terça-feira, setembro 19, 2006

Traje Português de Equitação – Masculino


Montar a cavalo sempre influenciou o traje do homem. A necessidade da adaptação a uma determinada função levou o traje de equitação a adquirir de características específicas.

O traje masculino de equitação português é o resultado de uma evolução natural da forma de vestir, sofrendo influências externas, muito à semelhança dos nossos dias. No entanto, essa evolução foi lenta, já que não haviam os modernos meios de informação e as novidades levavam tempo a chegar às populações, mesmo as mais cosmopolitas ou abastadas.

Muito embora existam noutras regiões trajes semelhantes, é no Ribatejo que encontramos a origem do que hoje denominamos Traje Português de Equitação. A forte tradição equestre desta região permite dizer que o traje de equitação português deriva directamente do traje de lavrador ribatejano.

A principal característica deste traje é a jaqueta. Trata-se de um casaco curto aflorando a linha da cintura e terminando um pouco abaixo desta. É frequentemente mais curta nas costas que à frente. Na cintura o corte das costas é a direito, distinguindo-se da jaqueta espanhola por este pormenor, já que nesta o corte é arqueado. A jaqueta da imagem apresenta uma gola de dois bicos, que a par com a de romeira são os modelos mais apreciados. Mas existem outros modelos, de rebuço, de tira, de jaquetão ou mesmo sem gola. É normalmente adornada com botões ou alamares. Os alamares podem ser de prata ou de seda e os botões são normalmente de material sintético, mas também podem ser de vidro, osso, chifre, madeira, metal, prata ou forrados de tecido. A jaqueta possui ainda dois bolsos na vertical e as mangas são adornadas com botões na diagonal.
Para proteger dos rigores do Inverno usava-se o capote, a samarra ou uma jaqueta de abafo. Esta difere da anterior por ser confeccionada em tecido grosso e quente e a gola frequentemente forrada de veludo ou enriquecido com pele de borrego ou raposa.

A calça, de cós alto e cintado ajustando nas costas com atilho, é justa até ao joelho, seguindo com a mesma largura até aos pés de modo a permitir o uso de botas de prateleira.

O colete de decote em V prenunciado, de forma a mostrar a camisa, tem cavas largas e quatro bolsos formando um acentuado bico na frente, o qual ultrapassa a linha da jaqueta. O colete pode também possuir uma gola ou banda e ser abotoado com uma ou duas linhas de botões.

À cintura usa uma cinta de merino negra, ceda ou cetim, com a franja a pender para o lado esquerdo, que aperta até ao diafragma, procurando ajudar a uma postura correcta e elegante no galope. Devem ser evitadas a faixas de cetim apertadas com colchetes, pois perdem a sua função principal, a de protecção da região lombar do cavaleiro. Absolutamente interdito é o uso do lenço colorido usual no traje andaluz.

A camisa é branca e comprida, de tecido fino.
A carcela é enfeitada com folhos do mesmo tecido ou de renda. O peito pode ser adornado por nervuras ou pregas. Muitas vezes os adornos preenchem uma parte do peito, o peitilho, a única zona visível entre as bandas do colete. O colarinho é pequeno, não ultrapassando a altura do cós da gola e podem terminar em redondo ou em bico, sendo fixado por molas ao cós. Fecha-se o colarinho com botões simples ou abotoaduras duplas de madrepérola, ouro ou prata. As mangas são largas e folgadas, terminando em punho simples ou duplo e são fechadas com abotoaduras.

Esta indumentária é acompanhada por um chapéu de aba larga, à portuguesa, muitas vezes confundido com o chapéu espanhol (à Mazzantini). No entanto, o chapéu português possui a aba larga com virola e copa redonda convexa. A fita que cerca a copa fecha em laço, sem botões. Pode ser preto, cinzento ou castanho.

Uma variante no traje de equitação é o uso de calções. A utilização dos calções como peça de vestuário permaneceu em Portugal até meados do Sec.XIX, enquanto que no resto da Europa foi desaparecendo após a Revolução Francesa. Muitas vezes eram complementados com plainitos.
Como traje de equitação os calções continuaram em uso, sendo parte integrante do trajo do campino, em baeta azul adornado com botões metálicos, reminiscência do uso de alçapão, meia alta e sapato. Nos restantes cavaleiros é vestido com meia branca até ao joelho, sobressaindo acima da bota de cano alto modelo napoleónico. Frequentemente, são da mesma cor da jaqueta ou mesmo mais claros.
Quanto à cor, o traje português de equitação deve ser sóbrio, preto, cinzento ou castanho. Como traje de equitação, completa-se com o uso de luvas de pele.

quinta-feira, setembro 14, 2006

Capa de Honra de Miranda do Douro



Capa de Honra, essa peça de corte erudito, a mais nobre peça do Traje popular cuja confecção se chegaram a gastar 60 dias. Seria ela usada quase exclusivamente por pessoas com um nível de vida económico e favorável. Teremos de concordar que uma Capa de Honra é não só uma das peças mais nobres do Traje português como também uma das mais ricas e dispendiosas.
A amplitude da capa de honras indica uma razoável capacidade económica do seu utilizador para a poder mandar fazer ou adquirir, uma vez que esta peça necessita de 10 metros de burel (tecido de lã pisoado).

Estamos perante um dos trajes regionais mais ricos.

Do decote nasce a capa, a sobrecapa e o capuz.
A capa é comprida e ampla, cortada em viés, aberta na frente. A sobrecapa desce até à zona do cotovelo sendo toda bordada e pespontada. Termina em franjas largas. O capuz, com capeto, inteiramente bordado, termina numa larga faixa, denominada Honra, cujo tamanho é representativo da riqueza e importância do utilizador. Esta também é bordada e pespontada, rematada com uma franja.
A Capa de Honra era também usada pelos boieiros, que a utilizavam não só como protecção do frio e da chuva, mas também para se deitarem sobre ela enquanto andavam nas suas fainas, qualquer pessoa possuía a matéria prima para a confeccionar - o Burel - e o labor do alfaiate era muitas vezes, compensado em géneros ou jornas. Estas capas eram menos trabalhadas, menos bonitas, menos perfeitas, menos cuidadas, pois passou a ser uma peça de uso quotidiano - passando a Capa de Honra a ser simultaneamente traje de trabalho e de festa, conferindo-lhe um duplo sentido de dever e da honra.

