quarta-feira, setembro 26, 2007

Trajos de Apanhadores de Chá – Ilha de São Miguel - Açores

Os Açores são a única região europeia a produzir chá.
Não havendo um registo oficial da data de introdução do chá na ilha de S. Miguel, a partir de vários relatos acredita-se a inserção inicial datar de 1750. Em 1878, a Sociedade Promotora da Agricultura Micalense procurou impulsionar a agricultura local, escolhendo a cultura do chá como umas das vertentes a apoiar. Assim no mesmo ano, chegaram a S. Miguel dois chineses da cidade de Macau, contratados com a finalidade de desenvolver as técnicas desta cultura. O cultivo do chá, encontra nos Açores condições favoráveis ao seu desenvolvimento, sendo a ilha de S. Miguel a que reúne as melhores. Até meados do século XX havia 12 a 15 plantações de chá nos Açores, principalmente na costa norte da ilha, no concelho de Ribeira Grande. A produção começou a decair, principalmente com a política do Estado Novo de protecção ao chá de Moçambique. Depois, a pouco e pouco, foram desaparecendo. Actualmente restam somente duas plantações, a da Gorreana e a de Porto Formoso.
Esta longa tradição de cultura de chá influenciou a indumentária regional, adaptando o trajo à actividade específica da colheita.
O homem usa um chapéu de palha feito com tranças de 6 pernas. É diferente do das mulheres porque estes são feitos com tranças de 8 pernas. A camisa é bastante comprida, até aos joelhos, com aberturas aos lados. As mangas são pouco franzidas e terminam com punho abotoado por um botão. Junto ao pescoço é rematado por um cós baixo a partir do qual, e ao meio, tem uma trincha que remata com botões. A fazer o peito tem nervuras perpendiculares que terminam na altura da trincha. Calças largas de cor igual à camisa e sandálias de cabedal com tira larga sobre o pé deixando os dedos à mostra.
A mulher usa a cabeça coberta com um lenço branco que envolve o rosto e amarra sobre a nuca. Chapéu de aba larga em palha, feito muitas vezes pelas próprias mulheres. Blusa branca com nervuras nas mangas, que são compridas, rematando em baixo com um folhinho de bordado inglês. A blusa, confeccionada em linho grosseiro, é usada por fora da saia de xadrez de duas cores. A saia é franzida na cintura e deve rematar com um cós baixo abotoado com um botão simples e com uma abertura que fecha com molas. Nos pés usa meias brancas rendadas e galochas simples, que devem ser cepos de madeira cobertos de tecido.
Referência Bibliográfica: Tomaz Ribas in O Trajo Regional em Portugal, Difel, 2004
Sites recomendados:
Plantações de Chá Gorreana
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terça-feira, setembro 25, 2007

Trajo de Duas Saias – Ilha de S. Jorge – Açores

Este é um trajo utilizado em diversas zonas da Ilha de São Jorge, mas também se podem encontrar indumentárias semelhantes no continente, na região da Estremadura.
Existem ainda registos de trajes semelhantes na Irlanda.
Este trajo é composto por duas saias de baeta creme, com barra cor-de-rosa, franzidas na cintura com cós e abertura lateral. São iguais, cada qual servindo no seu sentido, ou superior ou inferior. É citada por vários escritores como saia de ombros. Por baixo tem uma blusa ampla, de pano alinhado branco, com duas pregas fundas na frente e nervuras nos lados. É guarnecida por bordado inglês e franzida nos punhos e em volta do pescoço. Na cabeça, um lenço de lã estampado com flores e barras azuis. Calça meias de lã, feitas com agulhas e sapatos de sola de correola e cortes de baeta bordados a ponto pé de flor.
Referência Bibliográfica: Tomaz Ribas in O Trajo Regional em Portugal, Difel, 2004
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segunda-feira, setembro 24, 2007

Mulher da Fábrica de Conservas – Algarve


No final do sec.XIX surgem no Algarve as primeiras fábricas de conservas de peixe. A primeira surgiu em Vila Real de Santo António em 1879 pelas mãos de um italiano de nome A.Parodi. Quase de imediato, começaram a surgir pequenas fábricas conserveiras, atingindo, em 1945, 246 unidades.
As mulheres constituíam a principal mão-de-obra desta indústria, trabalhando em condições deploráveis.
A sirene da fábrica era o sinal mais esperado. O seu toque anunciava a chegada de peixe fresco e, consequentemente, a possibilidade de trabalho durante algumas horas. Nessa altura, uma turba de mulheres corria para a fábrica, na esperança de serem as primeiras e as escolhidas para trabalhar.
Inicialmente, não existiam condições de higiene e esta reflectia-se na indumentária das operárias, no entanto, com a evolução dos tempos foram sendo introduzidas algumas normas, nomeadamente, a obrigatoriedade do uso de vestuário de cores claras, lenços na cabeça e aventais de cor branca.
A operária da fábrica de conservas usava um lenço de cabeça de algodão branco, estampado com motivos florais. Bata de trabalho, também em algodão de cor clara, de corte simples e sem gola. Aberta na frente e de manga comprida, com punhos. Saia de algodão de cor escura, com aplicações do mesmo tecido. Avental com peitilho de linho branco, comprido, cobrindo quase totalmente a saia, possui um bolso estampado no lado direito. Calça tamancos de madeira com a parte superior em cabedal.
Referencia Bibliográfica: Andrade Sancho, Emanuel in Traje do Algarve – Orla Marítima, Museu Nacional do Traje, 2001
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Algarve

