quinta-feira, fevereiro 28, 2008

Profissões antigas de Lisboa



Nota: Por lapso a imagem referente às lavadeiras não é de Lisboa, mas de Coimbra, as minhas desculpas pelo equivoco.


Carlos Cardoso

sexta-feira, fevereiro 15, 2008

O modo de usar o lenço – Leiria – Estremadura

O trajo, no seu todo, não é mais que o conjunto das partes, ou seja, é composto por vários elementos que em separado dificilmente nos conseguem dizer algo sobre o modo, quem ou quando se usava. Quem estuda trajos, muitas vezes, baseia o seu trabalho em imagens antigas, com muita ausência de pormenor e que, não poucas vezes, deixam mais duvidas que certezas. As imagens que vos apresento, encontrei-as na Internet e são reproduções de postais da do Turismo de Leiria, representam duas formas de pôr o lenço com o chapéu na região de Leiria e são esclarecedoras quanto ao modo de usar. São estudos de lenços de Anjos Teixeira, datados de 1942 e 1950, que pela riqueza de pormenor merecem ser apreciados.

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terça-feira, fevereiro 12, 2008

Almocreve ou Azemel – Batalha – Estremadura

Os almocreves ou azemeis, do árabe "az-zammal" (o que impele), e que significa condutor de azémolas (besta de carga), eram pessoas que conduziam animais de carga e/ou mercadorias de uma terra para outra.

Numa época de comunicações limitadas, os almocreves eram essenciais como agentes de comunicação inter-comunitária (além de serem indispensáveis ao abastecimento de bens às vilas e cidades). De entre as rotas de abastecimento mais importantes, destaque para as que levavam os almocreves a transportar peixe para o interior e, no sentido inverso, cereais. Não confundir almocreves com mercadores, pois que na maior parte das vezes os bens que transportavam não eram propriedade sua, embora fosse comum um almocreve ser também mercador.

Este traje, dos finais do século XVIII e princípios do século XIX, apresenta calções verdes com os folhos das ceroulas à vista. Botas de meio cano com espera no pé direito. Cinta violácea. Jaleco castanho, colete, camisa de linho com folhos. Chapéu minderico com borla na aba. Lenço debaixo do chapéu. Corrente de prata ou de ouro no colete com moedas pendentes. Varapau ferrado para conduzir os animais.
Site recomendado: Rancho Folclórico Rosas do Lena
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domingo, fevereiro 03, 2008

Pescadores do Tejo - Ortiga – Beira Baixa


Ortiga é uma freguesia do Concelho de Mação e distrito de Santarém, encontrando-se na confluência de três províncias - Ribatejo, da Beira Baixa e do Alto Alentejo - soube fundir as três culturas e moldá-las com usos e costumes muito próprios, determinados sobretudo pela omnipresença do rio Tejo.

Os trajos desta região não eram muito ricos, já que a terra é pobre e o povo tinha magras posses, havendo no entanto alguma variedade, especialmente no trajo da mulher. A sua confecção é modesta e o corte simples, sóbrio e pouco colorido, apesar de bem cuidado, notando-se os tons escuros a condizer com a paisagem envolvente. De uma maneira geral, as mulheres sabiam costurar e por vezes os trajos que usavam durante muito tempo, iam sofrendo pequenas alterações e adaptações, de forma a serem aproveitados ao máximo, já que as posses eram poucas e não permitiam que se fizessem trajos novos com frequência.

O trajo que vos apresento é o dos Pescadores do rio Tejo, já que este serve de fronteira à freguesia e naturalmente influenciava a forma de viver das suas gentes.

O homem veste camisa de riscado, colete de cotim sem botões, calça de cotim, cinta preta, barrete preto e calça tamancos ou botas grosseiras.

A mulher veste blusa de riscado ou chita, saia de lã ou fazenda, avental de riscado e lenço de merino ou algodão. As saias de baixo eram em flanela ou algodão, calça meias de cordão sem pé e tamancos.

Fonte: Grupo Etnográfico e Folclórico da Liga Regional de Melhoramentos de Ortiga

domingo, janeiro 27, 2008

INATEL entrega apoios a CCD’s

O Planos Nacionais de Apoio é um projecto desenvolvido pelo INATEL constituindo elemento essencial no relacionamento directo com os Centros de Cultura e Desporto, e dirigido exclusivamente a estes, permite-lhes a obtenção de meios essenciais às suas actividades culturais, como apoios financeiros para a aquisição de trajes e calçado, instrumentos musicais ou equipamento necessário para a produção de peças teatrais.

Na presente edição, referente ao ano 2007, foram contempladas 552 colectividades de todos os distritos e regiões autónomas, num investimento global anual que ronda os 500.000€ distribuídos pelos planos organizados:

- Plano Nacional de Apoio à Etnografia

São contemplados 278 Centros de Cultura e Desporto, com apoios que consistem na atribuição de instrumentos musicais e apoios financeiros com vista à aquisição de trajes e calçado tradicional.

- Plano Nacional de Apoio à Música

Atribuição de instrumentos musicais a 222 colectividades.

- Plano Nacional de Apoio ao Teatro

Atribuição de equipamento cénico de som a 45 Centros de Cultura e Desporto.

- Plano Nacional de Apoio a Boletins Culturais

Atribuição de apoios financeiros para a edição de Boletins Culturais, com o objectivo de promover e divulgar a actividades dos Centros de Cultura e Desporto. Foram contempladas 7 colectividades de todo o país.

A cerimónia de entrega dos apoios aos CCD’s das regiões Centro e Sul decorreu hoje, dia 27 de Janeiro, no Teatro da Trindade, em Lisboa.