segunda-feira, setembro 11, 2006

A Coroça – Beiras e Trás-os-Montes



A coroça é constituída por uma capa e uma sobrecapa executadas em palha, utilizando técnicas de cestaria. Não tinha como função agasalhar, mas deixar escorrer a chuva e a neve, impedindo que a humidade passasse para a roupa do seu utilizador, normalmente, pastores, que passavam longos períodos nas serras a apascentar o gado das aldeias.
A sua utilidade prática levava a que tanto fosse utilizado por homens como por mulheres.
Este traje perdurou até aos nossos dias, já que a sua confecção é rápida, fácil e barata.
A sua origem remonta ao neolítico, em que o homem utilizava a fibras vegetais para se vestir e para isolar, por camadas, os telhados das suas cabanas. A sua eficácia fez com que resistisse à influência de culturas e civilizações.
A caroça é composta por cabeção e «saia» de junco, dispostos paralelamente no sentido longitudinal, ligando entre si por um fio entrelaçado.
Por vezes, o homem utilizava polainicos, enrolados nas pernas, feitos do mesmo material e interligados com as restantes peças.
Compõem este traje, chapéu de feltro preto e tamancos de couro de cor natural com sola e alto de madeira.
Existem ainda alguns modelos em que a caroça tem a forma de uma capa com capuz, apoiando-se directamente sobre a cabeça do seu utilizador.

sexta-feira, agosto 18, 2006

Côca, Biuco e Capelo

A Côca, o Biuco e o Capelo são três trajes de diferentes regiões, Alto Alentejo, Algarve e Ilha Terceira (Açores), no entanto, apesar da distância geográfica existem muitas semelhanças entre eles e uma história comum.

Sabemos hoje que os etruscos e os gregos vestiam o himation, ou seja, o manto, com o qual cobriam a cabeça. Possivelmente imitavam um costuma mais antigo. O Cristianismo adoptou para a imagem da Virgem o uso do manto à moda etrusca, isto é, sobre a cabeça. São Paulo introduz o costume das mulheres cobrirem a cabeça para que se distingam das mulheres descobertas ou meretrizes. Entrar na igreja com a cabeça coberta era sinal de respeito, submissão e humildade perante Deus.
Por toda a Europa surgiram diversas peças de vestuário que cobriam por inteiro o seu utilizador(a), nomeadamente, em França, Alemanha, Dinamarca, Itália, Espanha e Portugal.
Não se sabe quando este tipo de indumentária foi introduzido em Portugal, no entanto, podem-se encontrar registos da sua utilização desde 1609, no reinado de Filipe II, e existem autores que defendem a sua origem árabe.
Sabe-se no entanto, que a sua utilização abrangia a quase totalidade do território nacional, mas apenas no Alto Alentejo, no Algarve e nos Açores, esses trajes eram ainda utilizados até meados do século XX.
A sua utilização destinava-se a impedir o contacto da mulher com os transeuntes que com ela se cursassem na rua, ocultando a sua identidade. Para além de isolar a mulher do mundo exterior, permitia-lha também alguma liberdade, já que não sendo identificável podia movimentar-se livremente oculta dos olhos castradores da moralidade alheia.

O que são a Côca, o Biuco e o Capelo?

Estes três trajes femininos possuem pequenas variações, ou particulares alterações regionais, no entanto, a sua forma elementar baseava-se numa mantilha, com ou sem véu, amplamente distribuída, de norte ao sul do país, e que teve a generalizada denominação de biôco (ou biuco no Sul e rebuço no Norte).

Genericamente compõe-se de uma capa, mais amplas e compridas nos Açores e Algarve que no Alentejo, em cuja cabeça era coberta de forma a impedir que se visse a cara da sua utilizadora. É a forma como a cabeça é coberta que distingue os três trajes.


Côca –Alto Alentejo

As côcas terão sido um traje de noiva na nossa região, na segunda metade do século XIX. A tradição oral também afirma que a dimensão e colocação do véu tinha três posições distintas, consoante a classe a que pertencia a nubente.
Mas, como traje de noiva acabou por cair rapidamente em desuso enquanto tal, passando a ser fundamentalmente moda nas mulheres aristocratas ou da alta burguesia de todas as idades, quando estas saíam à rua para assistir a actos religiosos ou nas visitas, tão habituais nestas classes sociais entre finais do século XIX e princípios do XX.
Usavam uns biôcos, pegados a uma espécie de capa curta e que eram cobertos, no alto, por uma renda larga, que caía pelas costas. Na frente o biôco era armado em papelão, ou tarlatana, para se manter aberto. Em alguns, a renda era colocada, como já disse, caindo do alto da cabeça sobre as costas, outros porém, era posta em sentido contrário, isto é, sobre a cara. Completava o trajo uma saia de merino.
José Leite de Vasconcellos, observa que este seria o «trajo clássico de se ir à festa do Sacramento, que durava de quinta-feira do Corpo de Deus até à segunda-feira seguinte». O célebre investigador apresenta uma testemunha ocular que, entre os anos de 1862 e 1866, terá visto as mulheres assim embiocadas, e explica que este processo só era possível mediante a utilização de «um papelão curvo que encobria a cabeça, como as mantilhas de Mondim, coberto de preto e com pano nas costas».

O biôco (ou biuco) – Algarve

Raul Brandão escreve a propósito do biuco no seu livro "Os Pescadores", em 1922:
" Ainda há pouco tempo todas (as mulheres de Olhão) usavam cloques e bioco. O capote, muito amplo e atirado com elegância sobre a cabeça, tornava-as impenetráveis.
É um trajo misterioso e atraente. Quando saem, de negro envoltas nos biocos, parecem fantasmas. Passam, olham-nos e não as vemos. Mas o lume do olhar, mais vivo no rebuço, tem outro realce... Desaparecem e deixam-nos cismáticos. Ao longe, no lajedo da rua ouve-se ainda o cloque-cloque do calçado - e já o fantasma se esvaiu, deixando-nos uma impressão de mistério e sonho. é uma mulher esplêndida que vai para uma aventura de amor? De quem são aqueles olhos que ferem lume?... Fitou-nos, sumiu-se, e ainda - perdida para sempre a figura -, ainda o som chama por nós baixinho, muito ao longe-cloque..."
Trata-se de uma capa que cobre inteiramente quem a usava. A cabeça era oculta pelo próprio cabeção ou por um rebuço feito por qualquer xaile, lenço ou mantilha. As mulheres embiocadas pareciam “ursos com cabeça de elefante”
Oficialmente a sua extinção ocorreu em 1882 e por ordem de Júlio Lourenço Pinto, então Governador Civil do Algarve, foi proibido nas ruas e templos, embora continuasse a ser usado em Olhão até aos anos 30 do século XX em que foram vistos os últimos biocos.

