terça-feira, abril 21, 2009

Cobertor de Papa – Maçainhas - Guarda

Quem não se lembra dos quentes cobertores de papa, que nas casas dos nossos avós aqueciam as camas nas longas noites de Inverno?

Pois estes provêem de uma pequena freguesia do Concelho da Guarda – Maçaínhas - e hoje, como ontem, continuam a ser fabricados de forma artesanal.

A produção do cobertor de papa, remonta ao reinado de D. Sancho II. No reinado de D. José (1758), com o Marquês de Pombal, esta indústria desenvolveu-se na zona da Covilhã e da Guarda: criaram-se novas fábricas e contrataram-se artífices no estrangeiro. Este progresso veio mais tarde beneficiar esta região nomeadamente Maçaínhas. Consta que um tecelão da Covilhã terá fixado residência por estas paragens e terá transmitido os seus conhecimentos aos habitantes.

Há cerca de 100 anos. Havia 9 teares para o fabrico de cobertores de papa em Maçaínhas que eram depois vendidos em feiras.

Os teares e a produção de cobertores foi aumentando de ano para ano, alargando-se depois a outras famílias.

Em 1930-1932 houve uma grande crise e foram poucos os fabricantes que resistiram.
Em 1938, começou a recuperação e, em 1942-1943, quase todas as famílias tinham um tear para fabricar cobertores chegando a existirem 35 teares.
Actualmente existem apenas dois teares em funcionamento, pertencentes aos senhores José Pires Freire e José de Almeida Tavares.
O cobertor de papa também é conhecido por cobertor de pêlo, manta lobeira, amarela e espanhola, podendo ser produzido numa só cor (branco, verde, vermelho, etc.), com a cor “barrenta” (branco e castanho), bordado a azul, verde e vermelho (destinado ao Minho e ao Norte do País) ou fabricado com tiras coloridas de castanho, amarelo, verde e vermelho (típico da zona do Ribatejo).

A diferença entre este cobertor e os restantes é que o de papa é fabricado, exclusivamente, com lã churra de ovelha, uma lã macia das ovelhas de Idanha-a-Nova, Monsanto e Medelim, que também estão em extinção.
Com o aparecimento de outros artigos no mercado, o cobertor de papa deixou de ter a procura de outros tempos.

O cobertor de papa pesa, em média, três quilogramas e mede 1,70cm de largura e 2,40cm de comprimento e distingue-se dos outros cobertores pelo seu “design” e pelo facto de ter o pêlo mais comprido, porque a lã de que é feito é mais comprida.

A produção do cobertor é mais praticável nos meses quentes, porque no Inverno a água está muito fria e os cobertores têm que ser levados ao pisão e no Verão é melhor, nomeadamente, para os secar porque ficam mais direitinhos.

O fabrico do cobertor tem diversas fases. A lã é comprada e enviada para a fiação entrando na fábrica transformada em fio. Segue-se a fase da tecelagem, por um único tecelão, num tear manual em madeira. Na etapa seguinte, quando o corte estiver feito é transportado para o pisão para lavar e feltrar. Quando o corte tiver o “corpo” necessário vai à carda para puxar o pêlo. De seguida, os cobertores são cortados e vão à râmbula (peça em ferro onde se prendem esticados para secarem e ficarem com uma determinada medida).


Os cobertores de papa parecem condenados a desaparecer e com eles um pouco das nossas memórias.


Fonte Bibliográfica:

Colecção: O Fio da Memória, número 12
Titulo: Notas sobre o Cobertor de Papa de Maçainhas
Autor: Maria do Céu Baía Oliveira Reis
Edição: Câmara Municipal da Guarda - Setembro de 2003

terça-feira, abril 14, 2009

Faleceu José Franco

José Franco, reconhecido oleiro e ceramista, faleceu hoje aos 89 anos, o funeral decorrerá amanhã, no Sobreiro, terra que o viu nascer a 19 de Março de 1920.
José Franco dedicou-se principalmente à arte-sacra. No entanto, a sua obra mais conhecida e popular será a Aldeia Típica de José Franco, no Sobreiro (Mafra), construção em miniatura de uma aldeia saloia do início do século XX, onde podem ser apreciadas cenas da vida da época, realizadas por bonecos mecanizados, principalmente movidos a água, bem como, lojas em miniatura que ilustram as mais diversas profissões, muitas delas, hoje em dia, completamente abandonadas.
Utilizando as palavras de Jorge Amado, de quem era amigo, diria que morreu o “…artista do barro e da vida …um português que nasceu com o dom misterioso da beleza e a distribui como um bem de todos …”.
A nossa homenagem!

segunda-feira, abril 06, 2009

Apresentação sobre o traje

A apresentação que se segue, foi efectuada no âmbito de um Curso de Formadores que estou a frequentar e destinada a um público pouco habituado a estes assuntos.

O que tentei fazer foi despertar o interesse pela etnografia em geral e pelo trajo em particular.


Como achei que o assunto podia interessar a mais alguém decidi colocar aqui o filme.

As minhas desculpas se detectarem algumas imprecisões.

