quarta-feira, abril 03, 2013

Dança dos Homens - Lousa


A "Dança dos Homens" (Dança das Genébres ou da Farrombana) é uma dança considerada a reminiscência de um primitivo rito de passagem e é dançada somente nas festas de Maio, da Nossa Senhora do Alto dos Céus - na Lousa.
É dançada por um grupo de 9 elementos, 6 homens e três rapazinhos. Um dos homens toca a genebres e outros cinco tocam bandurras, a viola beiroa.
O traje difere entre os homens. Os seis homens mais velhos vestem calças e casaco branco, na cabeça levam a 'capela' espécie de capacete revestido de flores de papel e fitas. Os rapazinhos mais novos vestem roupas brancas de mulher, usam cordões e brincos de ouro ficam no centro da dança a tocar trinchos. São chamados as "madamas" ou "damas". Atualmente, estes últimos são representados por raparigas.
O homem que toca as genebres, volta e meia acomete contra as "madamas" e a assistência. "A dança consiste numa série de marcações cerimoniosas, lentas, reguladas por sinais tocados na genebres."


Dança dos Homens - Viola Beiroa e Genébres

Dança dos Homens - Homens com "Capelas" e "madamas"


Genébras

sexta-feira, março 22, 2013

Minderico, uma lingua a proteger e a conhecer

O minderico é uma lingua falada há várias gerações na vila de Minde. Este video, produzido e realizado pela TVMinde, parte integrante da CPM - Casa do Povo de Minde representa uma conversa quotidiana do passado onde se salienta o interesse pela vida alheia e a maledicência.

quarta-feira, março 13, 2013

Os Alfacinhas e os Retiros das Hortas


Por Carlos Gomes

Os lisboetas tinham outrora o curioso costume de irem passear às hortas que era, como quem diz, retirarem-se da cidade para poderem gozar um pouco dos prazeres do campo, geralmente aos domingos. Deliciavam-se então com os piqueniques familiares que organizavam ou simplesmente almoçar nas velhas “casas de pasto”, assim designadas por inicialmente apenas darem as forragens aos animais enquanto os donos negociavam na feira. Em muitas delas, ainda se conservam as argolas que prendiam os animais.

Com o decorrer do tempo e vendo a oportunidade de negócio, os proprietários das “casas de pasto” passaram também a dar de comer aos donos dos animais e assim floresceu um negócio que veio a dar origem aos modernos restaurantes e snack bares. Outras, porém, mantiveram parte das suas características iniciais e adquiriram fama pela clientela que atraíam. Eram os chamados “retiros das hortas”, muito apreciados da burguesia citadina.
 
Nos retiros, conviviam fadistas e boémios, nobres e burgueses, os quais procuravam no meio rústico um ambiente pitoresco que a cidade não lhes proporcionava. E, desse costume que os lisboetas tinham de ir às hortas, nasceu para sempre a expressão com que passaram a ser designados, colando-se ao seu próprio gentílico os alfacinhas!

Ao artigo anterior acrescentamos:

«Alfacinhas – A origem da designação perde-se: há quem explique que nas colinas de Lisboa primitiva verdejavam já as "plantas hortenses utilizadas na culinária, na perfumaria e na medicina" que dão pelo nome de alfaces. ‘Alface’ vem do árabe, o que poderá indicar que o cultivo da planta começou aquando da ocupação da Península pelos fiéis de Alá. Há também quem sustente que, num dos cercos de que a cidade foi alvo, os habitantes da capital portuguesa tinham como alimento quase exclusivo as alfaces das suas hortas.

O certo é que a palavra ficou consagrada e, de Almeida Garrett a Aquilino Ribeiro, de Alberto Pimentel a Miguel Torga, os grandes da literatura portuguesa habituaram-se a tomar ‘alfacinha’ por lisboeta.»

