas estendem-se sobre o peito do pé, formando, nesta zona, uma língua. O talão percorre a zona do calcanhar, diminuindo a sua altura, e formando duas orelhas que se sobrepõem à língua das gáspeas. Estas apresentam três furos, dados longitudinalmente, por onde passa um atacador de cor preta. A biqueira, do mesmo material, forma uma meia-lua de orla ponteada à máquina e furada em pequenos círculos, de espaço a espaço. O interior dos sapatos é forrado a couro, apresentando também, sobre o rasto, uma palmilha em couro de cor branca.
Proveniência: Faro / Loulé / Alte.



Botas - Baixo Alentejo
Datação: XIX d.C. - XX d.C.

Matéria: Couro; Borracha; Metal

Dimensões (cm): altura: 27; largura: 10; comprimento: 25;

Descrição: Botas (par) com rasto em couro, constituído por salto, enfranque e pata.

O salto é alto e afunilado. É forrado a borracha de cor preta, à qual estão aplicados vários pregos metálicos. O enfranque é esguio e a pata de bico ligeiramente levantado. Esta zona é completamente recoberta de pregos metálicos. Pregadas ao rasto surgem as gáspeas de couro. A elas, na orla interior, está aplicado, por dentro, um talão alto, formando um cano. Este é aberto longitudinalmente, à frente, ao centro. Apresenta, em cada aba quinze ilhós metálicas. Por entre as abas, surge uma língua de couro que está aplicada na extremidade inferior da abertura, por baixo do talão e das gáspeas.
Proveniência: Beja /Serpa

 
Botas da Pesca do Bacalhau
Datação: XX d.C.

Matéria: Cabedal e madeira

Dimensões (cm): altura: 58;

Descrição: Par de botas que cobrem o pé e parte da perna até aos joelhos.

Origem / Historial: Estas botas de bacalhoeiro pertenceram ao pescador Armando Bizarro Valverde, da Nazaré. Era o calçado que os pescadores usavam quando escalavam o bacalhau.
 
Proveniência: Nazaré.
 
 
 
 
Fontes:
Museu de Arte Popular.
Outros artigos relacionados neste blog:

quarta-feira, março 19, 2014

Traje da Nazaré - Capa

A capa é o principal agasalho do trajo da mulher nazarena, utilizando-a em todos os momentos da vida. Não agasalha apenas o frio, mas também os sentimentos, dando-lhe umas vezes porte altivo e outras a sombra da tristeza.
 

 A capa é preta, de lã, e o seu corte é cuidado.

Calculado o tecido em relação às medidas da mulher, cortados e costurados os panos, obtém-se a amplitude necessária para recortar a capa de forma circular. Ampla, cortada em viés; cabeção (de veludo para as de festa), frentes guarnecidas com bandas voltadas para fora. Cabeção e bandas decoradas com fita de algodão. Por economia de tecido, as pequenas emendas de um e de outro lado da frente são cortadas das sobras do tecido e cosidas pelo avesso a ponto de luva

Normalmente a capa é usada pela cabeça sobre o lenço. Pelos ombros só no trajo de festa, quando a capa é de tecido fino.


Bibliografia: Abílio Leal de Mattos e Silva in “O Trajo da Nazaré”, Editorial Astónia, Lisboa, 1970.

quinta-feira, março 13, 2014

Traje da Nazaré - Chapéu


"Mulher na Praia" de Guilherme Filipe
Museu Dr. Joaquim Manso
O chapéu da nazarena é uma das peças de indumentária popular mais simbólicas e identificáveis.

Chapéu de nazarena
Museu Nacional do Traje
Feito de feltro preto e fita (gorgorão) de seda da mesma cor. O chapéu tem um a forma cilíndrica, aba revirada, decorada, com fita que remata no lado direito com pom-pom de fio de seda preta; ajusta com elástico; remata no interior com tira de pele de cor natural. Forro de tecido de cetim branco.

Para não se acentuar a depressão da copa, a nazarena coloca na cabeça por baixo do chapéu uma rodilha, para fazer altura.