quinta-feira, setembro 20, 2007

Festa dos Tabuleiros – Tomar - Ribatejo


O Dr. Fernando Araújo Ferreira afirmava «o tabuleiro é um hino de cor. Um poema nascido da arte popular tomarense. Das mãos e inspiração do seu povo. Obedecendo a regras tradicionais, é ele que o arma é ele que o ornamenta. De gerações em gerações passou o jeito, a herança bonita. O Tabuleiro é uma oferta de pão, por isso o pão deve ficar à vista, a ornamentação pertence ao gosto de quem o decora, com flores de papel e verdura se for caso disso. O Cortejo vive e encanta pela variedade de cores e ornamentações.»
O historiador Dr. Manuel Guimarães, traduz a emoção de quem vai no Cortejo e quem assiste à sua passagem: «As raparigas, figuras principais, desfilam em duas longas filas ao lado dos seus ajudantes (os rapazes) que seguem do lado de dentro mas sempre atentos às companheiras. Dirigem-se à Praça da República onde o Cortejo enrola harmoniosamente até preencher sem sobressaltos a placa central. Um representante da Igreja vem à Praça, paramentado, dar a bênção aos Tabuleiros. Depois, a um sinal do sino, é a elevação, um momento inesquecível. Uma moldura humana impressionante, aplaude comovida este momento mágico, único, pela sua grandiosidade, simbolismo e beleza, único na nossa arte e na nossa cultura.»
A Festa dos Tabuleiros ou Festa do Divino Espírito Santo é uma das manifestações culturais e religiosas mais antigas de Portugal. Segundo os investigadores a sua origem encontra-se nas festas de colheitas à deusa Ceres. A sua cristianização pode dever-se à Rainha Santa Isabel que lançou as bases do que seria a Congregação do Espírito Santo, movimento de solidariedade cristã que em muitos lugares do reino absorveu as primitivas festas pagãs. O ponto alto das festividades que juntava ricos e pobres sem qualquer distinção ocorria no Domingo de Pentecostes, dia em que as línguas de fogo desceram sobre os Apóstolos simbolizando a igualdade de todos perante Deus.
A principal característica da Festa dos Tabuleiros é o Desfile ou Procissão, com um número variável de tabuleiros, em que estão representadas as dezasseis freguesias do concelho. Esta procissão de dignidade, cor, brilho e emoção percorre as principais ruas da cidade, num percurso de cerca de 5 Km, por entre colchas pendentes nas janelas, milhares de visitantes nas ruas e uma chuva de pétalas que de forma entusiástica é lançada sobre o Cortejo.
A Festa é do Tabuleiro que deve ter a altura da rapariga que o leva à cabeça, sendo constituído por trinta pães (tantos quantas as chagas de Cristo) enfiados em cinco ou seis canas que partem de um cesto de vime ou verga e é rematado ao alto por uma coroa encimada pela Pomba do Espírito Santo ou pela Cruz de Cristo.
Na primeira metade do sec.XX convencionou-se que os participantes no desfile deveriam trajar da seguinte forma:
O Homem veste calça preta, camisa branca, com as mangas arregaçadas, e gravata da mesma cor da fita do traje feminino. Usa ainda um barrete preto sobre o ombro, onde apoia o tabuleiro sempre que é necessário aliviar o sofrimento da rapariga
A rapariga apresenta-se de saia branca até aos pés e blusa da mesma cor. Usa uma fita com a cor da freguesia que representa. Na cabeça, para apoiar o tabuleiro, uma “sogra” de cor branca e decorada com fitas da mesma cor da do vestido.
Site :
Festa dos Tabuleiros
Imagens de José Júlio Ribeiro in Olhares.com

terça-feira, setembro 11, 2007

Trajos e ir à feira (boieiros) – S. Pedro de Rates – Douro Litoral


As deslocações às feiras sempre se reverteram de grande importância. A possibilidade de efectuar bons negócios com a venda dos produtos da terra, investindo estes proventos na aquisição de bens que não produz, motivou desde sempre os homens. Era também uma forma de tomar contacto com as novidades, as noticias ou efectuar uma determinada compra, antevendo uma ocasião especial.
Estes trajos representam os boieiros de S.Pedro de Rates, freguesia do Concelho de Póvoa do Varzim, quando se deslocavam às feiras com o seu gado.
Neste conjunto, destaca-se no trajo da rapariga o tecido caseiro da saia e do avental, localmente conhecido por “trezes”. Esta designação ficou a dever-se às três fibras usadas na tecelagem, lã, linho e algodão. Também devido aos três pedais ou peanhas pertencentes ao tear onde era produzido. Quanto ao “chapéu de pano”, como era conhecido, embora sendo de feltro castanho ou preto, comprava-se na Póvoa do Varzim, numa chapelaria já desaparecida.
O homem veste uma camisa de linho, com colarete, aberta sobre o peito com pregas e carcela formando peitilho, manga comprida sem cavas, decorada com preguinhas miúdas na parte superior. Calças compridas de tecido preto, ajustadas na cintura com faixa preta. Colete do mesmo tecido, com bolsos. Cobre a cabeça com chapéu de feltro preto e calça sapatos da mesma cor.
A mulher veste camisa de linho branco, decote guarnecido com duplo folho bordado a branco, aberta no peito, manga comprida, bordada a branco no cimo e refegos junto ao pulso, terminando com folho. Saia de “trezes” com preguinhas junto à cintura e barra azul. Avental do mesmo tecido, franzido na cintura. Atada à cintura, por debaixo do avental, uma algibeira de tecido azul decorada com pespontos. Faixa preta sobre as ancas, arregaçando a saia e o avental.
Cruzado sobre o peito, lenço de lã estampado com motivos florais, policromados, terminado com franja vermelha. Na cabeça, lenço atado atrás sobreposto por “chapéu de pano” de copa baixa e aba larga. Sobre o peito pendem cordões e corações e nas orelhas pequenas argolas.