O Capelo – Açores

À semelhança de outras regiões também a mulher açoriana usava agasalho capotes com capelo, diferindo o seu feitio de ilha para ilha.
Leite de Vasconcelos visitou os Açores no Verão de 1924 e testemunhou o uso de mantos e capotes pelas mulheres da ilha Terceira e do Faial. Com efeito até meados do século XX era frequente encontrar nos meios citadinos mulheres envoltas no seu capote preto e capelo armado.
Convém distinguir o manto do capote, o primeiro é uma saia comprida e rodada de cor preta, o segundo, afigura-se como uma capa muito ampla, mais farta lateralmente que nas costas.
No caso da utilização do manto, o capelo era armado com cartão e atado pela cintura, a mulher segurava-o com as mãos de modo a encobrir o rosto. Com o capote, o capelo era utilizado sobre os ombros. Neste caso, estamos perante um amplo capuz suportado por um arco de osso de baleia, sendo a sua rigidez conferida pelo forro de cânhamo.

Estamos assim perante três trajes, que para além da sua função de abafo, remete o papel da mulher para a total exclusão da sociedade, uma vez que, completamente coberta jamais alguém descobriria a sua identidade.

Dos três trajes apenas o dos Açores é ainda hoje identificado pelo público em geral, já que se tornou num símbolo dessa região e é amplamente divulgado pelos ranchos folclóricos. Quanto aos restantes, correm o risco de caírem no esquecimento e no ostracismo, já que não sendo bonitos ou ricos, não são mostrados pelos grupos das suas regiões de origem.

Bibliografia:
PITA, António, Côca ou Mantilha - Século XIX - Uma Traje de Festa e de Solenidade do Alto Alentejo – Câmara Municipal de Castelo de Vide, Secção de Arqueologia, Maio1999

Braz Teixeira, Madalena, Trajes Míticos da Cultura Regional Portuguesa, 1994, Museu Nacional do Traje.

Ormonde, Helena, in O Traje do Litoral Português, Museu Etnográfico e Arqueológico Dr. Joaquim Manso, Câmara Municipal da Nazaré

quinta-feira, agosto 17, 2006

Lenço "de Amor" ou "dos Namorados"


Lenço é simplesmente um pano rectangular de linho, que se trazia nos bolsos, preso à cintura ou escondido no seio ou punhos, nas mãos (como eram bonitos muitos eram roubados por aqueles que mais tarde seriam seus namorados) e mais tarde nas algibeiras, pois o uso destas não tem mais de 100 anos.
No passado este rectângulo de pano começou a receber os primeiros ornatos, feitos da aplicação de rendas e/ou bordados. Essa decoração tornou-se mais abundante conforme a pessoa e as exigências do destinatário, o gosto, a preparação e o tempo disponível de quem os fazia, a moda e até o momento em que iam ser usados.
Seria inicialmente completado com uma pequena bainha, uma renda, um bordado no início muito simples e depois cada vez mais complexo, e as iniciais dos nomes dos seus possuidores.
Especialmente cuidado tinha de ser, naturalmente, o que ia ser colocado no ombro pelos mordomos que transportavam os andores das “Romarias” ou levado na mão a segurar a vela da mordoma ou o ramo da noiva.
Se o lenço se adequava a servir de prenda a ser oferecida como sinal de afecto, o gesto de o oferecer ganhava especial significado quando se destinava a alguns destes usos, e era completado, realçado e glosado com a simbologia dos ornatos escolhidos: os ramos, as flores, que em todos os tempos e lugares conferem encanto e poesia ao mundo do amor, os trevos, as pombas, que lembram a ternura dos amantes, os cães, que representam a fidelidade, os corações, as chaves que os podem abrir ou guardar, as custódias ou os relicários (em que o amor se compara a um valor sagrado), os nomes de ofertantes ou destinatários.
Quando uma jovem era nomeada mordoma, o namorado mandava fazer um lenço com lindos bordados, incluindo juras de amor e de fidelidade, para lhe oferecer no dia da festa. A mordoma usaria essa delicada prenda para segurar a vela enfeitada com que se desfilava na procissão. O mesmo lenço viria a ser usado no dia do casamento para segurar o ramo de noiva, e mais tarde para cobrir o rosto apôs sua morte.

Trajes do Minho

Fala-se muito, por aí, em «traje à moda do Minho», «traje minhota», ou «traje à moda de Viana», «traje à Vianense», «traje à Vianesa» - usadas todas estas expressões como sinónimas particularmente relacionadas com Viana-do-Castelo. Ora, na província do Minho não há, para mulheres, como para ninguém, um só vestuário regional típico e nem sequer o há em Viana-do-Castelo. Dizendo-se "Viana-do-Castelo" há de perceber-se o concelho, e não a cidade, pois, quanto à indumentária, pode-se dizer que nada hoje subsiste nela de local, mas sim pelas Freguesias que lhe ficam ao redor.
«Traje à moda do Minho» ou «à Vianesa» (são estas as formas de dizer mais usadas no país, mas, por terras minhotas, usa-se especialmente a denominação de "Traje à Lavradeira") é um vestuário feminino, de festa, de «grande gala», apenas usado em dias assinalados e por moças de algumas aldeias do concelho de Viana-do-Castelo.
Em Viana-do-Castelo, quando se fala em de "Traje à Lavradeira", sem especificação alguma, entende-se em geral o «vermelho» das lavradeiras de Santa Marta de Portuzelo (na qual há também um belo «traje azul»), não só por ser aquele o vestuário o que mais agrada ao comum dos habitantes, pelo seu colorido quente e variado, mas ainda por ser o que a
indústria caseira e o comércio local mais espalham na região
O traje vermelho ou azul são indistintamente usados pelas raparigas, mas quando casam quase sempre dizem adeus ao vermelho e passam a usar só o azul, quando se querem vestir de lavradeira.
Antigamente quando era divulgado o noivado, e nunca antes para se livrar de humilhação ou falatório se o casamento se desfizesse, a noiva dirigia-se à cidade “botar o ouro”, acompanhada pelos seus futuros sogros. Eram eles que ofereciam aquela que iria ser nora uma designada quantidade de ouro, correspondente às suas possibilidades económicas.
No primeiro domingo após este ritual, a noiva ia à Missa, exibindo o ouro oferecido, e vestindo o traje de lavradeira. Facilmente se detectava uma noiva pelos seus adornos e trajar.
No que respeita aos lenços, deve notar-se que não há em cada aldeia, uniformidade absoluta nas suas cores. O lenço da cabeça poucas excepções costuma apresentar é vermelho, mas, o lenço do peito em Santa Marta costuma ser diferente, é amarelo.

