O minderico é uma lingua falada há várias gerações na vila de Minde. Este video, produzido e realizado pela TVMinde, parte integrante da CPM - Casa do Povo de Minde representa uma conversa quotidiana do passado onde se salienta o interesse pela vida alheia e a maledicência.
sexta-feira, março 22, 2013
quarta-feira, março 13, 2013
Os Alfacinhas e os Retiros das Hortas
Por Carlos Gomes
Os lisboetas tinham outrora o curioso costume de irem passear
às hortas que era, como quem diz, retirarem-se da cidade para poderem gozar
um pouco dos prazeres do campo, geralmente aos domingos. Deliciavam-se então
com os piqueniques familiares que organizavam ou simplesmente almoçar nas
velhas “casas de pasto”, assim designadas por inicialmente apenas darem
as forragens aos animais enquanto os donos negociavam na feira. Em muitas
delas, ainda se conservam as argolas que prendiam os animais.
Com o decorrer do tempo e vendo a oportunidade de
negócio, os proprietários das “casas de pasto” passaram também a dar de
comer aos donos dos animais e assim floresceu um negócio que veio a dar origem
aos modernos restaurantes e snack bares. Outras, porém, mantiveram parte
das suas características iniciais e adquiriram fama pela clientela que atraíam.
Eram os chamados “retiros das hortas”, muito apreciados da burguesia
citadina.
Nos retiros, conviviam fadistas e boémios,
nobres e burgueses, os quais procuravam no meio rústico um ambiente pitoresco
que a cidade não lhes proporcionava. E, desse costume que os lisboetas tinham
de ir às hortas, nasceu para sempre a expressão com que passaram a ser
designados, colando-se ao seu próprio gentílico os alfacinhas!
Ao artigo anterior acrescentamos:
«Alfacinhas – A
origem da designação perde-se: há quem explique que nas colinas de Lisboa primitiva
verdejavam já as "plantas hortenses utilizadas na culinária, na perfumaria
e na medicina" que dão pelo nome de alfaces. ‘Alface’ vem do árabe, o que
poderá indicar que o cultivo da planta começou aquando da ocupação da Península
pelos fiéis de Alá. Há também quem sustente que, num dos cercos de que a cidade
foi alvo, os habitantes da capital portuguesa tinham como alimento quase
exclusivo as alfaces das suas hortas.
O certo é que a palavra ficou
consagrada e, de Almeida Garrett a Aquilino Ribeiro, de Alberto Pimentel a
Miguel Torga, os grandes da literatura portuguesa habituaram-se a tomar
‘alfacinha’ por lisboeta.»
Fonte: Portal do FolclorePortuguês
terça-feira, março 05, 2013
Museu Nacional de Etnologia - Galerias da Vida Rural
Situado numa zona privilegiada da capital, no Restelo, o Museu
Nacional de Etnologia possui uma das mais magníficas e completas coleções
dedicadas ao mundo rural, merecendo a visita de todos os que por estas matérias
têm interesse. As Galerias da Vida Rural são um espaço dedicado às coleções
ilustrativas dos temas da agricultura, pastoreio, tecnologias tradicionais e
equipamento doméstico na sociedade rural em Portugal.
Testemunhos materiais de modos de vida evanescentes ou, em muitos casos, já desaparecidos no momento da sua recolha, a maior parte dos objetos apresentados nestas Galerias foi reunida sobretudo entre as décadas de 1960 e 1970, por Ernesto Veiga de Oliveira e Benjamim Pereira, elementos da equipa que está na origem do Museu Nacional de Etnologia e que com Jorge Dias e Fernando Galhano havia iniciado em finais da década de 1940 o seu percurso de investigação. Esta foi conduzida de acordo com um projeto inovador que consistiu em levantamentos e recolhas sistemáticas, extensivos a todo o território continental e ilhas, prestando particular atenção à identificação e estudo das técnicas e tecnologias tradicionais do mundo rural, com profunda consciência das mutações que se anteviam. Desta sólida investigação veio a resultar um conjunto de estudos monográficos, imprescindível para o conhecimento e a devida contextualização destas coleções, mas igualmente importante para a compreensão do desenvolvimento da Antropologia em Portugal.
Testemunhos materiais de modos de vida evanescentes ou, em muitos casos, já desaparecidos no momento da sua recolha, a maior parte dos objetos apresentados nestas Galerias foi reunida sobretudo entre as décadas de 1960 e 1970, por Ernesto Veiga de Oliveira e Benjamim Pereira, elementos da equipa que está na origem do Museu Nacional de Etnologia e que com Jorge Dias e Fernando Galhano havia iniciado em finais da década de 1940 o seu percurso de investigação. Esta foi conduzida de acordo com um projeto inovador que consistiu em levantamentos e recolhas sistemáticas, extensivos a todo o território continental e ilhas, prestando particular atenção à identificação e estudo das técnicas e tecnologias tradicionais do mundo rural, com profunda consciência das mutações que se anteviam. Desta sólida investigação veio a resultar um conjunto de estudos monográficos, imprescindível para o conhecimento e a devida contextualização destas coleções, mas igualmente importante para a compreensão do desenvolvimento da Antropologia em Portugal.