O magnífico espectáculo apresentado em Lisboa foi o resultado de um desafio lançado aos CCD’s participantes nos Concursos Nacionais do INATEL, subordinado ao tema “Vamos Contar Histórias”, e uniu, num espectáculo com o mesmo nome, as participações de várias colectividades. Foram várias as histórias, contadas em pequenos quadros, nas áreas da etnografia e teatro, muito do agrado do público presente.

Para os CCD’s da região norte, a cerimónia decorrerá na Guarda no dia 10 de Fevereiro, a julgar pelo espectáculo de Lisboa, é algo a não perder.

terça-feira, janeiro 15, 2008

Trajo de Lavradeira Rica – Douro Litoral

As romarias eram, e ainda são, o local tradicional para o convívio e o encontro social, propicio ao cruzamento dos mais diversos estratos sociais em torno de uma devoção religiosa comum. Eram o evento ideal para cada romeiro exibir o seu melhor trajo, rico nos pormenores, revelador da sua condição social e das suas origens rurais ou citadinas.
No caso da lavradeira rica do Douro Litoral, poderá parecer que o seu trajo tem um papel secundário. O preto serve de fundo aos adornos de ouro e que são o símbolo da sua riqueza e estatuto social.
Este trajo é composto por camisa de algodão completamente oculta, excepto os folhos espreitando no decote e nos punhos. Casaquinha de seda lavrada (preta), cingida ao corpo formando uma aba de renda plissada, guarnecida com franzidos e galões (provavelmente, também vidrilhos), ajustada na frente com botões. Mangas compridas com decorações idênticas nos punhos. Saia de tecido idêntico ao da casaquinha, com ampla roda, pregueada na cintura e decorada na orla com um tecido diferente, presumivelmente veludo. Calça meias brancas e chinelas de verniz pretas. Na cabeça, lenço de seda e chapelinho ornado com plumas.
Do conjunto, destacam-se as peças de ouro típico da região, sobretudo, pela sua dimensão, uma cruz de malta presa a um cordão de três voltas.
Imagem: Revista “Ilustração”, nº 110, 1930-39
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Filigrana - Douro litoral

sábado, janeiro 12, 2008

Imagens do Douro


A revista Evasões publicou, conjuntamente com o seu número de Outubro de 2007, um suplemento sobre o Douro. Neste encontram-se algumas fotografias de dois fotógrafos que registaram em imagem o quotidiano do Douro do final do sec.XIX e inicio do séc. XX, Emílio Biel e Domingos Alvão.

Pela sua riqueza etnográfica não quis deixar de colocar à vossa disposição algumas dessas imagens e deixa-vos uma breve biografia destes dois homens.

Carl Emil Biel, que após a sua vinda para Portugal passou a usar o nome de Carlos Emílio Biel, nasceu na Alemanha a 18 de Setembro de 1838 e faleceu no nosso país com quase 77 anos, depois de uma vida surpreendentemente activa e interessante, passada sobretudo na cidade do Porto. O uso industrial da fototipia, introduzida em Portugal por Carlos Relvas, foi possivelmente a área onde a actividade empresarial de Emílio Biel mais se distinguiu, facto a que não terá com certeza sido alheio o seu interesse pela fotografia. À época em que o Bilhete Postal Ilustrado (BPI) iniciou no nosso país a sua idade de ouro, Emílio Biel dispunha assim já de uma elevada sensibilidade artística, à qual se associavam todos os recursos técnicos necessários para lhe permitir converter-se num dos nossos principais editores . Tendo produzido cerca de 500 BPI, dos quais pelo menos cerca de metade dizem respeito à cidade do Porto.

Domingos do Espírito Santo Alvão, “Nasceu no Porto em 1869, no campo da regeneração, no seio de uma família da nova burguesia.
Iniciou a sua actividade na Casa Biel (de Emílio Biel), e, depois de um breve estágio por Madrid, entra como operador-gerente para o estabelecimento do capitalista Leopoldo Cyrne, o Foto-Velo Clube, situado na rua de Santa Catarina, n.º 120. Em 1903 estabelece a sua própria casa no Velo-clube, que passaria então a chamar-se «Fotografia Alvão».

Além de ter sido o fotógrafo oficial das grandes empresas e instituições e do próprio Estado, foi várias vezes distinguido nacional e internacionalmente, é considerado um dos maiores fotógrafos do século XX. Nas suas imagens utiliza o grande plano como enquadramentos médios e aproximados, numa óptica de retratismo/documentarismo muito em voga na época.” (CVRVV, Ed. Internet).








Fonte bibliográfica:
Suplemento “Douro” da revista Evasões nº 114 de Outubro de 2007

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quinta-feira, janeiro 10, 2008

Bordados da Figueira da Foz – Buarcos – Beira Litoral

Os bordados mais conhecidos da Figueira da Foz são bordados em aventais de uma povoação de pescadores, localizada a cerca de 1 km da cidade, de seu nome Buarcos.

Os aventais de Buarcos são verdadeiros testemunhos artísticos e sociais, que reflectem as vivências populares das gentes intimamente ligadas, maioritariamente às fainas da pesca, mas também às salinas e às hortas.

Os bordados dos aventais de Buarcos têm também uma forte ligação com as festas e a veneração dos santos. Quase todas as mulheres bordam o seu avental para se apresentarem na procissão do mar, realizada todos os anos ou então para o seu próprio luxo domingueiro.