Bibliografia: Abílio Leal de Mattos e Silva in “O Trajo da Nazaré”, Editorial Astónia, Lisboa, 1970.

segunda-feira, fevereiro 24, 2014

Rituais da morte e o luto no traje


De todos os mistérios de vida dois são certos, o nascimento e a morte. Se o primeiro é encarado com alegria e regozijo, o segundo é trágico e triste, muito embora a doutrina cristã defenda ressurreição da alma.

Por ser um assunto difícil de abordar na nossa sociedade, os trajes de luto e os rituais da morte raramente são representados pelos grupos etnográficos e folclóricos.

Não querendo ser extenso nesta matéria, procurei alguns apontamentos etnográficos que caracterizassem estes momentos da vivência de qualquer pessoa.

Os rituais fúnebres, além de possibilitarem contactos afetivos e de conforto entre parentes, apresentam simbologias que pretendem concretizar o ocorrido.



Retrato de mulheres, sec.XX, Museu de Arte Popular,
Instituto dos Museus e da Conservação, I.P. / Ministério da Cultura
Em Portugal os rituais da morte são profundamente influenciados pela tradição católica, resultando num protocolo rígido na representação da infelicidade da família enlutada perante a sociedade.

O preto era a cor do luto e quer homens, mulheres ou crianças, despojavam-se das demonstrações exteriores alegria, havendo uma enorme preocupação em cumprir o luto devido por morte de um familiar. No caso de pais ou filhos eram de 18 meses a 2 anos, de um irmão 1 ano, avós 8 meses e tios 3 meses.

Se havia um casamento marcado adiava-se, a matança não era feita, não havia festas até passar o tempo de luto fechado, depois começava-se a aliviar o luto até aos 2 anos.

O anúncio da morte de alguém era feito pelo toque do sino da igreja (o chamado “dobrar” que ainda hoje assim se faz em algumas regiões) e depressa passava de boca-em-boca o nome do falecido.

Os defuntos não iam para a igreja, eram velados em casa. A casa era desprovida de quaisquer elementos decorativos e até o relógio era levado para casa de uma vizinha para não se ouvir o barulho do pêndulo. A casa era despojada de móveis e a vizinhança emprestava as cadeiras. Em algumas aldeias a água que havia nos cântaros era deitada fora e também se tiravam os enchidos que estavam na chaminé.

O corpo era arranjado, vestido com a melhor roupa, muitas vezes já previamente predestinada (o fato da mortalha), e ficava em cima da cama, até que no dia seguinte era enrolado numa colcha, metido no caixão e saíam com ele a pé para o cemitério. Junto à cama era colocado um copo ou uma taça, com um raminho, com o qual se aspergia o morto.
"Carpideiras no funeral de Juan Lara" - 1951 - Cáceres - W.Eugene Smith

Com grandes prantos, fazendo elogios ao falecido e maldizendo a sorte carpidava-se o morto demonstrando a dor da família enlutada, tarefa relegada para os elementos femininos da família, ou “contratavam-se” carpideiras para demonstrar que o falecido era muito querido.

Se era uma criança (os anjinhos ou injinhos), o corpo era colocado numa urna branca e levado ao cemitério por crianças mais velhas. Se era uma rapariga donzela, vestiam-na de noiva com uma grinalda.

Depois do funeral era a vizinhança que cozinhava para a família enlutada e que ajudavam na limpeza e arrumação da casa. No Alentejo a casa não era caiada, nem nessa altura, nem durante o tempo do luto.

Durante todo o tempo de luto fechado os amigos e a vizinhança mais próxima repartiam o que havia com a família enlutada, respeitando a infelicidade e ajudando uns aos outros.

No que respeita à missa de 7º dia, está relacionada com a tradição católica e às referências na Bíblia ao luto de 7 dias:

·         O luto de Jacó durou 7 dias (Gn 50,10)
·         Saul foi enterrado e fizeram um jejum de 7 dias (1Sm 31,13)
·         O povo chorou a morte de Judite durante 7 dias (Jt 16,24)
·         O luto por um morto dura 7 dias (Eclo 22,11)

O Luto no Trajo


Viúva - Rancho Folc. Casa do Povo da Glória do Ribatejo
Em Portugal os rituais da morte entre os finais do sec.XIX e início do sec.XX têm origens muito antigas e diversas influências culturais, resultando num protocolo rígido na representação da dor da família enlutada perante a sociedade

Na tradição popular portuguesa o luto era profundamente vivido e socialmente controlado. Essa vivência fazia com que fossem colocados de lado os trajos mais vistosos, muitas vezes para o resto da vida, como aconteceu com o traje de branqueta da Póvoa do Varzim após o naufrágio de 1892, que enlutou a maioria das famílias dessa região, apenas sendo ressuscitado em 1936 por Santos Graça.