Na organização das coleções apresentadas cruzam-se dois princípios metodológicos. Em primeiro lugar, os objetos encontram-se reunidos por conjuntos sistemáticos – transportes, sistemas de atrelagem, alfaia agrícola, abrigos de pastor, tecnologia têxtil, sistemas de moagem e equipamento doméstico, assim evidenciando a multiplicidade de soluções desenvolvidas no quadro da diversidade regional do País. Por outro lado, o percurso pelos vários núcleos sistemáticos que estruturam as Galerias acompanha, em traços gerais, a sequência da produção, transformação, conservação e confeção de bens, designadamente de origem vegetal e animal, de importância central na sociedade rural portuguesa.
Horário de visita
3.ª feira, às 14h30
4.ª feira a Domingo, às 10h30 e às 14h30
Ao Domingo a visita da manhã é gratuita.3.ª feira, às 14h30
4.ª feira a Domingo, às 10h30 e às 14h30
Mais informações em: MuseuNacional de Etnologia
segunda-feira, março 04, 2013
Formação para Jovens em Monção
Até 5 de Março estão abertas as inscrições para quem quiser participar na formação "Folclore e Etnografia para Jovens". Trata-se de uma acção de "formação e capacitação" para os mais jovens, promovida pela Federação do Folclore Português.
A sessão decorre a 9 de Março, no pólo da Escola Profissional do Alto Minho Interior, em Monção,
e visa cativar a juventude para o folclore nacional, dando-lhe competências e promovendo a qualidade e a representatividade da região.
Todos os jovens (18 aos 30 anos), inseridos em ranchos folclóricos da região, podem participar nesta acção de formação.
A formação sobre o "Folclore e Etnografia para Jovens" acontece a 9 de Março, das 9h00 às 18h00, no auditório da Escola Profissional do Alto Minho Interior, em Monção.
A "Cultura Popular Portuguesa", "Recolhas, Preservação e Representação" e a "Imagem, Comunicação e Divulgação" serão os temas em destaque nesta acção de formação.
A iniciativa é organizada pela Federação do Folclore Português, com o apoio do Grupo das Lavradeiras de S. Pedro de Merufe (Monção), da Câmara Municipal de Monção e do Conselho Técnico Regional do Alto Minho.
A sessão decorre a 9 de Março, no pólo da Escola Profissional do Alto Minho Interior, em Monção,
e visa cativar a juventude para o folclore nacional, dando-lhe competências e promovendo a qualidade e a representatividade da região.
Todos os jovens (18 aos 30 anos), inseridos em ranchos folclóricos da região, podem participar nesta acção de formação.
A formação sobre o "Folclore e Etnografia para Jovens" acontece a 9 de Março, das 9h00 às 18h00, no auditório da Escola Profissional do Alto Minho Interior, em Monção.
A "Cultura Popular Portuguesa", "Recolhas, Preservação e Representação" e a "Imagem, Comunicação e Divulgação" serão os temas em destaque nesta acção de formação.
A iniciativa é organizada pela Federação do Folclore Português, com o apoio do Grupo das Lavradeiras de S. Pedro de Merufe (Monção), da Câmara Municipal de Monção e do Conselho Técnico Regional do Alto Minho.
terça-feira, fevereiro 19, 2013
Bolsa de Senhora Rica
Por: António Lopes Pires
Embora os trajes dos nossos
grupos, na generalidade, não contenham grandes erros, convém atentar em alguns
pormenores que mais os valorizarão. As mulheres do povo português usavam,
sobretudo para ir à feira, à cidade ou à festa uma bolsa de retalhos feita nas
tardes de domingo ou nos longos serões de inverno. Repito: bolsa de retalhos.
As mulheres de camada social e
económica mais elevada usavam como complemento “obrigatório” uma bolsa rica.
Se observarmos as que conseguimos
recolher e as que as fotografias da época nos mostram, penso poder concluir:
essas bolsas nunca eram feitas do mesmo pano dos fatos (saias ou casaquinhas).
As poucas vezes em que eram feitas de tecido (rico, já se vê) eram diferentes.
A mesma bolsa dava com vários fatos. Cuidado, pois.
Mas atenção ainda: essas senhoras
não se misturavam com o povo para dançar. Os grupos talvez as possam apresentar
como elementos da comunidade rural que pretendem representar. Várias bolsas por
grupo parece demasiado. E então a tocar ferrinhos, reco reco ou bombo parece-me
um desastre.
sexta-feira, janeiro 25, 2013
I Encontro de Cantadores de Saias
No proximo dia 26 de Janeiro, pelas 21 horas, vai decorrer o I Encontro de Cantadores de Saias na vila de Casa Branca, Concelho de Sousel, numa organização do Rancho Folcórico "As Mondadeiras" da Casa Branca e que terá a presença de 6 outros grupos.
O pensar e o sentir do povo do alto alentejo foi muitas vezes expresso na moda de saias e neste serão pretende-se recuar ao tempo das gerações nascidas e criadas à luz do candeeiro a petróleo.
A não perder.quinta-feira, outubro 11, 2012
Museu Etnográfico do Freixial a III edição do Museu-Vivo
De 28 de Setembro a 4 de Novembro decorre no Museu Etnográfico do Freixial a III edição do Museu-Vivo, uma exposição etnográfica que pretende dar vida ao espaço museológico do Rancho Folclórico do Freixial (Leiria).
Durante seis semanas serão recriadas atividades rurais ligadas à agricultura, aos ofícios, à gastronomia e tradições regionais, num espaço que terá mais habitante do que o normal: o pátio ganhará vida com a presença de animais (ovelha, patos, galinhas, galo, porco e o burro Ezequiel).