terça-feira, março 05, 2013

Museu Nacional de Etnologia - Galerias da Vida Rural


Situado numa zona privilegiada da capital, no Restelo, o Museu Nacional de Etnologia possui uma das mais magníficas e completas coleções dedicadas ao mundo rural, merecendo a visita de todos os que por estas matérias têm interesse. As Galerias da Vida Rural são um espaço dedicado às coleções ilustrativas dos temas da agricultura, pastoreio, tecnologias tradicionais e equipamento doméstico na sociedade rural em Portugal.
Testemunhos materiais de modos de vida evanescentes ou, em muitos casos, já desaparecidos no momento da sua recolha, a maior parte dos objetos apresentados nestas Galerias foi reunida sobretudo entre as décadas de 1960 e 1970, por Ernesto Veiga de Oliveira e Benjamim Pereira, elementos da equipa que está na origem do Museu Nacional de Etnologia e que com Jorge Dias e Fernando Galhano havia iniciado em finais da década de 1940 o seu percurso de investigação. Esta foi conduzida de acordo com um projeto inovador que consistiu em levantamentos e recolhas sistemáticas, extensivos a todo o território continental e ilhas, prestando particular atenção à identificação e estudo das técnicas e tecnologias tradicionais do mundo rural, com profunda consciência das mutações que se anteviam. Desta sólida investigação veio a resultar um conjunto de estudos monográficos, imprescindível para o conhecimento e a devida contextualização destas coleções, mas igualmente importante para a compreensão do desenvolvimento da Antropologia em Portugal.

Na organização das coleções apresentadas cruzam-se dois princípios metodológicos. Em primeiro lugar, os objetos encontram-se reunidos por conjuntos sistemáticos – transportes, sistemas de atrelagem, alfaia agrícola, abrigos de pastor, tecnologia têxtil, sistemas de moagem e equipamento doméstico, assim evidenciando a multiplicidade de soluções desenvolvidas no quadro da diversidade regional do País. Por outro lado, o percurso pelos vários núcleos sistemáticos que estruturam as Galerias acompanha, em traços gerais, a sequência da produção, transformação, conservação e confeção de bens, designadamente de origem vegetal e animal, de importância central na sociedade rural portuguesa.

Horário de visita
3.ª feira, às 14h30
4.ª feira a Domingo, às 10h30 e às 14h30
Ao Domingo a visita da manhã é gratuita.

Mais informações em: MuseuNacional de Etnologia

segunda-feira, março 04, 2013

Formação para Jovens em Monção

Até 5 de Março estão abertas as inscrições para quem quiser participar na formação "Folclore e Etnografia para Jovens". Trata-se de uma acção de "formação e capacitação" para os mais jovens, promovida pela Federação do Folclore Português.

A sessão decorre a 9 de Março, no pólo da Escola Profissional do Alto Minho Interior, em Monção,
e visa cativar a juventude para o folclore nacional, dando-lhe competências e promovendo a qualidade e a representatividade da região.

Todos os jovens (18 aos 30 anos), inseridos em ranchos folclóricos da região, podem participar nesta acção de formação.

A formação sobre o "Folclore e Etnografia para Jovens" acontece a 9 de Março, das 9h00 às 18h00, no auditório da Escola Profissional do Alto Minho Interior, em Monção.

A "Cultura Popular Portuguesa", "Recolhas, Preservação e Representação" e a "Imagem, Comunicação e Divulgação" serão os temas em destaque nesta acção de formação.

A iniciativa é organizada pela Federação do Folclore Português, com o apoio do Grupo das Lavradeiras de S. Pedro de Merufe (Monção), da Câmara Municipal de Monção e do Conselho Técnico Regional do Alto Minho.

terça-feira, fevereiro 19, 2013

Bolsa de Senhora Rica

Por: António Lopes Pires

Embora os trajes dos nossos grupos, na generalidade, não contenham grandes erros, convém atentar em alguns pormenores que mais os valorizarão. As mulheres do povo português usavam, sobretudo para ir à feira, à cidade ou à festa uma bolsa de retalhos feita nas tardes de domingo ou nos longos serões de inverno. Repito: bolsa de retalhos.
As mulheres de camada social e económica mais elevada usavam como complemento “obrigatório” uma bolsa rica.
Se observarmos as que conseguimos recolher e as que as fotografias da época nos mostram, penso poder concluir: essas bolsas nunca eram feitas do mesmo pano dos fatos (saias ou casaquinhas). As poucas vezes em que eram feitas de tecido (rico, já se vê) eram diferentes. A mesma bolsa dava com vários fatos. Cuidado, pois.
 
