terça-feira, agosto 14, 2012

segunda-feira, agosto 13, 2012

Feiras Novas de Ponte de Lima


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quarta-feira, agosto 01, 2012

A Banheira de S. João da Foz do Douro

Vamos a banhos!

Perde-se no tempo o aparecimento figura do banheiro, associada aos banhos de mar um pouco por todo o país, cuja época áurea ocupa toda a segunda metade do século XIX e a primeira metade do século XX.
No entanto, esta era atividade exclusivamente masculina, com exceção da praia de S. João da Foz do Douro.
Guilherme Braga, em 1869, na sua obra “O Mar da Delfina”, descreve, sucintamente, sob a forma de poema, a Custódia como «…. uma das mais antigas e afamadas banheiras de S. João da Foz».
A banheira, robusta e vigorosa, é-nos apresentada por Ramalho Ortigão, no “Álbum de Costumes Portugueses” de 1881, como proveniente «…de uma estirpe de outras banheiras, e constitue pelos seus caracteres heriditários uma casta distincta…», sendo que «…sem esse privilégio selectivo, de nascença, nenhuma mulher tomaria por offício dar banhos, passando oito ou nove horas por dia, durante quatro meses do anno, mettido no mar até ao peito».

Eduardo Sequeira, na obra “Á beira mar”, de 1889, dá-nos a sua impressão sobre a banheira, uma «…serviçal em extremo e sabe, com uma arte especial captivar a simpatia de todos, das crianças a quem anima, da rapasiada com quem confraternisa alegremente, e dos velhos cercando-os de considerações e respeitos, prodigalisando-lhes cuidados e confortos».
Alberto Pimentel, em 1893, na sua obra “O Porto Há Trinta Anos”, escreve sobre a banheira dizendo serem «.. algumas d´ellas raparigas bonitas e fortes», e Ramalho Ortigão na obra supra citada, completa, referindo que a sua diferença se impôs «…pelo trajo, pelas attitudes, pela expressão physionomica, pelo sorriso, em que o vermelho vivo das gengivas e o branco pérola dos dentes lembra uma frescura de guelra e a respiração salgada cheirando a sargaço, pelo olhar límpido e profundo…», descrevendo a fisionomia da sua banheira, Anna da Luz, e afirmando «…ficou-me para sempre, e ainda n´este momento a vejo, septuagenaria, alta e espadaúda, o cabello quasi todo branco, a face enrugada e brunida pelo sol, os grandes olhos mansos e ternos, as mangas arregaçadas, a saia de braqueta sempre molhada até à facha que lhe cingia a cintura, o chale de malha côr de pinhão trespassado no peito.».

Quanto ao trajo, um artigo no jornal “O imparcial da Foz”, de 18 de Setembro de 1904, refere que os «Banheiros e Banheiras, com os trajos profissionaes, largas toalhas aos hombros e bilhas com água nas mãos, crusam-se pelos arruamentos formados entre os quadrados das barracas.». Por sua vez o periódico ” O Progresso da Foz”, de 29 de Setembro de 1907, acrescenta que «…o banheiro, um velho lobo do mar, vestido de negro, sem perder de vista a boia de salvação que se pendura n´um varão de ferro cravado na areia, vela cuidadosamente pelos banhistas mais temerarios que tentam afastar-se da praia, e reprehende-os com benigna severidade.»
Vamos agora falar do dia da banheira e para isso, começamos por uma passagem da obra citada de Ramalho Ortigão, em que «…de madrugada, ao armar das barracas, quando ellas, accordadas com os primeiros massaricos prateados que debicam a salsugem da maré, entôam em côro de sopranos uma das muitas barcarolas locaes, uma aguda palpitação de poesia festival e triumphadora preenche o ar…»