Durante seis semanas serão recriadas atividades rurais ligadas à agricultura, aos ofícios, à gastronomia e tradições regionais, num espaço que terá mais habitante do que o normal: o pátio ganhará vida com a presença de animais (ovelha, patos, galinhas, galo, porco e o burro Ezequiel).
Datas: 28 de Setembro a 4 de Novembro
Horário: Sábados e domingos, das 14h30 às 18h, exceto atividades assinaladas
Outras informações: Aceitam-se marcações de grupos
Haverá todos os dias de exposição, Jogos Tradicionais (pião, rodeiros e outras brincadeiras), Sabores tradicionais e Animais no pátio
Calendário
Horário: Sábados e domingos, das 14h30 às 18h, exceto atividades assinaladas
Outras informações: Aceitam-se marcações de gruposHaverá todos os dias de exposição, Jogos Tradicionais (pião, rodeiros e outras brincadeiras), Sabores tradicionais e Animais no pátio
Calendário
Sexta-feira, 28/Setembro: Desfiada (com música), 21h
Sábado-Domingo, 29 e 30/Setembro: Atividades alusivas à vindima
Domingo, 7/Outubro: Os Ofícios
Domingo, 14/Outubro: A merenda (provas da gastronomia tradicional)
Sábado, 20/Outubro: Enxoval da Noiva, 20h
Sexta-feira, 26/Outubro: Serão à Lareira, 21h
Sábado-Domingo, 29 e 30/Setembro: Atividades alusivas à vindima
Domingo, 7/Outubro: Os OfíciosDomingo, 14/Outubro: A merenda (provas da gastronomia tradicional)
Sábado, 20/Outubro: Enxoval da Noiva, 20h
Sexta-feira, 26/Outubro: Serão à Lareira, 21h
Quinta-feira, 1/Novembro: Bolinho tradicional
Sábado, 3/Novembro: Atividades alusivas à matança do porco
Sábado, 3/Novembro: Atividades alusivas à matança do porco
A Entrada é Gratuita!
quarta-feira, outubro 10, 2012
Os Negros na Cultura Popular Portuguesa
No “Álbum de Costumes
Portugueses”, de 1887, Júlio Cesar Machado e Fialho de Almeida descrevem três
figuras “O Preto Caiador”, “Preta do Mexilhão” e o “Preto de S. Jorge”, perante
estas figuras e conhecendo um pouco da história da escravatura em Portugal,
questionamo-nos sobre a influência destes africanos arrancados às suas nações na
nossa cultura popular.
Para entendermos se existem
eventuais influencias, é necessário conhecer um pouco da história da
escravatura, pois era essa a condição da maioria desses negros.
Desde as suas origens, Portugal
conhecia o regime da escravidão, não apenas devido à norma de transformar os
mouros vencidos na guerra em cativos ou servos, mas através de relações de
comércio com mercadores árabes ou mesmo pela ação de pirataria realizada
diretamente pelos seus navios na região do Mediterrâneo fronteira ao Norte de
África.
Havia desde meados do século XIV
postos de venda de cativos na Rua Nova de Lisboa, onde se comerciavam peças
trazidas inclusive de Sevilha - que em Castela funcionava como entreposto - e,
segundo um documento encontrado pelo pesquisador no Convento de Chelas, uma das
freiras desta casa lá comprara por 150 libras em 1368 a um mercador sevilhano
uma jovem moura de pele branca chamada Moreima.
Através das trocas comerciais os
portugueses entraram em contacto mais íntimo com negros africanos das regiões
denominadas pelos mouros de bailad-as-Sudan, o além-Sara para o sul, habitado
pelos negros islamizados do Sudão, e das áreas ocidentais vizinhas dos rios
Níger e Senegal, ao norte do Equador.
As primeiras remessas de negros
da Guiné para Portugal na segunda metade do século XV.
As consecutivas tentativas de
conquista resultam sempre no sequestro de numerosos “inimigos”, não fosse
talvez esse o verdadeiro propósito. Foram escravos idos das Ilhas Canárias que
proporcionaram um núcleo económico rentável na ilha da Madeira através da
extração de madeira e produção de açúcar de cana.
De notar que as bulas Dum
Diversus e Divino Amore Communiti, de 18 de Junho de 1452, que autorizavam o
direito de filhar pagãos e reduzi-los à escravidão, haviam sido concedidas pelo
papa Nicolau V em concordância com os argumentos dos portugueses que alegavam
despesas com as navegações, assegurando a exploração tranquila da mão-de-obra
escrava em esquemas de produção agrícola para exportação.
Uma das dificuldades de
determinação do número de escravos negros africanos que entraram em Portugal
desde o início do século XV é o facto ser empregado invariavelmente o termo
negro para designar, de forma genérica, todos os tipos raciais de pele morena
com quem se relacionavam.
Como resultado de um longo
processo de observação, o povo passou a denominar o tipo de negro de pele mais
escura com o nome da cor que por comparação lhe correspondia na linguagem
comum, ou seja, a preta. A partir de então, um negro cuja pele fosse tão escura
que lembrasse a cor preta começou a ser chamado homem preto e logo, por
economia, preto. O termo negro continuaria a constituir, oficialmente, o nome
genérico para a gente das mais variadas graduações de cor de pele, a partir do
amorenado ou pardo até os tons mais fechados, mas, para o povo em geral, o
negro mais caracteristicamente africano passaria a ser sempre o preto.
Ainda assim, estima-se que o
número de escravos em Portugal era bastante elevado.