Mas atenção ainda: essas senhoras não se misturavam com o povo para dançar. Os grupos talvez as possam apresentar como elementos da comunidade rural que pretendem representar. Várias bolsas por grupo parece demasiado. E então a tocar ferrinhos, reco reco ou bombo parece-me um desastre.
Fonte: Jornal Folclore, Janeirode 2013

sexta-feira, janeiro 25, 2013

I Encontro de Cantadores de Saias

No proximo dia 26 de Janeiro, pelas 21 horas, vai decorrer o I Encontro de Cantadores de Saias na vila de Casa Branca, Concelho de Sousel, numa organização do Rancho Folcórico "As Mondadeiras" da Casa Branca e que terá a presença de 6 outros grupos.
O pensar e o sentir do povo do alto alentejo foi muitas vezes expresso na moda de saias e neste serão pretende-se recuar ao tempo das gerações nascidas e criadas à luz do candeeiro a petróleo.
A não perder.
 

quinta-feira, outubro 11, 2012

Museu Etnográfico do Freixial a III edição do Museu-Vivo

De 28 de Setembro a 4 de Novembro decorre no Museu Etnográfico do Freixial a III edição do Museu-Vivo, uma exposição etnográfica que pretende dar vida ao espaço museológico do Rancho Folclórico do Freixial (Leiria).

Durante seis semanas serão recriadas atividades rurais ligadas à agricultura, aos ofícios, à gastronomia e tradições regionais, num espaço que terá mais habitante do que o normal: o pátio ganhará vida com a presença de animais (ovelha, patos, galinhas, galo, porco e o burro Ezequiel).
Datas: 28 de Setembro a 4 de Novembro
Horário: Sábados e domingos, das 14h30 às 18h, exceto atividades assinaladas

Outras informações: Aceitam-se marcações de grupos
Haverá todos os dias de exposição, Jogos Tradicionais (pião, rodeiros e outras brincadeiras), Sabores tradicionais e Animais no pátio

Calendário
Sexta-feira, 28/Setembro: Desfiada (com música), 21h
Sábado-Domingo, 29 e 30/Setembro: Atividades alusivas à vindima
Domingo, 7/Outubro: Os Ofícios
Domingo, 14/Outubro: A merenda (provas da gastronomia tradicional)
Sábado, 20/Outubro: Enxoval da Noiva, 20h
Sexta-feira, 26/Outubro: Serão à Lareira, 21h
Quinta-feira, 1/Novembro: Bolinho tradicional
Sábado, 3/Novembro: Atividades alusivas à matança do porco
 
A Entrada é Gratuita!



 

quarta-feira, outubro 10, 2012

Os Negros na Cultura Popular Portuguesa

No “Álbum de Costumes Portugueses”, de 1887, Júlio Cesar Machado e Fialho de Almeida descrevem três figuras “O Preto Caiador”, “Preta do Mexilhão” e o “Preto de S. Jorge”, perante estas figuras e conhecendo um pouco da história da escravatura em Portugal, questionamo-nos sobre a influência destes africanos arrancados às suas nações na nossa cultura popular.

Para entendermos se existem eventuais influencias, é necessário conhecer um pouco da história da escravatura, pois era essa a condição da maioria desses negros.
Desde as suas origens, Portugal conhecia o regime da escravidão, não apenas devido à norma de transformar os mouros vencidos na guerra em cativos ou servos, mas através de relações de comércio com mercadores árabes ou mesmo pela ação de pirataria realizada diretamente pelos seus navios na região do Mediterrâneo fronteira ao Norte de África.

Havia desde meados do século XIV postos de venda de cativos na Rua Nova de Lisboa, onde se comerciavam peças trazidas inclusive de Sevilha - que em Castela funcionava como entreposto - e, segundo um documento encontrado pelo pesquisador no Convento de Chelas, uma das freiras desta casa lá comprara por 150 libras em 1368 a um mercador sevilhano uma jovem moura de pele branca chamada Moreima.
Através das trocas comerciais os portugueses entraram em contacto mais íntimo com negros africanos das regiões denominadas pelos mouros de bailad-as-Sudan, o além-Sara para o sul, habitado pelos negros islamizados do Sudão, e das áreas ocidentais vizinhas dos rios Níger e Senegal, ao norte do Equador.