Espero que gostem!


quarta-feira, março 18, 2009

O TRAJE TRADICIONAL EM MAFRA

O Museu Municipal Prof. Raúl de Almeida, em Mafra, acolhe a realização de uma exposição sobre o traje tradicional, reunindo mais de 100 peças de vestuário dos espólios de Ranchos Folclóricos do Concelho e do próprio museu. A abertura está marcada para 21 de Março, pelas 15h30.


Estreitando os laços de cooperação existentes entre a Autarquia e as comunidades locais, esta mostra, desenvolvida em colaboração com ranchos folclóricos do Concelho de Mafra, permite ao visitante encontrar peças de vestuário originais, bem como 35 réplicas outrora usadas nas comunidades rurais locais, na sua maioria relacionadas com os momentos lúdicos da vivência do povo, e que se reportam ao período compreendido entre a última metade do séc. XIX e o primeiro quartel do séc. XX.

A referida exposição reúne peças de vestuário provenientes dos espólios, na sua maioria, do Rancho Folclórico "Cantarinhas de Barro", Rancho Folclórico da Malveira, Grupo Folclórico "Os Saloios da Póvoa da Galega", Grupo de Danças e Cantares de Santo Estêvão das Galés, Rancho Folclórico de Monte Godel, Rancho Folclórico "As Morangueiras do Sobral da Abelheira", Rancho Folclórico de São Miguel do Milharado, Rancho Folclórico do Livramento, Rancho Folclórico e Etnográfico de Cabeço de Montachique, Grupo de Danças e Cantares de Vila de Canas, Rancho Folclórico "Os Hortelões da Ervideira" e Rancho Folclórico da Murgeira). Estas compreendem roupa exterior e de interior, lenços e xailes, chapéus e barretes, sacos e sacolas de retalhos, trajes domingueiros e de trabalho, representando um testemunho do quotidiano da população rural concelhia, influenciada pela proximidade de Lisboa, visto os rurais locais se deslocarem com frequência à capital, a fim de lá venderem os seus produtos.

quarta-feira, março 04, 2009

O calçado tradicional

O calçado artesanal faz parte das raízes do nosso país. O seu processo de execução é longo e complexo. O esforço, tempo e recursos empreendidos no seu fabrico justificam, inteiramente, o valor monetário que lhe é atribuído.
Transversal a classes etárias, sociais ou económicas, parece ser mais solicitado nas zonas rurais onde, amiúde, é utilizado na realização das tarefas agrícolas.
A produção de calçado tradicional tem conseguido fugir à tentativa de uniformização registada em quase todos os quadrantes da nossa sociedade. Esta actividade distingue-se sobretudo pelo facto dos seus artigos serem confeccionados, quase totalmente, à mão. As máquinas são pouco muito utilizadas e quando há necessidade de recorrer a elas é porque o processo de execução obriga a que assim seja. Outra das características do fabrico artesanal de calçado diz respeito às matérias-primas usadas. As peles, por exemplo, são curtidas de acordo com os métodos tradicionais, sem recorrer a produtos químicos. Como este tipo de artigos é efectuado manualmente, o tempo gasto na sua produção é muito superior em relação ao da manufactura em série. Este facto reflecte-se, como é óbvio, na diferença dos valores monetários atribuídos a ambos.
Produzidos um a um, a qualidade daqueles exemplares é facilmente observável em pequenos pormenores como remates e ponteados. No que diz respeito à rentabilidade, a sua vida útil é bastante mais longa do que a dos seus concorrentes. Aquilo que para os menos entendidos poderá parecer como uma desadequação em relação aos ícones ou tendências da moda, é na realidade o respeito pela tradição.
Os artesãos responsáveis pela execução deste género de calçado insistem em manter-se fiéis aos modelos tradicionais, preferindo não adulterar as características dos mesmos. A produção estandardizada acabou com a personalização dos números.
Contudo, nas oficinas de calçado tradicional ainda continua a ser prática comum o tirar das medidas ao cliente. Algumas destas casas chegam mesmo a guardar estas informações precavendo um eventual regresso daquele.
Ainda que existam registos desta actividade um pouco por todo o país, as regiões do Ribatejo e Alentejo ganharam, de alguns anos para cá, um lugar de destaque.
Técnicas de produção
Corte da pele: o início de uma peça de calçado é sempre precedido pelo tirar das medidas do cliente. As várias partes do botim são cortadas segundo um molde. Depois desta operação, dever-se-á conferir forma à floreta.
Este procedimento é realizado na vergadeira. Aquela ganha o formato pretendido graças ao calor libertado por esta máquina;
Ajuntadeira: operação que consiste em juntar as diferentes partes que constituem o botim para possam ser cosidas umas às outras. A sua união é efectuada com a ajuda da máquina de costura;
Pregar o botim à forma: já com o botim cosido, o artesão coloca uma forma no seu interior para ele possa ganhar a configuração pretendida. Depois começa a aplicar pequenos pregos de maneira a prender aqueles dois.
Estes são colocados em redor de todo o botim. Durante a operação, o artesão tem o cuidado de puxar bastante a pele, com a ajuda da turquês, para que esta fique bem justa à forma. Concluída a aplicação dos pregos, estes são endireitados. Em seguida, elimina-se o excesso de pele com uma faca de sapateiro;
Execução das viras: estas são elaboradas a partir de uma tira estreita de couro. Posteriormente, são desbastadas e amaciadas;
Palmilhar: operação que consiste em coser a palmilha, o forro, a vira e o próprio botim. Todos estes elementos são cosidos uns aos outros com a ajuda da sovela e do fio de nylon. Este último é passado por cera para deslizar melhor. À medida que o botim vai sendo palmilhado, o artesão vai retirando os pregos existentes com a turquês;
Bater a vira: depois de cosida, esta deve ser batida e endireitada com um martelo e uma picota. O artesão deve retirar o seu excesso com a faca de sapateiro;
Elaboração dos enxumentos: estes destinam-se a reforçar o botim. Elaborados a partir de couro um pouco mais grosso, são aplicados com cola nas duas extremidades daquele. Antes de serem colocados, devem ser desbastados com a ajuda da faca de sapateiro;
Pregar a sola ao botim: as duas partes são unidas entre si com a ajuda de alguns pregos. Deve proceder-se ao corte da parede lateral da sola, para que os pontos efectuados com a sovela fiquem alojados no seu interior. Terminado o ponteado, a ranhura é fechada e colada. À medida que vão sendo cosidas, o artesão vai removendo os pregos colocados anteriormente;
Acabamento: esta fase inclui a aplicação do salto no botim. Este é constituído por duas entrecapas e uma capa de borracha. Depois de concluído, aquele leva também ilhós, correias (ou atacadores) e sebo.