Traje de lavradeira
Sobre a alva camisa bordada de azul, nos punhos, nas frentes e nos ombros, a mulher minhota enverga um colete que exerce a função de espartilho. Os cortes vincam as formas do corpo, a altura do colete e a amplitude das cavas atribuem-lhe grande comodidade, pois permite um melhor movimento dos braços. Por outro lado, a orla do colete segue a linha do diafragma, favorecendo a respiração. O colete é profusamente decorado por bordados policromáticos de gosto barroco. A saia, rodada e de grande amplitude, é marcada por uma larga barra bordada com os mesmos motivos silvestres e românticos do colete. O avental franzido é decorado com “puxados” que recriam um magnífico jardim em relevo. A algibeira reforça a beleza da mulher com a sua forma de coração, tendo como utilização prática o transporte de dinheiro e do lenço.
A mulher minhota calça meias de renda brancas e chinelas de pele bordadas com motivos florais vegetais e geométricos. Na cabeça usa um lenço de fundo vermelho com barra estampada com motivos florais, vegetais e cornucópias

Traje domingueiro masculino (finais do século XIX)
Composto por calça, camisa e jaqueta. A camisa branca é decorada com bordados tradicionais minhotos, com motivos amorosos. A cor vermelha da faixa e dos bordados confere ao conjunto um certa alegria, uma vez que todo o traje é negro. O preto é sinónimo de austeridade, pelo que os trajes de “ver a Deus”, utilizados para ir à missa, são dessa cor. O preto confere ainda severidade e sofrimento, já que simboliza o luto profundo e prolongado.

APONTAMENTOS SOBRE DO TRAJE DE LAVRADEIRA

O Avental – O pintor José de Brito Sobrinho recolhendo-se, doente e desiludido à sua casa natal de Santa Marta de Portuzelo, ali casou com uma habilíssima tecedeira e para aumentar os rendimentos ao casal resolveu criar novos aventais. Pôs de parte os motivos geométricos (antigamente os aventais não apresentavam quaisquer bordados eram muito simples, com o tempo estes apresentam mais riqueza, surge as figuras geométricas como os losangos, triângulos e quadrados) e desenhou flores e folhas a preto, vermelho, verde e amarelo. Não admira que a novidade agradasse, pois os primeiros aventais eram lindíssimos. Após a sua morte, ocorrida em Fevereiro de 1919, outras tecedeiras continuaram o seu trabalho, deram-lhe novas cores, mas conservaram mais ou menos os desenhos por ele idealizados.
Os Lenços – Em 1880 os lenços nacionais foram abandonados por unanimidade, visto serem incomparavelmente menos vistosos que os lenços austríacos, com 4 variantes: vermelho, roxo, verde e amarelo, todos estes com o mesmo tipo de desenho.
O Colete – Naturalmente, o bordado manual dos coletes mais antigos eram simples, cortados em baeta azul, com cinta de veludo preto, apenas debruado a fitilho por meio de cordões, gradualmente vão sendo cada vez mais bordados, a missangas brancas e fios de seda (folhas e flores em especial cravos).
A Algibeira – Num trabalho minucioso, de autêntica paciência as algibeiras passaram abruptamente da forma rectangular para a cordiforme, acompanhando o labor dos coletes.
A Saia – Por volta de 1900, a barra das saias apareceu com a parte superior levemente bordada a branco - uma silva, como lhe chamavam, minuciosa e perfeita, - que, pouco a pouco, se foi alargando e hoje nos aparece como representando grandes malmequeres.
As Chinelas – Chinelas eram de veludo preto, liso ou com um laço. Posteriormente passaram a ser pretas e bordadas a branco ou de verniz.

terça-feira, agosto 08, 2006

Beira Interior

A Beira Interior é caracterizada por um geografia montanhosa, que moldou o modo de vida das suas povoações. Os seus habitantes adaptaram o seu modus vivendi à dureza do clima, dedicando-se a uma agricultura de subsistência nos vales e tendo como principal provento económico a pastorícia efectuada nas montanhas.

A mulher serrana protege-se dos rigores da montanha com uma capucha confeccionada em burel, muitas vezes pela própria utilizadora. Sendo uma das características do traje da região da serra do Caramulo.
O traje é ainda composto por uma saia comprida e rodada e por uma avental, feitos, muitas vezes, no mesmo tecido da capucha, escolhendo para o Verão tecidos como riscado ou chita. Vestia ainda camisa de linho de cor natural, ou algodão.
No Verão, para além do sempre indispensável lenço de algodão, usa um chapéu de palha de abas largas para se proteger do sol.
Calça socos de madeira e carneira, protegendo os pés com meias de lã tricotadas pela própria.
O homem veste fato de cotim e camisa de riscado, faixa preta e chapéu de abas preto, calça botas de carneira.

Varina do Porto

Assim como das de Lisboa, as varinas (vareiras ou bareiras, como são chamadas) do Porto são oriundas do litoral beirão, sobretudo de Ovar ou da Murtosa.
Este traje indica o tipo de trabalho da utilizadora, já que anda descalça ou em chinelas, permitindo grande mobilidade e leveza no andar. Usa a saia comprida e rodada, atada com uma faixa que lhe segura o ventre, onde usa uma algibeira, presa com presilha, que tem como função guardar os proventos da venda. O colete ajustado com atilhos sobre uma blusa ampla, permite adaptá-lo ao corpo, à medida das necessidades. Enverga lenço e chapéu com rodilha, o que lhe facilita andar com a canasta à cabeça. A canastra, que sempre a acompanha, fala-nos do seu conteúdo, o peixe que vende na zona da Ribeira do Porto.

sexta-feira, agosto 04, 2006

Tricana de Coimbra



Uma da figuras mais conhecidas da Cidade de Coimbra, cantada pelos estudantes, a Tricana fez do xaile a sua peça de luxo, usando-o sobre os ombros ou traçado sob o braço direito.
Os xailes preferidos eram os que reproduziam em tapete decorativos orientais, denominados «xailes chineses».
Veste saia preta de lã, com fitas de veludo; saia de baixo branca, com tira bordada; avental de popelina, blusa de “tubralco”; caixiné; xaile chinês a tiracolo; chinelos pretos.

Traje da Serra da Estrela

A Serra da Estrela é a zona montanhosa alta do país, pelo que o seu rigor climatérico influenciou profundamente a forma de vestir dos seus habitantes.

A mulher serrana protege-se dos rigores da montanha com uma capucha confeccionada em burel, muitas vezes pela própria utilizadora. Na cabeça usa lenço de algodão. O traje é ainda composto por uma saia comprida e rodada e por uma avental, feitos no mesmo tecido da capucha. Vestia ainda uma camisa de linho de cor natural. Calça socos de madeira e carneira.
Este traje representa a venda do leite pelas ruas das vilas e cidades no sopé da Serra.

O burel e o surrobeco eram tecidos grosseiros manufacturados nos teares das aldeias da montanha, aproveitando a lã produzida por essas comunidades.