Em 1551 a capital lusitana teria
cerca de 100.00 habitantes, dos quais 9.900 eram escravos, ou seja 9,9% da
população. Ao longo dos sec. XVI e XVII a mão-de-obra escrava representava já
10% da população total do Algarve e Alentejo e também era visível no Norte de
Portugal e em outras regiões.
O motivo da substituição do
jornaleiro livre pelos escravos, não poderia ser a falta de gente em Portugal
mas sim, o regime da grande propriedade, do latifúndio, que imperava no
Alentejo e se arrastaria por centenas de anos.
A utilização incessante dessa
mão-de-obra, de meados do século XV até à segunda metade do século XVII,
fixou-se e estabilizou-se em certas áreas do mundo agrícola, declinando, porém,
no século XVIII, em virtude da gradual redução no ritmo da substituição desse
tipo específico de trabalho. Mas, mesmo em declínio, não cessou de existir,
alimentada pela circunstância cruel de o filho de escravos herdar a condição
dos pais, e, assim, quando em 1761 o Alvará de 19 de Setembro, providenciado
pelo marquês de Pombal, determina o fim da entrada de escravos em Portugal,
apenas nas províncias a sul do Tejo ainda trabalham nos campos 4.000 a 5.000
escravos.
O próprio texto do Alvará de
Libertação demonstra que foram as razões de ordem econômica responsáveis pela
extinção do trabalho escravo na agricultura portuguesa: com a exploração do
ouro brasileiro das Minas Gerais a exigir cada vez maior número de escravos, o
desvio desse tipo de mão-de-obra para território português constituía um
desfalque na conquista da riqueza mais rápida, pela via colonial.
O poder real foi obrigado a reiterar o Alvará de 12 anos depois, porque muitos proprietários de escravos, não desejando perder o capital aplicado na compra das suas máquinas de produzir trabalho, continuavam a explorá-las clandestinamente.
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| Preta do Mexilhão |
De facto os escravos foram usados
pelos portugueses como fornecedores de força de trabalho em empresas
agro-industriais (caso da fabricação de açúcar nas ilhas atlânticas); como
trabalhadores em obras públicas (desbravamento de matas, aterro de pântanos e
construção de prédios); em serviços de bordo em navios; trabalhos portuários de
carga e descarga; como remadores de galés e barcos de transporte; vendedores de
água (negras do pote) e de peixe; como vendedores ambulantes de carvão; em
serviços públicos municipais (remoção dos dejetos domiciliares pelas chamadas
negras de canastras); como artesãos (mesteirais); como negros de ganho nas ruas
(ao serviço de senhores particulares); como trabalhadores em lagares de azeite
(onde chegavam a mestres); e, ainda, «na cultivação do campo e no serviço
ordinário», tal como informaria em 1655 o padre Manuel Severim de Faria nas
suas Notícias de Portugal, admirado com o número de escravos empregados na
«cultivação da terra» e nos serviços domésticos (atividade em que realmente
predominavam e serviam em maior número nas cidades, principalmente em Lisboa).
![]() |
| O Preto Caiador |
A partir do século XVI, surgiram
em Lisboa e noutras cidades e vilas da província, principalmente no Alentejo,
confrarias de negros africanos com propósitos religiosos dedicadas a São Jorge
ou Nª Srª do Rosário, disfarçando em aparente conversão os seus cultos
africanos.
O convento de São Domingos, dos
dominicanos, em Lisboa, era frequentado por uma confraria de negros: -
Confraria de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Lisboa. Dessa forma
conseguiam preservar-se de acusações de heresia, a constituição de fundos
destinados a compra de alforria e a participação na vida social paralelas às
dos brancos, em vários aspetos da atividade comunitária.
Em “Álbum de Costumes
Portugueses”, Fialho de Almeida descreve o “Preto de S. Jorge”, como membro de
uma confraria que teria direito a incorporar a procissão do CORPUS CHRISTI, com
os demais ofícios.
Descreve ainda a honra que estes
homens tinham na sua pertença à confraria, sendo a cor da pele o principal
ditame, teria de ser do mais retinto ébano e quando uma degenerada geração saia
mulata engraxava-se a pele.
Como já foi referido
anteriormente, esta mão-de-obra escrava foi muito utilizada na agricultura
sobretudo a sul do Tejo.
Remanescências dessa presença
foram relatados por José Leite de Vasconcelos em Etnografia Portuguesa, Livro
II.![]() |
| Preto de S.Jorge |
«Ultimamente tive ocasião de ver
alguns exemplares dos mesmos Mulatos (...).
Eles próprios dizem que são atravessadiços, isto é,
"mestiços", em sentido geral. A cor varia: há indivíduos que são, por
assim dizer, pálidos ou morenos, e outros muito foscos, quase pretos (...). Os
vizinhos chamavam dantes a esta gente Pretos do Sado ou Pretos de São Romão,
porque havia lá realmente muitos pretos. "São Romão era uma ilha de Pretos",
ouvi referir a vários mulatos; ou "algum tempo havia lá muito preto
encarapinhado". Ainda hoje se usa Preto como alcunha ou apelido:
"Fulano Preto, Fulana José Preta"! Pouco a pouco a raça vai-se
diluindo no grosso da população circunvizinha (...). Pena é que não se
descobrisse ainda algum documento que nos esclarecesse acerca da data em que na
Ribeira do Sado se fixou a raça africana ("raça negra") cujos
descendentes estão diante de nós.»