Referência Bibliográfica: O Trajo Regional em Portugal, Tomaz Ribas, Difel, 2004
Site recomendado:
Câmara Municipal de Póvoa do Varzim
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Pastor – Minde – Estremadura


No essencial este traje identifica-se com os seus congéneres da região, mantendo alguns acessórios comuns a todos os pastores, como sucede com a manta, sempre de tecelagem caseira local e decorada nos tons naturais da lã. Também a saca da merenda, a cabaça com água-pé e porreto são indispensáveis para o trabalho atrás dos rebanhos.
A zona de Minde era um importante centro de produção de mantas e também de tecidos para os hábitos dos frades, terá contribuído para o abastecimento de panos de lã às populações mais próximas.
Por outro lado, a circulação destes produtos, nomeadamente das mantas, pelas feiras de todo o País, muito em particular no Alentejo, terá contribuído para influenciar o seu desenho característico, as mantas de riscas.
Mas os contactos entre estas duas regiões, também traziam do Alentejo a lã que abastecia a insuficiente produção local.
O pastor vestia camisa de riscado com cós, aberta sobre o peito. Colete de cotim cinzento-escuro, ajustado com botões. Calças do mesmo tecido, com bolsos metidos nas frentes, ajustadas com cinta preta. Na cabeça, barrete de lã da mesma cor e lenço tabaqueiro ao pescoço. Sobre o ombro, manta de riscas de Minde. Segura na mão a saca de retalhos onde transporta a merenda, a cabaça e o varapau. Calça botas de couro ensebadas.
Referência Bibliográfica: O Trajo Regional em Portugal, Tomaz Ribas, Difel, 2004
Site recomendado: Câmara Municipal de
Alcanena
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quinta-feira, agosto 30, 2007

