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quinta-feira, agosto 17, 2006

Trajes do Minho

Fala-se muito, por aí, em «traje à moda do Minho», «traje minhota», ou «traje à moda de Viana», «traje à Vianense», «traje à Vianesa» - usadas todas estas expressões como sinónimas particularmente relacionadas com Viana-do-Castelo. Ora, na província do Minho não há, para mulheres, como para ninguém, um só vestuário regional típico e nem sequer o há em Viana-do-Castelo. Dizendo-se "Viana-do-Castelo" há de perceber-se o concelho, e não a cidade, pois, quanto à indumentária, pode-se dizer que nada hoje subsiste nela de local, mas sim pelas Freguesias que lhe ficam ao redor.
«Traje à moda do Minho» ou «à Vianesa» (são estas as formas de dizer mais usadas no país, mas, por terras minhotas, usa-se especialmente a denominação de "Traje à Lavradeira") é um vestuário feminino, de festa, de «grande gala», apenas usado em dias assinalados e por moças de algumas aldeias do concelho de Viana-do-Castelo.
Em Viana-do-Castelo, quando se fala em de "Traje à Lavradeira", sem especificação alguma, entende-se em geral o «vermelho» das lavradeiras de Santa Marta de Portuzelo (na qual há também um belo «traje azul»), não só por ser aquele o vestuário o que mais agrada ao comum dos habitantes, pelo seu colorido quente e variado, mas ainda por ser o que a
indústria caseira e o comércio local mais espalham na região
O traje vermelho ou azul são indistintamente usados pelas raparigas, mas quando casam quase sempre dizem adeus ao vermelho e passam a usar só o azul, quando se querem vestir de lavradeira.
Antigamente quando era divulgado o noivado, e nunca antes para se livrar de humilhação ou falatório se o casamento se desfizesse, a noiva dirigia-se à cidade “botar o ouro”, acompanhada pelos seus futuros sogros. Eram eles que ofereciam aquela que iria ser nora uma designada quantidade de ouro, correspondente às suas possibilidades económicas.
No primeiro domingo após este ritual, a noiva ia à Missa, exibindo o ouro oferecido, e vestindo o traje de lavradeira. Facilmente se detectava uma noiva pelos seus adornos e trajar.
No que respeita aos lenços, deve notar-se que não há em cada aldeia, uniformidade absoluta nas suas cores. O lenço da cabeça poucas excepções costuma apresentar é vermelho, mas, o lenço do peito em Santa Marta costuma ser diferente, é amarelo.

Traje de lavradeira
Sobre a alva camisa bordada de azul, nos punhos, nas frentes e nos ombros, a mulher minhota enverga um colete que exerce a função de espartilho. Os cortes vincam as formas do corpo, a altura do colete e a amplitude das cavas atribuem-lhe grande comodidade, pois permite um melhor movimento dos braços. Por outro lado, a orla do colete segue a linha do diafragma, favorecendo a respiração. O colete é profusamente decorado por bordados policromáticos de gosto barroco. A saia, rodada e de grande amplitude, é marcada por uma larga barra bordada com os mesmos motivos silvestres e românticos do colete. O avental franzido é decorado com “puxados” que recriam um magnífico jardim em relevo. A algibeira reforça a beleza da mulher com a sua forma de coração, tendo como utilização prática o transporte de dinheiro e do lenço.
A mulher minhota calça meias de renda brancas e chinelas de pele bordadas com motivos florais vegetais e geométricos. Na cabeça usa um lenço de fundo vermelho com barra estampada com motivos florais, vegetais e cornucópias

Traje domingueiro masculino (finais do século XIX)
Composto por calça, camisa e jaqueta. A camisa branca é decorada com bordados tradicionais minhotos, com motivos amorosos. A cor vermelha da faixa e dos bordados confere ao conjunto um certa alegria, uma vez que todo o traje é negro. O preto é sinónimo de austeridade, pelo que os trajes de “ver a Deus”, utilizados para ir à missa, são dessa cor. O preto confere ainda severidade e sofrimento, já que simboliza o luto profundo e prolongado.

APONTAMENTOS SOBRE DO TRAJE DE LAVRADEIRA

O Avental – O pintor José de Brito Sobrinho recolhendo-se, doente e desiludido à sua casa natal de Santa Marta de Portuzelo, ali casou com uma habilíssima tecedeira e para aumentar os rendimentos ao casal resolveu criar novos aventais. Pôs de parte os motivos geométricos (antigamente os aventais não apresentavam quaisquer bordados eram muito simples, com o tempo estes apresentam mais riqueza, surge as figuras geométricas como os losangos, triângulos e quadrados) e desenhou flores e folhas a preto, vermelho, verde e amarelo. Não admira que a novidade agradasse, pois os primeiros aventais eram lindíssimos. Após a sua morte, ocorrida em Fevereiro de 1919, outras tecedeiras continuaram o seu trabalho, deram-lhe novas cores, mas conservaram mais ou menos os desenhos por ele idealizados.
Os Lenços – Em 1880 os lenços nacionais foram abandonados por unanimidade, visto serem incomparavelmente menos vistosos que os lenços austríacos, com 4 variantes: vermelho, roxo, verde e amarelo, todos estes com o mesmo tipo de desenho.
O Colete – Naturalmente, o bordado manual dos coletes mais antigos eram simples, cortados em baeta azul, com cinta de veludo preto, apenas debruado a fitilho por meio de cordões, gradualmente vão sendo cada vez mais bordados, a missangas brancas e fios de seda (folhas e flores em especial cravos).
A Algibeira – Num trabalho minucioso, de autêntica paciência as algibeiras passaram abruptamente da forma rectangular para a cordiforme, acompanhando o labor dos coletes.
A Saia – Por volta de 1900, a barra das saias apareceu com a parte superior levemente bordada a branco - uma silva, como lhe chamavam, minuciosa e perfeita, - que, pouco a pouco, se foi alargando e hoje nos aparece como representando grandes malmequeres.
As Chinelas – Chinelas eram de veludo preto, liso ou com um laço. Posteriormente passaram a ser pretas e bordadas a branco ou de verniz.

quinta-feira, novembro 08, 2007

O bordado de Viana do Castelo - Minho

A origem dos bordados de Viana do Castelo está intimamente ligada aos trabalhos realizados em trajes da região: “ O Traje à Vianesa “ ou “ Traje à Lavradeira”.
Nos nossos dias podemos encontrar muitos e variados trabalhos com bordados de Viana, como atoalhados, sacos de pão, panos de mesa e cómoda, chinelas, etc., no entanto, todos os motivos bordados tiveram origem nos trajes regionais que foram posteriormente transpostos para estes trabalhos.
O traje à lavradeira foi totalmente criado pelas camponesas de algumas freguesias próximas de Viana do Castelo, foram elas que o riscaram, teceram, trabalharam e bordaram.
Os trajes todos decorados com os bordados feitos por estas mulheres do campo, e que diferem de freguesia para freguesia, são usados em dias de festas ou feiras.
Dentro destes bordados podemos distinguir uns mais ricos do que outros, dependendo da classe social a que se referem.
Os mais ricos utilizam algodão “perlé”, por vezes, recamados de lantejoulas, missangas e vidrilhos.
Os bordados de algodão e de lã são muito antigos. Sempre foram utilizados nos trajes das mulheres do campo, nas saias, nas ombreiras, punhos, colarete das camisas, algibeiras e coletes. Estes bordados sempre foram executados com linhas de meia de algodão branco sobre tecido vermelho e, por isso, considerados “pobres”.
“ Os forros “ das saias dos trajes das mulheres são bordados com desenhos de várias silvas.
O traje destas mulheres é também composto por uma camisa que é rente ao pescoço e cobre o corpo todo até ao meio da canela. Esta camisa, tecida no melhor linho branco e puro pelas próprias camponesas, é composta por uma “ fralda” (parte postiça da camisa que da cintura para baixo é de pano diferente). Os ombros e os colarinhos são bordados geralmente com linhas de cor de faiança. As saias são decoradas na parte inferior com tiras de pano que têm uma cor que se identifica com a aldeia da camponesa. Muitas vezes estes “forros” são ainda decorados com uma silva bordada a branco. As saias antigamente não apresentavam nenhum bordado. Só muito mais tarde, a partir da Segunda Guerra Mundial, é que se encontram saias com forros bordados, primeiro com uma silva e depois com duas.
As chinelas de verniz preto que constituem um bonito acessório dos trajes são bordadas com um raminho em algodão.
Além do traje à lavradeira, há ainda, nas freguesias mencionadas, o traje de noiva ou de mordoma, no qual se concentra todo o luxo ornamental.
São as próprias bordadeiras que bordam a sua roupa. Fazem-no, geralmente de improviso, com toda a espontaneidade, inspirando-se na flora e na fauna e quase sempre, no sentimento de amor. O amor parece estar presente em cada ponto do bordado e inspirou grande parte dos motivos e dos símbolos mais característicos dos bordados de Viana.
Os bordados de Viana do Castelo utilizam materiais da própria região e inspiram os seus desenhos na flora e na fauna, pelo que, podem ser considerados um dos bordados tradicionais mais belos e originais do norte de Portugal. As bordadeiras conseguiram transportar para os seus bordados todo o sentimento que lhes vai na alma.