De facto, nas povoações das
margens do rio Sado é fácil identificar traços negroides nalguns moradores:
cabelo encarapinhado, pele morena, lábios grossos, nariz largo …
De facto, em Alcácer do Sal, nas
povoações de São Romão de Sádão e Rio de Moinhos, é bem conhecida a existência dos "Pretos
de S. Romão" que, fruto da miscigenação, se misturaram com a população
branca e foram gradualmente perdendo as suas características africanas. Tal como
se perdeu a memória da razão da sua fixação desta população.
Julga-se que seria um colonato de
escravos, ai estabelecido por serem supostamente imunes ao paludismo,
localmente conhecido por febre terçã ou sezões, um mal endémico, pois a região,
durante séculos um território desabitado, tinha a fama de insalubridade e era
rodeada de charnecas e gândaras.
De qualquer modo, volvidos muitos
séculos, a memória popular, sempre curta para guardar factos históricos, apenas
fez perdurar a lenda da "Ilha de Pretos" e as cantigas que ainda hoje
ecoam ao ritmo do Ladrão:
Quem quezer ver moças
Da cor do
cravão,
Vá dar um passeio
Até S. Romão.
Não tenha receio,
Até São Romão
Vá dar um passeio.
À Rebêra do Sado
Vi lá uma preta
De beco virado.
Responda-me à letra
De beco virado
Vi lá uma preta.
Cá da Carvalheira
É o pai dos pretos
De toda a Ribeira.
Quem lho diz sou eu:
Se ele é pai dos Pretos
Também o é seu.
Esta presença negro-africana também se verifica nos topónimos de
muitas ruas, como por exemplo: Rua das Pretas, Rua do Poço dos Negros … ou no
nome de muitas povoações como no concelho de Vinhais existe a freguesia de
S.Bartolomeu de Negredo, no de Barcelos a de Santa Eulália de Negreiros e o
lugar chamado do Preto e no de Santo Tirso encontram-se S. Mamede de Negrelos,
S.Tomé de Negrelos, Santa Maria de Negrelos. Vale de Negros é o nome de um
povoado do concelho de Ancião, Pero Negro o de um outro no concelho de Arruda
dos Vinhos. Nos concelhos de Montalegre e de Óbidos temos, respetivamente, as
freguesias de Santa Maria Madalena de Negrões e como já dissemos, a de Negros
ou A dos Negros.
No concelho de Loulé há o lugar chamado Cerro dos Negros, no de
Almeirim há uma povoação com o nome Paços de Cima ou dos Negros. Dois povoados
dos concelhos de Albufeira e de Silves chamam-se Guiné, no concelho de Alvito
existe a povoação chamada Horta de Guiné. A dos Pretos, Monte dos Pretos e
Quinta da Preta são os nomes de povoações dos concelhos de Leiria, Estremoz e
Alcobaça, …, enfim, demonstra-se assim a importância que estas populações teriam
em determinadas regiões para que servissem de referência a um determinado
lugar.
Uma outra influência é
na origem do fado, que parece despontar da imensa popularidade nos séculos
XVIII e XIX da Modinha, e da sua síntese popular com outros géneros afins, como
o Lundu, um género musical proveniente de angola.
Não conseguindo
estabelecer maiores pontos de contacto entre a cultura africana e a portuguesa
que subsistam e sejam detetado na nossa etnografia, fica aqui o nosso
contributo para algo que nos parece importante, a presença dos Negros na nossa
cultura. Certos ficamos de que nas nossas veias, circula um caldo de culturas e
de povos, no qual certamente se encontra o africano.
Bibliografia:
quinta-feira, outubro 04, 2012
quarta-feira, outubro 03, 2012
segunda-feira, outubro 01, 2012
Festa do Vinho e das Vindimas em Bucelas
As Coletividades da Freguesia de
Bucelas, com o apoio das autarquias locais, organizam nos dias 12, 13 e 14 de
Outubro de 2012, mais uma edição da Festa do Vinho e das Vindimas, em Bucelas.
Este é sem dúvida o maior evento cultural de cariz associativo, da região
saloia.