As primeiras remessas de negros da Guiné para Portugal na segunda metade do século XV.
As consecutivas tentativas de conquista resultam sempre no sequestro de numerosos “inimigos”, não fosse talvez esse o verdadeiro propósito. Foram escravos idos das Ilhas Canárias que proporcionaram um núcleo económico rentável na ilha da Madeira através da extração de madeira e produção de açúcar de cana.

De notar que as bulas Dum Diversus e Divino Amore Communiti, de 18 de Junho de 1452, que autorizavam o direito de filhar pagãos e reduzi-los à escravidão, haviam sido concedidas pelo papa Nicolau V em concordância com os argumentos dos portugueses que alegavam despesas com as navegações, assegurando a exploração tranquila da mão-de-obra escrava em esquemas de produção agrícola para exportação.
Uma das dificuldades de determinação do número de escravos negros africanos que entraram em Portugal desde o início do século XV é o facto ser empregado invariavelmente o termo negro para designar, de forma genérica, todos os tipos raciais de pele morena com quem se relacionavam.

Como resultado de um longo processo de observação, o povo passou a denominar o tipo de negro de pele mais escura com o nome da cor que por comparação lhe correspondia na linguagem comum, ou seja, a preta. A partir de então, um negro cuja pele fosse tão escura que lembrasse a cor preta começou a ser chamado homem preto e logo, por economia, preto. O termo negro continuaria a constituir, oficialmente, o nome genérico para a gente das mais variadas graduações de cor de pele, a partir do amorenado ou pardo até os tons mais fechados, mas, para o povo em geral, o negro mais caracteristicamente africano passaria a ser sempre o preto.
Ainda assim, estima-se que o número de escravos em Portugal era bastante elevado.

Em 1551 a capital lusitana teria cerca de 100.00 habitantes, dos quais 9.900 eram escravos, ou seja 9,9% da população. Ao longo dos sec. XVI e XVII a mão-de-obra escrava representava já 10% da população total do Algarve e Alentejo e também era visível no Norte de Portugal e em outras regiões.

O motivo da substituição do jornaleiro livre pelos escravos, não poderia ser a falta de gente em Portugal mas sim, o regime da grande propriedade, do latifúndio, que imperava no Alentejo e se arrastaria por centenas de anos.
A utilização incessante dessa mão-de-obra, de meados do século XV até à segunda metade do século XVII, fixou-se e estabilizou-se em certas áreas do mundo agrícola, declinando, porém, no século XVIII, em virtude da gradual redução no ritmo da substituição desse tipo específico de trabalho. Mas, mesmo em declínio, não cessou de existir, alimentada pela circunstância cruel de o filho de escravos herdar a condição dos pais, e, assim, quando em 1761 o Alvará de 19 de Setembro, providenciado pelo marquês de Pombal, determina o fim da entrada de escravos em Portugal, apenas nas províncias a sul do Tejo ainda trabalham nos campos 4.000 a 5.000 escravos.
O próprio texto do Alvará de Libertação demonstra que foram as razões de ordem econômica responsáveis pela extinção do trabalho escravo na agricultura portuguesa: com a exploração do ouro brasileiro das Minas Gerais a exigir cada vez maior número de escravos, o desvio desse tipo de mão-de-obra para território português constituía um desfalque na conquista da riqueza mais rápida, pela via colonial.

O poder real foi obrigado a reiterar o Alvará de 12 anos depois, porque muitos proprietários de escravos, não desejando perder o capital aplicado na compra das suas máquinas de produzir trabalho, continuavam a explorá-las clandestinamente.
Preta do Mexilhão
De facto os escravos foram usados pelos portugueses como fornecedores de força de trabalho em empresas agro-industriais (caso da fabricação de açúcar nas ilhas atlânticas); como trabalhadores em obras públicas (desbravamento de matas, aterro de pântanos e construção de prédios); em serviços de bordo em navios; trabalhos portuários de carga e descarga; como remadores de galés e barcos de transporte; vendedores de água (negras do pote) e de peixe; como vendedores ambulantes de carvão; em serviços públicos municipais (remoção dos dejetos domiciliares pelas chamadas negras de canastras); como artesãos (mesteirais); como negros de ganho nas ruas (ao serviço de senhores particulares); como trabalhadores em lagares de azeite (onde chegavam a mestres); e, ainda, «na cultivação do campo e no serviço ordinário», tal como informaria em 1655 o padre Manuel Severim de Faria nas suas Notícias de Portugal, admirado com o número de escravos empregados na «cultivação da terra» e nos serviços domésticos (atividade em que realmente predominavam e serviam em maior número nas cidades, principalmente em Lisboa).