Coisas de Mulher – Alentejo

Nas minhas deambulações pelo nosso país por vezes encontro pequenas publicações locais, mas com um grande interesse, quer em termos sociológicos, que etnográficos.
É um caso de um pequeno caderno com o nome “Coisas de Mulher …”, do Projecto das Escolas Rurais do Concelho de Estremoz, coordenado por Adosinda Maria Pisco e Maria Antónia Parulas, editado em 2000, e que é um excelente documento para quem queira compreender como viviam as mulheres do povo no Alentejo do inicio do sec.XX.
O excerto que passo a transcrever diz respeito ao capítulo “O Vestuário e o Calçado…” e retrata o uso do povo, pela voz das mulheres.
“Nós, as mulheres, tínhamos que fazer a roupa toda e só havia ordem de casar quando soubéssemos fazer tudo…
Aproveitávamos todos os bocadinhos que tínhamos para aprender com as nossas mães, ou as nossas avós, alguma tia ou vizinha mais chegada; e começávamos muito cedo, aí a partir dos 8 anos já aprendíamos uns pontinhos…
A grande maioria da gente não tinha maquinas para podermos coser a roupa; quando assim era alinhavávamos a roupa toda e depois pedíamos a quem tivesse máquina para ir lá coser.
E fazíamos a roupa toda: camisas, combinações, saias, saias de cima (só saias, fora a combinação eram quatro), fazíamos as meias de linha, as combinações todas com uma rendinha e um pontinho, os coletes, uns bordadinhos …, Os aventais …
As cuecas, só quando era mais velha, com 20 ou 21 anos, é que comecei a fazê-las para as usar, até aí nunca usei …
Só o que não fazíamos eram os lenços da cabeça, que comprávamos nas feiras, …O mais fazíamos tudo.
Também tínhamos de saber fazer a roupa dos homens: as ceroulas, até aos pés (não havia cá pijamas!), as calças, a camisa, o colete e a blusa de cima …, os coletes com bolsos à frente eram muito custosos de fazer e tinham preceito de ser feitos.
E aquela que não soubesse fazer era apontada, dizia-se:
- Ai atão tu vais casar com fulana? Ela não sabe fazer nada! Estás dereito da vida!
E a gente não queríamos ser apontadas e andávamos sempre naquele despique … E às vezes ainda não sabíamos fazer bem mas fazíamos de conta… Sentávamo-nos nas cadeirinhas, na rua, e entre todas íamos inventando assim uns pontinhos … Sempre havia umas mais velhinhas que iam orientando a gente … Senão, quando as nossas mães chegassem e os pontos não estavam a preceito, toca a desmanchar tudo … O mais custoso de aprender, para mim, era o talhar o molde, as medidas … E depois até as meias (meia de cinco agulhas) tínhamos de saber fazer – o cano e o pé – um palmo de pé e um palmo de cano. Fazíamos aquelas meias de linha, umas pretas, outras de carmesins, e depois fazíamos-lhe uma espiguinha de outra cor, uma espécie de folha, assim de lado …
E a roupa era só aquela … Uma muda para o trabalho e outra melhorzinha para os balhos e quando íamos à missa, às festas, às feiras …
As blusas eram todas de mangas compridas. Ninguém usava mangas curtas. Também ninguém andava em canelas, tudo calçava meias de linha …
Aprendíamos a fazer pespontos à mão, casear, alinhavar, pregar botões, fazer bainhas …
Inventávamos feitios diferentes para as saias – saias franzidas, saias pregadas, macheadas, aventais de godés, de peitilho … Algumas raparigas eram muito jeitosas, imaginavam as roupas, desenhavam os feitios … E a gente ia vendo e fazendo à nossa maneira.
Naquele tempo a gente até tínhamos orgulho em vestir aquilo que nós próprias fazíamos … Levávamo-nos naquela opinião … naquela influência …
Os tecidos eram pano cru, que se comprava à peça, a chita, o brocado, gorgorina, a saragoça (mais para os homens), o cotim, o riscado …
Tínhamos um grande cuidado com os aventais, fazíamos aventais muito bonitos… Com muitos feitios … Alguns bordados, com rendas … Andávamos sempre de avental, nos dias de festa púnhamos os melhorzinhos …
A maioria das mulheres fazia a meia, renda, ou a costura toda à luz da candeia de azeite e, mais tarde, à luz do candeeiro de petróleo … Era uso todas as mulheres terem o seu xalinho de algodão ou de lã, que punham pelas costas para agasalhar e tapar da chuva.
Muitas crianças só tinham uma roupita muito velha e remendada, a maioria das vezes feita já da roupa dos irmãos e que lhes deixava de servir …
Para as mães lha poderem lavar, tinham de ficar encerrados em casa à espera que a roupa enxugasse…
De Verão era um ai, mas de Inverno? Tínhamos de secar a roupa ao lume de chão e passá-la ao outro dia …
E não era fácil, nessas alturas, tratar da roupa … Não havia nem lixívia nem detergentes … Era tudo lavado à mão.
Íamos buscar água ao poço, ou lavávamos nas ribeiras … ou fazíamos um lavadouro de pedras e púnhamos uma laje mais direita por cima … ou então lavávamos numa celha ou de um alguidar grande (de barro ou de zinco) e lavava-se com assabão azul e branco … enjoelhadas no chão …
Em tempos mais antigos as mulheres é que faziam o assabão – compravam nas drogarias uns poses a que juntavam as borras do azeite, cinza e água. Fazia-se uma massa que depois a gente metia num molde de madeira … essa massa coalhava, ficava mais seca e a gente cortava-a aos bocadinhos e … era o nosso assabão.
A seguir apareceu um outro assabão muito escuro, que pareceia que era de alcatrão … até deitava assim um cheiro esquisito … mais tarde apareceu o assabão azul e branco.
Quando os homens no Verão suavam, ficavam aquelas sovaqueiras negras nas camisas e a gente não éramos capazes de as tirar com o assabão, lembro-me da minha avó ir à ribeira, arranjar umas ervas que se chamavam montrastes, fazíamos uma bola com essas ervas, que faziam muita espuma, esfregávamos e saia tudo da roupa …
Quando iam aos poços, às ribeiras, aos tanques (mais tarde), as mulheres levavam um tacho grande – uma lata grande – faziam lume e ferviam a água com a cinza do lume de chão e o esterco dos animais. Fervia tudo muito bem fervido e depois deitava-se por cima da roupa suja que estava no alguidar.
Tapava-se bem e quando arrefecia, lavava-se …
(…)
Mais tarde começou a ferver-se a água com a cinza e o assabão cortado às fatias fininhas … para fazer as tais barrelas … também começaram a juntar a potassa, que compravam nas drogarias …
Corava-se a roupa no chão, ao sol … estendia-se nos pastos, nas ervas e íamos com o regador, de vez em quando, borrifar a roupa, para ela corar melhor …
Depois lavava-se muito bem lavada, naquelas águas correntes, a roupa ficava muito bem descasqueada … E enxugava-se em carapetos árvores pequenas e arbustos, em cima das moitas, de tojos, silvas, coisas assim … Não havia arames, nem molas …
A primeira lixívia que conheci, ensinou-me a minha avó, era a urina da gente. Como não havia casas de banho, a gente urinava de noite nos bacios e depois aproveitávamos essa urina para deitar na roupa, durante um certo tempo, e depois lavava-se muito bem com as tais ervas e passava-se por águas limpas … A roupa ficava muito branquinha e sem nódoas …
Depois quando estava seca, recolhíamos a roupa e levávamo-la para casa para ser passada a ferro … Toda a roupa era passada a ferro …
Nos primeiros tempos, com ferros que iam aquecendo ao lume (de chão) para passar a roupa …Depois já com os ferros que levavam as brasas, é que a gente passava … Não havia luz …
Tínhamos de estar com atenção para o não deixar apagar … Volta e meia tínhamos de o abrir para espevitar as brasas ou pôr brasas novas …
(…)
A roupa de trabalho era lavar e usar, lavar e usar … Só nos vestíamos de lavado aos domingos …
A outra roupita que tínhamos guardada para as festas os arraiais, durava três ou quatro anos …
Chegávamos dos balhos, das festas e aquele vestido, ou aquela blusa era tudo muito bem limpo (principalmente debaixo dos braços que era da gente suar muito), com um trapinho molhado, ficava ao ar e depois era logo arrecadado, na arca … Não se andava sempre a lavar essa roupa melhor … Dava-se cabo …
(…)
Sapatos só aí a partir dos 10, 12 anos …Muitos ainda mais tarde ...
(…)
A gente habituava-se a andar com os pés à vontade, depois quem é que dizia que eles se queriam ver aperreados?
Os sapatos eram muito fortes, muito grossos, feitos para a lida da vida, para esses caminhos por onde a gente andava … E duravam muitíssimo, sempre havia um sapateiro que ia remediando a gente no calçado …
(…)
Ainda me lembro da minha irmã … Quando andava à azeitona … Chorava dias inteiros quando chovia … É que ela só tinha aquele xalinho que trazia pelas costas e quando chovia e ficava encharcada, sabia que, à noite, não tinha com que se tapar, na cama …”
Este primoroso trabalho, são muitas as passagens bastante interessantes sobre o trajo e o modo de vida no Alentejo. Não resisto a transcrever um outro testemunho, que demonstra bem quão distantes os estão conceitos de moda, senão vejamos:
“…A primeira vez que eu usei meias dessas de vidro, essas transparentes, foi pelas festas cá da aldeia … Mas houve mais raparigas que também usaram, a gente combinava-se umas com as outras …
Isso foi um grande advertemento para os rapazes … Eles ali sentados no banco em frente à igreja a verem passar a gente … E diziam:
- Aquela é surrada … Aquela é menos surrada … Aquela é a mais surrada …
Eles gostavam das mais surradas.
É que as meias de vidro deixavam ver os pêlos das pernas … A gente naquela altura não ligava a isso … Agora é que toda a moça se rapa toda; tiram os buços, debaixo dos braços, nas pernas … algumas até noutros sítios …
E aquilo para os rapazes era uma novidade … Era uma festa poderem ver os cabelos das pernas às moças …”
Referencia Bibliográfica: Pisco, Adosinda Maria e Parulas, Maria Antónia in “Coisas de Mulher …”, ICE - Projecto das Escolas Rurais do Concelho de Estremoz, 2000.
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sexta-feira, agosto 17, 2007