Pormenores do luto no trajo feminino:

Por morte de um parente, as mulheres vestiam-se de preto e quase tapavam o rosto, sendo socialmente apontadas ou marginalisadas aquelas que não o fizessem. Era sinal de respeito quase religioso.


Retrato de camponesa, sec.XX, Museu de Arte Popular,
Instituto dos Museus e da Conservação, I.P. / Ministério da Cultura
A mulher cobre a cabeça com o mais singelo dos lenços negros e as capas, saias de costas, xailes e biucos criam um “casulo” interiorizando a dor e isolando-a do mundo que a rodeia de forma a se tornar invisivel à sociedade.

No Alentejo e Algarve a mulher não tirava o lenço da cabeça nem o xaile das costas. Mesmo no trabalho do campo, de Verão ou Inverno, as mulheres usavam grandes xailes em bico, meias, lenço e chapéu.

No Minho surge o Traje Escuro ou Dó em sinal de luto ou quando um parente partia para o estrangeiro. Usado para simbolizar dor pela separação, motivada por ausência temporária ou mesmo definitiva de um parente. Na verdade, a diferença marcante dos demais trajes, deve-se a tonalidade que no caso presente e como não poderia deixar de ser predomina a cor preta.

Na Póvoa do Varzim a mulher usava casaco e saia pretos, lenço preto na cabeça, embiocado, e uma saia de costas, também preta, muito semelhante à saia de vestir, com pregas miúdas junto à cintura, embora mais curta e com menos roda. Colocada sobre a cabeça, envolve o corpo até à cintura. O trajo de luto anulava praticamente a figura da mulher. Como sinal de tristeza profunda, de renúncia ao conforto e desprendimento dos bens materiais, esconde o rosto dos olhares intrusos e anda descalça.


"Mulher da Nazaré", Artur Pastor
Também na Nazaré a capa, colocada sobre a cabeça, esconde a cara da mulher e o seu sofrimento, nesta altura chapéu perde o tradicional pom-pom de lã.

No que se refere às joias, durante o luto fechado apenas utilizavam os brincos, aos quais eram cozidos uns paninhos pretos para disfarçar o brilho do ouro, ou então, para quem tinha essa possibilidade, usava brincos com pedras escuras: azeviche, granada, hematita, e ônix.

Em Portugal, no concelho da Batalha, nas minas de Alcanadas (Barrojeiras e de Chão Preto), até ao início do século XX, era extraído o azeviche utilizado na realização de jóias usadas durante os períodos de luto da família pela Família Real Portuguesa. Também era extraido azeviche em Peniche.



Brincos de 1880 em azeviche. Acervo do Metropolitan Museum

Pormenores do luto no trajo masculino:

Aos homens eram impostas menos regras sociais que ás mulheres, para além do resguardo do tempo de luto obrigatório.
Genericamente o homem também adoptava o fato preto, ou da cor mais escura que tinha. Mesmo no trabalho passa a vestir-se integralmente de preto.
No Alentejo e Algarve os homens andavam com a barba grande pelo menos durante 1 mês e não iam à taberna. Em algumas localidades usavam um lenço amarado à cabeça por debaixo do boné ou do chapéu.
O uso do Gabão também era comum, sobretudo na Póvoa do Varzim e Nazaré. Este era feito de tecido de lã castanha (saragoça) com cabeção, capuz e mangas compridas. Nas frentes, carcela e bolsos metidos a costura era pespontada a branco. Forro de branqueta. O capuz cobria não só a cabeça, mas ocultava o próprio rosto, resguardando-o de olhares estranhos

quarta-feira, maio 02, 2012

As Sete Saias da Nazaré

De origem relativamente recente, a Nazaré “nasceu” do recuo do mar e do assoreamento progressivo da praia durante o século XVII, começando a ser conhecida e frequentada como praia de banhos apenas em meados do século XIX. A população nazarena tem as suas raízes muito ligadas a outros marítimos como os Ílhavos e outros povos da Ria de Aveiro, que trouxeram com eles para a Nazaré não só novas artes de pesca, mas também o modo de vestir e até de falar. Ao longo dos anos essas novas maneiras foram aqui evoluindo, transformando-se e adaptando-se às necessidades da vida.