O meio de transporte utilizado pelos banhistas para se deslocarem das suas casas para a praia dos banhos foi variado ao longo dos tempos, tendo sido primeiro utilizado o jumento, o carroção, o americano e, mais próximo de nós, o eléctrico. Sob a primeira forma de transporte fala-nos Alberto Pimentel, na obra supra citada, que «… os jumentos eram um meio de locomoção muito usado ainda no Porto para a jornada da Foz. Pessoas conhecidas umas das outras organizavam burricadas, que partiam de madrugada e iam choutando à beira do rio por entre nuvens de pó. De vez em quando, as senhoras cahiam dos burros, e toda a caravana parava à espera que se removesse aquelle vulgar incidente. Depois continuavam a jornada até à praia dos banhos onde os burros ficavam descançando enquanto as pessoas que elles haviam transportado iam tomar banho. Estas caravanas que chegavam ou que partiam, contribuíram para animar o espectáculo da praia dos banhos».
Segundo o jornal “O Progresso da Foz”, de 29 de Setembro de 1907, «… cada comboio que despeja na praia uma multidão de banhistas, que vae descendo até à beira-mar conversando ruidosamente, n´uma alegria communicativa, como que anteposando a sensação deleitosa d´um banho n´aquelle mar tão azul. Raparigas aos banhos, com leves vestidos claros, riem e chalaceiam, n´uma grazinada jovial e infantil.».

Sobre esta paisagem, o jornal “O imparcial da Foz, de 18 de Setembro de 1904, revela que «…os banhistas vão chegando, ainda com caras somnolentas e pouco animadas, parece tiritando de frio, entram nos pequenos cubiculos de lona, e vagarosamente, vão fazendo a toilette com que se hão-de apresentar ao velho deus Neptuno».
O facto de os banhistas irem a banho de madrugada deve-se, tal como diz o Sr Domingos Picão, sobrinho de banheiras de S.João da Foz, a estes se tomarem em jejum. O período de tempo, receitado pelo médico, para ir a banhos era geralmente, como refere em 1889, Eduardo Sequeira, na sua obra já citada, «…de vinte e cinco a trinta dias… não devendo o banhista tomar banho no próprio dia da chegada à praia, mas tão somente dous ou tres dias depois».

Depois de preparada a toilette para ir a banhos, e tal como descreve ”O Progresso da Foz”, de 29 de Setembro de 1907, «…principiam a sahir banhistas das barracas. Os homens, com as pernas e os braços à vela, uns enfezados e rachiticos tremendo de frio n´aquella deliciosa e amena manhã de Setembro, outros de formas musculares, quasi athleticos. As senhoras com toda a sua esthetica destruída pela deselegancia dos largos vestidos pretos guarnecidos de fitas brancas, os pés occultos em sapato de tecido fino, os cabellos setinosos domados por uma touca ornada de lacinhos. Algumas chegam às barracas com umas formas tão roliças e desenvolvidas e — oh; desilusão! — saem para o banho tão escoadas que dir-se-ia estarem as barracas povoadas de carnívoros». Da mesma forma, o jornal ” O imparcial da Foz”, de 18 de Setembro de 1904, diz-nos que «…apparecem os primeiros grupos já promptos para entrar nas selsas águas, banheiros de bilhas na mão despejam água nas cabeças dos mais nervosos, que correspondem com carantonhas capazes de metter medo ao próprio mar. Entram n´água os primeiros grupos, é signal dado para principio  da animação da praia, desde então até quasi ao meio dia, succedem-se uns aos outros, de forma que na praia d´Ourigo milhares de pessoas se banharam».

Artur Magalhães Basto, n´A Foz Há 70 anos, conta que «…mesmo em maré vaza, só os destemidos tomavam banho sem ir agarrados à mão do banheiro. E em geral os banhos demoravam apenas alguns minutos. Esperavam-se as ondas e contavam-se os mergulhos; um, dois, três!… e rua! — Quer dizer, imediatamente para a barraca».
«… Coragem e ávante!», era o dito utilizado pela banheira Rita, a quem tem medo do mar, num artigo no “Jornal do Porto” em 10 de Agosto de 1863.

Ainda n´A Foz Há 70 anos, Artur Magalhães Basto afirma conhecer  «…uma descrição da praia do Caneiro em 1873, em que surgem tipos que eu vi ainda há 20, 25, 30 anos e ainda hoje certamente aparecem. Este por exemplo : «o senhor gordo, nédio, droguista talvez». Vai tomar banho, desce solenemente a rua das barracas. Relanceia com gosto a vista pelos espectadores, todo cheio de si e da sua beleza plástica. Sonoro e enérgico, como quem dá voz de sentido a um batalhão, berra — Gamela! O banheiro traz-lhe uma gamela com água; o senhor gordo inclina a cabeça para a frente, como se fosse oferecer ao cutelo da guilhotina; e o banheiro despeja-lhe a água pela cabeça abaixo. Depois endireitando-se, bufa e avança para o mar — mas pára de repente, mal a água lhe chegou à boca do estômago».