Técnica do bordado de Viana do Castelo
Na região de Viana de Castelo são fabricadas duas espécies de linho; um linho que é urdido com fio de algodão (teia) e tapado com fio de linho (trama) e outro que é um pouco mais fino que é urdido e tapado somente com linho.
A base para estes bordados é sempre um linho grosso caseiro, embora ultimamente as pessoas tendam a substitui-lo por tecidos mais finos.
As linhas de algodão são utilizadas nos bordados de algodão e as mais usadas são as de algodão “perlé”, vulgarmente chamadas linhas de algodão de lustro, pelo seu brilho e solidez de cor.
As cores mais utilizadas são o branco, o vermelho e o azul.
Os bordados de lã utilizam lãs compradas. As bordadeiras por vezes usam determinadas nomenclaturas que se prendem com hábitos muito antigos, por exemplo, chamam lãs de Perre às lãs que vêm do Porto, por originariamente serem utilizadas pelas bordadeiras de Perre. As bordadeiras de Cardielos também chamam frequentemente às lãs compradas, lãs de fora.
Outro material muito utilizado é um cordão de fios dourados que serve para contornar os desenhos e, portanto, dar-lhes mais realce. Nos bordados mais recentes, o fio metálico do cordão que se chama “palhete” ou “treno” (por inicialmente ser constituído por três fios), quase desapareceu, podendo encontrar-se em seu lugar um fio branco.
Antes de começar é necessário todo um trabalho de preparação para realizar este tipo de bordados.
Em primeiro lugar, é necessário estilizar num papel os desenhos que se pretendem bordar, ao que podemos chamar molde do desenho. Em seguida, a bordadeira prende cuidadosamente o molde ao pano que vai servir de suporte e vai picando miudamente com uma agulha fina, aplicando depois por cima com uma boneca de pó de carvão bem fino, no caso do estofo ser branco ou claro; giz e pó com pós de goma se forem de cor escuros. A seguir levanta-se o molde com todo o cuidado para evitar que se desmanchem as formas.
Nas cores escuras deve cobrir-se os desenhos marcados com um pincel envolvido em goma-arábica e alvaiade e nas cores claras, um pincel molhado em tinta nankim.
Apesar desta técnica, existem muitos casos de bordadeiras que desenham directamente sobre o tecido, reproduzindo à vista os motivos.
Muito recentemente, as bordadeiras empregam técnicas menos trabalhosas como o decalque com papel químico.
A operação seguinte consta em contornar os desenhos do bordado a cheio em cor diferente com um ponto cordão, ligando os principais desenhos entre si por ramos, caracóis, silvas e ângulos.
Os bordados com fio de algodão utilizam os pontos abertos, de cadeia, caseados, cheio, cordão, crivo, cruz, engradeado, espinha de peixe dobrado, folha de feto, formiga simples, nozinho, pé de flor, pesponto, atrás, pontinha a direito, pontinhos pequenos, rede, volta, pregas da imprensa, bicos e de galo.
Nos bordados com fios de lã não se emprega o crivo. Os desenhos são cheios com pontos largos lançados na mesma direcção e contíguos. Os pontos mais utilizados são o de pé de flor, o ponto russo, de sombra do avesso, de cordão, de palhete, de formiga, de nós, de espinha, de bicos, de Bolonha, a cavalo de recorte (nos ilhós), de Margarida e outros pontos e fantasia.
O ponto aberto também é muito utilizado para unir conjuntos de fios; o ponto pé de flor é um dos pontos principais dos bordados de Viana do Castelo e consiste em imitar um cordão fininho lançando a agulha um pouco à frente do ponto anterior e fazendo-a sair a meio, ao lado deste.
A nomenclatura de ponto pé de flor ou ponto de haste é dada por ser muito utilizado em bordados que executam pés e hastes de flores. As bordadeiras dão-lhe ainda o nome de ponto de máquina por imitar o ponto que esta faz (a agulha ao mesmo tempo que lança um ponto vai atrás fazer outro dando um efeito de pontos iguais).
Nestes bordados podemos encontrar, por vezes, uma carreira deste ponto no meio de outros como os pontinhos pequenos regularmente distantes uns dos outros, ou pontinhos a direito que são lançados na vertical de uma só vez e apanhando parte do tecido.
Para prenderem melhor o cordão, palhete ou fio dourado, as bordadeiras usam o fio de nó que também, por vezes, é utilizado no enchimento dos desenhos.
O ponto formiga é constituído por duas carreiras de pequenos pontos, paralelas e alternadas, que são trespassadas por outra linha de cor diferente em ziguezague. No final obtém-se um aspecto geral de ondas.
O ponto de espinha de peixe lembra a espinha destes animais e consiste em pontos oblíquos, cruzando-se quase nas extremidades.
O ponto de espinha de peixe dobrado é o mesmo ponto de espinha executado nos intervalos deste.
O caseado chama-se assim ou de recorte porque fica junto ao corte que se faz para o remate das casas dos botões no caso de trajes, e só é usado neste caso.
O ponto nozinho é um ponto em forma de nó em que a agulha enrola várias vezes à volta de si mesma a linha, puxando a linha e dando um aspecto de nozinho.
O ponto de crivo é muito utilizado no interior dos motivos, mas trata-se de um crivo muito simples que nem sequer é tecido.
Os motivos dos bordados de Viana do Castelo são baseados em motivos da fauna e da flora da região, bem como da vida quotidiana das camponesas minhotas
São: corações (contornados com ponto pé de flor, e baseado no sentido metafórico que as camponesas dão ao “cofre amoroso” pelo que bordam junto uma chave), folhas de trevo, de hera, morango, videira e carvalho (sempre estilizadas), chaves (estilização da chave de uma fechadura), cruzes (a cruz de Cristo bordada com o ponto de cruz, já usada nos lenços da mão), passarinhos, ângulos (linhas quebradas ou curvas que unem determinados motivos), japoneiras (estilização da flor da cameleira), silvas (linha recta ou curva de onde saem pequeninas folhas), vasos (estilizações de vasos de plantas), asas (pequenas argolas que rematavam o bordado de antigas camisas), botõezinhos (pequenas golas bordadas a cordão ou a cheio), caracol (linhas em espiral feitas com ponto de cordão), furinhos (pequenos buracos caseados também chamados ilhós), molhinhos (conjunto de pontos lançados em grupo de dois, sendo cada grupo cortado a meio por um ponto lançado na horizontal), murinhos (pontos de formiga que imitam um muro), pintinhas fechadas (bolas pequenas bordadas a cheio), trinca – fios (linhas quebradas com pontos a direito), rosas, cachos de uvas (cachos de uvas estilizados por uma série de círculos.
As camponesas minhotas são mulheres com uma sensibilidade artística que lhes permite improvisar composições originais que reflectem as suas próprias vivências.
Em geral, os bordados com fio de algodão aparecem em simetria quaternária.
Nos bordados das lãs, as composições são geralmente simetrias binárias ou assimétricas.
A bordadeira, nas suas composições, não se preocupa com o rigor da verdade, isto é, podemos encontrar com frequência, por exemplo, desenhos de rosas com folhas de videira, mas o que importa é obter conjuntos que agradem e sejam harmoniosos.