O Preto Caiador
 
A partir do século XVI, surgiram em Lisboa e noutras cidades e vilas da província, principalmente no Alentejo, confrarias de negros africanos com propósitos religiosos dedicadas a São Jorge ou Nª Srª do Rosário, disfarçando em aparente conversão os seus cultos africanos.

O convento de São Domingos, dos dominicanos, em Lisboa, era frequentado por uma confraria de negros: - Confraria de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Lisboa. Dessa forma conseguiam preservar-se de acusações de heresia, a constituição de fundos destinados a compra de alforria e a participação na vida social paralelas às dos brancos, em vários aspetos da atividade comunitária.
Em “Álbum de Costumes Portugueses”, Fialho de Almeida descreve o “Preto de S. Jorge”, como membro de uma confraria que teria direito a incorporar a procissão do CORPUS CHRISTI, com os demais ofícios.

Descreve ainda a honra que estes homens tinham na sua pertença à confraria, sendo a cor da pele o principal ditame, teria de ser do mais retinto ébano e quando uma degenerada geração saia mulata engraxava-se a pele.
Preto de S.Jorge
Como já foi referido anteriormente, esta mão-de-obra escrava foi muito utilizada na agricultura sobretudo a sul do Tejo.
Remanescências dessa presença foram relatados por José Leite de Vasconcelos em Etnografia Portuguesa, Livro II.

«Ultimamente tive ocasião de ver alguns exemplares dos mesmos Mulatos (...).  Eles próprios dizem que são atravessadiços, isto é, "mestiços", em sentido geral. A cor varia: há indivíduos que são, por assim dizer, pálidos ou morenos, e outros muito foscos, quase pretos (...). Os vizinhos chamavam dantes a esta gente Pretos do Sado ou Pretos de São Romão, porque havia lá realmente muitos pretos. "São Romão era uma ilha de Pretos", ouvi referir a vários mulatos; ou "algum tempo havia lá muito preto encarapinhado". Ainda hoje se usa Preto como alcunha ou apelido: "Fulano Preto, Fulana José Preta"! Pouco a pouco a raça vai-se diluindo no grosso da população circunvizinha (...). Pena é que não se descobrisse ainda algum documento que nos esclarecesse acerca da data em que na Ribeira do Sado se fixou a raça africana ("raça negra") cujos descendentes estão diante de nós.»

De facto, nas povoações das margens do rio Sado é fácil identificar traços negroides nalguns moradores: cabelo encarapinhado, pele morena, lábios grossos, nariz largo …

De facto, em Alcácer do Sal, nas povoações de São Romão de Sádão e Rio de Moinhos,  é bem conhecida a existência dos "Pretos de S. Romão" que, fruto da miscigenação, se misturaram com a população branca e foram gradualmente perdendo as suas características africanas. Tal como se perdeu a memória da razão da sua fixação desta população.

Julga-se que seria um colonato de escravos, ai estabelecido por serem supostamente imunes ao paludismo, localmente conhecido por febre terçã ou sezões, um mal endémico, pois a região, durante séculos um território desabitado, tinha a fama de insalubridade e era rodeada de charnecas e gândaras.

De qualquer modo, volvidos muitos séculos, a memória popular, sempre curta para guardar factos históricos, apenas fez perdurar a lenda da "Ilha de Pretos" e as cantigas que ainda hoje ecoam ao ritmo do Ladrão:

Quem quezer ver moças
Da cor do cravão,
Vá dar um passeio

Até S. Romão.

 
Veja o nosso Sado,

Não tenha receio,

Até São Romão

Vá dar um passeio.

 
Quando eu chegui

À Rebêra do Sado

Vi lá uma preta

De beco virado.

 
Se tiver resposta

Responda-me à letra

De beco virado

Vi lá uma preta.