Depois do banho tomado, “O Progresso da Foz” de 29 de Setembro de 1907, dá-nos uma impressão de como os «Banhistas saem do mar e regressam às barracas, todos muito apressados, cada prega do fato transformada em goteira, as roupas encharcadas a desenhar-lhes as formas com nitidez».

O mesmo jornal revela-nos o ambiente que se vive na praia, «sentados em pequenas cadeiras encostadas às barracas que se alinham em filas uniformes de cubos brancos, muitos banhistas conversam ou lêem os jornaes da manhã; uns esperando companheiros inseparáveis dos seus brinquedos aquáticos, outros, mais madrugadores, já refrescados pelo banho matinal, e outros que são levados à praia somente pelo prazer de admirar plásticas que se revelam mais ou menos perfeitas sob os fatos de banho, ou para trocar olhares cupidíneos com as suas Dulcinéas». Para além destes olhares cupidíneos, Alberto Pimentel, na sua obra atrás citada, diz-nos as banheiras serem «…agentes venaes de uma assídua correspondência amorosa que os Romeus e as Julietas trocavam entre si, graças à mediação interesseira das supracitadas banheiras».

O próprio Ramalho Ortigão confessou no “Álbum de Costumes Portugueses”, ter sido banheira Anna da Luz «… a alegria para o meu coração inquieto, e o contentamento para a minha alma resignada». O que é certo tal como, nos diz Alberto Pimentel, na sua obra já citada«…é que muitos casamentos vieram tramados da Foz, no fim da temporada de banhos, graças à intervenção opistolar das banheiras». É acrescenta, que no fim da temporada, «…ninguém tornava a pensar na Foz senão no estio, quando o médico aconselhava o uso de banhos do mar…».
Fontes:
RMMV [60 anos de......gratidão] 

Ramalho Ortigão in Álbum de Costumes Portugueses, 1888
Gravura de Manuel de Macedo in Álbum de Costumes Portugueses

segunda-feira, julho 09, 2012

Tatuagens Antigas

O site Feitoria  lançou um conjunto de 12 tatuagens provisórias baseadas na recolha do etnógrafo Rocha Peixoto, que no início do século XX publicou o resultado de um estudo sobre as tatuagens usadas pelos portugueses desde os finais do século XIX.

O amor e a religião são os temas mais comuns entre as tatuagens recolhidas por Rocha Peixoto, sendo o coração o mais expressivo.
Estas tatuagens eram utilizadas por todas a classes sociais, embora as agora reproduzidas sejam de índole popular, surgindo tatuagens relacionadas com alusões à profissão do seu usuário.
Diz-se que Eduardo VII de Inglaterra tinha tatuagens e terá introduzido esse gosto entre as cortes europeias, nomeadamente Portugal, já que era grande amigo do seu primo D. Carlos I.

quinta-feira, julho 05, 2012

XII Encontro de Antiguidades Populares - Feira

O Grupo de Danças e Cantares Regionais da Feira, vai realizar no dia 15 de Julho, pelas 21h30, junto ás Capela de N. S. da Piedade, o evento "XII Encontro de Antiguidades Populares".

quarta-feira, junho 27, 2012

Chapéu de Alcains – Castelo Branco – Beira Baixa

Quem, há uma dúzia de anos, atravessasse os campos de Idanha-a-Nova ou percorresse muitas aldeias do distrito de Castelo Branco, notaria que as gentes do povo, os que mourejam de sol a sol, usavam, geralmente, pesados chapéus de lã, de abas largas e copa baixa, os bem conhecidos chapéus de Alcains, do custo de nove vinténs.

Veio a guerra (1914-1918), e o turbilhão de transformações que ela devia operar, os pobres àbeiros quase desapareceram, sendo já hoje muitos raros, mesmo na arraia de Idanha.

- Origem da indústria? Motivo da decadência?

Não se conhece a origem nem a data exacta da instalação do fabrico. Pelo depoimento de pessoas da localidade, creio poder afirmar que ela vem de tempos distantes, e que, não há muito ainda, empregava mais de uma dúzia de industriais.

Porque decaiu então esta indústria, se outras, como o linho, criaram, com a guerra, novos alentos e arregimentaram novas tecedeiras?

Os chapéus de Alcains são feitos exclusivamente de lã, e esta subiu a preços incomportáveis.

Os compradores, gente simples do campo, fugindo à carestia e levados na onda do luxo, começaram a desprezá-los. Os chapéus de lã de Alcains mal puderam, por isso, resistir à concorrência dos de feltro.