Trajo de trabalhadores Serrenhos - Algarve


A designação “serrenho” é dada aos homens e mulheres da Serra do Caldeirão e que partiam à procura de trabalho sazonal nas terras do Barrocal.
O homem veste gabão de corte direito, em tecido de lã (soriano), com capuz e sem mangas, cobrindo o corpo até aos joelhos. Camisa de riscado com cós, peitilho e presilhas. Calças de serrubeco, ajustadas na cintura com cinta preta de lã. Na cabeça, barrete preto de lã com borla e carapinha da mesma cor. Lenço tabaqueiro atado ao pescoço. Calça botas de carneira ensebadas. Suspende ao ombro a balsa com tampa, uma espécie de bolsa maleável com tampa para o transporte de alimentos, feita de palma entrelaçada.
O gabão era talhado em tecido caseiro pisado, sendo uma peça de agasalho na estação fria.

A mulher veste gabão de soriano, com capuz e sem manga, descendo até às ancas. Bata de talhe idêntico ao da camisa, mais curta, abotoada na frente com botões de osso. Saia comprida de estemenha, tecido misto de lã e linho, protegida por avental de riscado guarnecido com folho. Na cabeça, lenço de algodão branco estampado com pequenos motivos florais a preto, atado sob o queixo.

Nestes trajes salienta-se o uso de tecidos provenientes das tecelagens caseiras da serra algarvia, como o soriano e a estemenha. A qualidade e resistência destes tecidos tornava-os preferidos para a confecção de agasalhos, quer no trabalho do campo como da beira-mar, como na apanha do marisco e da morraça. A cor escura ajudava a ocultar ou disfarçar a sujidade e o desgaste.

Fonte: O Trajo Regional em Portugal, Tomaz Ribas, Difel, 2004
Site recomendado:
Câmara Municipal de São Brás de Alportel

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terça-feira, agosto 14, 2007

Trajo Feminino “da Encosta” – Braga – Minho

Este trajo de festa é oriundo da zona montanhosa do distrito de Braga, possuindo pormenores muito próprios. A jaqueta bordada é enriquecida pela aplicação de peles pretas, a que chamam “màràbu”, sendo, por isso, utilizada no Inverno. Também o lenço cruzado sobre o peito serve de contorno às peças de ouro, que não devem ultrapassa-lo.
Veste camisa branca, da qual apenas é visível o folho bordado que guarnece o cós do decote, oculta sobre a jaqueta preta de “armur”, decorada com “vidrilhos” e aplicações de pele nas frentes e mangas. A saia de “baetilha” é muito franzida na cintura e aparelhada até meia altura com aplicação de tiras de veludo, bordados a “vidrilhos” e fita de cetim. O avental é de veludo preto, bordado e guarnecido a galão. Preso na cinta, o lenço de pedidos branco marcado a preto com motivos de simbologia amorosa. Por baixo da jaqueta, usa um lenço de merino, denunciado apenas pelas franjas amarelas que espreitam junto à aba. Sobre os ombros, lenço de seda preta lavrada a amarelo com motivos florais. Calça meias rendadas brancas e chinelas pretas pespontadas a branco. Como adornos podemos ver fio de contas, cordões, cruzes, corações e brincos à rainha pendendo das orelhas.
É, assim, um trajo de uma mulher abastada.


Referência Bibliográfica: O Trajo Regional em Portugal, Tomaz Ribas, Difel, 2004
Site recomendado: Rusga de São Vicente
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segunda-feira, agosto 13, 2007

Trajo de ida ao mar – Póvoa de Varzim – Douro Litoral

Estamos perante trajos de trabalho, onde os tecidos de lã têm uma grande predominância, quer como agasalho do corpo, quer como resistência à corrosão da água salgada.
O pescador usa camisa de tecido de lã aos quadrados. Como protecção suplementar, veste o colete de “lanchão”, tecido “encascado” com casca de salgueiro, forrado a “castorina” e ajustado na frente com atilhos feitos de fio de pesca. Protege a cabeça com “catalão” de lã. Calças de branqueta preta e ceroulas de tecido de lã axadrezado, apertadas com fita de nastro nos tornozelos. Anda descalço e transporta os apetrechos de pesca.
No trajo feminino, os tecidos de lã são também os preferidos para o colete e saia. A camisa, de corte tradicional, é de algodão branco, o colete de “berre”, tecido de lã vermelho, ajustado na frente com cordão. A saia é de “castorina” aos quadrados brancos e pretos, pregueada na cintura com macho na frente, soerguida com listão colorido. Lenço de algodão estampado, cruzado no peito e cachené na cabeça, atado atrás. Anda descalça.
Embora caiba ao homem ir ao mar, a sua companheira não se furta a ajuda-lo no transporte dos apetrechos da faina, carregando os mantimentos e as redes, e aguardando depois na praia o seu regresso.
O rapaz veste camisa aos quadrados de corte vulgar, calças pretas de tecido de lã e na cabeça usa uma boina de origem espanhola.

