domingo, outubro 18, 2009

Museu de Arte Popular

Boas notícias! Um parecer que propõe a reabertura do processo de classificação do edifício do Museu de Arte Popular foi aprovado por unanimidade pelo Conselho Consultivo do IGESPAR no dia 15 de Julho de 2009.
O Museu de Arte Popular, situado em Belém, resulta da adaptação de alguns dos antigos Pavilhões da Vida Popular, integrados no conjunto construído para a Exposição do Mundo Português de 1940. Após a exposição, e por decisão de António Ferro, foi aí instalado o MAP (inaugurado em 1948)
O Museu de Arte Popular encontra-se encerrado ao público desde 1998 para a realização de obras de reabilitação. Em 2006, a então Ministra da Cultura Isabel Pires de Lima, anunciou o projecto da instalação do chamado Museu Mar da Língua Portuguesa no seu espaço.
Entretanto, a colecção do MAP foi transferida para o Museu Nacional de Etnografia, segundo declarações públicas do seu director, para trabalhos de conservação e restauro.
O movimento em defesa do Museu de Arte Popular, que integra a historiadora de arte Raquel Henriques da Silva, a empresária Catarina Porta, a artista plástica Joana Vasconcelos e o jornalista Alexandre Pomar, tem encetado esforços para a recuperação do edifício e da sua magnifica colecção, tendo como objectivo último a sua reabertura.
Fica uma crítica: Talvez por se dedicar à Arte Popular este museu não tem recebido a atenção que merece por parte de algumas elites pseudo-intelectuais, para quem a etnografia, o folclore, a cultura popular, etc., é desprezável e uma vulgaridade do “povo”. Engana-se quem assim pensa, pois não só é ignorante … é também BURRO!
O blog Trajes de Portugal associa-se a este movimento e apela à que assinem a PETIÇÃO em defesa do Museu de Arte Popular.
Visite também o blog Museu de Arte Popular – fechado em Belém, mas aberto aqui.



















segunda-feira, outubro 05, 2009

Trajes do Porto

Os trajes e as modas do Porto são aqui recriados pelo Rancho Folclórico do Porto.




quinta-feira, agosto 27, 2009

Os Avieiros – Salvaterra de Magos - Ribatejo

Desde sempre o rio Tejo, atraiu muitos pescadores vindos de longe. Gente do mar, que de Inverno não conseguiam ganhar o seu sustento devido à bravura das ondas, viam o seu ganha pão ser recusado pelo mar, enquanto que no rio Tejo, rico em espécies lucrativas, da qual se destacava o sável, várias famílias rumam ao sul, em busca de sustento.
Destas migrações internas, que surgiram nos finais do séc. XIX, destacam-se duas de origens geográficas diferentes: os varinos, vindos da região de Ovar, Estarreja e Murtosa e os avieiros originários da Vieira de Leiria.
Situada na margem esquerda do rio Tejo, a escassos quilómetros da vila de Salvaterra de Magos, encontramos a pequena aldeia do Escaroupim. Curioso povoado habitado pelos descendentes de uma das mais peculiares migrações internas, que Portugal assistiu - os avieiros.
Estes nómadas do rio, como afirmou Alves Redol, são baptizados de avieiros, que é um gentílico extraído da sua terra de origem, Vieira de Leiria.
Em Vieira de Leiria durante o Inverno, o mar é tão revolto e os ventos violentos impediam que os barcos entrassem no mar. Privados da sua actividade principal, os avieiros tiveram que dedicar-se a outros trabalhos. Uns eram contratados pelas serrações instaladas nos pinhais vizinhos, outros deixam a sua terra de origem e partem em direcção ao Tejo, onde a safra do sável, lhes dava uma ilusão de uma vida melhor.
Não está definida uma data para esta migração, a única certeza que temos é que em dada altura, os pescadores da Vieira de Leiria, começaram a emigrar para o Tejo, e que durante anos, muitas famílias viveram uma vida repartida entre o rio e o mar. Partiam para o Tejo de comboio, mas os primeiros vieram nos seus próprios barcos.




Ficavam nos meses de Inverno a percorrer o Tejo e a suportar uma vida que era dura e difícil, como afirma Maria Micaela Soares: “(..) vinham em Novembro, trazidos pela penúria. Anónimos e tímidos se achegavam às margens do Tejo. Na época de vaivém entre a praia e a lezíria, moravam nas pequenas embarcações de proa alta, quer durante a faina, quer acostado. O barco era o berço, a câmara nupcial, a oficina e a tumba”.
A sua vinda para as terras de borda-d'água, não foi fácil porque “quando os avieiros chegaram à lezíria, encontraram já o rio sulcado de barcos, alguns maiores que os seus, e que eram conduzidas igualmente por pescadores que povoavam o Tejo, chamavam os da terra varinos.
Eles entre si designavam-se simplesmente pescadores, em oposição aos trabalhadores da terra. Os avieiros apelidaram-nos de Murtoseiros, qualquer que fosse o seu ponto de origem. Esta era, na sua maioria, a Murtosa, mas também vinham de Ovar e da Estarreja. Esses grupos, que haviam seguido na esteira do sável, fixaram-se nos extremos dos povoados ribeirinhos, junto às praias.
Alugavam as casas da beira-rio, onde habitavam várias famílias, para o aluguer ser mais acessível”.
Havia uma rivalidade entre ambos, o que provocava grandes rixas. Os varinos acusavam os avieiros de terem contribuído para a decadência da sua actividade piscatória, através da concorrência desleal das redes, os avieiros por sua vez também os acusavam de usarem este tipo de redes. O certo é que estes dois grupos não mantinham relações muito cordiais.
Com o passar dos tempos, o processo migratório cessa e acabam por se fixar nas margens no Rio Tejo, o nomadismo acaba e sedentarizam-se. Com a fixação definitiva, surge a necessidade de encontrar um domicílio mais estável, resistente e confortável. Pouco a pouco conquistam as margens do rio Tejo e começam a erguer pequenas barracas totalmente construídas em caniço, dado que este crescia de forma espontânea pelos valados.