- Processo de fabrico?

Os chapéus de Alcains são feitos, como se disse de lã, exclusivamente de lã, comprada na região, que, depois de lavada, escarameada, cardada, em-arcada e bastida, é levada à cabeça (forma de azinho do feitio de uma cabeça).

Na operação de lavagem, não vale falar por ser bem conhecida.

Escaramear consiste em separar e desfazer os aglomerados de lã.

Cardar o mesmo é passar a lã por entre as cardas, - placas de bicos de aço muito afiados e muito juntos. A cardação é feita no burrinho, banco com uma carda fixa onde o cardador se senta e manobra, com as mãos, em movimento regular e continuo, de encontro à caixa fixa, uma carda móvel.

Em-arcar consiste em desfiar ainda mais a lã separando-a bem e tornando-a fofa e leve. A em-arcação é feita com uma vara de madeira, de pouco mais de dois metros, que tem presa às extremidades uma corda em forma de aro, espécie de arco de rabeca. Preso, o arco, ao teto e suspenso sobre uma mesa, o chapeleiro estica a corda, entrelaça nela a lã e fá-la saltar, uma e muitas vezes, até a lã, ficar fofa, muito leve, bem separada e desfiada.

Bastir equivale a empastar ou fazer a papa.

A lã é deitada numa plancha (grande bacia de folha de cobre de 60 a 65 centímetros de diâmetro e 15 de profundidade) e ali embebida em água. Acesa uma fornalha por debaixo da plancha, a lã toma, com o aquecimento e consequente evaporação de água, a forma pastosa.

A pasta é levada para a cabeça, o chapeleiro, passa sobre ele, vezes em conto, o ferro de passar e o chapéu fica assim moldado.

Enxuto, em seguida, ao sol, debruado e forrado com um pobre forro de chita de várias cores, vai para o mercado, e do mercado para as maiores inclemências do calor e do temporal, proteger e abrigar tantos que, de sol a sol, mourejam na conquista do pão de cada dia.

Texto de Jaime Lopes Dias in Tradições e Costumes da Beira

sexta-feira, junho 08, 2012

Desfile do Trajo em Guimarães



Não é mais um filme mas os espectáculo completo.
Para quem não viu ou queira rever.

domingo, maio 20, 2012

Desfile do trajo popular nacional na Capital Europeia da Cultura

Milhares de pessoas presenciaram o desfile do trajo popular nacional em Guimarães este sábado (19 de Maio) numa noite muita fria.

O desfile foi uma produção conjunta da área de programação da Capital Europeia da Cultura e a Federação do Folclore Português, sendo uma iniciativa do projecto Pop Arte.

Pela passerelle montada no Largo do Toural, passaram cerca de mil figurantes, num espectáculo que durou perto de duas horas.

Homens e mulheres representaram quadros das várias regiões do país, num desfile etnográfico da mais genuína cultura popular portuguesa.


sábado, maio 19, 2012

Exposição Nacional do Trajo ao Vivo

No dia em que é apresentada a Exposição Nacional do Tajo ao Vivo em Guimarães pareceu-me interessante recordar a edição que ocorreu em Águeda há alguns anos.


Madeira anos 1930



Trata-se de um filme mudo sobre a Madeira no inicio de 1930, onde se pode ver algumas das pitorescas figuras da ilha.

segunda-feira, maio 14, 2012

Encontros de Formação e Capacitação de Jovens Folcloristas



Realizou-se no passado dia 12 de Maio mais um Encontros de Formação e Capacitação de Jovens Folcloristas sobre o tema “Folclore e Etnografia para Jovens”, desta feita em Sousel, no coração do Alto Alentejo.
Trata-se de uma iniciativa da Federação do Folclore Português e do seu Gabinete da Juventude, que através das estruturas locais têm dinamizado estas iniciativas, dirigidas a jovens entre os 18 e os 30 anos, provenientes de grupos federados e não federados.
Nestas sessões desenvolvem-se as temáticas “Cultura Popular Portuguesa”, “Recolhas, Preservação e Representação” e “Imagem, Comunicação e Divulgação”.

Em Sousel estiveram presentes cerca de cinquenta jovens, extremamente participativos e interessados em adquirir conhecimentos, tendo os trabalhos sido dirigidos pela Dr.ª Rita Leitão, Engª Manuela Carriço, Sr. Florêncio Cacete e Sr. João Carriço, contando com uma participação sempre especial do Prof. Martinho Dimas da Associação de Folcloristas do Alto-Alentejo.