Os aventais eram e continuam a ser quase sempre bordados pelas próprias mulheres dos pescadores, enquanto que os homens andavam na faina. Em alguns casos, quando não sabem bordar ou são mais endinheiradas, os aventais são mandados bordar a mulheres da terra (bordadeiras especializadas). As mulheres de Buarcos vêm neste complemento do vestuário, um trajar mais rigoroso das peixeiras ciosas do seu património em desfiles, concursos etnográficos, procissões ou mesmo como bem vestir e bem parecer no regresso do marido a casa, depois de ausências pelo trabalho no mar.

As mulheres bordam o que vivem, o que sentem e o que lhes vai na alma. Podemos estabelecer entre os aventais bordados desta comunidade piscatória e os que encontramos em outras comunidades congéneres, como a de A-Ver-o-Mar, na Póvoa do Varzim, semelhanças. Aí, as mulheres competem umas com as outras na exuberância do acabamento dos aventais, para desfiles de festas e para concursos.

A data exacta do aparecimento destes bordados é extremamente difícil de precisar, já que existem muito poucos documentos escritos sobre esta arte. Contudo, algum estudo sobre a história regional e local foi de grande importância para permitir o entendimento e o despertar para a salvaguarda deste património que são os bordados dos aventais.

A actual costa Portuguesa era visitada por povos, como os Fenícios e Cartagineses, no sentido de procurarem estanho e Buarcos deveria ser um ponto de abastecimento e lugar de repouso, a fim de continuarem a sua rota. A palavra originária BOHAQ derivou para BOACUS e actualmente Buarcos. Não será nossa intenção demonstrar que estes bordados têm origem de alguma maneira nesta época, mas foi certamente o conjunto de todos os acontecimentos que as gentes que viviam nestas paragens enfrentaram, tais como as invasões pelos Holandeses no domínio Filipino ou ainda pelos Ingleses em 1602 e por piratas em 1754 que, segundo Santos Rocha, percorriam o litoral, imprimiram e moldaram a forma de viver e de ser de um povo.

Os motivos bordados nos aventais de Buarcos são, por vezes, de inspiração naturalista, com composições baseadas em flores e folhas, ainda que expressa de uma forma estilizada, ou por vezes naïf.

Muitos exemplares apresentam também composições com curvas irregulares que desenham, com grande simplicidade, as formas e o movimento das ondas do mar.

Referência Bibliográfica:

Paulo Fernando Teles de Lemos Silva, Bordados tradicionais portugueses, Dissertação de Mestrado em Design e Marketing - Área de Especialização em Têxtil, Universidade do Minho, 2006

domingo, janeiro 06, 2008

O Traje Académico de Coimbra

Muito embora não possamos caracterizar o trajo académico como um trajo popular, este merece ser referenciado. Por um lado, possuímos uma das mais antigas universidades da Europa em Coimbra, onde os estudantes sempre possuíram um trajo característico e que os identificava. Por outro lado, este faz parte do imaginário popular daquela cidade e sofreu uma evolução natural influenciado pelo tempo e pelos usos.
Na Idade Média, e em parte até ao Liberalismo, o peso do gosto individual na forma de vestir era muito menor do que actualmente. A indumentária devia reflectir claramente o lugar de cada indivíduo na ordem social. Assim, o vestuário dos elementos da Corporação Universitária tinha que espelhar de alguma forma a pertença a essa corporação. Haviam diversas limitações oficiais a esse vestuário, de forma a torná-lo sóbrio, decente, e a impedir que colidisse com os privilégios e características próprias dos trajes de outros elementos da sociedade (certas cores e certos tecidos, por exemplo, estavam reservados a determinados estatutos sociais).

Nos Estatutos da Universidade de Coimbra de 1431, D. João I mandou que os mestres e doutores, indo leccionar ou a quaisquer outros actos escolares dentro dos limites da universidade, andassem em aparato geral ou doutoral, os docentes licenciados ou bacharéis em hábito honesto até aos tornozelos e os outros escolares em trajos honestos, pelo menos até à meia perna.
D. João III, na "Ordenança para os estudantes da Universidade de Coimbra", de 1539, impõe regras ao uso do trajo académico, como já o havi
a feito D.Manuel I em 1503, determinando:
"Não poderão os sobreditos nem outros alguns estudantes trazer barras nem debruns de pano em vestido algum; nem isso mesmo poderão traz
er vestido algum de pano frizado; nem poderão trazer barretes de outra feição senão redondos; e assim hei por bem que os pelotes e aljubetes que houverem de trazer sejam de comprido três dedos abaixo do joelho ao menos; e assim não poderão trazer capas algumas de capelo, somente poderão trazer lobas abertas ou cerradas ou mantéus sem capelo; não trarão golpes nem entretalhos nas calças nem trarão lavor branco nem de cor alguma em camisas nem lenços";
D. João IV, nos Estatutos de 1653 (chamados Estatutos Velhos), também efectua uma série de restrições.
Mas como seria o traje dos estudantes nesta época?