terça-feira, março 03, 2009

Barrete de Orelhas – Madeira

O barrete de orelhas era sobretudo utilizado pelos camponeses.
É feito com a lã das ovelhas criadas nas serras e concebido pelas mãos das mulheres, tricotado com 5 agulhas.
Adapta-se bem à cabeça e tem no alto uma pequena borla e nos lados dois apêndices que, ou se deixam cair sobre as orelhas, ou se levantam, prendendo-se às vezes num botão.
Este barrete, a que chamam de orelhas, já era usado em 1857 e parece ser uma criação madeirense.

terça-feira, fevereiro 24, 2009

O Carnaval de Alpalhão – Nisa – Alto Alentejo


Numa época em que os antigos costumes do Carnaval português vão dando lugar a ritmos e tradições importados do Brasil, existem ainda algumas localidades que vão resistindo, mantendo as suas tradições.

Em Alpalhão, no concelho de Nisa, a tradição ainda se mantém. Os seu trajos, outrora utilizados apenas no Carnaval, ainda hoje se mantêm vivos graças aos grupos de Contradanças.

Em Alpalhão, é o traje garrido e vistoso, são saias e xailes ricamente bordados, a par da grande quantidade de ouro reluzente, que desperta a atenção do visitante.
Quem faz, de quem são as mãos que tecem este autêntico festival de cor e deslumbramento, que se passeiam pelas ruas da vila nestes dias de festa?
Na rua da Carreira encontrámos as respostas para estas questões, Maria Virgínia Rijo. “Comecei a fazer estes trabalhos há cerca de 20 anos e fui-me aperfeiçoando. Dantes faziam-se poucos fatos de Carnaval, dependendo doas épocas, mas de há cinco anos para cá, com o regresso das marchas têm-se feito muitos mais.”
“ Estava tudo a perder-se, as nossas tradições. Dantes fazia-se um fato por ano e noutros não se fazia nenhum. A professora Zézinha deu um grande impulso às marchas e à Contradança, indo ao encontro das pessoas de Alpalhão que sempre gostaram muito de se vestir e do traje, embora fosse só para ir ao baile.”

“As saias têm duas partes de feltro. Os desenhos são feitos em papel vegetal, que depois é cozido na saia, retira-se o papel e recortam-se os desenhos.”

Uma técnica igual àquela que é empregue em Nisa, no entanto, “enquanto que em Nisa preferem o vermelho com os recortes em preto, em Alpalhão, o vermelho é mais utilizado com os bordados em branco. As saias amarelas que se usam também muito têm os bordados em azul-escuro. Os xailes em Nisa são bordados à mão e aqui, a maior parte, os de terylene, são bordados à máquina, a matiz. Os xailes mais antigos de Alpalhão são os merinos, muito bonitos e vistosos. O traje de Alpalhão inclui a camisa, que era de linho, antigamente, o corpete, que é um colete mais curto, bordado à frente e atrás e debruado com uma fita branca e o avental, feito de cetim e bordado como o xaile, com dois bolsos.”

Três semanas é o tempo que demora, até ficar pronto, um traje para adulto (menina ou senhora). O de criança, demora menos.

Por enquanto vai tendo algumas encomendas e o seu trabalho começa a ser mais conhecido, não apenas pelos desfiles de Carnaval, mas pela sua presença nalguns eventos organizados pela Junta de Freguesia, como é o caso da Feira dos Enchidos.
Quanto à popularidade do Carnaval de Alpalhão, Virgínia Rijo não tem dúvidas.
“Oxalá que nunca acabe e seja cada vez mais divulgado. É bom para toda a gente, anima o comércio, diverte as pessoas e movimenta a terra. E os nossos trajes são mesmo bonitos, não são?”