PROGRAMA:
12 de Outubro (sexta-feira)
12 de Outubro (sexta-feira)
22h00 - Baile com o conjunto "Ouriços do Mar"
13 de Outubro (sábado)
09h00
- Passeio de BTT "Sabores do Arinto" (pelos Produtores Vinícolas de
Bucelas)
15h00 - Concerto pela Banda Recreativa de Bucelas
16h00 - Rancho de Folclore e Etnografia “Os Ceifeiros da Bemposta” (Adulto e Infantil)Atuação da Escola de Concertinas do Grupo Musical e Recreativo da Bemposta
16h00 - Rota dos Vinhos - Visita aos Produtores Vinícolas
18h00 - Grupo de Bombos ”Os Tarolas” do Grupo Desportivo de Lousa
18h30 – Turma das Cores da Biblioteca Irene Cruz com a peça de Teatro “Cheira bem cheira a Fado", Auditório Tomás Noivo – Junta de Freguesia de Bucelas
19h00 - Chegada da 8.ª Marcha dos Fortes
2h00 - Baile com o conjunto "Turno da Noite"
14
de Outubro (domingo)15h00 - Concerto pela Banda Recreativa de Bucelas
16h00 - Rancho de Folclore e Etnografia “Os Ceifeiros da Bemposta” (Adulto e Infantil)Atuação da Escola de Concertinas do Grupo Musical e Recreativo da Bemposta
16h00 - Rota dos Vinhos - Visita aos Produtores Vinícolas
18h00 - Grupo de Bombos ”Os Tarolas” do Grupo Desportivo de Lousa
18h30 – Turma das Cores da Biblioteca Irene Cruz com a peça de Teatro “Cheira bem cheira a Fado", Auditório Tomás Noivo – Junta de Freguesia de Bucelas
19h00 - Chegada da 8.ª Marcha dos Fortes
2h00 - Baile com o conjunto "Turno da Noite"
14h45 - Desfile da Fanfarra da Associação Humanitária dos Bombeiros de Bucelas
15h00
- Desfile Etnográfico pelas ruas de Bucelas
16h00 - Concertos / Animação
16h00 - Concertos / Animação
Escola
de Concertinas Filipe Oliveira
Grupo de Cantares do Instituto Superior Técnico
Orquestra de Harmónicas de Ponte de Sôr
Duo Sónia &
Grupo de Cantares do Instituto Superior Técnico
Orquestra de Harmónicas de Ponte de Sôr
Duo Sónia &
21h30
- Concerto de Encerramento das Festas com "EtnoBand"
Recinto
das Festas:
Restaurante
Taberna
Doces Tradicionais
Padaria
Quermesse
de Vinhos
Mostra Vitivinícola - Pavilhão Leonel Pires
Ofi'arte: Feira de Arte e Ofícios - Pavilhão
Leonel Pires
Rota dos Vinhos
Mostra de Montras
Coletividades
Organizadoras:
Associação Humanitária dos Bombeiros de
BucelasAssociação Recreativa, Cultural e Desportiva de Vila de Rei
Banda Recreativa de Bucelas
Casa do Povo de Bucelas
Centro Cultura e Desporto Vila Nova
Clube de Futebol " Os Bucelenses"
Grupo Bucelas Aventura
Grupo Musical e Recreativo da Bemposta
Núcleo Sportinguista de Bucelas
União Cultural e Recreativa da Chamboeira
sexta-feira, setembro 28, 2012
Viver o Presente Lembrar o Passado
É já no Sábado dia 22 de Setembro de 2012 : Aqui fica o convite feito pelas Gentes de Almeirim, para um dia de Tradição . Uma oportunidade unica para passar o dia e noite envolto nas coisas de antigamente das Gentes de Almeirim e assistir ao maravilhoso desfilar de lenços, xailes, modas e bailhos, trajos e cantigas que tão bem definem e representam todos os Almeirantes. Depois da animação no Mercado pela manhã e os jogos tradicionais á tarde no Jardim da Republica o dia termina com mais um espectaculo "Encantos da Minha Terra"
por Florêncio Cacete
quinta-feira, setembro 27, 2012
ALDEIAS DE PORTUGAL
"Este é um trabalho tão simples e humilde quanto a vida
nas Aldeias de Portugal."
Após dois anos e meio de um trabalho intenso, apaixonado e
dedicado à revitalização e preservação da vida nos territórios rurais, através
da página do facebook Aldeias de Portugal, Paulo Costa lança agora o livro
anunciado, destacando nesta obra as melhores fotos e textos partilhados nestes
últimos dois anos, sublinhando ainda alguns textos inéditos, assim como também
algumas fotos. Este é um trabalho tão simples e humilde quanto a vida nas
Aldeias de Portugal. Um livro com imagens marcantes, com textos elucidativos da
vida rural, da nossa história, da nossa cultura e das nossas tradições, onde
poderá encontrar também receitas de pratos da nossa gastronomia tradicional.
Este é um livro que
pretende demonstrar que a vida nas Aldeias de Portugal é um dos fatores
culturais mais valiosos da história de Portugal, assim como transmitir que é
possível continuar a amar a origem de cada um.
Um livro tão simples
e humilde quanto a história das próprias aldeias, mas um livro que certamente
irá enriquecer a biblioteca de quem ama a sua origem.
LANÇAMENTO
A Apresentação
Oficial do livro irá ter lugar no próximo dia 27 de Outubro de 2012 em Poiares,
aldeia do autor, situada no Concelho do Peso da Régua, Distrito de Vila Real.
O livro irá ter o preço de capa de 32,00 Euros, no entanto
os primeiro 1.000 livros a ser adquiridos terão um preço de lançamento de 27,00
Euros no site “Mundo das Aldeias”.
quarta-feira, setembro 26, 2012
Trajes da Serra da Estrela
Esta é uma apresentação de trajes da Serra da Estrela a cargo do Rancho Folclórico Os Pastores de São Romão, efetuada em Coimbra em 1992.
terça-feira, setembro 25, 2012
MEIAS – Lingerie ou uso externo?
por TRAJAR DO POVO
EM PORTUGAL
MEIAS NO POVO
Há duas histórias
diferentes no que respeita ao uso das meias: na nobreza/burguesia e no povo.
Por outro lado, a história das meias é indissociável da história das malhas,
uma das técnicas de entrelaçamento de fios e fibras, de modo a produzir
tecidos.

MALHAS
O entrelaçamento de
fios com laçadas nasceu no Egipto antigo, onde as agulhas de osso e madeira
desempenhavam um papel importante. Na mitologia grega apresentasse-nos o caso
da esposa de Ulisses, Penélope, que para resistir ao casamento com um
pretendente que afirmava estar Ulisses já morto e perante o interesse de seu
pai nesse segundo casamento, pediu que a deixassem terminar uma peça de tecido;
o decido aumentavam de dia e diminuía de noite, pelo que a ardilosa grega
apenas poderia estar a usar a técnica da malha.