Sempre que as condições económicas o permitiam, começavam a adquirir madeira, comprando por vezes uma tábua por semana e aos poucos iam edificando a sua habitação. A aldeia do Escaroupim nasce desta forma, tomando uma configuração muito irregular tal como a vida dos avieiros, as casas forma levantadas aos solavancos conforme as suas posses. Contrastando com a casa ribatejana, a habitação avieira é assente em pilares devido às cheias ocasionais do Tejo, é feita em madeira, pois é o único material que a Capitania do Porto de Lisboa e a Hidráulica permite. Enquanto que a casa ribatejana é normalmente caiada, a do avieiro é pintada com cores alegres onde se destaca o verde, o vermelho e o azul, disfarçando desta forma as amarguras da sua vida. Este tipo de habitação é idêntico aos palheiros da Praia da Vieira.
O Tejo era a sua vida, o rio fê-los viver décadas de isolamento de costas voltadas para a lezíria, dado que estes não os “aceitavam” por serem diferentes, as raízes culturais dos avieiros não estão no Ribatejo, mas sim na terra dos seus pais e avós - a Vieira de Leiria.

A MULHER AVIEIRA
A mulher teve um papel muito importante na família avieira, para além de mãe e esposa, era também a “camarada” do pescador. Era ela quem remava e controlava o barco, enquanto o homem lançava as redes, ajudava também no conserto nas redes.
Após a pescaria fazia grandes caminhadas, de freguesia em freguesia, com a canastra à cabeça para vender o pescado, descalça sobre a geada ou debaixo do sol escaldante.
Apesar da fixação na lezíria ribatejana, a mulher avieira conservou genuinamente o seu traje de origem. Vejamos a descrição deste, segundo uma descrição de Maria Micaela Soares “(...) elas conservam puras muitas das suas tradições, com especial relevo para o vestir. Usam saia e blusa - a que a mais velha chama “casaco”, sendo aquela muito rodada ou em pregas miúdas. De tecido diferente, conforme a estação do ano, a saia tende sempre para o xadrez castanho-amarelado, embora se vejam também de cores muito garridas.
O “casaco” tem sempre manga comprida, é bastante colorido e muito enfeitado, com rendas ou bordados, mesmo nas menos jovens (...).
Também não dispensa o avental, bastante rodado, estimando muito os de riscas largas, de quadradinhos miúdos ou de cor lisa, bordados. Usa-o no trabalho do rio, doméstico, agrícola ou nas festas.
Na cabeça, a avieira mais idosa não prescinde do lenço, posto com pontas ao alto, à rodada-cabeça, caído pelos ombros, atado atrás. Só dentro da casa e nos grandes calores estivais o retira e, mesmo assim, se alguém chega à porta, repõe-no imediatamente, que não parecia bem sem ele. Faz parte do decoro da sua apresentação. Quando de luto, nem em casa o afasta.
Interiormente as mais velhas trazem ainda camisa com “ombrêras”, além da saia branca de baixo, tudo com rendas.
Grande anseio de todas é a posse de um cordão e grandes medalhas, que ostentam mesmo sobre fatos de luto (...)”.

O HOMEM AVIEIRO
Trajo do avieiro, também nos reporta para a sua área geográfica da Vieira de Leiria “de camisa axadrezada, em tons castanhos e amarelos, de preferência e não já de pano-cru; calça de fazenda ou de cotim, arregaçada, tal como a ceroula interior, ou largas bragas de zuarte, antigamente,mas de ganga hoje; boina de pala curta em vez de barrete de outrora, em geral preto, mas que também fora azul ou vermelho, com ou sem borla, cinto de cabedal ou mero cordão, pela cinta preta de outros tempos, camisolas e casacos de malha ou de tecido grosso a destronarem o gabão de capucha e farto cabeção, pés de descalço sempre - eis o velho avieiro”.

Bibliografia: Maria Micaela Soares, “Mulheres da Estremadura” In Boletim Cultural da Assembleia Distrital de Lisboa

Rancho Folclórico "Os Avieiros" do Escaroupim (Página Provisória)

sábado, agosto 08, 2009

O Homem da Taberna - Algarve

A taberna, em qualquer região de Portugal, constituía (direi antes, constitui, já que ainda existem algumas) o centro social por excelência de uma localidade. Trata-se de um lugar exclusivamente masculino, onde, entre umas rodadas de vinho ou aguardente, se jogava às cartas, ao dominó, á moeda. Está claro, em lugar de jogos de azar, com bebida á mistura, as desavenças eram frequentes. Mas na taberna também se sabe das novidades, se contrata trabalho, fala-se dos namoros, de futebol e de politica.
A grande perturbação familiar surgia quando o homem começava a ser frequentador habitual da taberna descurando a família. Não raras vezes, a mulher entrava na taberna e arrastava o marido para casa, era a suprema humilhação, que nem sempre servia de lição.
Os 3 trajes que vos apresento, são exemplos de trajos quotidianos de inverno do homem algarvio da primeira metade do sec.XX, provavelmente pescadores de mar alto, ou em época de defeso, operários, etc., gente simples … gente de trabalho.

Boné de tecido de lã preta. Casaco de tecido de lã grossa estampado de xadrez em tons de castanho e verde, aberto na frente e com manga comprida. Camisa de flanela formando xadrez em tons de vermelho de manga comprida, colarinho chanfrado, aberta na frente, aplicação de bolso sobre o peito do lado esquerdo.
Calças de fazenda de lã cinzenta e preta. Lenço tabaqueiro. Botas em pele de carneira.

Boina castanha. Camisa de tecido de lã formando xadrez policromado de manga comprida, aberta na frente, com aplicação de bolso com pala sobre o lado esquerdo. Colete de fazenda de lã cinzenta, interior guarnecido com lã de ovelha, aberto na frente e aplicação de três bolsos. Capote com gola de pelo. Calças de tecido de algodão em tons de preto e branco. Lenço tabaqueiro. Tamancos de madeira e cabedal castanho.

Boina em tons de castanho. Camisa de tecido de algodão em tons de azul e branco em xadrez, colarinho chanfrado, aberta na frente, manga comprida, com aplicação de bolsos com pala. Colete de soriano castanho, aberto na frente, com dois bolsos. Calças em fazenda de lã grossa. Samarra cinzenta com gola de pêlo de carneiro. Botas de carneira.