Fonte: Vila de Alpalhão

domingo, fevereiro 22, 2009

CARAPUÇA – Madeira

A Carapuça é um barrete de forma cónica usado na Madeira nos séculos XVIII e XIX, influenciado pelo gorro medieval e carapuços portugueses. De um barrete que cobria toda a cabeça, evoluiu para uma forma extremamente elegante, quase de adorno.
Barrow que esteve na Madeira em 1790 diz que as mulheres "traziam um capacete na cabeça", não mais, que o antecedente da carapuça. Confirma-o a indispensável iconografia: "Antiga carapuça", W. Combe, 1821; "Dress of the Country People of Madeira", N.C. Pita, 1802. Esta, a carapuça, é identificada também por Diogo de Tovar e Albuquerque em 1807: "os homens (...) vestem sempre uma carapuça de pano, unida à cabeça com duas pequenas orelhas".
Este tipo de chapéu, chamemos-lhe assim, aparece nos finais do séc. XVIII e até 1782 nenhuma informação concreta existe a seu respeito. Admite-se que antes da carapuça se usava "um barrete de lã encarnado ou azul". Segundo alguns etnógrafos é filiada no toucado grego, no gorro medieval, na proveniência semita, em motivos arabescos e orientalizantes e no uso de algumas populações portuguesas.
A carapuça aparece delineada em alguns desenhos datados de 1820. Na descrição destas aparece sempre, em pormenor, um "barrete do tipo carapuço de boca larga", no homem, e, na mulher, também "um barrete ... bastante mais largo que os que chegaram até nós ..." Para já não referir, e apenas nestas estampas, o aspecto policromo e a natureza da restante indumentária. Todavia não nos passa despercebido nos "Country Musicians", no músico que está ao centro e toca violino o uso de um "chapéu de aba redonda e larga, copa cilíndrica, não muito alta", em contraste com as carapuças dos vilões laterais.
Este barrete madeirense, que foi capacete para Barrow, aparece, segundo se julga em Rubens e é carapuça durante o século passado, evolui a meados daquele para "atavio" e Cabral do Nascimento crisma-o de uma forma extremamente elegante, assim: - é "pura janotice como a rosa no cabelo das andaluzas".
A carapuça cai em desuso desde 1870 sucedendo-lhe o lenço e a mantilha na mulher e no homem o "barrete de orelhas", o "boné de pala" trazido das Américas pelos emigrantes, e os "barretes de lã preta"e consequentes variantes em algumas freguesias da Madeira: ninho, rodado, solideu...
Na freguesia de Santana em 1895 o Cónego Vaz assistiu "ao funeral das duas últimas carapuças" e na vizinha S. Jorge que contrasta sempre em alegria com a primeira não conheceu carapuças mas os "trabalhadores" "usavam barrete de lã" e os "lavradores" "boné de fazenda escura e pala de verniz". Destes se recrutavam "os homens bons para a edilidade do concelho”.

Fonte: Laurindo de Góis, José, ANTIGOS BARRETES MADEIRENSES in "Da Indumentária e Indústrias Madeirenses", Revista Atlântico, Vol.6, p. 85-91.

sábado, fevereiro 07, 2009

Loudel de D. João I



A peça de vestuário que vos apresento não se trata de um trajo regional, mas de uma relíquia nacional.

O Loudel de D. João I, é feito de linho, lã, seda e fio de ouro; tem uma altura de 98 cm e uma largura de 91 cm, e foi usada na batalha de Aljubarrota, no dia 14 de Agosto de 1385.
Esta veste, que servia para proteger o corpo da aspereza da armadura e dos golpes dos inimigos, é constituída por uma série de camadas de pano de linho acolchoado com lã, sendo revestido por um tecido verde bordado com "rodas de ramos e escudos de S. Jorge".
O rei, D. João I que se tinha encomendado a Santa Maria da Oliveira para que o ajudasse a vencer os castelhanos na batalha de Aljubarrota, depois foi a Guimarães e em sinal de gratidão deixou-lhe entre outros dons esta veste real, o loudel.

O loudel é uma das raras vestes militares do período medieval existentes no mundo.

Pode ser visto no Museu Alberto Sampaio, em Guimarães, juntamente com muitas outras peças de arte sacra ligadas à nossa história.

domingo, fevereiro 01, 2009

O Regicídio foi à 101 anos

A Monarquia morreu naquela tarde de 1 de Fevereiro de 1908, no Terreiro do Paço, quando El-Rei D.Carlos e Príncipe Herdeiro, Dom Luis Filipe, foram assassinados pela Carbonária, o braço armado do Partido Republicano.