Referência Bibliográfica:
Paulo Fernando Teles de Lemos Silva, Bordados tradicionais portugueses, Dissertação de Mestrado em Design e Marketing - Área de Especialização em Têxtil, Universidade do Minho, 2006
Ana Pires, Caderno de Especificações do Bordado de Viana do Castelo, Câmara Municipal de Viana do Castelo, 2006

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quinta-feira, agosto 11, 2011

Romaria da Senhora da Agonia 2011



Programa da rainha das festas de Portugal.

19 Agosto – Sexta-feira

08h30 – Alvorada

Viana acorda ao som de 21 morteiros. É Festa no Minho. A Sra. d’Agonia. A Romaria das Romarias de Portugal. Já se ouvem os sons dos Zés P’reiras, das Bandas de Música, Gigantones e Cabeçudos. Na nossa velhinha sala de visitas – Campo do Forno, Praça da Rainha, Praça da República. Passerelle de atracções, um sem número de iniciativas que alimentam e bem múltiplas razões para uma visita. Esperamos-te na Romaria. Cá dentro!

Grande Feira

Tem lugar no Campo do Castelo e Praça General Barbosa. Toda a Festa no Alto Minho tem um poucochinho de Feira ou de Feirão. Onde o bulício, os encontros, a cor e o espectáculo são “artes de feirar”.

09h30 – Concerto Musical

No coreto da Praça da República pela Banda de Música de Sanguinhedo.

10h00 – Desfile da Mordomia

Nas Festas Tradicionais compete às “Mordomas” moças solteiras escolhidas por lugares, mas sob condição que não pese sobre nenhuma delas qualquer fama, a obrigação de erguer o “arco” festivo, preparar com as amigas o “cesto” de flores (ex-votos); “fazer o peditório”; levar em tabuleiros o leilão dos “bichos” e o leilão das “roscas”; os “segredos”; serem responsáveis do bazar; assistir à Missa da Festa com a vela votiva acesa (se apagasse seria na voz do povo sinal de falta de “pureza”). É esta tradição que se comemora, com a presença das Juntas de Freguesia que colaboram com a Comissão de Festas. E em cortejo, apresentar cumprimentos ao Governador Civil, Presidente da Câmara, Bispo da Diocese.

12h30 – Revista de Gigantones e Cabeçudos

Em 1893 chegam a Viana do Castelo pela mão do Administrador do Concelho Luís Valença, que ao vê-los em Santiago de Compostela onde dançavam frente ao túmulo do Apóstolo, com tamborileiros a marcar o ritmo, adaptou-os aos nossos Manel e Maria, Doutor e Senhora. Ligados à procissão do “Corpus Christi”, os Gigantes tem uma velha tradição na Europa, chegando-se, mesmo, a um milenar testemunho celta: afugentar da “romaria” os espíritos maus, o mal da inveja, o mau vizinho, sacralizando assim o “espaço da festa”. Todos os dias, à hora do meio-dia num ruído avassalador, tonitruante, os gigantones e cabeçudos, receberão as honras dos seus vassalos – grupos de Zés P’reiras e Zabumbas. Três dias, três revistas, três voltas, entre o chafariz e o Caramurú e, no final, uma exibição a solo (por cada grupo), frente à Domus Municipalis.

14h30 – Concertos Musicais

Nos coretos da Praça da República pela Banda de Música da Casa do Povo de Moreira do Lima e, no Jardim D. Fernando, pela Banda de Música de Sanguinhedo.

16h30 – Oração de Vésperas

No Santuário de Nossa Senhora d’Agonia.

17h00 – Procissão Solene da Senhora d’Agonia

Sai da Igreja de S. Domingos e do Santuário. Com o andor da Senhora d’Agonia tomam parte os andores das Senhoras dos Mares, Assunção, Monserrate e, ainda, o Senhor dos Aflitos. É o figurado um dos elementos mais reclamados da Procissão Maior e a sua dramatização um dos valores mais simbólicos a ter em conta na Romaria. São os homens do mar quem pega aos andores com as suas camisas aos cadros, de cachemira. A organização da procissão solene, presidida por Sua Excelência Reverendíssima D. Anacleto Cordeiro Gonçalves de Oliveira, Bispo da Diocese, pertence à Real Irmandade da Senhora d’Agonia, declarando-se Suas Magestades El-Rei e Rainha D. Amélia juízes perpétuos da mesma (1890).

21h00 – Desfile “Vamos para o Festival”

Zés P’reiras, Bandas de Música e Grupos Folclóricos, em sintonia com o muito povo que se incorpora voluntariamente, fazem a Festa, descendo a Avenida dos Combatentes da Grande Guerra em direcção ao Jardim Marginal.

22h00 – Festival no Jardim

Nos palcos do Anfiteatro do Jardim, da Marina e da Praça da Liberdade, o encanto e beleza dos trajes, das danças e dos cantares de Grupos Folclóricos, exclusivamente, do nosso Concelho. Também poderemos deliciar-nos com a Banda de Música da Casa do Povo de Moreira do Lima, no coreto da Praça da República e, da Banda de Música de Sanguinhedo, no coreto do Jardim Marginal, enquanto aguardamos (24h), pela espectacular sessão de fogo-de-artifício, nesta noite, o afamado “FOGO DA FESTA”.

Nota: após o “Fogo da Festa” dar-se-á inicio à confecção dos tapetes floridos, nas ruas da Ribeira bem como ao Arraial SuperBock no Jardim da Marina.

20 Agosto – Sábado

08h30 – Alvorada

Repete-se, como em todos os dias, na Praça da República, nos moldes habituais.

Grande Feira

Terá lugar nos mesmos locais. A dar uma nota de mercado e de troca e onde o típico e o artesanal, de mãos juntas, se cruzam para relembrar a riqueza da Romaria.

09h30 – Visita às ruas da Ribeira para admirar os tapetes floridos assim como nas varandas e janelas, as colchas, redes e atreficos do mar.

10h00 – Concertos Musicais

Nos coretos da Praça da República pela Filarmónica de Vila Nova de Anha e, no Jardim D. Fernando, pela Associação Musical da Pocariça.

12h00 – Revista de Gigantones e Cabeçudos

De novo, na Praça da República com toda a riqueza dos seus movimentos e de esfusiante alegria.

14h30 – Concertos Musicais

Nos coretos da Praça da República pela Filarmónica de Vila Nova de Anha e, no Jardim D. Fernando, pela Associação Musical da Pocariça.

14h30 – Solene Concelebração Eucarística/Procissão ao Mar e ao Rio

Presidida por Sua Excelência Reverendíssima D. Anacleto Cordeiro Gonçalves de Oliveira, Bispo da Diocese. Finda a Santa Missa sairá do Santuário a tradicional Procissão dos Homens do Mar com os andores de Nossa Senhora d’Agonia, Nossa Senhora dos Mares e S. Pedro, a caminho do Cais dos Pilotos, onde, depois da alocução será dada a “bênção ao Mar e aos Barcos”, seguindo-se-lhes a Procissão ao Mar e ao Rio. São inúmeras as embarcações de pesca e desportivas que acompanham a Senhora d’Agonia numa espontânea manifestação de fé. O regresso ao Santuário será feito pelas ruas da “nossa” Ribeira belamente atapetadas e decoradas com motivos piscatórios.

21h30 – Concertos Musicais

Nos coretos da Praça da República pela Filarmónica de Vila Nova de Anha e, no Jardim D. Fernando pela Associação Musical da Pocariça.