O traje do pastor é constituído por um conjunto de peças que vai vestindo ou despindo conforme as condições climatéricas. Usa uma camisa de riscado e uma camisola de lã com um padrão branco e castanha (raixa), semelhante a um casaco abotoado lateralmente, com aplicações em sorrobeco preto, calças de surrobeco castanho, botas cardadas e chapéu de aba larga.
Um outro elemento deste conjunto é a capa com capuz, a qual tem reminiscências árabes e medievais. Composta pela conjugação de um amplo capuz em forma triangular, com uma capa circular que cai a partir dos ombros, formando “godets”.

Os Saloios

O termo “saloio”, em português corrente, significa homem rústico, pouco esperto, manhoso e aldeão em sentido pejorativo. No entanto, este termo era aplicado aos habitantes dos arredores de Lisboa, dedicando-se à horticultura cujos produtos iam vender à cidade. São estes saloios que alimentam Lisboa.

A saloia trabalhava quintas, quer no trabalho agrícola, servindo nas casas abastadas ou como lavadeira, nas ribeiras de águas límpidas da região. Esta era a sua função mais conhecida, já que era muito vista em Lisboa trazendo e levando a trouxa de roupa ás freguesas da burguesia.
A mulher saloia vestia de algodão, usando saia comprida, blusa e avental. Denota-se a algibeira, atada à cinta, e o lenço na cabeça.
Podia calçar botinas ou sapatos de carneira.
Para se deslocar a Lisboa, usava uma saia mais nova, de melhor aparência, sobre a outra de uso diário, que no trajecto era dobrada e presa à cintura para que não se estragasse.


O traje saloio corresponde ao de um moço de estrebaria, com a função de cocheiro da família abastada.
Traja calça e colete de cotim com corte simples, camisa de algodão branca e faixa preta. Acompanha esta indumentária uma ampla camisa de algodão estampada de azul e branco, denominada “guarda-pó”, vestida como resguardo para proteger o fato quando trata dos cavalos ou burros.

Douro e Trás-os-Montes

Traje Domingueiro Feminino do Alto-Douro
Este traje compõe-se de blusa, saia e avental de formato semelhante ao traje domingueiro do Minho, sendo de realçar a configuração do colete. As cavas são profundas e o decote generoso, deixando antever o peito da camisa e a forma de ajuste por atilhos remete para a função de espartilho. No entanto, os “rabos” remetem este colete para uma origem barroca. O avental e a saia são decorados com finas rendas e fitas de veludo. O conjunto é acompanhado de um lenço branco e de um chapéu de veludo. Calça meias de renda brancas e chinelas de couro pretas.
A utilizadora deste traje é sem dúvida uma mulher de posses, pois adorna-se com fios, cordões e brincos de ouro e preciosas rendas e veludos, que em contrate com a severidade do negro mostram a figura de uma mulher habituada a gerir os seus haveres.

Traje masculino de Miranda do Douro
Composto por jaleca, calção, colete e polainas de saragoça castanha e preta, adornado por botões metálico ou de madeira. Trata-se de um traje de extraordinário requinte, nomeadamente no corte dos calções, onde a braguilha é encoberta por um alçapão de influência setecentista e a utilização de polainas, hábito que caiu em desuso na segunda metade do sec. XIX. O conjunto é ainda acompanhado por um amplo chapéu de feltro preto e por uma camisa de linho de cor natural.
O seu utilizador seria sem dúvida um homem abastado, pelo que deveria completar o conjunto com uma Capa de Honras de Miranda do Douro.

Alentejo

Trajes de Vila
Trajes de Trabalho

Apanha da Azeitona

Ceifeira

Pastor

quinta-feira, agosto 03, 2006

O Traje do Alentejo

As mulheres que vivem perto das cidades e vilas, mais abastadas, procuravam imitar as modas, seja no penteado, seja na maneira de vestir. A mulher da vila usa saia de fazenda de lã, blusa de algodão de corte cintado. Para a missa usa uma mantilha de renda sobre a cabeça e como abafo um xaile de merino negro bordado, com franjas de fio. Calça meias de renda brancas e sapatos de carneira com botões.
A mulher do campo, que durante a semana se dedicava aos trabalhos agrícolas, aos domingos depois de vir da missa e fazer os trabalhos domésticos, dedicava-se à costura, aos bordados ou a fazer meias. De Inverno refugiava-se à lareira, o centro da casa alentejana, no Verão, aproveitando fresquidão do fim da tarde, sentava-se num mocho (banco) junto à soleira da porta, aproveitando para dois dedos de conversa com a vizinha ou com quem passa.
No campo a mulher usava blusa de chita, saia de riscado atada em jeito de calça com alfinetes, lenço na cabeça e chapéu desabado, meias de linha grossa feitas com cinco agulhas normalmente de cor castanha, roxa ou até vermelha e sapatos grosseiros de atanado. De Inverno para se proteger do frio e da chuva, colocava um xaile ou uma lona pelas costas, atado em volta da cintura para permitir a liberdade dos braços.
O domingo era o pretexto para vestir a melhor roupa, não muito diferente da usada no campo apenas mais poupada pelo uso menos frequente. Nesse dia, a mulher calçava chinelas de atanado grosseiro, meias de linha lisa, um avental de riscado simples sem rendas, e saia de fazenda sem ser fina, a blusa era de tecido de chita gorgorina sem efeitos de renda. Na cabeça usava lenço ou cachiné sem ser o de trabalho.
O traje do alentejano abastado, residente nas vilas ou cidades, tem as suas raízes no traje popular espanhol no entanto o seu corte é mais suave, sendo a jaqueta e o colete mais compridos nas costa.
Este traje considerado domingueiro ou de casamento, usava chapéu de aba larga, camisa branca com pregas sobre o comprido, colete com uma ordem de botões muito aberto e jaqueta com três bolsos, um pequeno, em cima, à esquerda, onde por vezes usa, com a ponta de fora, um lenço bordado pela namorada, dois bolsos em baixo, um de cada lado, oblíquos. A jaqueta é enfeitada por alamares de seda. Cinta preta de merino, calças com cós alto e cintado e sapato fino, completam o conjunto.
No traje do homem do campo podemos encontrar algumas distinções fruto da actividade exercida, ou da época do ano. Genericamente calça botas de atanado grosseiro, calças e colete de cotim. A camisa ou chambre é feita de riscado e lenço ao pescoço ou por baixo do chapéu. Para resguardar as calças usa safões de lona e na cabeça chapéu de abas largas e copa redonda.
Em tempo de chuva usava capote aguadeiro feito de borel grosseiro e os safões de lona que eram substituídos por safões de cabedal. Os pastores distinguem-se pelo uso de safões de lã e samarra do mesmo material. Os alforges em cabedal ou em tecido de lã, eram usados para transportar a merenda, o azeite, o pão, as azeitonas, um pouco de toucinho ou chouriço, etc., mas também os parcos haveres quando em viajem ou nas longas temporadas passadas no campo.