Para que a memória não morra, recordo aqui esse fatídico dia.


terça-feira, janeiro 27, 2009

Camponesa - Montargil - Alentejo

A freguesia de Montargil situa-se numa zona de transição Alentejo/Ribatejo, mas o seu folclore reflecte ainda o facto de durante muitos anos, embora sazonalmente, aqui terem trabalhado pessoas vindas de outras terras, caso dos “tiradores de cortiça” do Algarve, e dos “ratinhos” vindos das Beiras em “tempo de ceifa”, É a aculturação, é o encontro de culturas, é o moldar de uma cultura muito específica.
É essencialmente uma “comunidade rural”, com a sua identidade não quer abdicar e maneira de ser, que o Rancho Folclórico de Montargil tenta preservar e divulgar.
O traje ou a “Copa”, era noutros tempos um factor que muito caracterizava quem o vestia, e o Rancho Folclórico de Montargil apresenta o mais fiel possível a “copa” que os seus antepassados usaram.
Vestia-se pobre em Montargil, o que não significa que em especial a mulher não vestisse “bonito “.O fato de “camponesa” era sempre igual, com uma ou outra pequena alteração em função da actividade que ia desempenhar, e a natural mudança de utensílio de trabalho.
Tanto quanto sabemos, este trajo de camponesa é característico unicamente desta região de transição entre o Alentejo e o Ribatejo, o que demonstra bem como localmente se criou uma cultura muito própria.
Era constituído pelas seguintes peças:
Blusa com abas e” mangos” (estes de meia velha ou do riscado da saia); Saia de riscado escuro, arregaçada e atada no cós.” Podendo no entanto usar uma saia mais curta, que não seria arregaçada”. Ceroulas de ganga atadas nos tornozelos com fitas de nastro; Chapéu sobre o lenço, e este, consoante o trabalho, atado atrás, em cima sobre o chapéu ou à frente; Meias escuras de cordão; Sapato de atanado e sola, sendo que, dependendo do trabalho executado, podiam andar descalças.
Refira-se ainda, que quando a caminho do trabalho, algumas camponesas levavam um curto avental que tiravam ao chegar lá. Era também nessa altura que, e se disso fosse caso a saia era arregaçada e presa no cós.

quarta-feira, janeiro 21, 2009

Trajos de Poiares – Alto Minho

Poiares é uma freguesia situada na margem direita do rio Neiva, dista cerca de quinze quilómetros da sede do concelho, Ponte de Lima.














O Rancho Folclórico e Etnográfico da Casa do Povo de Poiares é um digno representante do folclore do Alto Minho, pelo que apresentam assim os seus trajos:

Trajes das Mulheres

Em dias festivos o nosso povo sempre conservou uma nítida diferença entre os vestidos domingueiros ou a roupa que vem de Deus e a roupa do trabalho, própria para todos os dias.

As proprietárias mais abastadas, não lavradeiras vestiam saia de casmira, meio balão, pano escuro de boa qualidade, pouco ornamentados apenas com uma ou duas bastas. Era ainda a saia do casamento porque faltava o dinheiro para repetir a compra. O casaco denominado casibeque, também de boa fazenda, curto e enfeitado nos punhos e na orla do mesmo, na cabeça usavam um lenço de seda de cor honesta, cobria-lhes toda esta indumentária uma capa bastante farta, de pano azul ou cor pinhão, e que acompanhava a saia.

A classe das lavradeiras socialmente inferior mas muito numerosa usava saia tecidas em casa com estopa e lã e/ou lã e algodão e/ou lã e carduz. Algumas levavam bastas de cor azul, verde ou vermelho escuro. As barras eram de cor castanha, preta ou azul, traçado sobre o peito e atado nas costas usavam um lenço/xaile denominado lenço do pescoço. A blusa era de linho fino e muito branco e as mangas cobriam todo o braço até ao pulso, com pregas nos ombros e bordados nos punhos. Usavam contas e cordões de ouro e as mais abastadas usavam uma corrente de ouro do feitio de uma corda. As contas de ouro eram usadas por algumas nos dias de semana, das orelhas pendiam valiosos brincos de ouro denominados brincos à rainha.


Nos dias mais solenes calçavam chinelas de cabedal e meias de linho, sobre a saia colocavam um avental preto recamado de guarnições como vidrinhos e lantejoulas.

A classe pobre usava saia de chita, quase sempre do mesmo tipo, lenço da cabeça quase sempre de linho com ramos bordados nos cantos em pontos cheios e uma silva a fazer a barra do lenço.

As classes de lavradeiras e pobres quando iam à igreja levavam um lenço preto sobre os ombros e no tempo de preto (luto) levavam sobre a cabeça. Calçavam tamancos ou andavam a pé descalço, o avental era grande, simples e de pano barato. Usavam a saia com uma faixa.

Traje dos Homens

Os abastados, trajavam economicamente, porque um fato durava-lhes toda a vida, usavam um chapéu encascado, casaco de cinta, colete em gola, pano azul ou preto. Sapato raso ou bota alta no Inverno, para agasalho sobre os ombros um xaile marenta e de bom tecido ou uma capa casaca.

A classe média trajava um chapéu bastante desavado em felpo vulgarmente chamado por "chapéu braguês", quase sempre preto e grosseiro, o colete e o casaco eram quase sempre do mesmo pano, de fraca estopa, mesela, briche ou saragoça. Calçavam tamancos ou sapatos baixos, quase sempre sem meias, de Inverno usavam meias de lã, a camisa era de linho para os dias de festa, para os dias de trabalho era de estopa.