As sete saias fazem parte da tradição, do mito e das lendas desta terra tão intimamente ligada ao mar. Diz o povo que representam as sete virtudes; os sete dias da semana; as sete cores do arco-íris; as sete ondas do mar, entre outras atribuições bíblicas, míticas e mágicas que envolvem o número sete. A sua origem não é de simples explicação e a opinião dos estudiosos e conhecedores da matéria sobre o uso de sete saias não é coincidente nem conclusiva. No entanto, num ponto todos parecem estar de acordo: as várias saias (sete ou não) da mulher da Nazaré estão sempre relacionadas com a vida do mar. As nazarenas tinham o hábito de esperar os maridos e filhos, da volta da pesca, na praia, sentadas no areal, passando aí muitas horas de vigília. Usavam as várias saias para se cobrirem, as de cima para protegerem a cabeça e ombros do frio e da maresia e as restantes a taparem as pernas, estando desse modo sempre “compostas”. A introdução do uso das sete saias foi feito, segundo uns, pelo Rancho Folclórico Tá-mar nos anos 30/40, segundo outros pelo comércio local no anos 50/60 e ainda de acordo com outras opiniões as mulheres usariam sete saias para as ajudar a contar as ondas do mar (isto porque “ o barco só encalhava quando viesse raso, ora as mulheres sabiam que de sete em sete ondas alterosas o mar acalmava; para não se enganarem nas contas elas desfiavam as saias e quando chegavam à última, vinha o raso e o barco encalhava”). O uso de várias saias pelas mulheres da Nazaré também está ligada a razões estéticas e de beleza e harmonia das linhas femininas – cintura fina e ancas arredondadas, (esta poderá ser também uma reminiscência do traje feminino de setecentos que as damas da corte usavam - anquinhas e mangas de renda - e que pavoneavam aquando das visitas ao Santuário da Senhora da Nazaré), podendo as mulheres usarem 7, 8, 9 ou mais saias de acordo com a sua própria silhueta. Certo é que a mulher foi adoptando o uso das sete saias nos dias de festa e a tradição começou e continua até ao presente. No entanto, no traje de trabalho são usadas, normalmente, um menor número de saias (3 a 5). 