segunda-feira, julho 31, 2006

O Campino - Ribatejo

Desde há muito que se encontram testemunhos sobre a existência dos Campinos nas lezírias ribatejanas, como o comprova este transcrito de Oliveira Martins dos finais do século XIX: "(...) chegamos ao Tejo (...). Nele com efeito o campino nos traz à ideia o tipo dessas raças da África setentrional, Líbios ou Mouros cujo sangue anda misturado nas nossas veias." … "A cavalo, de pampilho ao ombro, grossos sapatos ferrados, gorro vermelho na cabeça, o Ribatejano, pastoreando os rebanhos de toiros nas campinas húmidas e vicejantes, é como um beduíno do Nilo ( ... ) ".
De facto, é muito provável que já existam campinos desde os tempos das primeiras Casas Agrícolas, que necessitavam de pessoas para guardarem e cuidarem dos seus animais.
Depois, com a implantação do Estado Novo em Portugal, o campino até então um mero e simples trabalhador rural, foi transformado num arquétipo social, uma referência simbólica onde a Nação se reconhecia e através do qual se procurava dar às pessoas um motivo de orgulho nacional. Essa transformação reflectiu-se no traje de festa, que mais não passa de uma farda fornecida pelos patrões e devidamente identificada com o monograma da Casa Agrícola, para que os seus campinos os representassem com garbo nas feiras e festas onde se deslocavam com o seu gado.
Assim, distinguem-se claramente dois tipos de trajes:
- a roupa que é usada nos dias de trabalho (no dia-a-dia de um campino) é, regra geral, constituída por jaqueta, colete, cinta preta e calça comprida até aos sapatos;
- e o traje que é utilizada nos dias de festa, que é o que, de forma geral, o público mais rapidamente identifica como sendo do Campino. Este traje de festa é composto por calção com abotoadura lateral e ajustados à perna por botões, seguindo o modelo de traje de corte do sec. XVIII. O colete tem como principal característica a cor vermelha e a configuração do decote que deixa antever a camisa engomada. No traje de campino a camisa é simples, embora com carcela dupla que esconde os botões. Este conjunto é acompanhado por uma faixa vermelha e um barrete verde e vermelho. A jaleca tem a configuração de uma casaca, não sendo abotoada, muito embora se ajuste ao corpo e tenha botões de ambos os lados.
O conjunto dá ao seu utilizador um ar afidalgado e a atitude arrogante de um homem que tem brio na sua profissão e a coragem de enfrentar o touro de lide.
De olhar atento e porte autoritário o Campino assegura-se de que a sua árdua missão seja cumprida: "O gado olha-lhe a vara na campina deserta. É ele (Campino) que o dirige no voltear do cavalo, que o guia, que o conduz."

A sua figura de homem simples do campo, trouxe até ao nosso tempo a memória da funda relação que temos, nestas terras da lezíria, com cavalos e gado bravo. É no campo que tudo começa, nasce, cresce, vive, faz-se. Esse é o mundo do campino, é aí que se sente bem, no meio dos animais.
Muitos dos nossos campinos, que atravessaram mais de metade do século nesta sua profissão, começaram nas tralhoadas, quando os toiros se amansavam para servir na lavragem. Em moços foram rabeiros, assim chamados por trabalharem todo o dia com a rabiça da charrua, e brochavam os animais, forçando-os a admitir a canga.

Era isso trabalho simples, se assim se pode dizer. Porque tarefa difícil, que até custa a acreditar que fosse possível fazer, era levar o gado, através dos campos, os colocar a salva das águas do Rio Tejo, que no Inverno alagavam as terras baixas do Ribatejo. Mais de duzentas cabeças, toiros, novilhos, cabrestos, por três ou quatro dias de caminho, a fugir aos povoados para evitar azares.
Era um ciclo que se repetia, ano após ano, tal qual, seguindo o mesmo caminho, em chegando a Primavera e o regresso no Verão. Ficavam as vacas e os bezerros de mama. Tudo o mais ia-se embora para a imensidão das pastagens mais distantes do rio.
Esta vida de campino não tinha cama nem esteira, não sabia de conforto. Nem de festas, nem de nada. Era trabalho e uns copos, bebidos em grupo pequeno, no meio dos animais. E alguns sustos, às vezes, quando um toiro tresmalhava, ou se deixava furar um cavalo ou se apanhava uma cornada no corpo que Deus lhe deu.
Era uma vida difícil, mas da qual muitos têm saudades.
Se a vida do campino era dura, a da mulher não era melhor, pois cabia-lhe a ela cuidar da casa, dos filhos e ainda o trabalho do campo, suportando os longos períodos de ausência do marido e educando os filho para seguirem as mesmas pesadas do pai.
O traje do dia-a-dia era naturalmente simples, mas resistente, para suportar o desgaste do trabalho do campo. No entanto, é no traje de festa que a mulher do Ribatejo se aplica, apresentado saia rodada através do emprego de largas pregas laterais desenhando maior volume para trás. Sob a saia usa saiote e colotes, que apresentam um ligeiro folho de bordado inglês, conferindo ao conjunto grande requinte. A blusa de gola redonda, rematada com folho de bordado inglês, tal como na carcela e nos punhos. È na confecção do avental que a mulher se esmera, demonstrando os seus dotes de bordadeira, e a sua imaginação na escolha dos bordados e na confecção do modelo. Calça meias de renda branca e sapatos de carneira de cor natural.

quarta-feira, julho 26, 2006

A Filigrana em Portugal

Remontando ao 3º milénio a.C., no Médio Oriente, a utilização da filigrana foi difundida periódicamente: na época romana mais recente; na Idade Média, na Sicília e em Veneza; na época Barroca; e em finais de 800 e princípios de 900.
Consiste numa sucessão de grãos, obtidos a partir de um fio ou de uma lâmina de ouro ou prata (com um utensílio apropriado, que pode ser uma matriz com um punção adaptado à forma pretendida), com fins decorativos. Consegue-se o mesmo efeito óptico com uma trança de dois ou mais fios do mesmo diâmetro. Á sucessão de cada grão (granito), soldados em fila segundo a técnica aperfeiçoada ao máximo pelos Etruscos, pode dar-se o nome de “Granulado”.
Como indica a palavra “fili” e “grana”, o trabalho consiste na utilização de uma trança de dois fios metálicos torcidos e achatados, de forma que se limite, pelos dois lados, a forma primitiva dos dois fios, moldando-os em forma de parafuso.
Uma vez confeccionado, o fio é empregue no enchimento de uma armação, que constitui o desenho do objecto. Em Génova, cidade de marinheiros, esta estrutura recebeu o nome de “casco”, pela analogia com o casco de um navio que se recheia depois do lançamento; daí também o nome de “armação”.