Com efeito, a malha
recorre a laçadas que se desfazem, enquanto a tecelagem usa o cruzamento
ortogonal de fios (teia e trama) nos dispositivos básicos ou manuais ou a
combinação destes com fios enviesados (por exemplo para a produção de sarjas)
ou torção de alguns destes fios (originando texturas encaneladas) ou ainda com
a introdução de fios com cores diversas para obter padrões com figuras na
própria tecelagem.
A malha “do povo” usa
um único fio e é obtida por trama, equivalente à progressão no sentido
horizontal do tecido. A malha industrial pode incorporar de um a muitas dezenas
de fios e o seu enlaçamento evolui por teia, ou seja: o tecido cresce no
sentido vertical. Este princípio é fundamental para quem quiser diferenciar a
natureza de um tecido de malha.
MEIAS NA
NOBREZA/BURGUESIA
O uso sistemático de
meias, obtidas por processos de fabrico elaborado iniciou-se no exército
romano, nas campanhas militares de inverno nas regiões mais frias da Europa
central e nórdica. No decorrer do século XIV entrou para o uso cortesão dos
homens, através de uma moda que nasceu em Espanha e se espalhou por todas as
cortes e palácios da Europa. O seu uso estava apenas confinado aos homens,
havendo uma frase célebre do ultra-católico Filipe IV, em relação a uma oferta
de meias de seda que fizeram à sua esposa e que ele recusou com grande azedume:
“As mulheres não têm pernas!”.
Foi preciso chegar ao
final do séc. XVIII e à boleia dos ventos que sopraram da revolução francesa,
para que as meias fizessem parte da indumentária feminina… nas classes
dominantes.
Em pleno século XX, em
Portugal, as meias de algodão produzidas em maquinaria de malha, começaram a
chegar e a ser produzidas para serem usadas pelas mulheres que iam diminuindo o
comprimento das saias. Nos anos 20 e 30 já muitas mulheres da burguesia
portuguesa as usavam e depois desta data, também as cachopas que se vestiam “à
rancho” o começaram a fazer.
Livre de preconceitos,
sujeito a necessidades e sem outros recursos do que os que cada região possui,
o povo terá usado meias, no masculino e no feminino, antes das classes
dominantes. Naturalmente, não como adorno, mas como necessidade nas estações
mais frias do ano.
A proteção aquecida
dos pés e pernas, começou por ser feito com pele de animais e foi evoluindo
para soluções mais elaboradas e confortáveis, sendo incontornável o uso de
fibras animais, pelo seu aconchego. Já se perdeu o aproveitamento dos pelos dos
cavanhaques dos bodes (excecionalmente compridos) para fazer meias, do mesmo
modo que se perdeu o uso das cerdas lombares dos porcos para fazer pincéis.
Permanece a lã.
Resulta assim, que as
meias do povo são de lã, com malha manual, por vezes feitas com muita
criatividade, tal como intercalar fios de lã com cores alternadas (lã branca e
lã churra de cor castanha). Estas meias e estes usos podem ser indistintamente
tomados pelas mulheres e pelos homens.
No caso concreto dos
usos femininos nas mulheres do povo, as meias de algodão com rendados, desenhos
e feitios, são de uma inutilidade total, pois as saias tapam até aos artelhos e
não proporcionam os mesmos resultados aconchegantes das meias de lã. Convém não
esquecer que até meados do século XX, em Portugal, a moralidade a que a mulher
portuguesa estava sujeita, ainda aplicava a frase de Filipe IV: as mulheres não
têm pernas.
Podemos concluir que
no período onde pesquizamos e reproduzimos o trajar nos grupos de folclore (de
finais do século XIX até primeiras duas décadas do século XX), as meias são uma
peça de lingerie para as mulheres das classes dominantes e uma peça de uso
externo e circunstancial para as mulheres do povo.
PS : queria
acrescentar uma pequena explicação das fotos aqui colocadas no post. São fotos do Minho, minhotos em trajes de
festas na zona de Viana do Castelo com data 1880, e fotos de chinelos de Guimarães
tirados da Ilustração Portuguesa de 1909.
Queria apontar que o
uso dos "ranchos" dessa zona tem por habito usar meias de renda
branca, ora aqui temos fotos a provar o contrario ou seja, a demostrar que não
era "regra rígida"!!!!
Sendo assim uma
minhota poderia usar durante a semana, ou numa grande ocasião todas essas
possibilidades :
1. Não usar meias
2. Usar meias de lã
3. Usar meias as riscas
4. Usar meias de cor
5. Usar meias rendadas.
Em conclusão a verdade
esta na variedade e na simplicidade.