Fonte bibliográfica: “Orla Marítima – Traje do Algarve”, Museu Nacional do Traje

segunda-feira, julho 27, 2009

Traje de Peregrino – Entre Douro e Minho

A imagem que público hoje, está referenciada como um traje de peregrino de Entre Douro e Minho. Não é a primeira vez que vejo imagens deste trajo, mesmo noutras publicações, no entanto nada sei sobre a sua história.
Se algum dos meus leitores me puder ajudar, seria bom e enriquecedor para todos.
Fica o pedido de ajuda.

terça-feira, julho 21, 2009

Trajes de Trabalho no Arroz – Ribatejo

É no reinado de D. Dinis que surgem as primeiras referências escritas sobre a cultura do arroz, este destinava-se somente à mesa dos ricos. Posteriormente no séc. VXIII foram dados incentivos á produção deste cereal principalmente nas regiões dos estuários dos principais rios de Portugal.
No ano de 1900, a cultura do arroz era, em Portugal, limitada às “terras alagadiças dos vales do Vouga, Mondego, Sado, Mira e Guadiana”. Meio século depois, com o incremento verificado, o seu cultivo é efectuado em múltiplos municípios.
A expansão da cultura do arroz teve lugar por volta de 1909, após se ter elaborado um conjunto de regras para a preparação dos terrenos e da gestão da água, proporcionando assim, o cultivo de diferentes variedades de arroz.
A monda fazia-se com água pelo joelho, às vezes mesmo por cima dele. Daí as mondadeiras andarem descalças e trazerem as saias puxadas bem acima. Passar todo o dia em meio metro de água já fazia parte do quotidiano. O que atemorizava as mondadeiras era quando havia olheirões, zonas do canteiro onde a terra era menos consistente e, ao pisá-la, o corpo se enterrava pelo lodo adentro, ficando-se às vezes com água até ao peito. E depois havia os bichos: as cobras inofensivas mas com fama de malfazejas no imaginário popular, as sanguessugas que se agarravam às pernas, e por isso se usavam os canos, os bazarucos (bichos pretos com turquês que ferravam nos pés) e as camisolas - essas brancas e espalmadas mas que também tinham turquês e não se ficavam atrás na arte de ferrar. Ainda agora, trinta anos passados sobre os tempos em que andavam nos canteiros, as mondadeiras se arrepiam ao falar deste exército de impiedosos inimigos que permanentemente lhes ameaçavam as pernas e os pés.
Iguais riscos corriam os homens que, finda a monda, tratavam de adubar, com amónio, metidos nos canteiros aos dois e aos três, à ilharga uns dos outros, descalços e de calça arregaçada até ao joelho.
Embora mondadeiras por designação, essas mulheres executavam praticamente todos os trabalhos da campanha do arroz, desde a preparação dos viveiros, no fim do Inverno, até à ceifa, pelo Outono dentro. No peito, a força da vida. Na voz, o cantar das mondadeiras.

Somos um alegre rancho
Das mondadeiras de arroz
Que vem espalhando alegria
Com alegria na voz.

(Teresa Cavazzini)

Lá vão elas
Pela estrada de alcatrão,
Atraentes moças belas,
Onde brilha a sedução.
Lá vão elas,
Como a sina lhes propôs,
As donzelas,
Para a monda do arroz.

(Custódio Mira)



Mas as mondadeiras estão vivas e falam com muita vida de um tempo, cada vez mais distante, que já não sabem bem se foi bom se mau. Porque era dura a vida e pesada a labuta. Porque abundava o trabalho e se contava sempre com a alegria e o conforto do rancho.


O trajo da mondadeira do arroz: Saia de roda, de ganga ou de riscado, blusa de chita, avental de pano; duas ou três saias de baixo, recortadas, juntas à de cima e pregadas com alfinetes à volta de cada perna; a atar tudo, o nastro, espécie de cinta para ficar bem alto o conjunto; lenço colorido com motivos florais e, por altura do calor, um chapéu de palha por cima; canos nas pernas, geralmente escuros; pés descalços e enegrecidos, os sapatos eram apenas utilizados no caminho de e para o campo; nos braços, manguitos, de cotim ou de restos de meias velhas.

Trajo do homem do campo: usava barrete ou chapéu consoante a estação do ano, no inverno barrete, no verão chapéu, nem todos seguiam esta linha pois alguns só usavam uma peça todo o ano; camisa de algodão escura para não se notar o pó e o sujo, por cima uma camisa de riscado; colete e calças de cotim; ceroula atada em baixo e calças por cima arregaçadas, quando o trabalho era mais agreste despia-se as calças e ficava-se só com as ceroulas; os tamancos serviam só para as deslocações para o trabalho e deste para casa, mas a maioria andava descalça todo o ano, à excepção quando iam à vila.
O homem do campo andava sempre com a roupa e aconchegos preparados para as adversidades do trabalho ou do tempo, o lenço de assoar grande e de cor vermelho, servia também para pôr em redor do pescoço para não entrar pó, ou tapar o nariz e a boca, quando andavam nas eiras; a manta lobeira (ou cobertor de papas) serviam para o homem se resguardar das intempéries, frio, chuva, etc.

Imagens: Rancho Folclórico "Os Camponeses da Raposa" - Almeirim

quinta-feira, julho 16, 2009

Grupo Folclorico Português Alma Lusa comemora 50 anos

O Grupo Folclorico Português Alma Lusa comemora 50 anos de existência, com uma grandiosa festa no Paraná - Brasil.
Não sendo habito fazer este tipo de anúncios, também não podia deixar de o fazer já que se trata de um grupo que tem dedicado à divulgação das nossas tradições junto da comunidade portuguesa no Brasil, mantendo uma ligação cultural entre os luso-descendentes e o seu pais de origem.
50 Anos é uma bonita idade, digna de ser assinalada e festejada.
Parabéns!

