segunda-feira, julho 24, 2006

Figuras Típicas de Lisboa - Varina e Varino


Muito embora tenham vindo de outras regiões para a capital em busca de melhor vida, as varinas são, sem dúvida, uma das figuras típicas de Lisboa. De canastra à cabeça percorriam os populares bairros lisboetas, vendendo de porta em porta o fruto do mar. O seu traje é perfeitamente adaptado à sua função, blusa de algodão, saia ampla e comprida e avental de riscado. Para segurar a saia, adaptando a sua altura, ou o ventre, quando grávida, usa em volta das ancas uma faixa de fazenda. Na cabeça, um lenço de fazenda de lã e chapéu de feltro de aba pequena e revirada para cima, de forma a aparar os pingos que caiem da canastra. Nos pés, geralmente descalços, usa socas de madeira e carneira preta.
De inverno usa, pelas costas, um xaile de lã espesso que cruza no peito e amarra nas costas, de forma a permitir a mobilidade dos braços.


O varino provem de regiões costeiras a norte do Mondego. Alguns investigadores, identificam a sua origem na região de Ovar. Chegavam à foz do Tejo sazonalmente à pesca do sável, quando a faina terminava regressavam habitualmente às suas terras. No entanto, muitos foram-se fixando em Lisboa, em bairros como a Madragoa e Alfama, ou junto ao rio, constituindo várias comunidades piscatórias. No entanto, na foz do Tejo, estes homens dividem-se entre a pesca e o transporte de mercadorias entre as duas margens.
O seu traje é constituído por camisa de algodão e calças de pano cru, largas, de forma a que poderem ser arregaçadas. Usa camisola de lã grossa, trabalhada pelas hábeis mãos femininas, e faixa preta na cintura. Na cabeça, para proteger das intempéries ou do sol, um barrete de lã, neste caso preto. No tempo frio, o varino vestia um capote de saragoça, comprido e com gola larga ou capuz. Nos pés, sempre descalços no mar, usavam em terra socos de madeira e carneira. Este homens eram ainda populares nas tabernas junto ao cais ou nos seus bairros, pelas capacidades vocais, nomeadamente, no fado, que cantavam e tocavam primorosamente.

sexta-feira, julho 21, 2006

Traje da mulher da Nazaré


Blusa – de chita com ramagens; brancas, com flores pretas ou vermelhas; vermelhas e outras cores, com flores brancas. Todas a blusas são justas de modo a desenharem os bustos, sem parecer comprimi-los, dando-lhes um aspecto de grande elegância.
Nas blusas dos domingos e dias de festa o decote em vez de franzido ou da tira alta, apresenta uma pequena gola voltada de bicos arredondados, guarnecida com um folho estreito, tal como o macho da frente. As mangas são bastante curtas – uma mão-travessa abaixo do cotovelo – terminando com uma renda de 10 cm de largura. Só recentemente as rendas passaram a ser maiores e as mangas mais curtas, quase pelo cotovelo.
A blusa terminava em aba usada sobre a saia, embora actualmente as mulheres a usem por dentro da saia.
Por debaixo da blusa, para formar o corpo, usavam um corpete de pano cru para o trabalho e de pano branco para os dias festivos.

Saia – conforme a ocasião a que se destinam, assim variam os tecidos; para trabalho, escocês grosseiro ou castorina; para os domingos e dias de festa, escocês de lã fina, cachemira e chita.
A roda é dada pelos panos, afeiçoada à cintura por meio de pregas estreitas, que partem de um dos lados do ventre, contornam a cintura pela parte posterior e vão até ao outro lado, não tendo pregas sobre o ventre ou tendo-as bastante largas para não fazerem enchimento sob o avental. As saias de trabalho são apenas armadas no cós.
Por entre a abertura deixada entre dois panos, a mulher tinha acesso à bolsa que as nazarenas guardavam sob a saia.
A saia de festa, quando eram feitas de chita, a orla era guarnecida com uma barra de veludo preto, com cerca de 15 cm. A esta barra corresponde pelo interior uma outra de chita vermelha. Acima da barra poderiam ainda ser colocadas mais uma ou duas, dependente do gosto pessoal.
Quando são feitas de escocês o plissado era mantido até à região das ancas por uma costura ou bordado.
Há ainda a considerar as saias de baixo (saiotes), para tufar as saias foram consideradas suficientes 3, posteriormente passaram a usar-se muitas, em número incerto, só recentemente se fixaram em sete.

Avental – De riscado para o trabalho e de popelina para os dias festivos. Em ambos os casos bastante grandes, acompanhando a saia lateralmente e no comprimento, cobrindo-a ou deixando ver uma orlazinha. Eram confeccionados de várias formas e feitios, com rendas e bordados a matiz, raminhos com flores e folhas, ou folhas e bagas.
Hoje os aventais de festa são geralmente de seda ou cetim, profusamente bordados com composições vistosas.

O lenço ou cachené – são adquiridos no mercado: de lã de algodão, geralmente de cores escuras com decorações simples de cores contrastantes. São usados atados das mais diversas maneiras, ou apenas sobre a cabeça caindo soltos.

Chapéu – é de feltro preto, de forma cilíndrica, e na parte superior da copa tem uma ligeira depressão. A aba é revirada.
Do lado direito tem a ornamentá-lo um pom-pom de lã. Ao chapéu das viúvas falta este enfeite.

Capa – para os dias festivos é de tecido fino, preto, de lã. Tem cabeção de veludo da mesma cor, é de debruado a fita preta lavrada. Para o trabalho era de baeta debruada a fita de lã lisa.
A capa é ampla de forma circular. Normalmente, a capa é usada pela cabeça sobre o lenço ou pelos ombros, só com o trajo de festa.