segunda-feira, setembro 24, 2012
Rancho Folclórico da Casa do Povo de Cano (Sousel)
Actuação do Rancho Folclórico da Casa do Povo de Cano (Sousel) nas Comemorações dos 500 anos do Foral da Vila de Cano em 22.09.2012
quinta-feira, setembro 20, 2012
A Cura da Espinhela Caida
“Parte do corpo que ninguém sabe o que é nem onde fica, mas de que muita gente sofre (!) e não falta sempre quem se apresse a curar o mal de espinhela caída. Quando alguém sofre do peito, ou está arruinado ou tem a espinhela caída, o que também é muito grave, tem de procurar logo quem lha endireite. Há sempre; a pessoa que se dispõe a operar coloca-se por detrás dele, ordenando-lhe que deixe cair os braços naturalmente. Depois pega-lhe nas mãos, levemente, elevando-lhe os braços à sua maior altura e tendo o cuidado de, quase impercetivelmente, fazer com que um dos polegares não chegue a atingir a altura do outro; e então, exclama muito satisfeita: _ Cá está! Eu bem dizia! E vai repetindo a operação, fingindo um grande esforço, até que os dois dedos se ugalham e então a espinhela está direita. Falta o receituário conveniente. Umas colheres de um remédio composto de toucinho alto, mel, pevides de abóbora, farinha de grão torrado, e algumas gemas de ovo. Deve-se tomar esta mistura durante dez dias, pelo menos, e não fazer o mínimo esforço. É claro que o doente, com um tratamento destes e com o competente descanso, sente melhoras apreciáveis. Sempre foi bom mandar endireitar a espinhela...”
F. Santos Serra Frazão,
Santarém, 1936, R. L. N.º 36, 1938
Durante a sua representação o Rancho Folclórico da Ribeira de Salavisa (Arganil) recria precisamente um momento da medicina tradicional portuguesa em que se procede à cura da Espinhela Caida de acordo com as tradições da Beira.
Reportagem – XIII Festival de Folclore de São Vicente de Fora
Decorreu no passado dia 16 de Setembro o XIII Festival do Rancho Folclórico de Ribeira de Celavisa, numa organização conjunta com a Junta de Freguesia de São Vicente de Fora.
Numa das zonas mais pitorescas da cidade de Lisboa, à sombra dos mais altos vultos de Portugal sepultados nos Panteão Nacional, o povo mostrou as suas tradições, saberes e sabores, numa magnífica tarde e perante um público entusiasta.
Desfilaram pelo tabuado o Grupo Folclórico de Santa Cristina do Couto – Santo Tirso, Grupo de Danças e Cantares Regionais do Orfeão da Feira – Santa Maria da Feira, Rancho Folclórico “As Mondadeiras” da Casa Branca – Sousel, Rancho Folclórico da Fajarda – Coruche e o grupo anfitrião Rancho Folclórico da Ribeira de Celavisa – Arganil.
Destaque ainda para a presença de um numeroso quadro de notáveis representantes das entidades representativas do poder local e das estruturas federativas do folclore, nomeadamente, o Presidente da Junta de Freguesia de São Vicente de Fora, Sr. Vitor Agostinho, e a Sr.ª Vice-Presidente da Federação de Folclore Português, Eng.ª Manuela Carriço, além de outros convidados.
“Trajes de Portugal” esteve presente e registou excelentes representações etnográficas, não querendo deixar de dar aqui o seu contributo para a divulgação destas iniciativas.
|
Convidados presentes
|
| Grupo Folclórico de Santa Cristina do Couto – Santo Tirso |
| Grupo de Danças e Cantares Regionais do Orfeão da Feira – Santa Maria da Feira |
| Rancho Folclórico da Fajarda – Coruche |
| Rancho Folclórico “As Mondadeiras” da Casa Branca – Sousel |
| Rancho Folclórico da Ribeira de Celavisa – Arganil |
| Rancho Folclórico da Ribeira de Celavisa – Arganil |
| Fábio Luis e Vitor Agostinho (P.J.F.São Vicente de Fora) |
sábado, setembro 15, 2012
A Peixeira de Lisboa
Descreve
assim Júlio César Machado, na obra Álbum de Costumes Portugueses, “A Peixeira
de Lisboa”:
A
que está de cócaras é a representante da peixeira antiga; varina velha, de
trajo alheio às caprichosas modas do dia … Na cabeça, lenço amarelo; no
pescoço, lenço encarnado; colete atacado com cordão, pela frente, cinta azul,
chapéu de Braga, saia de droga de lã mais rapada que cilício.
A
outra, a bonita, é das que se avistam no mercado novo em noite de S. Pedro, festa
de peixeira rara – rara avis … piscaria
rara – porque sejam peixeiras o que lá haja menos.
Dormem
sobre esteiras, em casas que alojam quatro e cinco casais, casas boas, Às
vezes, de dezoito e vinte moedas de renda; ou em lojas sombrias e húmidas.
Vão
aos ranchos, de madrugada, para a Ribeira, arrebatar o peixe dos leilões.
(…)
Enquanto
pequenas, carregam o peixe miúdo, e, mais tarde, ninguém como elas para o
segredo, que parece nada e para a venda é tudo, de dispor o peixe na canastra.
(…)
Mal
disposto à vista, o peixe, pode, em vez de atrair as atenções, afastá-las e dar
motivo a que se retraiam, dando assim em ficar com o pior defeito de um
alimento, enjoar – antes de ser comido!
(…)
O
peixe por cá é um amor, e elas, não só cuidam dele à maravilha, mas escolhem-o
como sabedoras escrupulosas;
(…)
Agradam,
estas raparigas, tais quais são; é o caso. Olhar fatigado das grandes lojas
obrigadas a mármore, espelhos e oiro, descansa, quando contempla os lugares da
Ribeira; assim, depois de ver senhoras, há quem não desgoste de ver peixeiras …
Fonte:
Júlio César Machado, in, Álbum de
Costumes Portugueses, edição Perspectivas & Realidades
Gravura:
Aguarela de autor desconhecido
Artigo
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