Estas iniciativas vão-se repetir um pouco por todo o país e devem ser aproveitadas pelos jovens e grupos de folclore, pois trata-se de momentos únicos para troca de experiências e saberes. Só desta forma, as nossas tradições populares podem ser passadas às novas gerações e o folclore poderá continuar vivo, mantendo a sua essência e rigor.
Bem-hajam a FFP por estas iniciativas, há muito desejadas e necessária e à AFA e Câmara Municipal de Sousel pelo apoio prestado.

“Trajes de Portugal” terá todo o gosto em divulgar e/ou em participar tal como fizemos agora em Sousel.

sexta-feira, maio 04, 2012

Onde os Bois Lavram o Mar - Praia de Mira

"Onde os Bois Lavram o Mar" é um documentário produzido pela RTP sobre a população da Praia de Mira.

quinta-feira, maio 03, 2012

Documentário de 1932

Documentário realizado em 1932, na região do Carregado, Alenquer, sobre as várias fases da produção, tratamento e recolha da uva.
Música: Carlos Paredes
Recolhido e adaptado por: Rui Rosa e João Rosa

quarta-feira, maio 02, 2012

As Sete Saias da Nazaré

De origem relativamente recente, a Nazaré “nasceu” do recuo do mar e do assoreamento progressivo da praia durante o século XVII, começando a ser conhecida e frequentada como praia de banhos apenas em meados do século XIX. A população nazarena tem as suas raízes muito ligadas a outros marítimos como os Ílhavos e outros povos da Ria de Aveiro, que trouxeram com eles para a Nazaré não só novas artes de pesca, mas também o modo de vestir e até de falar. Ao longo dos anos essas novas maneiras foram aqui evoluindo, transformando-se e adaptando-se às necessidades da vida.

As sete saias fazem parte da tradição, do mito e das lendas desta terra tão intimamente ligada ao mar. Diz o povo que representam as sete virtudes; os sete dias da semana; as sete cores do arco-íris; as sete ondas do mar, entre outras atribuições bíblicas, míticas e mágicas que envolvem o número sete. A sua origem não é de simples explicação e a opinião dos estudiosos e conhecedores da matéria sobre o uso de sete saias não é coincidente nem conclusiva. No entanto, num ponto todos parecem estar de acordo: as várias saias (sete ou não) da mulher da Nazaré estão sempre relacionadas com a vida do mar. As nazarenas tinham o hábito de esperar os maridos e filhos, da volta da pesca, na praia, sentadas no areal, passando aí muitas horas de vigília. Usavam as várias saias para se cobrirem, as de cima para protegerem a cabeça e ombros do frio e da maresia e as restantes a taparem as pernas, estando desse modo sempre “compostas”. A introdução do uso das sete saias foi feito, segundo uns, pelo Rancho Folclórico Tá-mar nos anos 30/40, segundo outros pelo comércio local no anos 50/60 e ainda de acordo com outras opiniões as mulheres usariam sete saias para as ajudar a contar as ondas do mar (isto porque “ o barco só encalhava quando viesse raso, ora as mulheres sabiam que de sete em sete ondas alterosas o mar acalmava; para não se enganarem nas contas elas desfiavam as saias e quando chegavam à última, vinha o raso e o barco encalhava”). O uso de várias saias pelas mulheres da Nazaré também está ligada a razões estéticas e de beleza e harmonia das linhas femininas – cintura fina e ancas arredondadas, (esta poderá ser também uma reminiscência do traje feminino de setecentos que as damas da corte usavam - anquinhas e mangas de renda - e que pavoneavam aquando das visitas ao Santuário da Senhora da Nazaré), podendo as mulheres usarem 7, 8, 9 ou mais saias de acordo com a sua própria silhueta. Certo é que a mulher foi adoptando o uso das sete saias nos dias de festa e a tradição começou e continua até ao presente. No entanto, no traje de trabalho são usadas, normalmente, um menor número de saias (3 a 5). 