Universidade estava intimamente ligada à Igreja, era efectivamente uma instituição eclesiástica, e uma grande parte dos estudantes e mestres
eram clérigos. É pois natural que os universitários adoptassem uma maneira de vestir eclesiástica.
O vestuário dos estudantes de Coimbra nos séculos XVI e XVII caracterizava-se por:

"Loba ou Sotaina, decorada à frente, de alto a bai
xo, com uma fileira de pequenos botões, abotoada pelas costas com botões ou cordeis, a qual descia até à meia perna; uma Capa com gola e alamares ou cordão de borlas; um Barrete arredondado ou de cantos; Calção sem entretalhos ou golpes, meias e Botas ou Borzeguins. Os estudantes colegiais traziam os Hábitos das respectivas Ordens, salvo os dos Colégios seculares de S. Pedro e S. Paulo que tinham um Hábito semelhante aos escolares colegiais de Salamanca [...]. Este Trajo usado nas Faculdades também era extensivo aos Lentes, ressalvando-se apenas o pormenor de a Sotaina dos Mestres chegar ao calcanhar, enquanto a do estudante chegava à meia perna. Através dos Estatutos de 1653, dados por D. João IV, ficamos a saber que nesta época ainda se usavam barretes redondos ou de cantos para cobrir a cabeça e não o Gorro comprido, o qual se começou a trazer mais tarde, talvez nos começos do século XVIII. Estes Estatutos conferem ao estudante liberdade para trazer debaixo da Batina coletes e camisas, só mais tarde se tornando obrigatório o costume de envergar Volta Branca e Cabeção Negro [...]."
As lobas dos colégios eram de cores va
riadas (dentre as que não eram proibidas, claro): em Todos os Santos usavam o pardo, em S. Miguel roxo escuro, em S. Paulo castanho escuro, etc. Mas o preto viria a dominar.

Desta forma, no seu início, o objectivo principal do Traje Académico, não era, como muitas vezes se diz, igualizar os estudantes, mas antes fazer distinguir os académicos na sociedade. Apesar da falta de uniformização, os estudantes eram obrigados a usar um traje académico. De notar que essa obrigatoriedade era permanente, nas aulas ou fora delas, dentro do território académico da cidade de Coimbra.
A uniformização plena do traje académico aconteceu possivelmente na passagem do século XVII para o XVIII.

Nos finais do século XVIII o Traje Académico, seria assim composto:
"Todo o cidadão que se condecora com
o título de homem de bem, para decentemente aparecer no meio dos outros, carece para seu adorno externo, [...] enquanto estudante, de Verão, de sete [cousas], vem a ser:- cabeção, volta, camisa, batina, meias, sapatos, e fivelas; e de Inverno, de nove, porque entram calções e colete, que de Verão são inteiramente desnecessários."

As características medievais e clericais da Universidade de Coimbra começam a diminuir com a reforma do Marquês de Pombal, em 1772. Mas é só com o triunfo do Liberalismo em 1834 que começa verdadeiramente a aparecer uma universidade laica.
A Capa e Batina não são abolidas, apesar do seu carácter clerical e de várias outras críticas. Mas passa a ser obrigatória apenas dentro da Universidade.
"No meu tempo, ainda a quase totalidade dos estudantes andav
a sempre de capa e batina. [...] Ainda assim, já por lá começavam a aparecer os janotas, a que nós chamávamos os polainudos, que em saindo da aula se vestiam à futrica e iam para a Baixa de luvas amarelas e charuto!"O Romantismo do século XIX fomenta a idéia do estudante boémio, cábula, poeta ou músico, namoradeiro, etc. E a Capa e Batina é indissociável desse estudante romântico.
Nessa época e ainda hoje assim deve ser, a capa e batina não era um uniforme; era o símbolo da honra, da fraternidade e da mútua protecção. O espírito académico, a sua união nos grandes momentos de interesse comum, imperava sobre todo o organismo académico, convertendo toda a comunidade em uma só entidade.
Agora sim, aparece a defesa do Traje Académico como factor de igualização dos estudantes. Possuindo ainda uma vantagem económica, sendo cómodo, o seu desgaste era sinónimo de respeitabilidade, era o emblema do veterano.
Em 1860 a Capa e Batina ainda mantinha um aspecto bastante clerical:

"O vestuário é capa e batina; capa até ao tornozelo, com gola militar; batina curta até ao joelho, dois dedos abaixo; calção, meia preta de laia, sapato e volta em vez de gravata, como o padre.

No Inverno, no meu tempo, como se desenvolvia uma formidável epidemia de bexigas e tifo, era permitido andar de calça preta, caída, em vez de meia e calção.
Anda-se em cabelo, apesar de fazer parte do uniforme o gorro, saco preto que posto na cabeça cai pelas costas. Empregavam-no em carregar livros, frutas e outros místeres.

Andar em cabelo e muito bem calçado era o grande luxo.

A capa tem alamares para abotoar. Usa-se de muitas maneiras e bem traçada torna-se um traje muito elegante. Além de decorativa, é um magnífico cobertor”.

A partir de 1863 o Traje liberaliza-se bastante, nomeadamente no uso de calças em vez de calções. "O gorro era já raro pelas costas abaixo, ou caído em cima da orelha. A maior parte andava em cabelo, alguns traziam um pequeno boné preto como os de viagem, e as batinas já não eram as antigas lobas, que chegavam ao meio das canelas, mas umas batininhas que só chegavam aos joelhos (mais um casaco afogado do que outra coisa) - e a respeito de meia preta e volta de padre, só nos actos, e a volta às vezes era de papel, e as meias de algum teólogo!”

Os estudantes, cada vez mais burgueses e atraídos por ideias republicanas e anti-clericais, não sentiam qualquer identificação com um hábito eclesiástico, e, através do desrespeito pelas normas de uso do Traje Académico, iam-no de facto modificando.

Em 1898, "[A calça] nem sempre é preta. A gravata, umas vezes encarnada, outras branca e só por esquecimento é que ela é preta, como o regulamento ordena. A capa é usada com frequência dobrada e deitada sobre um dos ombros, trazendo-a muitas vezes na mão. E aqueles que querem usar bengala fazem-no, muito embora isso não deva ser permitido a quem se apresenta de capa e batina."