segunda-feira, agosto 29, 2011

As cores republicanas no barrete do campino ribatejano


O campino do Ribatejo tal como actualmente o conhecemos, altivo na sua montada, com o seu pampilho, apresenta-se invariavelmente com o seu colete encarnado, faixa vermelha à cintura, calça azul e meias brancas até ao joelho, jaqueta e sapato de prateleira com esporas. Ao invés de outros trabalhadores rurais da mesma região, usa barrete verde com orla a vermelho, sugerindo as cores da actual bandeira nacional.
O barrete é, desde tempos muito recuados usual em diversas regiões do nosso país, quer no meio rural como ainda entre as comunidades de pescadores. No Minho, apesar da indústria de chapelaria que se desenvolveu em Braga nos meados do século XIX, a qual levou à difusão em toda aquela do característico chapéu braguês, o barrete continuava a ser utilizado nas tarefas diárias da lavoura.
Originariamente, todos os barretes eram pretos ou cinzento-escuro, independentemente do grupo social ou a região do país em que eram utilizados. Ainda hoje os podemos encontrar com relativa facilidade entre os pescadores da Nazaré e da Póvoa do Varzim ou até na região saloia. Porém, apesar de se pretender preservar aquilo que foram os usos e costumes de uma determinada época, geralmente dos finais do século XIX e começos do século XX, também o traje tradicional tem sido permeável às modas e a outros interesses que o levam a registar modificações que, não raras as vezes chegam até nós como o que existe de mais genuíno.
Seria extensa a lista de exemplos que poderíamos enumerar para descrever as alterações que ao longo dos tempos se tem registado no traje tradicional, para já não falarmos de outros aspectos relacionados com o folclore como as coreografias, os instrumentos utilizados e os próprios cantares. Bastará, apenas, referir o tamanho das saias que outrora se usavam comparados com o que por vezes é exibido actualmente, as formas estilizadas e os tecidos. Muitas dessas alterações não estão apenas relacionadas com as influências exercidas pela moda mas ainda com a sua utilização para fins de propaganda turística e até política, como sucedeu em grande medida durante o período do Estado Novo.
Sucede que, faz precisamente cem anos que foi instaurado em Portugal o regime republicano. E, como é sabido, o Ribatejo constituía uma das regiões de maior implantação política dos republicanos da altura. De resto, foi um ribatejano de seu nome José Relvas, quem hasteou a bandeira do novo regime nos Paços do Concelho, em Lisboa. Na verdade, a bandeira hasteada pertencia a um pequeno grupo político, o Centro Democrático Federal, pois a bandeira tal como a conhecemos só viria a ser concebida e aprovada pela Assembleia Nacional Constituinte no ano seguinte.
Inspirados pelo famoso quadro “A Liberdade guiando o Povo” de Eugène Delacroix, os republicanos criaram uma figura alegórica para representar a República, um tanto à semelhança do que fizeram os franceses ao conceberem a sua Marianne. O modelo então escolhido foi uma jovem alentejana de Arraiolos, de seu nome Irene Pulga. E, tal como os franceses fizeram com a Mariana, colocaram-lhe sobre a cabeça um barrete frígio.
O barrete frígio é assim designado por ter sido primitivamente usado pelos habitantes da Frígia que constituía uma região da Ásia Menor, sensivelmente onde actualmente se encontra a Turquia. Os republicanos franceses adoptaram-no, sob a cor vermelha, como símbolo de liberdade. Aliás, da mesma forma que, nos finais do século XIX, foram os caçadores alpinos franceses os primeiros a adoptar a boina basca, alterando-lhe a cor para azul-escuro, tendo passado a constituir um acessório dos uniformes de inúmeras forças militares sob as mais diversas cores. De forma algo idêntica, também os republicanos portugueses viram certamente no barrete do campino ribatejano uma espécie de barrete frígio, genuinamente português, podendo ser-lhe introduzidas as cores da República.
Com o decorrer do tempo e a divulgação do folclore, mormente ao tempo do Estado Novo, a ideia do barrete verde viria a enraizar-se nos costumes ribatejanos e a tornar-se uma peça considerada genuína do traje do campino.

Autor: Carlos Gomes


quarta-feira, outubro 01, 2008

Como trajavam as crianças

A maioria dos ranhos folclóricos nacionais apresenta, entre os seus elementos, crianças de tenra idade, colocando-se frequentemente a questão de como se devem trajar.
Existem muitos estudos sobre os trajes regionais, no entanto, poucos abordam o trajo infantil, pelo que decidi abordar o assunto.
Em primeiro lugar, devo recordar que a maioria da população portuguesa, até meados do sec.xx, vivia sobretudo da agricultura e da pesca. Era uma população com poucos recursos, para quem os filhos significavam riqueza, mais braços para trabalhar e para contribuirem para o rendimento familiar.
Às raparigas, desde cedo, eram atribuídas tarefas domésticas, cuidando da casa e dos irmãos mais novos, quando não teriam mais de 7 ou 8 anos. Poucas eram as que frequentavam a escola ou aprendiam a ler, o que era considerado dispensável, já que,a s raparigas deviam ser preparadas para o trabalho doméstico, seu destino era casar e ter filhos.


Os rapazes mereciam tratamento diverso. Não lhes eram exigidas grandes responsabilidades, embora pudessem ajudar os pais na lavoura ou na faina. Normalmente, frequentavam a escola e continuavam a trabalhar na actividade da família. Quando a família tinha alguns rendimentos eram entregues como aprendizes a algum mestre de ofício, a quem pagavam, para que ao rapaz fossem ensinados os segredos de uma determinada profissão.