22h00 – Festa do Traje – Praça da Liberdade

Vamos assistir à apoteose da “mulher de Viana”, à sua arte, ao seu engenho, à sua chieira, à sua força de matriarca. Quem o afirma é Ramalho Ortigão (Farpas, 1885): “Pois bem, eu acho-me hoje na obrigação de declarar que nunca, em parte alguma, vi mulheres mais bonitas do que algumas das que encontrei a vender na Feira de Viana”. E Joaquim Leitão (no 47º Aniversário da elevação de Viana a cidade Revista Límia/1905), diz: “a vendedeira do Campo d’Agonia é uma graça (…) tudo a vianesa resume no seu busto fornido e bem modelado, na beleza quente da sua boca e dos seus olhos, no arrebique do seu vestuário cheio de cor, gárrula, jubilosa, elegante e calma”. Na década de 30 Cláudio Basto e Afonso do Paço definem o “Traje à Vianesa” e José Rosa Araújo (1936), o “Traje Popular do Baixo Lima”. Falta-nos Madalena Vaz Teixeira in “Trajes Míticos da Cultura Regional/1994)” quando refere “a valorização máxima do traje feminino fixou-se, hoje em dia, no fato à vianesa”. Por isso, imagem de marca, irrepetível, única. Como já anunciado, a Festa do Traje será na emblemática Praça da Liberdade.

Grande Arraial Minhoto

A realizar no Campo do Castelo e Praça General Barbosa. As muitas e variadas diversões, as tocatas, os cantares ao desafio, a feira dos petiscos “comer, tinto; bober, branco”, as “tendinhas do café”, e a alegria de muito povo que nestas noites procura esquecer as “canseiras” do dia-a-dia, são garantia que este popular número de agrado certo, se prolongará noite fora. Logo termine a Festa do Traje, será queimado o fogo do ar, sem sombra de dúvida, um dos pontos altos do Arraial e que tem por nome “Fogo do MEIO ou da SANTA”.

Nota: após o “Fogo do MEIO ou da SANTA” dar-se-á inicio ao Arraial SuperBock no Jardim da Marina.

21 Agosto – Domingo

08h30 – Alvorada e Grande Feira

Queimam-se os últimos morteiros da Alvorada e inicia-se a última grande Feira do corrente ano e que ocorrerá no mesmo recinto dos anteriores.

10h00 – Concertos Musicais

Nos coretos da Praça da República pela Banda Bingre Canelense e, no Jardim D. Fernando, pela Filarmónica de Vila Nova de Anha.

12h00 – Revista de Gigantones e Cabeçudos

Será a última revista do ano, onde os Gigantones e Cabeçudos receberão a homenagem dos diversos grupos de Zabumbas e Zés P’reiras. Também o momento mais apetecido por muitos “forasteiros” que embora “nossos” fixam-se p’rás bandas da capital ou, mais longe, pela estranja. Perguntei-lhes porque estavam comovidos, choravam mesmo! “Quando mais ouço os bombos mais tenho ganas de voltar”.

14h00 – Concertos Musicais

Nos coretos da Praça da República pela Banda Bingre Canelense e, no Jardim D. Fernando, pela Filarmónica de Vila Nova de Anha.

16h00 – Cortejo Histórico/Etnográfico – Viana Cidade do Vinho 2011

Um carro com o Deus Baco, grupo de Bacantes com taças e cachos de uvas. A primeira produção de vinho em Terras de Viana – vestígio de lagar no Castro de Moldes, em Castelo do Neiva; a simbologia do vinho nas Bodas de Caná. Mas vai ser a partir do Séc. XIV – primeiro protocolo estabelecido entre Portugal (Afonso IV) e Inglaterra (Eduardo III) sobre a pesca do bacalhau e os “vinhos tornaviagens” que começam a ser exportados pelo cais de Viana. Vinhos de Melgaço, Monção e de Riba D’Avia (Galiza), de Refoios e Terras de Geraz motivam a criação de uma Feitoria Inglesa (Séc. XVI), em Viana, como a nomeação do 1º Cônsul Inglês John Bearsley. Mas não só a História. A Etnografia, as Rotas dos Vinhos, tempo de vindimas, de lagares e pisadas, de Festas, Feiras e Romarias, das tasquinhas com reclames de “bom vinho e comer”. E já na parte final, a Comissão de Viticultura dos Vinhos Verdes, a Galiza Mai-lo Minho, as Confrarias do Vinho Verde, a Associação de Municípios Portugueses do Vinho, Best of Wine Tourism, as Rainhas das Cidades do Vinho.

21h00 – Desfile “Vamos para a Serenata”

Zés P’reiras, Bandas de Música e Grupos Folclóricos, em sintonia com centenas de pessoas que ocupam as bancadas da Avenida dos Combatentes da Grande Guerra, assim como muitos forasteiros que não arredam pé e seguem entusiasmados acompanhando a Comissão de Festas em direcção ao Jardim Marginal.

22h00 – Festival no Jardim

Nos palcos do Anfiteatro, do Jardim da Marina e, no palco da Praça da Liberdade, o encanto e beleza dos Trajes, das danças e dos cantares de Grupos Folclóricos, exclusivamente, do nosso Concelho. Idem, com os concertos musicais da Banda Bingre Canelense, no coreto da Praça da República e, da Filarmónica de Vila Nova de Anha no coreto do Jardim Marginal. Todos a aguardar pela inolvidável sessão de fogo-de-artifício, nesta noite, a afamada “SERENATA”.

24h00 – Serenata

A apoteose do Belo, o Sonho da duplamente centenária Romaria da Senhora d’Agonia, a Rainha das Romarias de Portugal. Com três cenários distintos: Rio Lima (fogo aquático), margem esquerda (fogo do ar), Ponte Eiffel (1878) Cachoeira do Rio Lhetes - Viana é Amor.

Os bouquets monumentais, as girândolas que iluminam de esplendor o céu, os morteiros surdos, as granadas de cores, as lágrimas… a riscar pelo espaço faúlhas e pepitas são bem este Alto Minho esfusiante de beleza que o sonho e a imaginação dos nossos pirotécnicos soube exprimir nessas trémulas e encandeantes luzinhas, levando no seu ourel, no seu rendilhar, o entusiasmo dos corações, o sentir das gentes, o bucolismo das terras, o sonho das estrelas.

terça-feira, março 06, 2007

Trajes regionais portugueses em emissão filatélica


Os Trajes Regionais Portugueses são o tema de uma edição filatélica dos CTT de 2007. Dez novos selos de 30 cêntimos e um bloco com mais quatro selos, com o valor total de 1,20 euros mostram os trajes tradicionais de todas as regiões, do Minho até aos Açores.
A concepção gráfica desta emissão é de Vasco Marques, que utilizou fotografias de várias origens: Instituto Português de Museus, Museu de Arte Popular, Museu Nacional do Traje, Museu de Ovar e os fotógrafos Carlos Monteiro, Júlio Marques, Laura Castro Caldas, Paulo Cintra e Rui Cunha.
Nos selos dos CTT aparecem os trajes tradicionais das lavradeiras e das noivas do Minho, a capa de honras mirandesa e o vestuário dos Pauliteiros de Miranda, de Trás-os-Montes, e croça dos pastores trasmontanos e da Beira interior, uma capa e uma sobrecapa tecidas de palha que os protegem da chuva e da neve.Os restantes selos mostram uma camisola de pescador do Douro Litoral, as sete saias da Nazaré, o traje das mulheres algarvias do litoral, o capote alentejano e o vestuário dos campinos do Ribatejo.
O bloco filatélico integra quatro selos ilustrados com o vestuário tradicional dos camponeses da Beira Litoral e das camponesas do Ribatejo, o capote e capelo típico dos Açores e a viloa da Madeira.
Assim, através da filatelia, podemos divulgar os nossos trajes tradicionais e contribuir para a sua perpetuação.
Bem hajam pela ideia.

segunda-feira, abril 29, 2013

Costumes do Minho: Mulher de Castro Laboreiro e o Jangadeiro

Publicou a revista Ilustração Portugueza, na cada da sua edição de 17 de março de 1913, duas interessantes fotografias que mostra os trajes da mulher do Soajo e do jangadeiro de Anha ou seja, aquele que conduzia a jangada do sargaço na travessia do rio Lima, envergando a tradicional branqueta do sargaceiro. O texto que acompanha as fotos possui também algumas particularidades curiosas que refletem bem a distância que então separava o jornalista habituado ao meio burguês e citadino em relação à profundeza da vida rural que de mais interessante apenas proporcionava os motivos pitorescos com que ilustrava as páginas dos jornais. Transcreve-se o artigo respeitando-se a grafia original.