Traje de Vale d'Este – Baixo Minho



O Traje de Vale d'Este é assim designado por ter tido maior predominância no vale onde corre o rio Este, afluente do rio Ave, e entrou em desuso nos princípios do século XX.
A moça que pertencia esta região envaidecia-se com o seu chapéuzinho de copa rasa, que enfeitava com fitas de veludo e lantejoulas e, descobrindo o busto, mostrava o colete bordado a seu gosto.
O trajo era assim composto por um pequeno chapelinho de feltro, guarnecido de veludo, plumas, borlas e fios de cores garridas, com fita de veludo em pontas pendentes para a nuca; lenço de tule branco bordado em pontas soltas; camisa de linho, ricamente bordada e adornada com rendas; colete de rabos ajustado na frente com cordão, frente e costas bordadas a preto ao gosto da moça; a saia é ampla de baetilha preta, fartamente rodada e "aparelhada" a veludo, cetim e vidrilhos; usa um pequeno avental, às riscas verticais das mais variadas cores, guarnecido de barra de veludo preto, tecido nos teares da aldeia; algibeira bordada a lãs; lenço bordado; meias brancas, rendadas, de linho ou algodão; chinelos de verniz, pespontas a branco; brincos e farto oiro no peito.

Fonte: Rancho Folclórico de Santa Maria de Aveleda

domingo, julho 05, 2009

Descarregador de peixe – Setúbal - Estremadura

De passagem por Setúbal não podia perder o 33º Festival Nacional de Folclore organizado pelo Rancho de Praias do Sado, que decorreu ontem, dia 4. Um espectáculo maravilhoso, num auditório extraordinário e com um público entusiasta.

Confesso que gostei tanto do que vi e ouvi, que me apeteceu homenagear esse grupo e essa cidade falando de um dos seus trajes mais simbólicos – o Descarregador de Peixe.

Tentei encontrar uma descrição deste traje mas não consegui, pelo que a exposição seguinte resulta apenas da minha observação, se algum dos leitores pretender acrescentar algo agradeço.

O traje do descarregador de peixe é composto por umas calças curtas e um casaco de cotim, veste ainda uma camisa de riscado. Na cabeça usa o seu principal instrumento de trabalho e o objecto que marca a sua actividade, um chapéu metálico de forma circular, com aba larga e profunda, sobre o qual transporta as canastras de pescado. Para proteger a cabeça da rigidez do metal, utiliza um lenço que amarra na nuca.

Anda descalço, pois a actividade assim o obrigam.

Noutras regiões e em actividades idênticas, havia o costume do peixe que caísse nestes chapéus reverteria a favor do descarregador, daí o andar bamboleante que adoptavam, não sei se é esse o caso, mas gostava de conhecer mais.

segunda-feira, junho 29, 2009

Conservação de Trajes

Ao longo destes anos tenho descrito centenas de trajos e muitas vezes falado na importância da sua conservação.
No entanto, não nos podemos esquecer que a maior parte dos trajes antigos estão na posse de grupos etnográficos e ranchos folclóricos que possuem pouca experiencia e meios para conservar os seus acervos, pelo que, estes acabaram por se perder.
No presente artigo, vou tentar dar algumas dicas sobre técnicas de conservação de têxteis, mas que não substituem a necessidade de consulta a um técnico avalizado, já que, para além da conservação existe o restauro e este só deve ser efectuado por pessoas devidamente habilitadas para o efeito.
Diz a sabedoria popular que “mais vale prevenir que remediar”, pelo que, se pretendemos perpetuar a existência de determinada indumentária temos de nos preocupar com a sua conservação.
Uma peça de indumentária, ao longo do tempo, sofreu um desgaste próprio do seu uso, mas também a influencia do meio ambiente e da forma como foi acondicionada, pelo que muitas vezes chegam até nós fragilizadas e a sua exposição e manuseio só irá contribuir para a degradação.
Quando planeamos a constituição de uma zona de armazenamento de têxteis, temos de planear o que vamos guardar e como.
Desde logo, o espaço de armazenamento deve ter em consideração os seguintes factores que contribuem para a deterioração de têxteis:



Para a conservação e estudo de uma peça de indumentária é extremamente importante a sua catalogação, utilizando fichas descritivas, quer da peça como do seu estado de conservação, e fotografias, de forma a que a peça seja manuseada o menos possível.



Depois, a peça passa por 5 fases com vista à sua conservação:
1 - Higienização: que consiste na eliminação de sujidades generalizadas, extrínsecas ao objecto, como poeira, excrementos de insectos, partículas sólidas, suor e outros elementos estranhos a sua estrutura e pode ser realizada através de limpeza a seco ou aquosa.
2 - Desinfestação: tratamento que tem por objectivo a eliminação de macro e/ou microrganismos existentes nos materiais têxteis e requer o uso de câmaras de baixa temperatura ou de insecticidas, aplicados em câmaras de fumigação ou no próprio ambiente (este tratamento só deve ser adoptado em casos extremos).
3 - Hidratação: Destina-se a minimizar os vincos e os enrugamentos causados pelas condições inadequadas de armazenamento e acondicionamento – os métodos mais usados são a vaporização a frio e a humidificação em tenda.
4 - Acondicionamento: consiste na utilização de embalagens adequadas para a guarda dos objectos têxteis dentro do museu e outras específicas para transporte e exposição.
5 - Armazenamento: Tratamento que consiste em guardar os objectos têxteis que não estão expostos.

Quando se acondiciona uma peça, deve ser evitado a utilização de material ácido, como, caixas de papelão, jornais, papéis coloridos, etc., pois a sua acidez pode passar para os tecidos, causando manchas e descolorações. Também não devem ser acrescentados materiais que possam influenciar negativamente a peça, como, agrafos, clipes, alfinetes, etiquetas de papel, colas, autocolantes, tintas de caneta, etc.

Quanto ao armazenamento, este pode ser horizontal (caixas, prateleiras, gavetas) ou verticais (pendurados, emoldurados ou em cilindros), a opção depende do tipo de objecto e do espaço disponível para armazenamento. O sistema de armazenamento deverá permitir uma fácil movimentação dos artefactos e a seguranças dos objectos e das pessoas que os manipulam.
1 - Condicionamento em caixas de papel: As caixas de papelão utilizadas necessitam de ser isoladas no seu interior com papel livre de ácidos, como papel de seda neutro ou papel de arroz. O acondicionamento feito em caixas tende a ocupar mais espaço, mas os artefactos ganham um grau maior de apoio e protecção.
2 - Acondicionamento em cilindros: Os tecidos planos, assim como xailes ou lenços, podem ser enrolados em cilindros, evitando dobras e vincos. Os tecidos devem ser enrolado com um outro tecido neutro, pano cru, manta acrílica ou malha hospitalar, e não devem estar apertados ao cilindro.
4 - Acondicionamento em gavetas: As gavetas de alumínio anodizado podem guardar pequenos artefactos, mas estes devem estar colocados firmemente nas gavetas para não serem danificados quando forem abertas ou fechadas.