Mas, como trajavam estas crianças?

Os fracos recursos promoviam a reciclagem das roupas e muitas vezes possuíam apenas uma muda de roupa, que era lavada à noite quando s
e deitavam, para que secasse e pudesse ser vestida na manhã seguinte.
A roupita melhor era guardada para dias especiais e de festa.
Muitos só conheciam sapatos quando entravam para a escola ou ainda mais tarde. Andavam muitas vezes descalços, com uns socos de madeira e carneira ou com umas alpercatas de tecido ou couro.
Frequentemente os trajos das crianças não eram mais que miniaturas dos trajos dos adultos.
Era habitual que as roupas dos pais e irmãos mais velhos passassem para as crianças, depois de devidamente adaptadas. Da camisa velha do pai era feita uma nova para o filho ou adaptava-se um vestido da filha mais velha para que a mais nova pudesse ter um vestido novo do dia da festa da aldeia.
Assim se vivia, com pouco, do qual se fazia muito.


É assim, natural encontrar-mos imagens de crianças vestidas tal como os adultos, quer nos trajos domingueiros, como nos do dia-a-dia, ou mesmo no luto, altura em que ficavam sujeitas as mesmas obrigações sociais que os adultos.

As imagens que ilustram este artigo são da primeira metade do sec-XX. As duas primeiras foram tiradas na Nazaré, por Bill Permutter e Jean Dieuzaide, a última é sobejamente conhecida, são os Pastorinhos de Fátima no seu trajo domingueiro da região de Leiria.

domingo, outubro 14, 2007

Documentário sobre a Nazaré

Numa curta visita ao YouTube encontrei este documentário sobre o Rancho Folclórico Tá-Mar da Nazaré.
Observem bem os trajes, como eram e como são apresentados actualmente.

sexta-feira, agosto 10, 2007

Mulher dos Cabazes – Nazaré – Estremadura

O trabalho desta nazarena consistia no transporte à cabeça dos cabazes com peixe trazidos nos barcos até à praia. Carregava sempre os cabazes em número par e ganhava à corrida, entre a barca e a lota.
Tratando-se de um trajo de trabalho a saia de duas rodas apresenta dois tipos de tecidos diferentes. Um em castorina de lã escura formando riscas, o outro de escocês junto à cintura. Era muito frequente as saias serem remendadas com outros tecidos à medida que se iam rompendo. Tudo se aproveitava, porque os ganhos não chegavam para os gastos.
O gesto de segurar na boca a ponta do xaile era habitual, pois a mulher dos cabazes tinha de limpar com frequência a cara, molhada com a água que caia das canastras.
Vestia um casaco de algodão estampado com motivos florais, gola de bico ou redonda e frentes abotoadas, com manga comprida. Saia de tecido de castorina e escocês, franzida na cintura, descendo até meio da perna. Avental de tecido de algodão azul ganga, com cós, bolsos e orla cosidos a à jour. Na cabeça, lenço estampado atado na nuca e um pequeno xaile de lã, deixando cair as pontas.
Para ajudar a suportar os cabazes usa uma rodilha sobre a cabeça.

Referência Bibliográfica: O Trajo Regional em Portugal, Tomaz Ribas, Difel, 2004

Artigos relacionados: Nazaré

quinta-feira, julho 26, 2007

Traje de Luto – Póvoa do Varzim – Douro Litoral


No século XIX, seguiam-se regras severas para o traje de luto. Para parentes próximos, usava-se o preto durante meses ou até anos. Para parentes distantes, as roupas possuíam detalhes em preto. Quando o príncipe Alberto morreu, em 1861, a rainha Vitória enlutou-se e ajudou a promover uma grande voga de roupas pretas.
Na tradição popular portuguesa o luto era profundamente vivido e socialmente controlado.
Essa vivência fazia com que fossem colocados de lado os trajos mais vistosos, muitas vezes para o resto da vida, como aconteceu com o traje de branqueta da Póvoa do Varzim após o naufrágio de 1892, que enlutou a maioria das famílias dessa região, apenas sendo ressuscitado em 1936 por Santos Graça.
Durante o luto, o homem poveiro usava camisa ou camiseta preta. Se possuía fato preto, usava-o, quando o não tinha, punha o fato de trabalho mais escuro e colocava na cabeça um casaco pendurado pela cava interior de uma das mangas.
O uso do Gabão também era comum. Este era feito de tecido de lã castanha (saragoça) com cabeção, capuz e mangas compridas. Nas frentes, carcela e bolsos metidos a costura era pespontada a branco. Forro de branqueta. O capuz cobria não só a cabeça, mas ocultava o próprio rosto, resguardando-o de olhares estranhos.