As nazarenas andam vulgarmente descalças. Calçadas, usam tamancos de pele preta com sola de madeira ou chinelos de trança.
Para o trajo de festa, as mulheres usam chinelas de verniz preto com salto de sola.
Em tempo de frio usam umas polainas de malha de lã branca (meias sem pé) que atam ou não com fita por debaixo do joelho.

Descrição do trajo da mulher da Nazaré, com base nas recolhas efectuadas no início do sec.XX., por Abílio Leal de Mattos e Silva.

Traje de Festa e Romaria da Póvoa do Varzim

O colete da mulher da Póvoa, de cor vermelha, ultrapassa a linha da cintura, utilizando atilhos para melhor enformar o corpo ao gosto e ao modo da sua utilizadora. A saia branca, muito rodada e vincada em cós plissado que ajusta e marca a silhueta feminina.
Ao pescoço usa um lenço de forma quadrangular de algodão branco e na cabeça um lenço preto, também conhecido como cachené, estampado de vermelho com motivos florais. À cintura o “ourelo”, um cordão feito de fios de lã de várias cores, completa o conjunto. O “ourelo” era trazido pelo homem das terras distantes da Galiza para onde os deslocava em busca de melhor faina e o oferecia à namorada como um símbolo de compromisso mais sério e das boas intenções do rapaz.

No traje do pescador a camisola tricotada, reduz o seu corte ao essencial, uma abertura na cabeça, cavas e costuras laterais, sendo a gola virada. Os atilhos permitem utiliza-la aberta ou fechada. Os motivos decorativos, a vermelho e preto, identificam de imediato a profissão do seu utilizador, reconhecendo-se motivos náuticos, a coroa, as armas reais e as célebres “siglas”.
Estas constituem sinais próprios de cada família e são utilizadas tanto no vestuário como nos apetrechos de pesca, marcam a tradição e traduzem o orgulho ancestral pela profissão com o mesmo sentido de dignidade e honra dos brasões nobiliáticos.
As calças, são apertadas nas costas com presilha e fivela, sendo largas em baixo para poderem ser arregaçadas. À cintura, o homem poveiro enrola uma faixa de algodão de cor natural e na cabeça usa o “catalão”, um barrete de cor vermelha que ressalta na alvura do traje.
A cor branca destes trajes indicia a proximidade do mar e das areias, pois o trabalho na terra não permite o uso de tonalidades claras e o sal mancha as cores escuras.

Camisola Poveira


Camisolas de lã branca, bordadas em ponto de cruz com motivos em preto e vermelho (escudo nacional, com coroa real; patinhos; siglas; remos cruzados; vertedouros; grinaldas; apetrechos marítimos; etc), as camisolas poveiras foram, inicialmente bordadas por homens - os velhos «Lobos do Mar» retirados da faina, que esculpiam na lã toda a simbologia da sua vida.
Esta peça era elemento integrante do traje masculino de romaria e festa do pescador poveiro, cuja origem remonta ao primeiro quarteirão do séc. XIX. Este traje branco de branqueta (tecido manual) foi o que mais perdurou, mantendo-se até finais do século passado, sendo sempre o traje escolhido aquando da presença de elementos da comunidade junto das mais altas individualidades do país. Com a grande tragédia marítima de 27 de Fevereiro de 1892, o luto decretou a sentença de morte deste traje branco, assim como de outros trajes garridos. A camisola sobreviveu, ainda, pela primeira metade deste século, mantendo-se como peça de luxo de velhos e novos.
Foi com a criação do Grupo Folclórico Poveiro, em 1936, pelo etnógrafo António dos Santos Graça, que se assistiu ao renascimento do traje branco (de romaria e festa), onde a camisola poveira tem posição de relevo, e se iniciou a divulgação no exterior da colmeia piscatória local desta peça de extrema beleza - feliz expressão de mundividência poveira a quantos nos visitam, nacionais e estrangeiros. Actualmente, as Camisolas Poveiras existentes destinam-se a lojas de recordações turísticas.

quinta-feira, julho 20, 2006

O traje tradicional português


A recolha de trajes nas diversas regiões tem pouco mais de meio século, altura em que, por fins políticos, se despertou para a preservação do folclore e dos trajes. Muitos destes trajes ainda se usavam à época, outros tinham caído em desuso à pouco tempo e ainda se encontravam guardados nos baús do enxoval, outros ainda, foram descritos pelos mais velhos ou copiados de fotografias, no entanto, a memória do homem apenas se reporta a um determinado período de tempo, o da sua vivência, logo os trajes pesquisados são na sua generalidade do século XIX, subsistindo algumas peças mais antigas, cujo uso perdurou.
Muitos destes trajes sofreram alterações impostas pela moda da época ou pelo gosto do seu utilizador, introduzindo elementos trazidos de outras regiões do país ou do mundo. Exemplo disso é a utilização de rendas, cuja manufactura originária da Flandres foi introduzida em Portugal pelo Marquês de Pombal, ou ainda, os lenços que hoje adornam a cabeça da mulher minhota mas que têm a sua origem na Áustria e foram adoptados no inicio do século XX serem mais bonitos e coloridos que os usados então, muitos outros exemplos poderíamos aqui dar.
Não sendo este um trabalho exaustivo, nem cientifico, pois não é isso o que se pretende, procuraremos apenas ser um registo escrito e visual desses trajes e da razão da sua existência, inserindo-os na região de origem e no seu meio ambiente natural, para que na memória futura estes não se percam.