5 - As indumentárias mais estruturadas e resistentes podem ser armazenadas em cabides
acolchoados, feitos de materiais inertes e ajustáveis, dentro de armários, tomando pouco espaço e facilitando a disponibilidade das peças. Os cabides podem ser acolchoados com enchimento de poliéster, cobertos com musselina fixa por amarração. São materiais de baixo custo e bastante acessível, podendo ser uma óptima sugestão para o acondicionamento de peças que possam ser penduradas, como casacos ou jaquetas.
Peças com corte no viés, deterioradas, feitas em tricô, jamais deverão ser penduradas.





No exterior da embalagem devem constar elementos identificativos do seu interior, permitindo uma fácil localização do objecto pretendido, sem ter necessidade de revolver em demasia as peças armazenadas.

Não nos podemos esquecer, que acima de tudo está a conservação e a preservação das peças e que a sua utilização, manuseamento e exposição também contribuem para a deterioração.

O Traje é um pouco da história que nos pode contar muitas estórias.

Fonte biblográfica: Keese, Alessandra Savassa Gonçalves, in “Conservação Têxtil” – A importância da preservação do património têxtil para a moda – UNISAL 2006

sexta-feira, maio 08, 2009

Ovarina pintada por D.Carlos

El-Rei senhor D. Carlos foi considerado uma individualidade artística, homem de ciência e habilíssimo em todos os exercícios físicos, tais como a caça, a pesca, equitação, etc.
O seu espírito, desde cedo muito culto, foi moldado pelo gosto pelas belas artes, possuindo a paixão de um verdadeiro artista.
Distinguindo-se especialmente na aguarela e no desenho a pastel, são sobejamente conhecidas as suas magnificas obras.
Como artista interessou-se por variadíssimos temas, tendo, por diversas vezes retratado o seu povo, como é exemplo este magnifico retrato de uma mulher de Ovar.

domingo, abril 26, 2009

Ala Arriba – Os poveiros retratados no cinema

Leitão de Barros no seu filme de 1942, ALA ARRIBA, retrata os usos e costumes dos pescadores da Póvoa do Varzim. Este é um extraordinário documentário cinematográfico sobre a vida destes homens e mulheres que do mar retiravam o seu sustento.
O filme que podem ver se seguida, é um pequeno excerto, em que o narrador nos situa na malha social da estoria e traça um retrato dessas gentes, no inicio do sec.XX.
Ora vejam!



Sobre este assunto pode ainda ver neste blog:
Trajo de Ida ao Mar
Traje de Luto
Traje de Festa e Romaria

terça-feira, abril 21, 2009

Cobertor de Papa – Maçainhas - Guarda

Quem não se lembra dos quentes cobertores de papa, que nas casas dos nossos avós aqueciam as camas nas longas noites de Inverno?

Pois estes provêem de uma pequena freguesia do Concelho da Guarda – Maçaínhas - e hoje, como ontem, continuam a ser fabricados de forma artesanal.

A produção do cobertor de papa, remonta ao reinado de D. Sancho II. No reinado de D. José (1758), com o Marquês de Pombal, esta indústria desenvolveu-se na zona da Covilhã e da Guarda: criaram-se novas fábricas e contrataram-se artífices no estrangeiro. Este progresso veio mais tarde beneficiar esta região nomeadamente Maçaínhas. Consta que um tecelão da Covilhã terá fixado residência por estas paragens e terá transmitido os seus conhecimentos aos habitantes.

Há cerca de 100 anos. Havia 9 teares para o fabrico de cobertores de papa em Maçaínhas que eram depois vendidos em feiras.

Os teares e a produção de cobertores foi aumentando de ano para ano, alargando-se depois a outras famílias.

Em 1930-1932 houve uma grande crise e foram poucos os fabricantes que resistiram.
Em 1938, começou a recuperação e, em 1942-1943, quase todas as famílias tinham um tear para fabricar cobertores chegando a existirem 35 teares.
Actualmente existem apenas dois teares em funcionamento, pertencentes aos senhores José Pires Freire e José de Almeida Tavares.
O cobertor de papa também é conhecido por cobertor de pêlo, manta lobeira, amarela e espanhola, podendo ser produzido numa só cor (branco, verde, vermelho, etc.), com a cor “barrenta” (branco e castanho), bordado a azul, verde e vermelho (destinado ao Minho e ao Norte do País) ou fabricado com tiras coloridas de castanho, amarelo, verde e vermelho (típico da zona do Ribatejo).

A diferença entre este cobertor e os restantes é que o de papa é fabricado, exclusivamente, com lã churra de ovelha, uma lã macia das ovelhas de Idanha-a-Nova, Monsanto e Medelim, que também estão em extinção.
Com o aparecimento de outros artigos no mercado, o cobertor de papa deixou de ter a procura de outros tempos.

O cobertor de papa pesa, em média, três quilogramas e mede 1,70cm de largura e 2,40cm de comprimento e distingue-se dos outros cobertores pelo seu “design” e pelo facto de ter o pêlo mais comprido, porque a lã de que é feito é mais comprida.

A produção do cobertor é mais praticável nos meses quentes, porque no Inverno a água está muito fria e os cobertores têm que ser levados ao pisão e no Verão é melhor, nomeadamente, para os secar porque ficam mais direitinhos.

O fabrico do cobertor tem diversas fases. A lã é comprada e enviada para a fiação entrando na fábrica transformada em fio. Segue-se a fase da tecelagem, por um único tecelão, num tear manual em madeira. Na etapa seguinte, quando o corte estiver feito é transportado para o pisão para lavar e feltrar. Quando o corte tiver o “corpo” necessário vai à carda para puxar o pêlo. De seguida, os cobertores são cortados e vão à râmbula (peça em ferro onde se prendem esticados para secarem e ficarem com uma determinada medida).


Os cobertores de papa parecem condenados a desaparecer e com eles um pouco das nossas memórias.