Aos usos da capa sobre um dos ombros ou na mão, António Nunes acrescenta "colocada no braço em jeito de gabardine [...] ou enrolada no colarinho, ‘para diferenciar os estudantes dos seminaristas e padres’". É interessante notar que muitas décadas depois de o uso da capa enrolada no colarinho se ter generalizado se mantiveram duas situações de excepção, provavelmente ambas em sinal de respeito pelo sagrado: na missa (capa simplesmente pelas costas, sem dobras no colarinho) e em sinal de luto (com a batina fechada - possivelmente em imitação da antiga batina eclesiástica - e a capa não só sem dobras mas também apertada com os colchetes do colarinho - possivelmente reminiscência de quando a capa tinha cordões).No final do sec XIX é introduzida a Batina com bandas de cetim e pregas posteriores. Isto é, a total substituição da Batina propriamente dita por uma verdadeira sobrecasaca. A estabilização das cores da gravata, colete e calças no preto e a generalização de algumas destas variantes (como a Batina-sobrecasaca), que só se deram já na República, para se ver atingido o Traje Académico que se tem mantido praticamente inalterado nas últimas décadas.



sábado, dezembro 29, 2007

sexta-feira, dezembro 28, 2007

Bordados de Tibaldinho - Mangualde - Viseu

No distrito de Viseu, concelho de Mangualde, na freguesia de Alcafache, situa-se um pequeno povoado que chegou até aos nossos dias, ainda com ruas empedradas e casas tradicionalmente construídas de beleza invejável. É aqui que podemos encontrar a arte dos Bordados de Tibaldinho.
É difícil definir uma datação precisa para a implementação desta manufactura da arte de bordar nesta região, devido à escassa documentação existente sobre o assunto. No entanto, a investigadora Madalena Braz Teixeira aponta as suas origens para um momento histórico em que a família real e toda a aristocracia da época que a acompanhava regressou a Portugal. Ora, esta aristocracia, para além de possuir um grande número de solares nesta região, também era detentora de colecções invejáveis de bragais. O uso, o desgaste e a necessidade de renovação certamente foram os principais motivos que levaram estes nobres a contratarem bordadoras para efectuarem a renovação e substituição das peças.
«O regresso da família real das terras brasileiras (1819) e da aristocracia que acompanhara o rei a essas paragens longínquas, vem a realizar-se durante a década de 20.
Ocasião propícia à beneficiação dos solares deixados vazios através dos proventos da renda brasileira que continuava a chegar. O caso bem conhecido, da Casa da Ínsua, vem trazer fulgor a Penalva do Castelo. O que ocorre também em Mangualde e noutras mansões ao redor que são rejuvenescidas, nas residências burguesas dos seus endinheirados proprietários.
Não admira, portanto, que a decoração interior da própria habitação tenha ocorrido também através da renovação do bragal e das roupas de casa. Tornava-se urgente refazer o enxoval e constituir um novo património têxtil. As condições histórico – culturais são explícitas pelo que o aparecimento e/ou o desenvolvimento de uma manufactura de bordados está justificada à partida pela encomenda que seguramente as famílias recém – chegadas do Brasil fizeram, imitadas por outros parentes e amigos que não tinham deixado os seus lares.»
Os Bordados de Tibaldinho são singelos e harmoniosos e têm uma característica muito própria relativamente à policromia: são predominantemente brancos. Este aspecto está certamente ligado ao facto destas peças tratarem de roupa de casa, onde o branco é ligado à limpeza, higiene e dignidade, para além da mentalidade burguesa moralizadora da época, que associa o branco à pureza, honestidade e virtude.
Muitas vezes existe uma grande dificuldade em romper com domínios estilísticos há muito instalados, pelo que foi extremamente difícil ao novo léxico ornamental romântico chegar e difundir-se, principalmente na Beira Alta, como o caso de Alcafache. Por estas razões talvez, a policromia dos Bordados de Tibaldinho se tenha mantido fiel ao branco, símbolo da alvura.
A autora Madalena Braz Teixeira considera ainda, que as origens dos bordados se situam muito ao nível do gosto neo – clássico. No entanto estes bordados não são apenas de origem erudita. O carácter popular e cunho pessoal estam sempre presentes. Os próprios desenhos levam-nos a assistir a temas baseados no “AMOR”, aliás como em outros bordados, como o caso dos de Viana e dos Lenços de Namorado. Os enleios espiralados que prendem os crivos como filtros e os espinhos que ferem, são uma constante presença na simbologia destes trabalhos. No aspecto geral, os bordados de Tibaldinho têm traços comuns com os bordados de Guimarães (séries de ilhós consecutivos e semelhantes, ilhós com sombras e pequenos crivos, as estrelas e flores).
Os bordados de Tibaldinho, embora tenham como centro de difusão a aldeia de Tibaldinho, não se circunscrevem apenas a este povoado, mas são também realizados em outras aldeias vizinhas de Alcafache, Fornos de Maceira, S.João de Lourosa e Dão. As bordadeiras geralmente trabalham ao ar livre, sentadas, devido à falta de espaço do interior das casas e pela luz natural ser mais adequada.
Mas foi na festa anual de S. Mateus realizada na cidade de Viseu, que por volta de 1940 os Bordados de Tibaldinho tiveram grande impulso com uma exposição organizada pelo Dr. Sacadura Botte. A exposição nesta feira permitiu não só uma maior divulgação dos bordados como também maior apreço pelos mesmos. Posteriormente, em 1961, o Pároco de Alcafache, Padre
Manuel Messias, teve também importância na divulgação dos bordados, colaborando na organização da exposição de artesanato em Viseu.
Nos nossos dias, as bordadeiras passaram a ter esta actividade com o objectivo de aumentar as suas próprias economias domésticas. As bordadeiras de Tibaldinho controlam, elas mesmo, todo o processo de escoamento do produto.
A proximidade das termas de Alcafache e a existência do caminho-de-ferro facultam o escoamento do produto até aos grandes centros. No entanto, e principalmente a partir dos anos 60, as flutuações próprias do mercado, o aparecimento de novos materiais e as modas foram alguns dos obstáculos que esta arte manual de Tibaldinho teve de enfrentar, mas conseguiu ultrapassar.
Na década de 80 o “bordado de lã”, designação local do bordado de Arraiolos, foi divulgado e, pelo facto de ser mais rentável, aliciou as bordadeiras da zona e fê-las esquecer um pouco os Bordados de Tibaldinho. Logo a seguir, Azevedo e Silva deu conta do cenário de abandono dos bordados e procedeu à recolha de pontos e técnicas dos bordados tradicionais.
Costumamos dizer que logo a seguir a uma fatalidade vem a bonança. Foi o que aconteceu neste caso, um grupo de mulheres apostaram no valor patrimonial destes bordados tradicionais e fundaram “O Borboto”.
Estes bordados ornamentam toalhas, roupa de cama, aventais e todo o género de paninhos destinado à decoração do lar.
Referência Bibliográfica:
Paulo Fernando Teles de Lemos Silva, Bordados tradicionais portugueses, Dissertação de Mestrado em Design e Marketing - Área de Especialização em Têxtil, Universidade do Minho, 2006
Madalena Braz Teixeira, O Bordado de Tibaldinho, ed. CM de Mangualde-IPM, Lisboa, 1998
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Bordado de Filé - Bordados de Viana do Castelo - Bordados de Castelo Branco - Bordados de Nisa