 
O Senhor dos Mártires

Cá da Carvalheira

É o pai dos pretos

De toda a Ribeira.

 
Lavrador João

Quem lho diz sou eu:

Se ele é pai dos Pretos

Também o é seu.

 

Esta presença negro-africana também se verifica nos topónimos de muitas ruas, como por exemplo: Rua das Pretas, Rua do Poço dos Negros … ou no nome de muitas povoações como no concelho de Vinhais existe a freguesia de S.Bartolomeu de Negredo, no de Barcelos a de Santa Eulália de Negreiros e o lugar chamado do Preto e no de Santo Tirso encontram-se S. Mamede de Negrelos, S.Tomé de Negrelos, Santa Maria de Negrelos. Vale de Negros é o nome de um povoado do concelho de Ancião, Pero Negro o de um outro no concelho de Arruda dos Vinhos. Nos concelhos de Montalegre e de Óbidos temos, respetivamente, as freguesias de Santa Maria Madalena de Negrões e como já dissemos, a de Negros ou A dos Negros.

No concelho de Loulé há o lugar chamado Cerro dos Negros, no de Almeirim há uma povoação com o nome Paços de Cima ou dos Negros. Dois povoados dos concelhos de Albufeira e de Silves chamam-se Guiné, no concelho de Alvito existe a povoação chamada Horta de Guiné. A dos Pretos, Monte dos Pretos e Quinta da Preta são os nomes de povoações dos concelhos de Leiria, Estremoz e Alcobaça, …, enfim, demonstra-se assim a importância que estas populações teriam em determinadas regiões para que servissem de referência a um determinado lugar.

Uma outra influência é na origem do fado, que parece despontar da imensa popularidade nos séculos XVIII e XIX da Modinha, e da sua síntese popular com outros géneros afins, como o Lundu, um género musical proveniente de angola.

Não conseguindo estabelecer maiores pontos de contacto entre a cultura africana e a portuguesa que subsistam e sejam detetado na nossa etnografia, fica aqui o nosso contributo para algo que nos parece importante, a presença dos Negros na nossa cultura. Certos ficamos de que nas nossas veias, circula um caldo de culturas e de povos, no qual certamente se encontra o africano.

Bibliografia:



Álbum de Costumes Portugueses, 1887

segunda-feira, outubro 01, 2012

Festa do Vinho e das Vindimas em Bucelas


 
As Coletividades da Freguesia de Bucelas, com o apoio das autarquias locais, organizam nos dias 12, 13 e 14 de Outubro de 2012, mais uma edição da Festa do Vinho e das Vindimas, em Bucelas. Este é sem dúvida o maior evento cultural de cariz associativo, da região saloia.
PROGRAMA:

12 de Outubro (sexta-feira)
22h00 - Baile com o conjunto "Ouriços do Mar"
13 de Outubro (sábado)
09h00 - Passeio de BTT "Sabores do Arinto" (pelos Produtores Vinícolas de Bucelas)
15h00 - Concerto pela Banda Recreativa de Bucelas
16h00 - Rancho de Folclore e Etnografia “Os Ceifeiros da Bemposta” (Adulto e Infantil)Atuação da Escola de Concertinas do Grupo Musical e Recreativo da Bemposta
16h00 - Rota dos Vinhos - Visita aos Produtores Vinícolas
18h00 - Grupo de Bombos ”Os Tarolas” do Grupo Desportivo de Lousa
18h30 – Turma das Cores da Biblioteca Irene Cruz com a peça de Teatro “Cheira bem cheira a Fado", Auditório Tomás Noivo – Junta de Freguesia de Bucelas
19h00 - Chegada da 8.ª Marcha dos Fortes
2h00 - Baile com o conjunto "Turno da Noite"
14 de Outubro (domingo)
14h45 - Desfile da Fanfarra da Associação Humanitária dos Bombeiros de Bucelas
15h00 - Desfile Etnográfico pelas ruas de Bucelas
16h00 - Concertos / Animação
Escola de Concertinas Filipe Oliveira
Grupo de Cantares do Instituto Superior Técnico
Orquestra de Harmónicas de Ponte de Sôr
Duo Sónia &
21h30 - Concerto de Encerramento das Festas com "EtnoBand"