Referência Bibliográfica: O Trajo Regional em Portugal, Tomaz Ribas, Difel, 2004
Site recomendado:
Câmara Municipal de Póvoa do Varzim
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sexta-feira, agosto 10, 2007

Mulher dos Cabazes – Nazaré – Estremadura

O trabalho desta nazarena consistia no transporte à cabeça dos cabazes com peixe trazidos nos barcos até à praia. Carregava sempre os cabazes em número par e ganhava à corrida, entre a barca e a lota.
Tratando-se de um trajo de trabalho a saia de duas rodas apresenta dois tipos de tecidos diferentes. Um em castorina de lã escura formando riscas, o outro de escocês junto à cintura. Era muito frequente as saias serem remendadas com outros tecidos à medida que se iam rompendo. Tudo se aproveitava, porque os ganhos não chegavam para os gastos.
O gesto de segurar na boca a ponta do xaile era habitual, pois a mulher dos cabazes tinha de limpar com frequência a cara, molhada com a água que caia das canastras.
Vestia um casaco de algodão estampado com motivos florais, gola de bico ou redonda e frentes abotoadas, com manga comprida. Saia de tecido de castorina e escocês, franzida na cintura, descendo até meio da perna. Avental de tecido de algodão azul ganga, com cós, bolsos e orla cosidos a à jour. Na cabeça, lenço estampado atado na nuca e um pequeno xaile de lã, deixando cair as pontas.
Para ajudar a suportar os cabazes usa uma rodilha sobre a cabeça.

Referência Bibliográfica: O Trajo Regional em Portugal, Tomaz Ribas, Difel, 2004

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quinta-feira, agosto 09, 2007

O Alforge – Alentejo

O alforge era um acessório amplamente utilizado pelo homem alentejano sempre que se deslocava no dia-a-dia ou nas idas às feiras e romarias.
A sua função era o transporte dos produtos adquiridos, a merenda ou outros pertences.
Para o trabalho, o alforge era confeccionado em tecido de lã proveniente de tecelagem caseira, em cores naturais e escuras, forrado de riscado.
O alforge utilizado em ocasiões festivas era muito diferente, rico em pormenor e colorido. Era confeccionado em tecido industrial de lã e decorado com o monograma do proprietário e motivos florais bordados com fios de lã policromados. Guarnecido na orla com pespontos, os cantos são rematados com borlas policromados.
Os homens exibiam com grande vaidade estas peças confeccionadas pelas mulheres da família.
Fonte: O Trajo Regional em Portugal, Tomaz Ribas, Difel, 2004
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sexta-feira, agosto 03, 2007

Trajo de Gala de Pastor – Marvão – Alentejo

Neste trajo de festa masculino podemos observar reminiscências do trajo setecentista pelo uso dos calções, costume que foi desaparecendo ao longo do sec XIX, apesar de pontualmente surgirem no sec xx .
Também as polainas ou polainitos eram protecções indispensáveis para todos aqueles que se deslocavam nas charnecas cobertas por mato. O progressivo desaparecimento dessa vegetação, devido ao arroteamento dos campos, tornou desnecessários estes acessórios, levando praticamente ao seu desaparecimento. Actualmente, confeccionados em pele, são sobretudo utilizados por caçadores ou cavaleiros em trabalho de campo.

O traje masculino é composto por jaqueta de serrubeco castanho, com gola e bandas pespontadas, bolsos metidos nas frentes e duas ordens de botões. Calções do mesmo tecido, com alçapão, abotoados junto aos joelhos com botões amarelos. A cintura é ajustada e aconchegada com cinta preta bordada e com franjas. Camisa branca com cós e carcela na frente na frente. Polainitos de serrubeco ajustados ao lado com botões de metal amarelo. Na cabeça usa chapéu de feltro preto. Calça meias de algodão branco rendadas e botas de cano curto atacoadas de cor preta.

A mulher usa blusa de tecido de algodão estampado, com gola redonda, encaixe guarnecido com folho, abotoada à frente, manga comprida com folho no punho. Saia de tecido de lã azul, franzida na cintura e decorada com tiras de tecido lilás. Avental de algodão branco, bordado a azul e guarnecido na orla com pregas. Na cabeça, lenço de algodão estampado com as pontas soltas e caídas no peito. No braço transporta um xaile de lã lavrado a seda. Calça meias brancas rendadas e sapatos pretos, ajustados no peito do pé.
Referência Bibliográfica: O Trajo Regional em Portugal, Tomaz Ribas, Difel, 2004
Site recomendado:
Câmara Municipal de Marvão
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quarta-feira, agosto 01, 2007