segunda-feira, abril 30, 2012

O Folclore Saloio e a construção do Convento de Mafra

Quando em 1717 se iniciou a construção do Convento de Mafra, não se imaginava o impacto social e cultural que o mesmo viria a produzir mormente na região. Inicialmente pensado para ser erguido nos terrenos pertencentes aos marqueses de Ponte de Lima, então donatários da vila de Mafra, com vista a alojar uma dezena de frades da Ordem de S. Francisco da Província da Arrábida, o rei D. João V viria em 1712 a determinar a sua construção no sítio então chamado “Alto da Vela”, alegadamente em cumprimento de uma promessa. Com o decorrer do tempo, a imponência do monumento levou a uma certa secundarização da área histórica de Mafra ao ponto da maioria dos visitantes daquela vila desconhecerem a vetusta Igreja de Santo André a denunciar a arquitectura de uma velha mesquita ou ainda o Palácio dos Marqueses de Ponte de Lima, actualmente em ruínas e erguido sobre as antigas muralhas da povoação.

Os trabalhos de construção do Convento de Mafra empregaram então 52 mil trabalhadores, um número claramente superior à população que então residia naquela região. Eram operários oriundos um pouco de todo a parte, com hábitos e costumes diferenciados entre si e da população local. Para além daquela imensa massa humana que durante década e meia ali trabalhou arduamente, há ainda a registar aqueles que de alguma forma estiveram envolvidos naqueles trabalhos, ainda que indirectamente, assegurando nomeadamente o abastecimento de víveres e outros bens de que necessitavam, bem como a sua confecção e alojamento.
Feita uma descrição bastante sumária do esforço humano que um projecto de tal envergadura implicou para a época, fácil será de imaginar o efeito cultural produzido e o impacto social que obteve na vida local. Nos momentos de ócio que decerto também os haveria, nas festas religiosas e romarias que tinham lugar nas aldeias em redor, certamente se misturaram diferentes formas de dançar, cruzaram-se os cantares e confundiram-se diversas formas de trajar. Afinal de contas, a música e os bailaricos no terreiro eram então as únicas formas de divertimento das gentes simples do povo e, naturalmente, os operários que vieram para Mafra trouxeram consigo instrumentos musicais, da mesma forma que alguns séculos antes se levaram guitarras para o campo de batalha em Alcácer Quibir.

Uma vez terminadas as obras de construção do convento, decerto nem todos regressaram às suas origens. Durante o tempo que permaneceram em Mafra, muitos houve certamente que se enamoraram das moças da região, constituíram família e resolveram fixar-se, amanhando as terras que até então eram apenas cultivadas pelos saloios. Daí resulta uma certa influência no folclore local, nos instrumentos que utilizam, nas danças e cantares que lhes são características. Não admira, pois, que encontremos por aqui a gaita-de-foles ou nos surpreendam com uma desfolhada na eira ou ainda a execução de um “vira” ou uma “caninha verde”. Já a “Contradança” que também aqui possui a sua expressão terá naturalmente a ver com a presença dos invasores franceses na localidade. Também a tradição oral expressa através de provérbios, contos e inúmeras cantigas reflecte a influência transmitida pelas gentes provenientes de outras regiões do país.

Em consequência, ainda que conserve muitas dos seus traços originais, a caracterização do camponês da região de Mafra não corresponde integralmente ao perfil do saloio enquanto descendente dos berberes que outrora se fixaram no termo de Lisboa e estavam obrigados a pagar ao rei cristão o tributo que antes entregavam aos reis mouros e a que designavam por “çalaio”, supondo-se que daí tenha derivado o termo pelo qual passaram a ser identificados. Ainda assim, grande parte possui um traço fisionómico muito próximo do tipo árabe, de tez morena, cabelo escuro e íris ocular acinzentada, características aliás que podemos encontrar entre as gentes de outras regiões do país que receberam idênticas influências ao longo da História.
Em jeito de conclusão, ensina-nos a História que nela devemos encontrar a explicação para os fenómenos do presente, para além da compreensão do futuro. E, de igual forma, também o estudo do nosso folclore deve obedecer a idêntico entendimento uma vez que não constitui uma realidade estática, antes evolui e se transforma com o decurso do tempo.

 Autor: Carlos Gomes
Fonte: Portal do Folclore Português


Aldeão dos arredores de Mafra segundo uma gravura francesa do início do século XIX ou seja, o período das invasões francesas. De Henry L’Evêque, “Costume of Portugal”, 1814.
(Foto: Arquivo Fotográfico da C.M.L.)



 Aldeão dos arredores de Mafra. Esta gravura tem a mesma origem da anterior.
(Foto: Arquivo Fotográfico da C.M.L.)