Costumes Portugueses


Mulher de Castro Laboreiro
Em luta constante com a natureza, a quem arrancam após porfiadas canceiras as matérias primas que lhe fornecem o fato e o alimento, únicos produtos das rudimentares industrias que exercem: a pastorícia e a agricultura, os montanhezses de Castro Laboreiro são uma pobre gente desconfiada e semi-selvagem.

O vestuário das suas mulheres dá á primeira vista ideia lucida e sugestiva de toda a sua rudeza: capucha ou mantela, o corpete e a saia, é tudo feito de tecido grosseiro de fabrico local a que chamam burel ou picoto. Os tamancos toscos, espécie de sandálias, formadas por rudes madeiros ligados aos pés por correias fortes, chamados chancas ou alabardeiros, completam o vestuário das castrejas, em que as roupas brancas faltam por completo.

Na mesma província do Minho, á beira mar, o fato simples usado pelos jangadeiros d’Anha, emparceira admiravelmente com a rudeza semi-selvagem do vestuário das castrejas.


Jangadeiro d'Anha
É muito característico o tipo destes lavradores-marinheiros, que nas costas do norte, principalmente junto a Viana do Castelo, e, por todo o litoral desde Montedor até à costa do sul do Lima, no local denominado Anha, se aventuram ao mar, a fim de colher o sargaço, moliço ou limos, como lhe chamam, com que vão depois fertilizar as suas terras navegando sobre frageis jangadas, formadas por oito troncos de madeira muito leves ligadas a maneira de estrado, tendo lateralmente duas taboas dispostas em forma de borda falsa: os troncos das bordas são mais compridos, e, levantam em forma de rabo d’arado.
Vestem unicamente uma espécie de sobrecasaca de lã grossa e forte, o que chamam branqueta, presa com um cinto e abotoada na frente, uma carapuça vermelha ou um chapéo preto de grandes abas completam tão singular vestimenta.

A.Mesquita de Figueiredo



quarta-feira, dezembro 17, 2014

Mitificação e paisagem simbólica: o caso do Estado Novo

Por Joaquim Sampaio

Resumo
A paisagem resulta de um processo complexo de forças onde se reconfiguram elementos visíveis mais ou menos imediatos, aos quais se associam construções simbólicas que intervêm na sua estrutura, permitindo compreendê-la com outra profundidade. No caso do Estado Novo, o papel de António Ferro, à frente do SPN/SNI, foi determinante para a construção de representações territoriais a partir de políticas folcloristas baseadas em ideais românticos e nacionalistas construídos desde finais do século XIX, nomeadamente no conceito de Casa Portuguesa, que se refletiu em iniciativas como o Concurso da Aldeia Mais Portuguesa de Portugal, uma das realizações apoteóticas daquele estadista. A visão ruralista e folclorista do regime salazarista e de António Ferro cristalizou imagens de um Portugal atemporal de paisagens estetizadas e de camponeses transformados em jardineiros da paisagem.

Quatro décadas de governação do Estado Novo produziram marcas profundas na sociedade portuguesa e, consequentemente, na mitificação e construção de paisagens. Dessa governação, interessa-nos abordar, particularmente, o papel folclorista do Secretariado de Propaganda Nacional – SPN – criado em 1933, que viria a tomar a designação de Secretariado Nacional de Informação, Cultura Popular e Turismo – SNI – em 1945. À frente deste organismo esteve António Ferro, figura emblemática e incontornável da época, que em 1932 sugeriu a Salazar que criasse um organismo responsável pela propaganda do regime, capaz de promover a «Política do Espírito» (Ó, 1999), fomentando políticas culturais de acordo com os interesses ideológicos do governo. É neste sentido que iremos ver que António Ferro surge como doutrinador do regime durante os anos 30 e 40, deixando as suas impressões na geografia deste país.
Salazar manteve Portugal à margem da modernização, numa ruralidade que garantisse a serenidade social, assentando na trilogia Deus-Pátria-Família. O povo camponês continuava nas suas tradições seculares, longe da escolarização e do desenvolvimento económico, compondo as paisagens de sempre de Silva Porto ou de José Malhoa, mergulhado na sua religiosidade, na sua pobreza, sob protecção do ditador que prometia defendê-los da decadência, promover a decência, a moral pública e o puritanismo conservador, tornando Portugal num país de subservientes e de provincianos, como refere Fernando Pessoa em O Caso Mental Português, em 1932, onde nem as elites são suficientemente formadas, acusando uma ausência de atitude crítica. A completar o atavismo português, a população urbana também foi mantida longe das inovações estrangeiras, da forte industrialização e modernização que constituíram “os trinta gloriosos” em países como, por exemplo, a França.(...)

O projecto ideológico do Estado Novo apresentava um regime totalitário que assumiu a propaganda política para afirmar a «nova ordem», recorrendo à «essencialidade portuguesa», atemporal porque a assumiu como se existisse desde sempre, fazendo evidenciar valores e características culturais populares que «não colocassem dúvidas» quanto à sua origem de uma portugalidade geneticamente «comprovada», serenando os espíritos críticos e apaziguando dúvidas, procedendo «quer à revisão purificadora e autolegitimadora da memória histórica, quer à fabricação de um conceito integrador e unificador de “cultura portuguesa”, de raiz nacional-etnográfica», que passaria pela «reeducação» dos portugueses,garantindo «uma nação regenerada e reencontrada consigo própria, com a essência eterna e com o seu destino providencial» (Rosas, 2001).
Desse projecto fazia parte o que Fernando Rosas designa por «mito da ruralidade» (Idem), um Portugal tradicional cuja economia era essencialmente agrícola mas, mais do que isso, era um «estado de espírito», um estilo de vida que pretendia evidenciar as suas virtudes e se apresentava como a «verdadeira» identidade nacional, a força da «raça portuguesa», a nobreza do seu temperamento na sua vocação de país pobre mas honrado, vivendo numa mediocridade sem ambições, já que na dominação do Cardeal Cerejeira, forte aliado de Salazar, o contrário seria grande pecado. Daí que a propaganda do regime fizesse passar a ideia de um povo sereno, respeitador, alegre e feliz na harmonia dirigida por um paternalismo infantilizador.

As virtudes do «português» precisavam de ser valorizadas, recuperadas e revividas, às quais o aparelho do Estado procedeu a grande investimento. Dos vários organismos que tinham a missão de trabalhar essas virtudes, podem ser destacadas a Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho – FNAT – criada em 1935, a Legião Portuguesa, fundada no ano seguinte, e a Junta Central das Casas do Povo –JCCP–, cujos objectivos se orientavam para a doutrinação do povo, para a manipulação ideológica através do «bom gosto», da «cultura popular» e do «carácter do povo português», para encenações que resultavam numa cultura do espectáculo.

De todo o aparelho do Estado, o SPN/SNI surgiu como o organismo responsável pela estetização do país, pela criação de mitos, pela «invenção» de paisagens, resultado da ideologia do regime salazarista e do desenvolvimento e concretização de ideias de António Ferro, autor da «Política do Espírito» e da folclorização de Portugal, retomando conceitos que foram desenvolvidos desde finais do século XIX, relacionados com o romantismo e o nacionalismo, entre os quais o de casa portuguesa.