sexta-feira, dezembro 21, 2007

quinta-feira, dezembro 20, 2007

O NATAL NO ALGARVE

O Natal tem muitas tradições em Portugal. Muitas delas foram introduzidas a partir do sec. XIX, outras têm origens mais remotas. Em contraponto, ao Pai Natal, a tradição portuguesa está intimamente relacionado com o Presépio e o Culto ao Menino Jesus. Existem em diversas regiões, reminiscências de tradições anteriores ao presépio criado por S. Francisco de Assis. A tradição do presépio medieval em escadaria e com o Menino no trono, típica do Algarve, mas que também se pode encontrar na Ilha da Madeira, a chamada lapinha, construída com três ou mais passadas (degraus) e ornamentada com frutas e searinhas. Nos Açores, o presépio com o Menino em pé denomina-se altarinho, com searinhas a ornamentá-lo e, nas paredes da sala, ramos de laranjeira com laranjas. Mas também pode ser encontrado no Brasil e em quase todas as nações da América Central e do Sul.
De seguida, descrevo a tradição algarvia com base na obra do Pe. José da Cunha Duarte, Natal no Algarve: raízes medievais.
No século XIX, no barrocal algarvio, nove dias antes do Natal, preparava-se a casa para armar o presépio ou armar o Menino,
Revestia-se uma cómoda com uma toalha branca e com larga renda pendente. Em cima, colocava-se um pequeno trono em escadaria, que imitava o altar-mor da igreja. À medida que se elevava, os degraus eram mais estreitos. Outras vezes, colocavam-se as medidas de cereal, em escadaria, para se formar o trono. Este era coberto com um lençol ou toalhas de linho, com uma dobra de lençol de lindas rendas, com panos bordados pela dona da casa ou pelas filhas solteiras, onde abundavam motivos de cor azul e encarnada.
Construído o trono, começava-se por ornar o Menino. As searinhas, germinadas dentro de chávenas ou pires pequenos, eram colocadas, no trono, com arte.
O trono era ladeado de jarras com verdura, onde sobressaía a murta, o loureiro, o alecrim, a aroeira e a nespereira. Nas paredes da sala, onde estava armado o Menino, colocavam-se também ramos de laranjeira, com laranjas, de loureiro ou ainda de nespereira. Outras famílias faziam um arco de verdura, à frente do trono.
Finalmente, colocava-se o Menino. O vestidinho fora já cuidadosamente lavado e passado a ferro. Outras vezes, vestia-se o Menino de novo. Este era o encanto das crianças, que não se cansavam de olhar para Ele, apesar do seu aspecto não invocar grande piedade, pois fora feito por um vulgar artesão. A mãe preparava uma lamparina (copo com azeite e pavio com fios de linho) e colocava-a em cima de um pratinho, à frente do Menino.
Uma característica, muito peculiar do Barrocal, é ornamentar o trono com laranjas. Ao lado do presépio colocam-se também cachos de laranjas dependurados na parede. Na zona marítima de Olhão, nas primeiras décadas do século XX, as searinhas estavam dentro das latas de conserva de sardinha.
A presença das searinhas no presépio é compreendida pelo povo como uma bênção. São colocadas para o Menino “as abençoar” e para “dar muito pão às sementeiras”. Depois das festas, havia também o costume de colocar as searinhas no campo para crescerem porque estavam abençoadas. Mais tarde, o trigo recolhido era para mezinhas caseiras.
As imagens do Menino Jesus devem-se essencialmente aos pinta-santos ou faz-santos algarvios que surgiram no século XIX. Estes procuraram reproduzir as imagens dos imaginários, sobretudo o Menino Jesus e Jesus crucificado que, no Algarve, se chama Pai do Céu. A maioria das famílias algarvias, da zona do Barrocal e da Serra, no Sotavento, tinham em casa uma destas imagens. Era costume os pais oferecerem aos filhos, como prenda de casamento, a imagem do Menino Jesus e/ou do Pai do Céu, para ser colocada na casa de fora do novo lar. Na orla marítima, encontra-se a mesma tradição, sobretudo nos concelhos de Castro Marim e Tavira.

segunda-feira, dezembro 17, 2007

Revisitar os Trajes Regionais de Portugal

Esta é uma notícia que já não é nova, mas como há sempre alguém que não sabe pareceu-me importante divulgar.