A mulher usava casaco e saia pretos, lenço preto na cabeça, embiocado, e uma saia de costas, também preta, muito semelhante à saia de vestir, com pregas miúdas junto à cintura, embora mais curta e com menos roda. Colocada sobre a cabeça, envolve o corpo até à cintura.
O trajo de luto anulava praticamente a figura da mulher. Como sinal de tristeza profunda, de renúncia ao conforto e desprendimento dos bens materiais, esconde o rsoto dos olhares intrusos e anda descalça.

Fontes:
O Trajo Regional em Portugal, Tomaz Ribas, Difel, 2004
O Traje do Litoral Português, Câmara Municipal da Nazaré – Museu Etnográfico e Arqueológico Dr. Joaquim Manso, 2003
Artigos relacionados: Póvoa do Varzim

terça-feira, março 06, 2007

Trajes regionais portugueses em emissão filatélica


Os Trajes Regionais Portugueses são o tema de uma edição filatélica dos CTT de 2007. Dez novos selos de 30 cêntimos e um bloco com mais quatro selos, com o valor total de 1,20 euros mostram os trajes tradicionais de todas as regiões, do Minho até aos Açores.
A concepção gráfica desta emissão é de Vasco Marques, que utilizou fotografias de várias origens: Instituto Português de Museus, Museu de Arte Popular, Museu Nacional do Traje, Museu de Ovar e os fotógrafos Carlos Monteiro, Júlio Marques, Laura Castro Caldas, Paulo Cintra e Rui Cunha.
Nos selos dos CTT aparecem os trajes tradicionais das lavradeiras e das noivas do Minho, a capa de honras mirandesa e o vestuário dos Pauliteiros de Miranda, de Trás-os-Montes, e croça dos pastores trasmontanos e da Beira interior, uma capa e uma sobrecapa tecidas de palha que os protegem da chuva e da neve.Os restantes selos mostram uma camisola de pescador do Douro Litoral, as sete saias da Nazaré, o traje das mulheres algarvias do litoral, o capote alentejano e o vestuário dos campinos do Ribatejo.
O bloco filatélico integra quatro selos ilustrados com o vestuário tradicional dos camponeses da Beira Litoral e das camponesas do Ribatejo, o capote e capelo típico dos Açores e a viloa da Madeira.
Assim, através da filatelia, podemos divulgar os nossos trajes tradicionais e contribuir para a sua perpetuação.
Bem hajam pela ideia.

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Gabão – Traje de Pescador

António Nabais in “O Traje do Litoral Português”, escreve:
“No traje do litoral, existem traços comuns ao longo de toda a costa marítima portuguesa. Esta característica reflecte a mobilidade dos marítimos, nomeadamente dos pescadores.”…”Numa leitura imediata da iconografia (gravura, desenho, pintura e fotografia) costeira do século XIX e inícios do século XX, verificamos existirem mais semelhanças do que diferenças.”
Um destes exemplos é o gabão, muito utilizado pelas comunidades do litoral, de Caminha a Vila Real de Santo António.
No mar, todos os agasalhos eram poucos, pelo menos no tempo de espera, pelo que além da camisa e da camisola, o pescador envergava um casaco muito velho ou o gabão. Este é um traje para o trabalho no mar, mas também, de luto, como na Póvoa do Varzim ou na Nazaré.
Muito embora se possa encontrar este agasalho em várias regiões do país, genericamente, o seu feitio mantém-se semelhante.
O Gabão era feito de burel, surrobeco ou briche. Apertava com botões ou alamares de prata, um cabeção cobria os ombros e as costas e o capuz protegia a cabeça do vento frio. O tamanho varia, sendo mais comprido e amplo na costa norte até Lisboa e mais curto na costa algarvia.
O gabão usado na Póvoa do Varzim possuía uma característica que os distinguia das restantes regiões, era forrado de branqueta, que também servia para avivar as bandas, cabeção e capuz.
O gabão chega à região de Lisboa trazido pelos pescadores da costa Norte, que se deslocavam sazonalmente à foz do Tejo para a pesca do sável, e que se foram fixando em bairros tão típicos como a Madragoa.
Actualmente, algumas confrarias enólogas e gastronómicas recriaram o gabão e utilizam-no como traje cerimonial.