Fonte Bibliográfica:

Colecção: O Fio da Memória, número 12
Titulo: Notas sobre o Cobertor de Papa de Maçainhas
Autor: Maria do Céu Baía Oliveira Reis
Edição: Câmara Municipal da Guarda - Setembro de 2003

terça-feira, abril 14, 2009

Faleceu José Franco

José Franco, reconhecido oleiro e ceramista, faleceu hoje aos 89 anos, o funeral decorrerá amanhã, no Sobreiro, terra que o viu nascer a 19 de Março de 1920.
José Franco dedicou-se principalmente à arte-sacra. No entanto, a sua obra mais conhecida e popular será a Aldeia Típica de José Franco, no Sobreiro (Mafra), construção em miniatura de uma aldeia saloia do início do século XX, onde podem ser apreciadas cenas da vida da época, realizadas por bonecos mecanizados, principalmente movidos a água, bem como, lojas em miniatura que ilustram as mais diversas profissões, muitas delas, hoje em dia, completamente abandonadas.
Utilizando as palavras de Jorge Amado, de quem era amigo, diria que morreu o “…artista do barro e da vida …um português que nasceu com o dom misterioso da beleza e a distribui como um bem de todos …”.
A nossa homenagem!

segunda-feira, abril 06, 2009

Apresentação sobre o traje

A apresentação que se segue, foi efectuada no âmbito de um Curso de Formadores que estou a frequentar e destinada a um público pouco habituado a estes assuntos.

O que tentei fazer foi despertar o interesse pela etnografia em geral e pelo trajo em particular.


Como achei que o assunto podia interessar a mais alguém decidi colocar aqui o filme.

As minhas desculpas se detectarem algumas imprecisões.

Espero que gostem!


quarta-feira, março 18, 2009

O TRAJE TRADICIONAL EM MAFRA

O Museu Municipal Prof. Raúl de Almeida, em Mafra, acolhe a realização de uma exposição sobre o traje tradicional, reunindo mais de 100 peças de vestuário dos espólios de Ranchos Folclóricos do Concelho e do próprio museu. A abertura está marcada para 21 de Março, pelas 15h30.


Estreitando os laços de cooperação existentes entre a Autarquia e as comunidades locais, esta mostra, desenvolvida em colaboração com ranchos folclóricos do Concelho de Mafra, permite ao visitante encontrar peças de vestuário originais, bem como 35 réplicas outrora usadas nas comunidades rurais locais, na sua maioria relacionadas com os momentos lúdicos da vivência do povo, e que se reportam ao período compreendido entre a última metade do séc. XIX e o primeiro quartel do séc. XX.

A referida exposição reúne peças de vestuário provenientes dos espólios, na sua maioria, do Rancho Folclórico "Cantarinhas de Barro", Rancho Folclórico da Malveira, Grupo Folclórico "Os Saloios da Póvoa da Galega", Grupo de Danças e Cantares de Santo Estêvão das Galés, Rancho Folclórico de Monte Godel, Rancho Folclórico "As Morangueiras do Sobral da Abelheira", Rancho Folclórico de São Miguel do Milharado, Rancho Folclórico do Livramento, Rancho Folclórico e Etnográfico de Cabeço de Montachique, Grupo de Danças e Cantares de Vila de Canas, Rancho Folclórico "Os Hortelões da Ervideira" e Rancho Folclórico da Murgeira). Estas compreendem roupa exterior e de interior, lenços e xailes, chapéus e barretes, sacos e sacolas de retalhos, trajes domingueiros e de trabalho, representando um testemunho do quotidiano da população rural concelhia, influenciada pela proximidade de Lisboa, visto os rurais locais se deslocarem com frequência à capital, a fim de lá venderem os seus produtos.

quarta-feira, março 04, 2009

O calçado tradicional

O calçado artesanal faz parte das raízes do nosso país. O seu processo de execução é longo e complexo. O esforço, tempo e recursos empreendidos no seu fabrico justificam, inteiramente, o valor monetário que lhe é atribuído.
Transversal a classes etárias, sociais ou económicas, parece ser mais solicitado nas zonas rurais onde, amiúde, é utilizado na realização das tarefas agrícolas.
A produção de calçado tradicional tem conseguido fugir à tentativa de uniformização registada em quase todos os quadrantes da nossa sociedade. Esta actividade distingue-se sobretudo pelo facto dos seus artigos serem confeccionados, quase totalmente, à mão. As máquinas são pouco muito utilizadas e quando há necessidade de recorrer a elas é porque o processo de execução obriga a que assim seja. Outra das características do fabrico artesanal de calçado diz respeito às matérias-primas usadas. As peles, por exemplo, são curtidas de acordo com os métodos tradicionais, sem recorrer a produtos químicos. Como este tipo de artigos é efectuado manualmente, o tempo gasto na sua produção é muito superior em relação ao da manufactura em série. Este facto reflecte-se, como é óbvio, na diferença dos valores monetários atribuídos a ambos.
Produzidos um a um, a qualidade daqueles exemplares é facilmente observável em pequenos pormenores como remates e ponteados. No que diz respeito à rentabilidade, a sua vida útil é bastante mais longa do que a dos seus concorrentes. Aquilo que para os menos entendidos poderá parecer como uma desadequação em relação aos ícones ou tendências da moda, é na realidade o respeito pela tradição.
Os artesãos responsáveis pela execução deste género de calçado insistem em manter-se fiéis aos modelos tradicionais, preferindo não adulterar as características dos mesmos. A produção estandardizada acabou com a personalização dos números.
Contudo, nas oficinas de calçado tradicional ainda continua a ser prática comum o tirar das medidas ao cliente. Algumas destas casas chegam mesmo a guardar estas informações precavendo um eventual regresso daquele.
Ainda que existam registos desta actividade um pouco por todo o país, as regiões do Ribatejo e Alentejo ganharam, de alguns anos para cá, um lugar de destaque.
Técnicas de produção
Corte da pele: o início de uma peça de calçado é sempre precedido pelo tirar das medidas do cliente. As várias partes do botim são cortadas segundo um molde. Depois desta operação, dever-se-á conferir forma à floreta.
Este procedimento é realizado na vergadeira. Aquela ganha o formato pretendido graças ao calor libertado por esta máquina;
Ajuntadeira: operação que consiste em juntar as diferentes partes que constituem o botim para possam ser cosidas umas às outras. A sua união é efectuada com a ajuda da máquina de costura;
Pregar o botim à forma: já com o botim cosido, o artesão coloca uma forma no seu interior para ele possa ganhar a configuração pretendida. Depois começa a aplicar pequenos pregos de maneira a prender aqueles dois.
Estes são colocados em redor de todo o botim. Durante a operação, o artesão tem o cuidado de puxar bastante a pele, com a ajuda da turquês, para que esta fique bem justa à forma. Concluída a aplicação dos pregos, estes são endireitados. Em seguida, elimina-se o excesso de pele com uma faca de sapateiro;
Execução das viras: estas são elaboradas a partir de uma tira estreita de couro. Posteriormente, são desbastadas e amaciadas;
Palmilhar: operação que consiste em coser a palmilha, o forro, a vira e o próprio botim. Todos estes elementos são cosidos uns aos outros com a ajuda da sovela e do fio de nylon. Este último é passado por cera para deslizar melhor. À medida que o botim vai sendo palmilhado, o artesão vai retirando os pregos existentes com a turquês;
Bater a vira: depois de cosida, esta deve ser batida e endireitada com um martelo e uma picota. O artesão deve retirar o seu excesso com a faca de sapateiro;
Elaboração dos enxumentos: estes destinam-se a reforçar o botim. Elaborados a partir de couro um pouco mais grosso, são aplicados com cola nas duas extremidades daquele. Antes de serem colocados, devem ser desbastados com a ajuda da faca de sapateiro;
Pregar a sola ao botim: as duas partes são unidas entre si com a ajuda de alguns pregos. Deve proceder-se ao corte da parede lateral da sola, para que os pontos efectuados com a sovela fiquem alojados no seu interior. Terminado o ponteado, a ranhura é fechada e colada. À medida que vão sendo cosidas, o artesão vai removendo os pregos colocados anteriormente;
Acabamento: esta fase inclui a aplicação do salto no botim. Este é constituído por duas entrecapas e uma capa de borracha. Depois de concluído, aquele leva também ilhós, correias (ou atacadores) e sebo.