A Filigrana, arte de trabalhar metais, é fundamentalmente uma técnica de ourivesaria, e insere-se no tipo de ourivesaria popular. Embora não sendo especifica da nossa tradição cultural, encontramo-la noutros países e culturas, constitui uma das formas mais características das artes portuguesas. Lembremos Joaquim de Vasconcelos, o estudioso e erudito revelador da nossa arte popular, que situa a filigrana e o filigraneiro no quadro da arte : «o oleiro, o ourives na filigrana, o feitor de jugos principalmente para citar só três, revelam-se os mais seguros e fieis adeptos da arte nacional. Eles nos conservam o alfabeto de formas decorativas mais rico, mais variado, mais puro, mais genuíno que uma nação pode apresentar» (Joaquim de Vasconcelos, Artes Decorativas, in “Notas sobre Portugal”, 1908).

Duas correntes têm acompanhado a filigrana ao longo do tempo, em relação à sua produção e uso.
Num primeiro momento, aparece como artefacto secundário da jóia, como técnica de primor e de «sentimento artístico», aplicada a adereços de luxo, de uso profano e sagrado, com apurado gosto no desenho, cujo imaginário e configuração artística a integravam num tipo de ourivesaria própria das classes mais elevadas da escala social. A filigrana foi aplicada em importantes peças de ourivesaria litúrgica, de que se são apurados exemplos o cálice de prata dourada do Mosteiro de Alcobaça, a Cruz de D. Sancho, exposta no Museu de Arte Antiga, as quais exemplificam o uso da filigrana, como ornato único. A filigrana vive então das jóias, nada valendo sem elas. Conotada como - técnica da aplicação – permanece com esta função até ao século XIX.
Num segundo momento, no segundo quartel do século XIX, já como - técnica de integração - , a filigrana mais complexa e perfeita, mais segura, liberta-se da chapa de laminar que decorava, ganhando lugar de peça individualizada; sobre um esqueleto, estrutura ou armação, o filigraneiro teceu, ergueu, armou com fios delicados toda a «arquitectura» da sua obra.
O gosto pelas jóias de ouro filigranadas também se manifestou entre as classes superiores da época, assumindo-se como objectos de prestigio social para quem os usava. Porém classificada como arte popular, porque é produzida nos interregnos das tarefas campestres em certos locais, principalmente nos arredores do Porto. Surgem assim, os típicos corações de filigrana, alguns com grandes dimensões, os crucifixos, as cruzes de Malta, as arrecadas, os colares de conta, os brincos de fuso ou à rainha. Todo esse ouro filigranado é, não só um ornamento, como uma capitalização certa e segura de economia caseira, essencialmente rural.
A filigrana passa a encarnar o lamento de quem ocupou durante séculos o pedestal de gloria, para depois, numa idade mais avançada, se ver destronada, desprezada. Acusam-na de uma arte menor.
A tecnologia própria à filigrana abrange uma memória e um espaço sociais, isto porque cada técnica vai fixar-se num centro geográfico, numa época que permite tirar o máximo partido das riquezas dos processos e, em simultâneo, realizar uma difusão progressiva dos produtos.
Toda a filigrana portuguesa e consequentemente, a de Gondomar, se desenvolve de uma forma tradicionalista. Por isso, a forma, o modelo, a decoração, pouco tem variado desde há séculos relativamente à sua técnica.


segunda-feira, julho 24, 2006

Figuras Típicas de Lisboa - Varina e Varino


Muito embora tenham vindo de outras regiões para a capital em busca de melhor vida, as varinas são, sem dúvida, uma das figuras típicas de Lisboa. De canastra à cabeça percorriam os populares bairros lisboetas, vendendo de porta em porta o fruto do mar. O seu traje é perfeitamente adaptado à sua função, blusa de algodão, saia ampla e comprida e avental de riscado. Para segurar a saia, adaptando a sua altura, ou o ventre, quando grávida, usa em volta das ancas uma faixa de fazenda. Na cabeça, um lenço de fazenda de lã e chapéu de feltro de aba pequena e revirada para cima, de forma a aparar os pingos que caiem da canastra. Nos pés, geralmente descalços, usa socas de madeira e carneira preta.
De inverno usa, pelas costas, um xaile de lã espesso que cruza no peito e amarra nas costas, de forma a permitir a mobilidade dos braços.


O varino provem de regiões costeiras a norte do Mondego. Alguns investigadores, identificam a sua origem na região de Ovar. Chegavam à foz do Tejo sazonalmente à pesca do sável, quando a faina terminava regressavam habitualmente às suas terras. No entanto, muitos foram-se fixando em Lisboa, em bairros como a Madragoa e Alfama, ou junto ao rio, constituindo várias comunidades piscatórias. No entanto, na foz do Tejo, estes homens dividem-se entre a pesca e o transporte de mercadorias entre as duas margens.
O seu traje é constituído por camisa de algodão e calças de pano cru, largas, de forma a que poderem ser arregaçadas. Usa camisola de lã grossa, trabalhada pelas hábeis mãos femininas, e faixa preta na cintura. Na cabeça, para proteger das intempéries ou do sol, um barrete de lã, neste caso preto. No tempo frio, o varino vestia um capote de saragoça, comprido e com gola larga ou capuz. Nos pés, sempre descalços no mar, usavam em terra socos de madeira e carneira. Este homens eram ainda populares nas tabernas junto ao cais ou nos seus bairros, pelas capacidades vocais, nomeadamente, no fado, que cantavam e tocavam primorosamente.

sexta-feira, julho 21, 2006

Traje da mulher da Nazaré


Blusa – de chita com ramagens; brancas, com flores pretas ou vermelhas; vermelhas e outras cores, com flores brancas. Todas a blusas são justas de modo a desenharem os bustos, sem parecer comprimi-los, dando-lhes um aspecto de grande elegância.
Nas blusas dos domingos e dias de festa o decote em vez de franzido ou da tira alta, apresenta uma pequena gola voltada de bicos arredondados, guarnecida com um folho estreito, tal como o macho da frente. As mangas são bastante curtas – uma mão-travessa abaixo do cotovelo – terminando com uma renda de 10 cm de largura. Só recentemente as rendas passaram a ser maiores e as mangas mais curtas, quase pelo cotovelo.
A blusa terminava em aba usada sobre a saia, embora actualmente as mulheres a usem por dentro da saia.
Por debaixo da blusa, para formar o corpo, usavam um corpete de pano cru para o trabalho e de pano branco para os dias festivos.