A terceira classe usava chapéu de felpo, grosseiro, de cor preta, camisa de estopa, casaco curto de briche ou saragoça. Calças de lã tecidas em casa e no Verão pano de estopa branco, as calças de alçapão, calçavam tamancos, chancas ou andavam descalços. No Inverno o traje era chancas, meias de lã, calças de lã, camisa de estopa, colete de lã com costas de cor diversa. No Verão o traje era todo de linho e calçavam socos.

quinta-feira, janeiro 15, 2009

Aguadeira – Mira – Beira-Litoral


A aguadeira tinha uma função muito importante, aplacar a sede a quem trabalhava no campo e é uma figura recorrente em muitas regiões do país. O seu trajo não era muito diferente das demais trabalhadoras rurais, muitas vezes era escolhida para a função por ser mais nova ou a mais velha, quem mandava escolhia.

Este trajo, pertencente ao grupo folclórico poço da cruz, é composto por saia e blusa de chita, um tecido barato, avental de popelina, 2 saiotes de popelina e 1 de flanela vermelho. Na cintura, transporta uma algibeira e uma cinta cor de vinho ou vermelha.

Na cabeça o lenço de cachené e o chapéu gandarez, que por ser de trabalho não de possuir pena, nem borboleta. Calça tamancos.

Para transporte da cântara de barro usa uma rodilha de trapos e para dar de beber uma caneca e prato de barro

Outros artigos relacionados: Peixeira – Vendeira, Beira-Litoral

sexta-feira, dezembro 26, 2008

Trajo dos Jornaleiros – Zebreiros - Gondomar

Só a vegetação, o rio, a calmaria..., são o suficiente para dar ao lugar de Zebreiros e à Freguesia de Foz do Sousa (Gondomar), uma beleza inconfundível e rara.

Mas Zebreiros não permite que sua beleza se resuma à beleza natural. Há a beleza da sua população, manifesta na sua alegria e no seu desejo em preservar aquilo que o Homem aliou à Terra: os cantares, as danças, o labor. E é isto que o Rancho Folclórico de Zebreiros efectivamente concretiza: a manifestação extraordinária dos usos, costumes e tradições bem como da sua conservação, através de um imenso profissionalismo desenhado pelo sorriso dos elementos que o integram.

O Rancho Folclórico de Zebreiros é, como alguém disse" um dos mentores de um vasto e rico património cultural, que lhe foi legado pela tradição".

O trajo que vos apresento é o dos Jornaleiros, ou seja, dos trabalhadores contratados para efectuarem trabalhos agrícolas específicos, à jorna, nomeadamente, para a ceifa.

O homem vestia calças de cotim, camisa de riscado, faixa, tamancos, chapéu de palha e mangual para malhar o milho.

A mulher usava blusa de linho, saia de fazenda, saiote vermelho, colete de fantasia em algodão, lenço em algodão, socos e chapéu de palha enfeitado com flores do campo. No entanto em vez de uma faixa é utilizada uma corda, que servia para amarrar os molhos.

quarta-feira, dezembro 24, 2008

segunda-feira, dezembro 22, 2008

Trajo Domingeiro - Barbeita - Monção

Barbeita é uma populosa freguesia do Concelho de Monção, situando-se a 7 km da sede do Concelho, é banhada pelo Rio Minho.

O Rancho Folclórico da Casa do Povo de Barbeita é um dos mais representativos do Alto Minho Interior, cujas origens remontam a 1959.

A indumentária que vos apresento é pertença desse grupo e representa o modo de trajar dos homens e mulheres aos Domingos, dias especiais, já que, livres das obrigações laborais, havia mais tempo para o convívio social.

As mulheres, usavam lenço cachenê com vários tons, azul, verde ou roxo. Saia preta com barras verdes ou azuis na parte inferior, adornada com vidrilho e lantejoulas pretas.
Avental de lã, bordado com motivos do campo, em várias cores, predominando o azul, verde, amarela. Colete com barra da cor da saia e avental. Camisa de linho bordada a branco nos ombros, peito e punho. Lenço de amor bordado a azul ou verde.Meia rendada com pé e socos pretos.

O trajo do homem era constituído por chapéu preto com aba, camisa de linho bordada a branco, por vezes a vermelho suave. Colete ou jaqueta e calça de fazenda preta. Faixa da mesma cor a cingir a cintura e calçava bota ou sapato preto.


segunda-feira, dezembro 15, 2008

Encerramento da Exposição

A exposição “Trajes de Portugal – Cultura e Tradição” encerrou no passado dia 8 de Dezembro.
Se o mau tempo prejudicou a inauguração, o encerramento foi bafejado com algum sol, embora o frio se fizesse notar.
No entanto, o calor humano não faltou, já que muitos foram os visitantes que aproveitaram este ultimo dia para visitar a exposição, além da presença de dois ranchos folclóricos do Concelho de Oeiras, que animaram a tarde, Rancho Folclórico “As Lavadeiras da Ribeira da Laje” e Rancho Folclórico Flores da Beira.
Em jeito de balanço final, podemos dizer que a exposição foi vista por cerca de 470 visitantes e 100 crianças da pré-escola e do 1º ciclo de Vila Fria, o que para a organização se revelou um sucesso, já que o tempo não convidava a sair de casa e uma exposição sobre trajes nem sempre é considerado um programa apelativo.
Foi uma boa experiencia, fica a promessa de novos projectos.
A todos os que colaboraram nesta iniciativa os nossos agradecimentos.
Imagens da actuação do Rancho Folclórico “As Lavadeiras da Ribeira da Laje”