O SPN/SNI deu visibilidade a aldeias, monumentos, etnografias, criou postais ilustrados da vida portuguesa bucólica, pitoresca, sublime, criou imaginários de paisagens, eternizando-as, mitificando-as, purificando-as, tornando-as inocentes, fundando-as enquanto natureza e eternidade, dando-lhes uma clareza que não é a da explicação, mas a da constatação (cf. Barthes, 2007). (...)

A mitificação encontra-se associada à construção de paisagens simbólicas. Elas deixam de ser paisagens «anónimas» para surgirem com conotações, cheias de significados e significações2. (...)

·         1. O mito da Casa Portuguesa
Os processos de objectificação da cultura popular portuguesa constituíram um dos aspectos centrais do discurso nacionalista do Estado Novo, sobrelevando determinadas características, do que supostamente seria verdadeiramente português, genuíno, original, conduzindo ao «reaportuguesar» da cultura nacional, tendo como referência as fundações da nacionalidade. O tema em volta da casa portuguesa é um bom exemplo de como a paisagem é objecto de instrumenta

Há uma vasta investigação sobre a temática dos mitos. (...)
Desde finais do século XIX que se criou um movimento na defesa da existência de uma habitação popular portuguesa (França, 1990; Leal, 2000), do qual se destacou Raul Lino (1879-1974), que viria a ser o seu maior conceptualizador e divulgador, procurando a institucionalização da casa portuguesa.
(...)
Referindo com frequência o «bom gôsto», contrariando a «decadência do sentimento artístico», e o «péssimo gosto [de] usar cousas fingidas quando se não podem ter as verdadeiras» (Idem), para sustentar as ideias da casa portuguesa, A Nossa Casa identifica-se com o «encanto produzido por essas boas casas portuguesas de há meio século atrás», apresentando-se como «casitas sorridentes, sempre alegres na sua variada caiação», com a «lhaneza das suas portas largas e convidativas, a linha doce dos seus telhados de beira saliente com os cantos graciosamente revirados, o aspecto conciliador dos seus alpendres, as trepadeiras garridas respirando suficiência» e as suas «chaminés hospitaleiras e fartas» (Idem), defendendo o que é supostamente português, usando materiais de produção (industrial ou artesanal) portuguesa, em simbiose com a natureza e com as «nossas tradições» para não desarmonizarem «no meio da nossa paisagem».

A insistência do «bom gosto», omnipresente em toda a obra, rejeitava qualquer forma de construção estrangeirada, em alusões directas ou indirectas ao chalet e a outras formas de construção que se afastassem do receituário de casa portuguesa proposto pelo autor. Os «apontamentos», tanto de A nossa Casa como de Casas Portuguesas, foram escritos para educar os gostos dos portugueses, mas não os «simples», os pobres. Quando Raul Lino referia que «construir é educar», pensava em primeiro lugar nos arquitectos e nos que se encontravam associados à construção, mestres-de-obras, mas também à burguesia e às elites portuguesas.
A educação do «bom gosto» encontrava-se sempre associada à ornamentação, ao asseio, ao «temperamento romântico», à alegria, como se Portugal fosse um país onde não existisse miséria, casas populares decadentes, e onde não houvesse enorme variedade construtiva, desde as cabanas e palheiros a casas sem condições mínimas de habitabilidade.

A casa portuguesa, um conceito que perdurou durante décadas, foi posto em causa com a publicação dos dois primeiros volumes do Inquérito à Habitação Rural, em 1943, realizado pelos engenheiros do Instituto Superior de Agronomia, onde se mostrava que as condições de habitação não eram o «ninho» nem a «casa dos simples» de Raul Lino. Havia, antes, más construções por Portugal fora e condições de vida difíceis [as aldeias embora situadas numa] paisagem rica de tons verdes e frescura de água […] constituem conjuntos de aspecto pobre, senão miserável. […] Retalhados de caminhos de piso irregular, encharcados de águas […], atravancados de lenhas e estrumes – passeio de homens e animais e recreio de crianças sujas, piolhosas e assustadiças que precocemente saem do berço, a gatinhar, para acompanhar porcos e galinhas – estes aglomerados populacionais oferecem o espectáculo de quase todas as condições de que os homens se rodeavam em tempos primitivos.

A obra de Raul Lino, nomeadamente A Nossa Casa e, mais tarde, Casas Portuguesas, associada a um discurso harmonioso, tradicional, nacionalista e atemporal, interessou ao Estado Novo, pelo menos numa primeira fase fascizante, em que Salazar teve necessidade de encontrar discursos conciliadores de vários sectores da sociedade com o do seu regime totalitarista, sendo necessário lutar contra a «desnacionalização» e incentivando o «reaportuguesamento» tal como vimos anteriormente, coadunando-se perfeitamente com as políticas desenvolvidas pelo SPN/SNI, nomeadamente com a realização do concurso da Aldeia Mais Portuguesa de Portugal.

·         2. A Política folclorista do SPN/SNI
O regime salazarista procurou controlar os vários sectores da sociedade portuguesa através de um aparelho de Estado forte e com um discurso que reproduzia o modelo defendido pelo chefe do governo.
 
Tal como vimos, o SPN surgiu por sugestão de António Ferro a Salazar, constituindo-se como o organismo responsável pela transmissão da boa imagem do regime e de Portugal. O seu papel era, assim, propagandista, servindo-se da rádio, do cinema e da imprensa escrita para divulgar as suas ideias, mas as suas acções foram mais longe, promovendo exposições, encenando festas populares e cortejos, apostando num modelo estético ruralista e conservador, promovendo o «bom gosto» e a «Política do Espírito», desenvolvendo «desde a Beleza moral à Beleza plástica», controlando a política cultural do governo através da estrutura que António Ferro dirigia.
 
A criação do SPN estava directamente vocacionada para duas missões. Uma, de índole cultural, deveria promover as condições necessárias ao estudo dos usos e costumes de Portugal, mergulhando nas tradições do povo, preservando-as e divulgando-as. A segunda, claramente propagandística, assumindo um papel doutrinador, foi servir-se da cultura popular para educar o gosto dos portugueses segundo os valores estéticos do regime e para controlar as massas.
 
A doutrinação do SPN/SNI estava presente em muitos dos discursos de António Ferro e nas mensagens associadas à realização de espectáculos, exposições e outras iniciativas. Em 1933, afirmava este estadista: «convenceremos assim o povo, a pouco e pouco, de que pensamos nele, de que a sua felicidade e o seu bem-estar constituem uma das nossas maiores prioridades» (citado por Alves, 2007a).
 
A felicidade e o bem-estar do povo, sabemos hoje em que resultaram. As preocupações de Ferro traduziram-se mais numa política folclorista da cultura popular, encenando quadros da vida rural, ignorando e omitindo as condições de vida difíceis em que os camponeses vivam, cristalizando momentos fotográficos da estética da cultura portuguesa de acordo com a ideologia política do regime, tendo em vista transmitir uma imagem de nação pacífica, harmoniosa e com identidade própria. A doutrinação folclorista e ruralista do SPN/SNI divulgava paisagens campesinas bucólicas, rústicas e «puras», longe da modernização, fosse dos camiões da coca-cola, como vimos, ou de outros símbolos, mantendo os seus traços tradicionais e populares que ao olhar do citadino representavam o país verdadeiramente genuíno, exigindo a sua preservação e garante do que seria a identidade nacional.

Nota- A propósito de como a estrutura do Secretariado de Propaganda Nacional se complexificou com a sua passagem a Secretariado Nacional de Informação, Cultura Popular e Turismo, ver Paulo, 1994.
 
Tal como nas tendências culturais de finais do século XIX, o SPN/SNI associava a cultura popular a ruralidade, da qual, apesar de observada no presente, eram procuradas as suas origens, a sua «autenticidade», e, enquanto testemunho do passado, se tentava preservar antes que desaparecesse, celebrando-se as excelências das tradições populares (Leal, 2000). Contudo, tal como demonstra Vera Alves, apesar do trabalho dos investigadores e colaboradores do SPN/SNI, os estudos da cultura popular de matriz rural vão recuperar o conhecimento desenvolvido desde finais de Oitocentos até ao Estado Novo (Alves, 2007a), passando pelo Museu Etnográfico Português, criado em 1893, ou pelos trabalhos desenvolvidos por Rocha Peixoto, Leite de Vasconcelos, entre outros. É na «ingénua» moldura do barro, nas cantigas sem influências externas, nas tradições intactas e genuínas do povo, na sua pureza e alegria que o SPN/SNI procura encontrar o Portugal autêntico ao percorrer as recônditas aldeias de Portugal, com as suas paisagens rurais de «postais ilustrados» descritos nos Guias de Portugal publicados nos séculos XIX e XX.
 