Carroceiro e Lavadeira – Região Saloia – Estremadura

As frutas e os produtos hortícolas que abasteciam os mercados de Lisboa eram produzidos nas zonas agrícolas que envolviam a capital, conhecida por região saloia. Os carroceiros ajudavam os lavradores a transportar os produtos nos seus carros até à Praça da Figueira.
Embora o trajo do carroceiro não seja muito diferente do trabalhador rural da mesma região, leva consigo alguns acessórios que o distinguem, como a guizeira, as peias e o chicote, indispensáveis para aparelhar os animais.
Veste o guarda-pó, uma camisa de riscado azul e branco, com cós, frentes abotoadas e fralda com nó na cintura. Camisola interior “mata borrão” de malha de algodão mesclado. Calças de lã castanha serrubeco ou cotim, ajustadas na cintura com cinta de lã preta. Por baixo, ceroulas de flanela ou pano cru. Na cabeça, barrete preto com borla e carapinha da mesma cor, no fundo do qual guardava o tabaco e as mortalhas para fazer cigarros. Calça botas de atanado.
Em tempos não muito distantes, as mulheres desta região deslocavam-se periodicamente à cidade para recolher e entregar a roupa das casas das freguesas. Ocupavam-se da sua lavagem, transportando as trouxas de roupa para os rios e lavadouros, próximos das suas habitações. Neste vaivém periódico, as lavadeiras vestem-se de forma cuidada, não só para se apresentarem à sua clientela citadina, mas também, porque a deslocação a Lisboa merecia alguma deferência.
Nesta altura, vestia blusa de algodão estampado, cintada formando aba, frentes com gola redonda, encaixe com franzido, abotoadas e guarnecidas com folho, manga comprida tufada, ajustada no punho com folho. Sai de lã franzida na cintura e debruada com fita com orla. No caminho, para a proteger, enrolava-a ao nível da anca, já que por baixo usava uma outra saia, mais gasta própria para aguentar as dificuldades da viajem.


Atada à cintura leva a “patrona”, uma algibeira contendo o rol da roupa e algumas moedas. Na cabeça, lenço de lã estampado cruzado na frente e apertado na nuca. Calça botas de atanado, abotoadas de lado, e meias de algodão rendadas. Transporta a trouxa de roupa.



Referência Bibliográfica: O Trajo Regional em Portugal, Tomaz Ribas, Difel, 2004
Site recomendado: Escola Secundária de Caneças


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terça-feira, julho 31, 2007

Apanhador de Medronho – Algarve

Uma das bebidas mais populares e apreciadas do Algarve é sem dúvida a aguardente de medronho.
O trajo de trabalho do homem algarvio era geralmente sempre o mesmo, sofrendo pequenas alterações com a introdução de algumas peças ou acessórios específicos para o desempenho de determinada actividade.
É o que sucede com o trajo do apanhador de medronho, já que, ao vestir um par de ceroulas sobre as calças de cotim, procura protege-las das nódoas causadas pelos frutos maduros. Estas manchas eram difíceis de retirar dos tecidos de cor, mas facilmente eliminados do tecido branco, após sucessivas barrelas e coras.
Este trajo era composto por uma camisa de riscado, com cós e peitilho. “Gribalda” de riscado preto e branco com cós, espelho e frente franzida, abotoada e com as pontas atadas sobre a cintura. No peito, do lado direito, uma algibeira com pala e botão, onde guarda o tabaco. As calças eram de cotim azul, sobrepostas por ceroulas de pano cru, ajustadas nos tornozelos com fita de nastro. Na cabeça, chapéu preto de aba larga e copa redonda. Calça botas de atanado. Na mão, segura um cesto de cana com asa a tiracolo.

Referência Bibliográfica: O Trajo Regional em Portugal, Tomaz Ribas, Difel, 2004


Site recomendado: São Bartolomeu de Messines

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segunda-feira, julho 30, 2007

Cabreiro – Algarve

O traje do cabreiro não difere do trajo do trabalhador rural, apenas nos acessórios específicos para a actividade a que se dedica.
Consigo traz tudo o que necessita para o seu dia atrás do rebanho de cabras.
A “balsa” de esparto para a merenda, a cabaça para a água, o “cucharro” de cortiça para beber, o cajado para se apoiar, a funda para atirar pedra.
Nestas longas e lentas caminhadas pelos campos a flauta é a sua companheira.
Veste camisa de riscado, fechada na frente por botões de osso, sobre a qual usa um colete de cotim. Sobre estas duas peças uma outra camisa de riscado azul e branco, atado à frente, ao nível da cintura, com um nó, sendo guarnecida com um bolso no peito, onde guarda o tabaco. Calças de cotim idêntico ao colete, protegidas por safões de pele de carneiro, ajustados na cintura e na parte interior das pernas, com presilhas e botões. Reforçando a protecção das pernas usa polainas de couro, fechadas com presilhas. Calça botas de carneira.
Na cabeça usa chapéu de feltro de aba larga e ao pescoço traz um lenço tabaqueiro para limpar o rosto do suor.

Referência Bibliográfica: O Trajo Regional em Portugal, Tomaz Ribas, Difel, 2004
Site recomendado: São Bartolomeu de Messines
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Traje de Festa Feminino – Ílhavo – Beira Litoral

Trata-se de um trajo de festa em que existe uma clara afirmação do poder económico da mulher, não só pelos adornos, com pelo uso do mantéu, um elemento imprescindível do traje de luxo, coroado pelo magnifico chapéu, tão grande que se torna necessário usar presilhas para segurar a aba à copa.
Veste camisa de linho, com um pequeno cós guarnecido de renda larga, abotoada à frente com botões de tremoço, forrados a tecido, manga comprida com punho. Colete de seda lavrada, vermelho-vinho, debruado a preto, ajustado na frente com cinco pares de botões de prata e respectivas abotoaduras. Saia de tecido de lã preta, comprida, franzida na cintura e guarnecida em baixo com barra de veludo recortada e contornada com galão. Sobre a anca, faixa cor de vinho, que não ajusta, e algibeira preta bordada, suspensa na cintura.
Envolvendo o corpo usa um amplo mantéu preto, com cabeção largo de veludo guarnecido a galão e frentes debruadas também a veludo e galão.
Na cabeça usa um lenço lavrado, com as pontas laterais levantadas, acompanhando a larga aba do chapéu de presilhas, presas à copa e rematadas com pompons.
As chinelas pretas e as meias brancas eram acessórios indispensáveis neste trajo.
Referência Bibliográfica: O Trajo Regional em Portugal, Tomaz Ribas, Difel, 2004
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quinta-feira, julho 26, 2007