Imagens da actuação do Rancho Folclórico Flores da Beira

quinta-feira, dezembro 11, 2008

Concerto dos OpenVoice

No dia 6 realizou-se um concerto dos OpenVoice, um grupo coral muito novo, mas com vozes muito promissoras, que fizeram o favor de preparar um reportório de musica portuguesa especialmente para a ocasião.
Foi fenomenal.
A qualidade dos filmes não os favorece (antes pelo contrário), mas aqui fica o destaque.
Aos OpenVoice os nossos agradecimentos.







domingo, dezembro 07, 2008

Colóquio “O nosso traje …”

No passado dia 5 realizou-se um Colóquio subordinado ao tema “O nosso traje …” com a presença de elementos de 5 ranchos do Concelho de Oeiras, que fizeram uma apresentação dos seus trajos.
Foi uma noite muito interessante de troca de experiências e onde se aprendeu muito sobre o passado e o modo de trajar.

Paulo Almeida – Rancho Folclórico Flores da Beira

Fernando Silva – Rancho Folclórico “As Macanitas” de Tercena

Mónica Pereira – Rancho Folclórico “Os Minhotos” da Ribeira da Laje

Virgílio Reis – Rancho Folclórico “As Lavadeiras da Ribeira da Laje”

Joana Meireles – Rancho Folclórico “Os Rancheiros” de Vila Fria

O debate foi mediado por Carlos Cardoso

Crianças do Pingolé visitam exposição de trajes

Os meninos da pré-escola do infantário Pingolé, de Vila Fria, visitaram a exposição de trajes e mostraram-se muito interessados por tudo o que lhes era mostrado.
Tiveram oportunidade de conhecer utensílios de outros tempos e sentiu as diferentes texturas dos tecidos. Mas o que fez maior sucesso foi a oportunidade de ver fazer farinha de trigo e de poderem mexer no cereal já moído.
Fizeram muitas perguntas e todas tiveram uma resposta.Obrigado pela vossa visita e participação.

terça-feira, dezembro 02, 2008

Programa Cultural da Exposição

Dia 5 – 21 horas
Colóquio subordinado ao tema “O nosso trajo…”,
com a participação de:
Rancho Folc. “As Macanitas” de Tercena
Rancho Folc. Flores da Beira
Rancho Folc. “Os Minhotos” da Ribeira da Laje
Rancho Folc. “As Lavadeiras da Ribeira da Laje”
Rancho Folc. “Os Rancheiros” de Vila Fria
Dia 6 – 21 horas
Concerto Open Voice, Musica Tradicional Portuguesa
Dia 7 – 16 horas
Actuação do Rancho Folclórico de Trajouce
Dia 8 – 16 horas
Rancho Folclórico Flores da Beira
Rancho Folclórico “As Lavadeiras da Ribeira da Laje”
Encerramento da Exposição

segunda-feira, dezembro 01, 2008

Inauguração da Exposição

Como prometido é devido, aqui estão as primeiras imagens da exposição inaugurada ontem.
Espero que gostem e que venham visita-la.

terça-feira, novembro 25, 2008

Caros Amigos

Antes de mais, as minhas desculpas por não estar a actualizar este blog com novos artigos, mas devido à organização da exposição que anunciei anteriormente não tenho tido tempo para pesquisar nem para escrever.
No entanto, para que possam começar a visualizar a exposição, fica aqui a imagem de um dos muitos trajos expostos, mais precisamente, dos pastores da Serra da Estrela.
Fica também o convite para uma visita.
Atenciosamente,
Carlos Alves Cardoso

sexta-feira, novembro 07, 2008

Exposição "Trajes de Portugal – Cultura e Tradição"



O Grupo Cultural de Vila Fria apresenta, entre 30 de Novembro e 8 de Dezembro, a exposição Trajes de Portugal – Cultura e Tradição, que decorrerá na sua sede social, em Vila Fria, Porto Salvo.
Esta exposição tem como objectivo a divulgação da riqueza e beleza dos trajes tradicionais portugueses, do período compreendido entre meados do sec. XIX e inicio do sec. XX, e poderão ser vistos cerca de 50 trajos das várias regiões de Portugal continental.

Neste blog serão disponibilizadas imagens da exposição, para que mesmo distantes a possam visitar.

Quem reside na região de Lisboa pode visitar a exposição nos seguintes horários:

2ª a 6ª feira das 18 às 21 horas
Sábados, Domingos e Feriados das 14 às 21h

A exposição será inaugurada no dia 30, pelas 14 horas, pelo Senhor Presidente da Câmara Municipal de Oeiras, Dr.Isaltino Morais.

Estão ainda previstas algumas actividades, das quais destacamos, a realização de um colóquio, no dia 5 de Dezembro, pelas 21 horas, subordinado ao tema “O nosso trajo…”, que será apresentado por elementos dos vários ranchos do Concelho, que falarão sobre um dos seus trajos.