Saia – conforme a ocasião a que se destinam, assim variam os tecidos; para trabalho, escocês grosseiro ou castorina; para os domingos e dias de festa, escocês de lã fina, cachemira e chita.
A roda é dada pelos panos, afeiçoada à cintura por meio de pregas estreitas, que partem de um dos lados do ventre, contornam a cintura pela parte posterior e vão até ao outro lado, não tendo pregas sobre o ventre ou tendo-as bastante largas para não fazerem enchimento sob o avental. As saias de trabalho são apenas armadas no cós.
Por entre a abertura deixada entre dois panos, a mulher tinha acesso à bolsa que as nazarenas guardavam sob a saia.
A saia de festa, quando eram feitas de chita, a orla era guarnecida com uma barra de veludo preto, com cerca de 15 cm. A esta barra corresponde pelo interior uma outra de chita vermelha. Acima da barra poderiam ainda ser colocadas mais uma ou duas, dependente do gosto pessoal.
Quando são feitas de escocês o plissado era mantido até à região das ancas por uma costura ou bordado.
Há ainda a considerar as saias de baixo (saiotes), para tufar as saias foram consideradas suficientes 3, posteriormente passaram a usar-se muitas, em número incerto, só recentemente se fixaram em sete.

Avental – De riscado para o trabalho e de popelina para os dias festivos. Em ambos os casos bastante grandes, acompanhando a saia lateralmente e no comprimento, cobrindo-a ou deixando ver uma orlazinha. Eram confeccionados de várias formas e feitios, com rendas e bordados a matiz, raminhos com flores e folhas, ou folhas e bagas.
Hoje os aventais de festa são geralmente de seda ou cetim, profusamente bordados com composições vistosas.

O lenço ou cachené – são adquiridos no mercado: de lã de algodão, geralmente de cores escuras com decorações simples de cores contrastantes. São usados atados das mais diversas maneiras, ou apenas sobre a cabeça caindo soltos.

Chapéu – é de feltro preto, de forma cilíndrica, e na parte superior da copa tem uma ligeira depressão. A aba é revirada.
Do lado direito tem a ornamentá-lo um pom-pom de lã. Ao chapéu das viúvas falta este enfeite.

Capa – para os dias festivos é de tecido fino, preto, de lã. Tem cabeção de veludo da mesma cor, é de debruado a fita preta lavrada. Para o trabalho era de baeta debruada a fita de lã lisa.
A capa é ampla de forma circular. Normalmente, a capa é usada pela cabeça sobre o lenço ou pelos ombros, só com o trajo de festa.

As nazarenas andam vulgarmente descalças. Calçadas, usam tamancos de pele preta com sola de madeira ou chinelos de trança.
Para o trajo de festa, as mulheres usam chinelas de verniz preto com salto de sola.
Em tempo de frio usam umas polainas de malha de lã branca (meias sem pé) que atam ou não com fita por debaixo do joelho.

Descrição do trajo da mulher da Nazaré, com base nas recolhas efectuadas no início do sec.XX., por Abílio Leal de Mattos e Silva.

Traje de Festa e Romaria da Póvoa do Varzim

O colete da mulher da Póvoa, de cor vermelha, ultrapassa a linha da cintura, utilizando atilhos para melhor enformar o corpo ao gosto e ao modo da sua utilizadora. A saia branca, muito rodada e vincada em cós plissado que ajusta e marca a silhueta feminina.
Ao pescoço usa um lenço de forma quadrangular de algodão branco e na cabeça um lenço preto, também conhecido como cachené, estampado de vermelho com motivos florais. À cintura o “ourelo”, um cordão feito de fios de lã de várias cores, completa o conjunto. O “ourelo” era trazido pelo homem das terras distantes da Galiza para onde os deslocava em busca de melhor faina e o oferecia à namorada como um símbolo de compromisso mais sério e das boas intenções do rapaz.

No traje do pescador a camisola tricotada, reduz o seu corte ao essencial, uma abertura na cabeça, cavas e costuras laterais, sendo a gola virada. Os atilhos permitem utiliza-la aberta ou fechada. Os motivos decorativos, a vermelho e preto, identificam de imediato a profissão do seu utilizador, reconhecendo-se motivos náuticos, a coroa, as armas reais e as célebres “siglas”.
Estas constituem sinais próprios de cada família e são utilizadas tanto no vestuário como nos apetrechos de pesca, marcam a tradição e traduzem o orgulho ancestral pela profissão com o mesmo sentido de dignidade e honra dos brasões nobiliáticos.
As calças, são apertadas nas costas com presilha e fivela, sendo largas em baixo para poderem ser arregaçadas. À cintura, o homem poveiro enrola uma faixa de algodão de cor natural e na cabeça usa o “catalão”, um barrete de cor vermelha que ressalta na alvura do traje.
A cor branca destes trajes indicia a proximidade do mar e das areias, pois o trabalho na terra não permite o uso de tonalidades claras e o sal mancha as cores escuras.

Camisola Poveira


Camisolas de lã branca, bordadas em ponto de cruz com motivos em preto e vermelho (escudo nacional, com coroa real; patinhos; siglas; remos cruzados; vertedouros; grinaldas; apetrechos marítimos; etc), as camisolas poveiras foram, inicialmente bordadas por homens - os velhos «Lobos do Mar» retirados da faina, que esculpiam na lã toda a simbologia da sua vida.
Esta peça era elemento integrante do traje masculino de romaria e festa do pescador poveiro, cuja origem remonta ao primeiro quarteirão do séc. XIX. Este traje branco de branqueta (tecido manual) foi o que mais perdurou, mantendo-se até finais do século passado, sendo sempre o traje escolhido aquando da presença de elementos da comunidade junto das mais altas individualidades do país. Com a grande tragédia marítima de 27 de Fevereiro de 1892, o luto decretou a sentença de morte deste traje branco, assim como de outros trajes garridos. A camisola sobreviveu, ainda, pela primeira metade deste século, mantendo-se como peça de luxo de velhos e novos.
Foi com a criação do Grupo Folclórico Poveiro, em 1936, pelo etnógrafo António dos Santos Graça, que se assistiu ao renascimento do traje branco (de romaria e festa), onde a camisola poveira tem posição de relevo, e se iniciou a divulgação no exterior da colmeia piscatória local desta peça de extrema beleza - feliz expressão de mundividência poveira a quantos nos visitam, nacionais e estrangeiros. Actualmente, as Camisolas Poveiras existentes destinam-se a lojas de recordações turísticas.