terça-feira, março 03, 2009

Barrete de Orelhas – Madeira

O barrete de orelhas era sobretudo utilizado pelos camponeses.
É feito com a lã das ovelhas criadas nas serras e concebido pelas mãos das mulheres, tricotado com 5 agulhas.
Adapta-se bem à cabeça e tem no alto uma pequena borla e nos lados dois apêndices que, ou se deixam cair sobre as orelhas, ou se levantam, prendendo-se às vezes num botão.
Este barrete, a que chamam de orelhas, já era usado em 1857 e parece ser uma criação madeirense.

terça-feira, fevereiro 24, 2009

O Carnaval de Alpalhão – Nisa – Alto Alentejo


Numa época em que os antigos costumes do Carnaval português vão dando lugar a ritmos e tradições importados do Brasil, existem ainda algumas localidades que vão resistindo, mantendo as suas tradições.

Em Alpalhão, no concelho de Nisa, a tradição ainda se mantém. Os seu trajos, outrora utilizados apenas no Carnaval, ainda hoje se mantêm vivos graças aos grupos de Contradanças.

Em Alpalhão, é o traje garrido e vistoso, são saias e xailes ricamente bordados, a par da grande quantidade de ouro reluzente, que desperta a atenção do visitante.
Quem faz, de quem são as mãos que tecem este autêntico festival de cor e deslumbramento, que se passeiam pelas ruas da vila nestes dias de festa?
Na rua da Carreira encontrámos as respostas para estas questões, Maria Virgínia Rijo. “Comecei a fazer estes trabalhos há cerca de 20 anos e fui-me aperfeiçoando. Dantes faziam-se poucos fatos de Carnaval, dependendo doas épocas, mas de há cinco anos para cá, com o regresso das marchas têm-se feito muitos mais.”
“ Estava tudo a perder-se, as nossas tradições. Dantes fazia-se um fato por ano e noutros não se fazia nenhum. A professora Zézinha deu um grande impulso às marchas e à Contradança, indo ao encontro das pessoas de Alpalhão que sempre gostaram muito de se vestir e do traje, embora fosse só para ir ao baile.”

“As saias têm duas partes de feltro. Os desenhos são feitos em papel vegetal, que depois é cozido na saia, retira-se o papel e recortam-se os desenhos.”

Uma técnica igual àquela que é empregue em Nisa, no entanto, “enquanto que em Nisa preferem o vermelho com os recortes em preto, em Alpalhão, o vermelho é mais utilizado com os bordados em branco. As saias amarelas que se usam também muito têm os bordados em azul-escuro. Os xailes em Nisa são bordados à mão e aqui, a maior parte, os de terylene, são bordados à máquina, a matiz. Os xailes mais antigos de Alpalhão são os merinos, muito bonitos e vistosos. O traje de Alpalhão inclui a camisa, que era de linho, antigamente, o corpete, que é um colete mais curto, bordado à frente e atrás e debruado com uma fita branca e o avental, feito de cetim e bordado como o xaile, com dois bolsos.”

Três semanas é o tempo que demora, até ficar pronto, um traje para adulto (menina ou senhora). O de criança, demora menos.

Por enquanto vai tendo algumas encomendas e o seu trabalho começa a ser mais conhecido, não apenas pelos desfiles de Carnaval, mas pela sua presença nalguns eventos organizados pela Junta de Freguesia, como é o caso da Feira dos Enchidos.
Quanto à popularidade do Carnaval de Alpalhão, Virgínia Rijo não tem dúvidas.
“Oxalá que nunca acabe e seja cada vez mais divulgado. É bom para toda a gente, anima o comércio, diverte as pessoas e movimenta a terra. E os nossos trajes são mesmo bonitos, não são?”