O Clube do Coleccionador dos Correios lançou o livro - “Trajes Regionais, Gosto Popular, Cores e Formas” – assente na investigação da autora, Cristina L. Duarte, acerca da imensa variedade e riqueza de formas, cores e ornamentos dos trajes regionais portugueses.

Está à venda na Estações dos Correios ou pela net, custa 40€, e vem acompanhado da colecção de selos sobre o mesmo tema.

Pode ficar a saber mais em:
http://www.inteirospostais.com/revisitarostrajesregionaisdeportugal.pdf

Eis uma boa sugestão para uma prenda de Natal.

terça-feira, dezembro 11, 2007

Trajos Domingueiros Saloios – Estremadura


Aos domingos e dias de festa o povo gostava de se aperaltar com o que de melhor tinha, que não era muito, pelo que se reservava para esses dias um fatito melhor, que logo de seguida era cuidadosamente limpo e guardado, para que se não estragasse, pois só havia esse e pouco dinheiro para comprar ou fazer outro.

O trajo domingueiro masculino era composto por camisa branca em popeline, com peitilho em piquet, de manga comprida com punho, colete de fazenda preto sem bandas (as costas eram de fazenda aos quadrados de cor garrida), calça preta de cós alto com fivelas atrás, à boca-de-sino justa à bota e cinta preta. Jaqueta em fazenda preta com gola em veludo e alamares. Calçava botas de calfe preto. Usava barrete ou chapéu preto. Fazia-se acompanhar de um pau, “não fosse o diabo tece-las …”.
A rapariga veste casaquinha com gola de gargantilha, abotoada à frente com botões e machos atrás, manga comprida com punhos pretos. Saia comprida de armur sobre o saiote e os colotes de pano branco decorado com rendas. Calça meias de algodão e sapatos de atanado com atacadores. Na cabeça, lenço de cachené.

Os morgados eram pessoas de bens, abastados, viviam das terras que possuíam ou que arrendavam, portanto, podiam vestir um pouco melhor e exibir melhores adornos.
A mulher usava um lenço branco de seda lavrada na cabeça, casaco preto em seda lavrada de gola e bandas, com machos atrás e punhos de veludo, a saia era comprida do mesmo tecido. Blusa de seda branca, com folhos no peito e punhos rendados.
Como roupa interior, vestia saiote e colotes brancos com renda. Calça meias brancas de algodão e sapatos pretos de calfe.
Transporta bolsa de veludo preto, para guardar alguns valores e xaile preto de merino franjado, para se proteger do frio.
O homem, veste calças de fazenda de fantasia, à boca-de-sino, colete de astracã preto, jaqueta do mesmo material, com gola de veludo preto e alamares de seda. Camisa branca em popline com peitilho em nervuras. Ajusta a cintura com cinta de merino preta e na cabeça, chapéu preto de aba larga. Calça botas de cabedal preto.
Usa relógio de bolso, com corrente de prata.

Site recomendado:
Rancho das Lavadeiras do Sabugo
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sexta-feira, dezembro 07, 2007

Bordados de Filé - Felgueiras - Douro Litoral

É bastante difícil determinar com exactidão a data e as origens dos Bordados de Filé. Há quem diga que é tão antigo como o homem. O “filé” pode ser distinguido entre o “filé” simples e o “filé” bordado. O “filé” simples é uma simples rede constituída por nós, pelo que também é chamada de rede de nó e executa-se da mesma maneira que a rede dos pescadores, que aliás muitas pessoas afirmam que lhe serviu de modelo. Já na antiguidade os egípcios bordavam “filé” simples com pérolas de vidro. Podemos encontrar nos nossos dias, na ala Egípcia do Museu Louvre, trabalhos desta época e com esta técnica.
O “filé” foi bordado ainda noutras partes do globo, por exemplo na Pérsia onde este era bordado a ouro e prata sobre tecidos de seda.
Em Itália foram também encontrados bordados de “filé” no espólio de Dª Catarina de Médicis que tinha grande apreço por este tipo de bordados, assim como no de suas filhas e de suas criadas que passavam grande parte dos dias dedicada ao bordado de quadros em “filé”.
Foram descobertos no seu espólio cerca de 381 quadros deste num cofre e 538 noutro. Quando falamos dos bordados na freguesia de Pombeiro e que podemos apreciar ao longo da estrada nacional que liga Felgueiras a Guimarães, estamo-nos a referir ao “filé” bordado que utiliza o “filé” simples como suporte a um bordado a fio de linho, de algodão ou de seda, em que certos quadrados da rede são tapados de acordo com o desenho que se escolheu.
Em Felgueiras pensa-se que tudo teve origem em trabalhos bordados com cerca de duzentos anos que pertenciam ao Mosteiro de Pombeiro. Alguns destes panos serviam como decoração aos altares.
Na região, actualmente existem poucas bordadeiras do “filé”.
Antigamente chegaram a existir cerca de setenta a oitenta bordadeiras, mas ao longo dos tempos vários factores condicionaram esta arte em vias de extinção. As fábricas de calçado absorveram quase toda a mão-de-obra da região, e o trabalho mal pago das bordadeiras ajudaram ao abandono das pessoas nesta arte.
A bordadeira começava a aprender ainda menina, com oito ou nove anos. Primeiro, só dois tipos de pontos, e só depois, todos os outros.
Antigamente os trabalhos eram expostos ao longo da estrada, e vendiam-se muito bem mas, nos dias de hoje, o “filé” tem tendência a terminar. Não existe nenhum incentivo para salvaguardar estes bordados nem por parte do governo nem da Câmara Municipal o que leva muitas mulheres a deixar de bordar.
Actualmente utilizam-se debuxos de trabalhos antigos, mas vão sendo introduzidos novos desenhos.
Actualmente são efectuados trabalhos de todo o género, cortinas, toalhas de mesa, colchas, rendas para lençóis e até roupas, no entanto, os trabalhos mais executados antigamente eram de facto as rendas para os lençóis e travesseiros e as rendas para os aventais, punhos e palas para as criadas dos senhores das casas mais abastadas.