Mas nem sempre as paisagens recônditas e genuinamente populares convinham àquele organismo. Os critérios para selecção de aldeias para o Concurso da Aldeia Mais Portuguesa de Portugal levantam muitas dúvidas, assim como a eleição de símbolos da arte popular para mostrar em Lisboa e noutras cidades do país ou do estrangeiro. No primeiro caso, por exemplo, as aldeias a concurso da província de Trás-os-Montes, Alturas do Barroso e Lamas de Olo, «teriam sido postas de parte devido às difíceis condições de acesso e a um “reconhecido primitivismo, que a nenhuma dava possibilidades de vitória (vitória que implicava sempre a recomendação feita a nacionais e estrangeiros de visitarem de futuro essa aldeia, como a mais portuguesa de Portugal)”» (Alves, 2007a). No segundo caso, a selecção era feita segundo critérios de impacte visual – como é o caso do efeito decorativo do galo de Barcelos, transformado num ícone da portugalidade – e pelo gosto estético de António Ferro e dos seus colaboradores, sendo rejeitados se considerados «desprovidos de qualidades estéticas» (Idem).

Nota: António Ferro deu visibilidade à visão bucólica e idílica dos Guias de Portugal, «um paiz cuja formosura, doçura de clima, e bonhomia dos seus habitantes, é digno de ser conhecido, e quiçá mais do que é, para que os estranhos o avaliem» (F. J. Almeida, 1880, Guia de Portugal. Lisboa: Typographia da Casa de Inglaterra. Citado por Pires, 2001).
A acção influenciadora do SPN/SNI reflectiu-se nos vários domínios da cultura popular portuguesa. Tendo como pressuposto a defesa da «tradição», controlava a arte popular. Na encomenda de peças para as várias iniciativas em várias cidades ou para o Museu de Arte Popular, eram rejeitadas peças que não fossem «genuinamente populares», quer porque apresentavam imagens «renovadas» quer porque a sua confecção recorria a produção não tradicional, nomeadamente a formas de «configuração industrializada» ou a «fantasias modernas», ou eram sugeridas modificações, como aconteceu na encomenda de um Tabuleiro de Tomar feita por Francisco Lage para o Museu de Arte Popular quando referia que «com esta decoração uniforme azul […], o tabuleiro resulta frio não sendo possível a sua valorização na sala a que estava destinado» (citado por Alves, 2007a).
 
O «genuinamente popular» gozou de estatuto especial e encontrou no SPN/SNI um trampolim para a visibilidade nacional e internacional, como é o caso dos tapetes de Arraiolos, que já antes tinham sido «objecto de uma intensa campanha organizada pela revista Terra Portuguesa que conduziu à revitalização de uma tradição que parecia encontrar-se então praticamente moribunda» (Leal, 2000). A reinvenção de tradições não se aplicou somente aos tapetes de Arraiolos mas também a outros casos que se enquadrassem na política folclorista de «bom gosto» do SPN/SNI.
 
Da acção deste organismo resultou a valorização de instrumentos de trabalho agrícola, da exploração do pormenor das peças, da miniaturização e do que deveria ser considerado «arte popular portuguesa». Como só lhe interessavam objectos de apreciável «beleza», capazes de cativarem os olhares dos visitantes das exposições e dos desfiles e de permitirem a construção de imagens associadas a paisagens idílicas e bucólicas, foram criados mitos que ainda hoje perduram, nomeadamente a visão romântica do mundo rural, quando na verdade existiam camponeses pobres, analfabetos e miseráveis que o Estado Novo quis esconder do mundo. A visão do «camponês esteta» e do camponês poeta (Alves, 2007a; 2007b), artista das maravilhas da arte popular portuguesa expostas no país e no estrangeiro, era um simulacro. Uma encenação conduzida por António Ferro e pelos seus colaboradores que determinavam os perfis dos actores e davam orientações precisas para os ensaios dos eventos e para a aquisição de peças de arte popular.
 
A estetização do camponês e do mundo rural levada a cabo pelo Estado Novo correspondia à imagem que António Ferro pretendia dar de Portugal através da sua «Política do Espírito» para que os visitantes das paisagens «genuínas» de Portugal pudessem apreciar uma ruralidade pacífica de agricultores transformados em jardineiros da paisagem. Essa ideia torna-se clara na propaganda veiculada pelas informações do SPN/SNI, nomeadamente pela Revista Panorama, Revista Portuguesa de Arte e Turismo, na qual aquele organismo publicava as ideias e imagens que o regime pretendia fazer passar para a opinião pública, em especial para a população urbana, sobretudo, para os estratos sociais mais elevados.
 
Essas imagens transportavam, como se sabe, uma forte carga sociopolítica, condicionando a forma como os visitantes viam as paisagens de Portugal, herdeiros de uma tradição oitocentista e de início do século XX. As paisagens descritas pelo regime correspondiam a um discurso que pode ser encontrado nos vários Guias de Portugal, de um país de belezas singulares que mereciam ser visitadas. Na apresentação de imagens turísticas de Portugal, publicadas na Cartilha da Terra Portuguesa, em 1950, António Ferro sublinha os seus «valores históricos paisagísticos e pitorescos» (citado por Pires, 2001):
Há muito que se fazia sentir a necessidade duma brochura prática, manejável, de algibeira, em que os turistas nacionais e estrangeiros se pudessem aperceber, rapidamente, do essencial da terra que visitam, entre dois comboios ou numa paragem curta de automóvel: os seus mais belos panoramas, monumentos principais, festas típicas, hotéis ou pousadas, as próprias especialidades culinárias. […] Consulte-se, portanto a «Cartilha da Terra Portuguesa» como se consulta um ficheiro que nos indica modestamente os dados essenciais do problema que desejamos tratar ou até as próprias fontes onde devemos beber. Seja como for, esta edição singela do Secretariado será, doravante, uma obra indispensável, de iniciação, para todos os devotos da nossa Pátria, o catecismo da sua Beleza.
 
O desfasamento entre o discurso oficial e a realidade era enorme. A «poesia dos simples» e do «camponês esteta» era desmoronada pelo campónio com os seus trajes andrajosos e caras de esfomeados. Ao contrário dos rasgados elogios às paisagens portuguesas e à arte popular portuguesa, como por exemplo à saia do trajo de Afife, que «é na verdade, uma saia de belíssimo efeito, onde se afirma um raro bom gosto aldeão!», ou sobre a indumentária de Santa Marta de Portuzelo, que é um «deslumbramento de coloração, uma verdadeira romaria de cores», e ao país folclorista de sardinheiras floridas nas janelas e nas soleiras das portas, num quadro romântico pintado por Raul Lino, aparecia o Portugal fora das actuações dos pauliteiros de Miranda no Albert Hall, longe das exposições e das comitivas que o percorriam, tal como Unamuno escrevia (citado por Alves, 2007a):
 
Vimos e oímos […] en Lisboa, en Braga, en Viana do Castelo, en Aveiro, coros populares de canto y baile, con típicos trajes comarcales, ricos de colorido y traza; coros con el cometido de mostrarnos la decretada alegría en el trabajo, el contento con el reparto de la pobreza; pero nada me habló más ni mejor que el no preparado concurso de pescadores humildes de la playa de Nazaret. Donde alguno se nos acercó a pedirnos una “esmolinha – una limosnita –, y como se la diéramos en calderilla española, nos dijo en castellano: “Muchas Gracias”.
 