quinta-feira, outubro 26, 2006

Traje do Pescador da Nazaré

O pescador da Nazaré é um homem do mar, cinzelado pelo sal do mar e pelo sol escaldante. Em terra, quer sossego, permitindo que a mulher domine e organize, liderando a gestão da casa, da família e das economias.
No traje de trabalho, a camisa cai a direito. Confeccionada em escocês forte, de lã, tem à frente três pestanas verticais, em corte enviesado, terminando em bico. Uma central, partindo do colarinho, guarnecida com quatro carreiras enviesadas de três botões de madrepérola lisos e sem pé (apenas decorativos porque fecha com molas), remata a abertura da camisa. As outras duas, laterais, partem da costura do ombro, terminado em bico ao mesmo nível da pestana central. As três pestanas têm dois pespontos, afastados ½ cm. Entre as pestanas ficam duas pequenas pregas. Nas costas, a partir da lapela são pespontadas três pregas de cada lado. O colarinho é alto de pontas arredondadas, abotoado com dois botões no sentido da altura. Também é pespontado como as pestanas. As mangas são folgadas. Pregadas à camisa na abertura deixada ao alto pela costura lateral (não tem cava recortada), necessitam de um quadrado incrustado para fornecer amplitude. No extremo da manga o punho é igualmente pespontado e fecha com botões. A camisa do domingo era normalmente em escocês de lã fina.
Interiormente usam uma camiseta de castorina de cor creme, cinzenta, verde ou castanha de riscas, ou de flanela de cor lisa e viva.
As ceroulas são de escocês de lã cortadas a fio direito, com altura da cintura ao chão. Na cintura, a amplidão é adaptada ao cós por pregas armadas. Á frente fecha com carcela ou braguilha de três botões, e nos fundilhos é aplicado um reforço pelo lado de dentro. As extremidades das pernas possuem uma fita de lã de pontas compridas, que envolvem o tornozelo e ajeitam o tecido, formando um fofo.
As calças são de surrobeco ou de qualquer fazenda castanha ou preta, de feitio vulgar, direitas, de modo a terem bastante largura na extremidade da perna para facilmente serem arregaçadas. Só dois pormenores as distinguem. As algibeiras enviesadas e na extremidade da perna dois remendos mais ou menos rectangulares e de tamanhos diferentes, sendo o menor aplicado atrás e o maior à frente. Estes remendos começaram por ser utilizados por necessidade de conserto, passando a constituir moda. Usam voltar a bainha da calça de modo a ver-se o fofo da perna da ceroula.
O barrete de lã preta, usado na cabeça ou no ombro, é o complemento indicativo do tempo que ocorre, soalheiro ou chuvoso, em terra ou no mar, remendando as redes ou lançando-as ao mar. Usa uma cinta de lã preta com franja de cadilhos.
Os nazarenos andam vulgarmente descalços, quando calçados usam tamancos de pele preta com sola de madeira ou chinela de trança. No tempo frio usam umas polainas de malha de lã branca, que atam ou não com fita por baixo do joelho.
O principal abafo é Gabão de burel castanho. Farto, amplo e solto é comprido até aos tornozelos, com mangas largas, romeira (espécie de gola larga cobrindo os ombros) e capuz em bico. As mangas e o capuz têm uma virola em burel preto. É forrado a escocesas. Também era utilizado como trajo de luto.

Obra de referência – Abílio Leal de Mattos e Silva in “O Trajo da Nazaré”, Editorial Astória, Lisboa (1970)
Assunto relacionado neste blog: O Traje da Mulher da Nazaré