A não perder!

sexta-feira, outubro 31, 2008

Tamancos e Socos - Entre Douro e Minho

Segundo alguns autores, terá sido na região de Entre Douro e Minho a área primitiva do aparecimento do calçado de pau em Portugal.
Existiu em Guimarães uma confraria dos sapateiros, sob a evocação de Santa Maria, cuja constância no tempo vem desde o século XIII e se projectara numa continuidade admirável sob o título abreviado de Irmandade de S. Crispim, tendo sido fundada em 1315 pelos sapateiros João Baião e Pedro Baião.
Uma sátira em verso do séc. XVIII, que define os habitantes de Entre Douro e Minho, faz-se referência ao calçado de pau.
“Homem de Entre Douro e Minho
Calça de pau e veste linho,
Bebe vinho de enforcado,
Traz o porco escangado,
Foge dele como do diabo.”
Se bem que em tempos passados o povo tivesse andado descalço, este calçado impunha-se como meio de protecção na realização de alguns trabalhos agrícolas, tendo por isso os seus melhores defensores na gente da lavoura.
Feito de pau de amieiro e um pouco de couro, este calçado humilde tem também a sua história.
Popularmente, os tamancos têm as designações de socos e taroucos. Se a pessoa que os usava era uma mulher, os tamancos eram designados por tamancas, os socos por socas, e os taroucos passavam a ser taroucas.
A propósito deste assunto, José Leite de Vasconcelos, o mestre da etnologia, refere que “as mulheres usam tamancas ou socas, que são menores e mais apuradas do que os tamancos, mas com sola de madeira”.
De qualquer forma, o tamanco era mais usado pelo homem e o soco mais usual na mulher, sendo inquestionável que este foi o calçado dos pobres, sem esquecer que também os ricos o usaram em muitas emergências do tempo e da fortuna.
As próprias condições físicas do terreno foram as inspiradoras do artífice tamanqueiro. Nas terras do litoral, o pau do tamanco é raso. No interior, o tamanco começa a arquear a biqueira. Já nas terras bravas das serras, o tamanco arqueia ainda mais, cingindo o couro mais ao pé, para melhor se acomodar ao terreno e à marcha.

As oficinas dos tamanqueiros situavam-se sobretudo nas recônditas aldeias. O tamanqueiro talhava as peles (de couro para os socos de homem e de crute para os socos de mulher), e pregava-as aos paus. Utilizava moldes de cartão grosso para cortar as peles e uma forma para fixar o cabedal ao pau de amieiro através de tachas. O artífice percorria as aldeias em busca do amieiros, que só podia ser cortado nas quadras da lua. O fabrico do tamanco era sobretudo um trabalho de Inverno, pois aproveitavam as Feiras de Verão para vender os seus produtos.
Os socos não eram só para uso no trabalho, mas também aos domingos, dias de festa e mesmo para certos actos de maior importância, como casamentos. No caso dos actos cerimoniosos, eram muitas vezes usados socos feitos de melhores matérias e acabamentos mais luxuosos, mas como eram dispendiosos apenas estavam ao alcance de uma pequena minoria. Ainda assim, muitas vezes durante o trajecto para um acto cerimonioso ou na deslocação para uma povoação, o soco era mantido debaixo do braço para não se estragar e só à chegada o calçavam.
A seguir descrevem-se alguns tipos de socos:


Soca Curta – Soca de bico arredondado, salto baixo, e em que as pontas dos “cortes” terminam próximo da quina do salto. Os paus podem ser pintados de preto ou à cor natural, sendo forrada no interior. Este é um modelo muito popular mesmo noutras regiões.
Soca Inteira – É um tipo de soca, de mulher, mais fechada, em que as “orelhas” dos “cortes” se juntam atrás sobre o salto, ficando acima deste cerca de 2 cm. O bico é arredondado e o salto alto. Sendo forrada internamente com uma palmilha.

Soco Rebelo – As orelhas dos cortes são mais altas do que no soco poveiro, juntando-se atrás sem se sobreporem. Neste tipo de soco, a forma é metida a maço e os cortes batidos e alisados com o cabo do martelo, a fim de se conseguir a curvatura do bico, que é a sua principal característica.

Soco Poveiro – É o soco, para homem, mais vulgar da região. O seu nome deve-se a ter sido a Póvoa do Varzim o seu presumível difusor. Soco de ponta redonda, em que as orelhas dos cortes se juntam atrás sem se sobreporem, ficando acima do salto cerca de 3 cm. É mais aberto que o soco rebelo. Como todo o tipo de soco para homem, o pau é de cor natural e sem palmilha no interior.
Chanca Rebela ou de Ponte de Lima – Fabrica-se de couro atanado dividido em duas peças denominadas “gáspea com biqueira” e “cano” ou “talão”. O “cano” ou “talão” é sobreposto à “gáspea”, fechando a frente através de um cordão de couro. A ponta é bicuda e um pouco arredondada. Antigamente eram feitas a partir do aproveitamento da botas velhas, às quais mandavam aplicar os paus.