O SPN/SNI não inventou o galo de Barcelos nem o tapete de Arraiolos mas soube aproveitá-los bem para as suas encenações e produções espectaculares de um Portugal de paisagens deslumbrantes.

·         3. A Aldeia Mais Portuguesa de Portugal
O Concurso da Aldeia Mais Portuguesa de Portugal, realizado em 1938, pretendia levar mais longe o poder de encenação do regime salazarista. As exposições nacionais e internacionais já não eram suficientes, era necessário viver a encenação na própria realidade, na própria paisagem, mostrando a identidade de Portugal, servindo de teatro às tradições populares. O evento foi notícia repetidamente, dando consagração absoluta a António Ferro e ao SPN/SNI.
 
 
Depois de um trabalho de selecção em cada província, entraram em competição doze povoações: Bucos e Vila Chã (Minho); Manhouce e Cambra (Beira Alta); Monsanto e Paúl (Beira Baixa); Azinhaga (Ribatejo); Almalaguez (Beira Litoral); Boassas (Douro Litoral); Nossa Senhora da Orada (Alto Alentejo); Peroguarda (Baixo Alentejo); e Alte (Algarve). As províncias de Trás-os-Montes e Estremadura ficaram de fora. Feita a selecção, em 18 de Setembro de 1938, um júri nacional começou a percorrer o país para visitar as aldeias concorrentes para eleger a «aldeia mais portuguesa». António Ferro presidia o júri constituído pela sua esposa – Fernanda de Castro –, pelo jornalista Gustavo Matos Sequeira, pelo musicólogo e folclorista Armando Leça, pelos etnógrafos Luís Chaves e Cardoso Marta e por Augusto Pinto. O júri era acompanhado por uma brigada fotográfica e cinematográfica e por repórteres nacionais e estrangeiros (Alves, 2007a). A campanha de «bom gosto» tinha chegado às aldeias portuguesas, agora transformadas em cenários-paisagem do que deveriam ser todas as aldeias, modelo estético que mudaria as paisagens de Portugal, e aí talvez o país ficasse um «jardim à beira-mar plantado».
 
 
Nas aldeias transformadas em cenários-paisagem, António Ferro e a sua comitiva poderiam apreciar a «arte do povo», essa «arte que pode considerar-se a linguagem espontânea, harmoniosa, das suas mãos», o que na realidade não correspondia à verdade, como se sabe, porque as encenações do SPN/SNI de espontâneo teriam muito pouco. Das aldeias visitadas, Monsanto foi aquela que parece ter impressionado mais os visitantes com a sua rusticidade e tipicidade, tornando-se, a partir de então, num símbolo da nacionalidade, tendo nascido mais um mito territorial que António Ferro anunciaria claramente em 1947: «mais uma terra maravilhosa, fisionomia desconhecida, ou quase desconhecida, dos portugueses que já a procuram e apontam, carinhosamente, no mapa do seu país, onde passou a existir uma luz mais» (citado por Alves, 2007a).
 
A ideia de percorrer o país e de mostrar a beleza das suas paisagens com o Concurso da Aldeia Mais Portuguesa de Portugal revela a visão propagandística de António Ferro pretender uma intenção turística, como se pode constatar no discurso que proferiu na gala da entrega do prémio Galo de Prata a Monsanto: (citado por Alves, 1997):
 
Monsanto ganhou o galardão porque traduziria uma realidade atemporal, preparada para receber os visitantes, encenando-se até ao pormenor, transformada num espectáculo de uma paisagem que ilustraria o melhor da raça portuguesa, sintetizando na sua graça a alegria e a cor deste povo esteta num quadro hiper-realista, já que todas as virtudes ali estariam representadas. Esta aldeia, nascida das rochas, enchia os olhos e a alma de turistas e de quem a visitava, como foi o caso de Cardoso Mata:
 
Os estereótipos estavam inventados: a noiva minhota, a tricana coimbrã, o galo de Barcelos, as filigranas, os pauliteiros de Miranda… e Monsanto, como a «aldeia mais portuguesa», modelo de tradição e bom gosto. Para além de reduzir o popular ao rural, segundo uma idealização estética do camponês transformado em jardineiro da paisagem, António Ferro pretendia «aportuguesar» as paisagens de Portugal, mesmo que isso significasse ignorar a realidade do país e as respectivas estruturas sociais.
 
 
A procura do «genuíno», a sobrevalorização do impacte visual dos objectos e a imagem atemporal da realidade fizeram do Concurso da Aldeia Mais Portuguesa de Portugal um dos pontos mais altos da política de estetização do regime, mesmo que a «maravilhosa intuição artística» do povo português resultasse de ensaios e encenações, como aconteceu em Monsanto.
 
Vejamos uma notícia de um jornal da época (citado por Alves, 2007a):
 
Logo a seguir começou o trabalho árduo, ininterrupto, aqui em Monsanto, para em tão pouco tempo se preparar tudo quanto era preciso, para um espectáculo de tamanha categoria. Estava em jogo o brio nacional pois que para o espectáculo estava convidado o Corpo Diplomático […].
Assim, depois de escolhidos os componentes dos diversos grupos e seus respetivos dirigentes, deu-se início aos trabalhos e arranjos de indumentária e pertences. […].
 
 
Sales Viana, perdendo noites sobre noites, teimando sempre, vai e volta a Monsanto, cuidando de tudo, não esquecendo dos mínimos pormenores, ralhando aqui, elogiando acolá, acarinhando os mais tímidos e entusiasmando os que às vezes, mostravam desânimo.
 
Afinal, a arte popular estava nas mãos dos artistas do SPN/SNI. Pintores, encenadores, etnógrafos e fotógrafos faziam parte da equipa de campanha estética e de educação do «bom gosto», como aconteceu, entre outros casos, na realização do Recinto das Aldeias da Exposição do Mundo Português, em 1940, onde mais uma vez foram criados simulacros a fazerem acreditar que as casas do mundo rural português seriam algumas das aguarelas de A Casa Portuguesa, de Raul Lino, e que os figurantes seriam a representação límpida dos camponeses, correspondendo às paisagens idílicas do Portugal rural habitadas por lindas meninas sorridentes, bem penteadas, de trajes festivos e cobertas de ouro ao peito a puxarem juntas de bois.
 
Exposição do Mundo Português, 1940
 
 

Conclusão
 
O discurso oficial do Estado Novo pretendia dar uma ideia de um país de «camponeses estetas», de um povo de poetas que vivia em paisagens rurais harmoniosas, cheias de graça que representavam o genuíno, o autêntico e tradicional da cultura portuguesa, confundindo-se com a própria identidade nacional. Contudo, esse conceito foi uma «invenção» de António Ferro e dos seus colaboradores, ao se servirem de ideais românticos e nacionalistas desenvolvidos desde finais do século XIX que o SPN/SNI soube aproveitar para concretizar a «Política do Espírito» e a doutrinação necessária ao regime salazarista, e os «camponeses estetas» não eram mais do que o resultado de uma política de estetização de camponeses e da construção idílica de paisagens de um Portugal rural de jardineiros da paisagem para consumo de turistas e visitantes.
 
Da política de estetização e de objectificação foram desenvolvidos mitos e representações de um Portugal que apresentava uma identidade nacional baseada na sua homogeneidade cultural, nas suas raízes cujas diferenças seriam cromáticas e não estruturais. Como afirma João Leal, «a diversidade não era apreendida enquanto tal, com todas as conflitualidades que transporta, mas antes uma variação cromática dentro do mesmo» (Leal, 2000).
 
António Ferro – e o SPN/SNI – foi responsável pela criação de mitos, de símbolos nacionais, de paisagens de galos de Barcelos e de aldeias tradicionais, mas o maior mito talvez tenha sido a construção de uma imagem bucólica, conservadora e fotográfica de um rural que, nalguns casos, parece continuar a fazer parte do imaginário português.

 
Fonte : CADERNOS CURSO DE DOUTORAMENTO EM GEOGRAFIA FLUP
Publicado em TRAJAR DO POVO EM PORTUGAL – 18.11.2014