TÉCNICA DOS BORDADOS DE FILÉ
Os Bordados de Filé não são como os outros bordados. Nos outros bordados as riscadeiras riscam o desenho e depois as bordadeiras bordam, mas no Bordado de Filé, a bordadeira tem como base do trabalho, uma rede. Essa rede é parecida com a rede de pescador, mas é feita com fio de algodão. As redes são feitas geralmente com fio cru ou de cor branca, dependendo dos trabalhos, mas em casos específicos podem ter outras cores. Esta rede tem de ter o tamanho do trabalho que se pretende realizar, e é feita com pequenos quadrados que variam também em conformidade com o trabalho pretendido. Por exemplo (três quadrados ao centímetro) ou (um quadrado ao centímetro). A espessura do fio de algodão também conta para os diferentes tipos de trabalho em “filé”.
Um trabalho bordado em “filé” pode incluir vários pontos, mas os pontos mais utilizados são o cerejido, o ponto a cheio, o ponto russo, o ponto de neve, o ponto formiga, o ponto de cruz, o ponto de estrelas, o ponto lérias, o ponto de argola, o ponto de olho de rola, e vários pontos de fantasia.
As redes dos trabalhos são presas com pequenas taxas em bastidores de madeira no tamanho da peça a realizar onde são bordadas e posteriormente retiradas.
Os Bordados de Filé geralmente utilizam um ponto de cercadura chamado de remate, que evita o remate de outra forma, sendo necessário apenas no final do trabalho, cortar com uma tesoura alguns fios que prendiam a rede ao bastidor.
Referência Bibliográfica:
Paulo Fernando Teles de Lemos Silva, Bordados tradicionais portugueses, Dissertação de Mestrado em Design e Marketing - Área de Especialização em Têxtil, Universidade do Minho, 2006

segunda-feira, dezembro 03, 2007

Miranda do Douro - Trás-os-Montes

O filme que se segue é um excerto de documentário sobre o trajo Mirandês, através de um dos últimos alfaiates tradicionais de Trás-os-Montes.
Chamo especial atenção para o primeiro traje apresentado, uma "Capa de Honra", já descrita neste blog, mas que aqui podem observar com maior pormenor. Também as explicações do Senhor Aureliano Ribeiro são muito boas.



Artigos relacionados: Trás-os-Montes e Capa de Honra

terça-feira, novembro 27, 2007

Cante alentejano - Cuba - Alentejo

Uma das mais emblemáticas modas do cante alentejano - género musical característico do Baixo Alentejo - aqui cantada pelos Ceifeiros de Cuba, na Taberna do Lucas, em Cuba.



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Trajos de Trabalho Saloios – Estremadura

Os trajes que vos vou apresentar são cópias fiéis dos usados pelos nossos antepassados nos fins do séc. XIX até aos anos 20 / 30 do séc. XX na Região Saloia.
Estes são apresentados pelo
Rancho das Lavadeiras do Sabugo, o mais antigo representante das danças e cantares das Lavadeiras e Carroceiros do Concelho de Sintra.


Traje de trabalho de lavadeira
Já apresentei neste blog o traje de lavadeira quando se dirigia a Lisboa para receber e entregar roupa ás freguesas.
Este que agora vos descrevo era usado no trabalho, quando lavava a roupa nas ribeiras ou nos tanques da aldeia, assim, a mulher vestia blusa florida de chita com gola de gargantilha, abotoada na frente e manga comprida com punho.
Saia comprida de fazenda aos quadrados e avental de riscado. Por baixo, saiote e colotes de pano branco decorados com rendas, protegidos pelo saiote de riscadinho escuro.
Calça meias de algodão de cor escura e sapatos de cabedal grosso com cordão.
Na cabeça, lenço de cachené com motivos florais.
Transporta os seus objectos de trabalho, a joelheira e a malha para bater a roupa, feitas em madeira, e a trouxa de roupa em serapilheira.

Traje de Leiteira
Este traje não difere muito do anterior, apenas varia a função da mulher, desta feita, vende o leite da sua produção agro-pecuária. Acrescenta a algibeira presa à cintura para transportar o dinheiro da venda.


Traje de camponês
Este é o trajo de trabalho do homem, que também adaptava de acordo com as tarefas. Habitualmente, vestia calças e colete de cotim, camisola de riscado de manga comprida, camisola interior escura de manga comprida.
Barrete preto saloio na cabeça para protecção do sol e do frio. Cinta preta enrolada em torno da cintura. Calça bota grossa de cabedal.
No bolso, usa o lenço tabaqueiro (vermelho) para limpar o suor ou transportar o tabaco.
Em determinados trabalhos, nomeadamente para cavar, enrolava nas pernas plainitos de serapilheira para sua protecção.

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