Traje de Luto – Póvoa do Varzim – Douro Litoral


No século XIX, seguiam-se regras severas para o traje de luto. Para parentes próximos, usava-se o preto durante meses ou até anos. Para parentes distantes, as roupas possuíam detalhes em preto. Quando o príncipe Alberto morreu, em 1861, a rainha Vitória enlutou-se e ajudou a promover uma grande voga de roupas pretas.
Na tradição popular portuguesa o luto era profundamente vivido e socialmente controlado.
Essa vivência fazia com que fossem colocados de lado os trajos mais vistosos, muitas vezes para o resto da vida, como aconteceu com o traje de branqueta da Póvoa do Varzim após o naufrágio de 1892, que enlutou a maioria das famílias dessa região, apenas sendo ressuscitado em 1936 por Santos Graça.
Durante o luto, o homem poveiro usava camisa ou camiseta preta. Se possuía fato preto, usava-o, quando o não tinha, punha o fato de trabalho mais escuro e colocava na cabeça um casaco pendurado pela cava interior de uma das mangas.
O uso do Gabão também era comum. Este era feito de tecido de lã castanha (saragoça) com cabeção, capuz e mangas compridas. Nas frentes, carcela e bolsos metidos a costura era pespontada a branco. Forro de branqueta. O capuz cobria não só a cabeça, mas ocultava o próprio rosto, resguardando-o de olhares estranhos.


A mulher usava casaco e saia pretos, lenço preto na cabeça, embiocado, e uma saia de costas, também preta, muito semelhante à saia de vestir, com pregas miúdas junto à cintura, embora mais curta e com menos roda. Colocada sobre a cabeça, envolve o corpo até à cintura.
O trajo de luto anulava praticamente a figura da mulher. Como sinal de tristeza profunda, de renúncia ao conforto e desprendimento dos bens materiais, esconde o rsoto dos olhares intrusos e anda descalça.

Fontes:
O Trajo Regional em Portugal, Tomaz Ribas, Difel, 2004
O Traje do Litoral Português, Câmara Municipal da Nazaré – Museu Etnográfico e Arqueológico Dr. Joaquim Manso, 2003
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Trajos da Eira – Boidobra – Beira Baixa

Estamos perante trajos de Verão, usados aquando da limpeza do cereal na eira. Os tecidos são simples e frescos, cobrindo todo o corpo, evitando que o pó entre em contacto com a pelo, causando irritações desagradáveis.
A mulher no trabalho da eira usa blusa de algodão riscado, com pequena gola em banda, abotoada à frente com botões, manga comprida com punho. Saia de tecido de algodão vermelho, franzida na cintura e protegida na frente por um avental comprido de algodão estampado, com bolsos.
Na cabeça usa um lenço de algodão estampado, com as pontas laterais atadas sobre o chapéu de palha de abas largas, calça socos com rasto de pau. São instrumentos de trabalho a pá e o forcado.

O homem veste camisa de algodão de manga comprida, ou, por vezes, apenas a camisola interior de malha. Veste calças de cotim em tons de azul, ajustadas na cintura pela faixa preta. Por debaixo das calças, veste ceroulas de tecido de algodão, ajustadas junto aos tornozelos com fita de nastro. Na cabeça, para proteger do impiedoso sol de Verão, chapéu de palha de aba larga e ao pescoço lenço tabaqueiro, que lembra a necessidade de limpar o suor do rosto durante o trabalho árduo.
Calça socas sem meias. Como instrumento de trabalho usa o malho e para aplacar a sede traz presa à cinta uma cabaça.

Fonte: Ribas, T., O Trajo Regional em Portugal, Difel, 2004

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quarta-feira, julho 25, 2007

Romeiros da Senhora da Atalaia – Montijo


A romaria à Senhora da Atalaia remonta ao sec.XVI, época em que os empregados da alfândega de Lisboa prometeram dedicar uma romagem anual ao santuário se Lisboa ficasse livre da peste. Este círio ganhou grande importância no reinado de D.José I.
Num pequeno monte junto ao Montijo, foi edificada uma ermida que conheceu momentos de grande afluência de romarias. Os círios provinham de muitas localidades e alguns de mesteres profissionais.


A grande festa dos círios era, como ainda hoje, no último dia de Agosto, altura em que acorriam os círios e muito povo.
Sendo uma das grandes manifestações de religiosidade popular da margem sul do Tejo, naturalmente, os trajos exibidos nestas ocasiões são os de festa, a que associam acessórios de carácter religioso e de significado prestigiante para o seu portador.




No início do sec.XX um dos trajos apresentados pelos homens em romaria era descrito como usando camisa de linho branca, colete de tecido de lã castanho, com gola de rebuço e acertoado na frente, com bolsos, de onde pendia a corrente do relógio. Calças de tecido idêntico ao do colete, ajustadas com cinta preta, e lenço tabaqueiro no bolso. Na cabeça, chapéu de feltro de aba larga, direita. Calça sapatos pretos.
Segura a bandeira com a imagem da Senhora da Atalaia e no peito exibe a medalha, indicando ser um dos compradores dessa bandeira.
A mulher apresenta blusa com gola, frentes com encaixe decorado com folho e pregas contornadas com renda aplicada, manga folgada com punho. Saia de tecido de lã, decorada com listas em tons de verde, franzida na cintura e debruada na orla. Avental branco, comprido, bordado com motivos florais. Segura um xaile preto de merino e um alguidar e a toalha de rosto, peças imprescindíveis para cumprir o ritual da festa, ou seja, a tradicional lavagem do rosto com água da Fonte Santa.

Fonte: Ribas, T., O Trajo Regional em Portugal, Difel, 2004
Site recomendado: Rancho Etnográfico de Danças e Cantares da Barra Cheia