Fonte: Vila de Alpalhão

domingo, fevereiro 22, 2009

CARAPUÇA – Madeira

A Carapuça é um barrete de forma cónica usado na Madeira nos séculos XVIII e XIX, influenciado pelo gorro medieval e carapuços portugueses. De um barrete que cobria toda a cabeça, evoluiu para uma forma extremamente elegante, quase de adorno.
Barrow que esteve na Madeira em 1790 diz que as mulheres "traziam um capacete na cabeça", não mais, que o antecedente da carapuça. Confirma-o a indispensável iconografia: "Antiga carapuça", W. Combe, 1821; "Dress of the Country People of Madeira", N.C. Pita, 1802. Esta, a carapuça, é identificada também por Diogo de Tovar e Albuquerque em 1807: "os homens (...) vestem sempre uma carapuça de pano, unida à cabeça com duas pequenas orelhas".
Este tipo de chapéu, chamemos-lhe assim, aparece nos finais do séc. XVIII e até 1782 nenhuma informação concreta existe a seu respeito. Admite-se que antes da carapuça se usava "um barrete de lã encarnado ou azul". Segundo alguns etnógrafos é filiada no toucado grego, no gorro medieval, na proveniência semita, em motivos arabescos e orientalizantes e no uso de algumas populações portuguesas.
A carapuça aparece delineada em alguns desenhos datados de 1820. Na descrição destas aparece sempre, em pormenor, um "barrete do tipo carapuço de boca larga", no homem, e, na mulher, também "um barrete ... bastante mais largo que os que chegaram até nós ..." Para já não referir, e apenas nestas estampas, o aspecto policromo e a natureza da restante indumentária. Todavia não nos passa despercebido nos "Country Musicians", no músico que está ao centro e toca violino o uso de um "chapéu de aba redonda e larga, copa cilíndrica, não muito alta", em contraste com as carapuças dos vilões laterais.
Este barrete madeirense, que foi capacete para Barrow, aparece, segundo se julga em Rubens e é carapuça durante o século passado, evolui a meados daquele para "atavio" e Cabral do Nascimento crisma-o de uma forma extremamente elegante, assim: - é "pura janotice como a rosa no cabelo das andaluzas".
A carapuça cai em desuso desde 1870 sucedendo-lhe o lenço e a mantilha na mulher e no homem o "barrete de orelhas", o "boné de pala" trazido das Américas pelos emigrantes, e os "barretes de lã preta"e consequentes variantes em algumas freguesias da Madeira: ninho, rodado, solideu...
Na freguesia de Santana em 1895 o Cónego Vaz assistiu "ao funeral das duas últimas carapuças" e na vizinha S. Jorge que contrasta sempre em alegria com a primeira não conheceu carapuças mas os "trabalhadores" "usavam barrete de lã" e os "lavradores" "boné de fazenda escura e pala de verniz". Destes se recrutavam "os homens bons para a edilidade do concelho”.

Fonte: Laurindo de Góis, José, ANTIGOS BARRETES MADEIRENSES in "Da Indumentária e Indústrias Madeirenses", Revista Atlântico, Vol.6, p. 85-91.

sábado, fevereiro 07, 2009

Loudel de D. João I



A peça de vestuário que vos apresento não se trata de um trajo regional, mas de uma relíquia nacional.

O Loudel de D. João I, é feito de linho, lã, seda e fio de ouro; tem uma altura de 98 cm e uma largura de 91 cm, e foi usada na batalha de Aljubarrota, no dia 14 de Agosto de 1385.
Esta veste, que servia para proteger o corpo da aspereza da armadura e dos golpes dos inimigos, é constituída por uma série de camadas de pano de linho acolchoado com lã, sendo revestido por um tecido verde bordado com "rodas de ramos e escudos de S. Jorge".
O rei, D. João I que se tinha encomendado a Santa Maria da Oliveira para que o ajudasse a vencer os castelhanos na batalha de Aljubarrota, depois foi a Guimarães e em sinal de gratidão deixou-lhe entre outros dons esta veste real, o loudel.

O loudel é uma das raras vestes militares do período medieval existentes no mundo.

Pode ser visto no Museu Alberto Sampaio, em Guimarães, juntamente com muitas outras peças de arte sacra ligadas à nossa história.

domingo, fevereiro 01, 2009

O Regicídio foi à 101 anos

A Monarquia morreu naquela tarde de 1 de Fevereiro de 1908, no Terreiro do Paço, quando El-Rei D.Carlos e Príncipe Herdeiro, Dom Luis Filipe, foram assassinados pela Carbonária, o braço armado do Partido Republicano.

Para que a memória não morra, recordo aqui esse fatídico dia.


terça-feira, janeiro 27, 2009

Camponesa - Montargil - Alentejo

A freguesia de Montargil situa-se numa zona de transição Alentejo/Ribatejo, mas o seu folclore reflecte ainda o facto de durante muitos anos, embora sazonalmente, aqui terem trabalhado pessoas vindas de outras terras, caso dos “tiradores de cortiça” do Algarve, e dos “ratinhos” vindos das Beiras em “tempo de ceifa”, É a aculturação, é o encontro de culturas, é o moldar de uma cultura muito específica.
É essencialmente uma “comunidade rural”, com a sua identidade não quer abdicar e maneira de ser, que o Rancho Folclórico de Montargil tenta preservar e divulgar.
O traje ou a “Copa”, era noutros tempos um factor que muito caracterizava quem o vestia, e o Rancho Folclórico de Montargil apresenta o mais fiel possível a “copa” que os seus antepassados usaram.
Vestia-se pobre em Montargil, o que não significa que em especial a mulher não vestisse “bonito “.O fato de “camponesa” era sempre igual, com uma ou outra pequena alteração em função da actividade que ia desempenhar, e a natural mudança de utensílio de trabalho.
Tanto quanto sabemos, este trajo de camponesa é característico unicamente desta região de transição entre o Alentejo e o Ribatejo, o que demonstra bem como localmente se criou uma cultura muito própria.
Era constituído pelas seguintes peças:
Blusa com abas e” mangos” (estes de meia velha ou do riscado da saia); Saia de riscado escuro, arregaçada e atada no cós.” Podendo no entanto usar uma saia mais curta, que não seria arregaçada”. Ceroulas de ganga atadas nos tornozelos com fitas de nastro; Chapéu sobre o lenço, e este, consoante o trabalho, atado atrás, em cima sobre o chapéu ou à frente; Meias escuras de cordão; Sapato de atanado e sola, sendo que, dependendo do trabalho executado, podiam andar descalças.
Refira-se ainda, que quando a caminho do trabalho, algumas camponesas levavam um curto avental que tiravam ao chegar lá. Era também nessa altura que, e se disso fosse caso a saia era arregaçada e presa no cós.