Recinto das Festas:
 Restaurante
 Taberna
 Doces Tradicionais
 Padaria
Quermesse de Vinhos
 Mostra Vitivinícola - Pavilhão Leonel Pires
 Ofi'arte: Feira de Arte e Ofícios - Pavilhão Leonel Pires
 Rota dos Vinhos
 Mostra de Montras

Coletividades Organizadoras:
Associação Humanitária dos Bombeiros de Bucelas
Associação Recreativa, Cultural e Desportiva de Vila de Rei
Banda Recreativa de Bucelas
Casa do Povo de Bucelas
Centro Cultura e Desporto Vila Nova
Clube de Futebol " Os Bucelenses"
Grupo Bucelas Aventura
Grupo Musical e Recreativo da Bemposta
Núcleo Sportinguista de Bucelas
União Cultural e Recreativa da Chamboeira

sexta-feira, setembro 28, 2012

Viver o Presente Lembrar o Passado

É já no Sábado dia 22 de Setembro de 2012 : Aqui fica o convite feito pelas Gentes de Almeirim, para um dia de Tradição . Uma oportunidade unica para passar o dia e noite envolto nas coisas de antigamente das Gentes de Almeirim e assistir ao maravilhoso desfilar de lenços, xailes, modas e bailhos, trajos e cantigas que tão bem definem e representam todos os Almeirantes. Depois da animação no Mercado pela manhã e os jogos tradicionais á tarde no Jardim da Republica o dia termina com mais um espectaculo "Encantos da Minha Terra"
por Florêncio Cacete
 

quinta-feira, setembro 27, 2012

ALDEIAS DE PORTUGAL

"Este é um trabalho tão simples e humilde quanto a vida nas Aldeias de Portugal."
Após dois anos e meio de um trabalho intenso, apaixonado e dedicado à revitalização e preservação da vida nos territórios rurais, através da página do facebook Aldeias de Portugal, Paulo Costa lança agora o livro anunciado, destacando nesta obra as melhores fotos e textos partilhados nestes últimos dois anos, sublinhando ainda alguns textos inéditos, assim como também algumas fotos. Este é um trabalho tão simples e humilde quanto a vida nas Aldeias de Portugal. Um livro com imagens marcantes, com textos elucidativos da vida rural, da nossa história, da nossa cultura e das nossas tradições, onde poderá encontrar também receitas de pratos da nossa gastronomia tradicional.
Este é um livro que pretende demonstrar que a vida nas Aldeias de Portugal é um dos fatores culturais mais valiosos da história de Portugal, assim como transmitir que é possível continuar a amar a origem de cada um.
 Um livro tão simples e humilde quanto a história das próprias aldeias, mas um livro que certamente irá enriquecer a biblioteca de quem ama a sua origem.

LANÇAMENTO
A Apresentação Oficial do livro irá ter lugar no próximo dia 27 de Outubro de 2012 em Poiares, aldeia do autor, situada no Concelho do Peso da Régua, Distrito de Vila Real.
O livro irá ter o preço de capa de 32,00 Euros, no entanto os primeiro 1.000 livros a ser adquiridos terão um preço de lançamento de 27,00 Euros no site “Mundo das Aldeias”.

Desfolhada na Feira


quarta-feira, setembro 26, 2012

Trajes da Serra da Estrela


Esta é uma apresentação de trajes da Serra da Estrela a cargo do Rancho Folclórico Os Pastores de São Romão, efetuada em Coimbra em 1992.

terça-feira, setembro 25, 2012

MEIAS – Lingerie ou uso externo?

por TRAJAR DO POVO EM PORTUGAL

Há duas histórias diferentes no que respeita ao uso das meias: na nobreza/burguesia e no povo. Por outro lado, a história das meias é indissociável da história das malhas, uma das técnicas de entrelaçamento de fios e fibras, de modo a produzir tecidos.

 
MALHAS
 
O entrelaçamento de fios com laçadas nasceu no Egipto antigo, onde as agulhas de osso e madeira desempenhavam um papel importante. Na mitologia grega apresentasse-nos o caso da esposa de Ulisses, Penélope, que para resistir ao casamento com um pretendente que afirmava estar Ulisses já morto e perante o interesse de seu pai nesse segundo casamento, pediu que a deixassem terminar uma peça de tecido; o decido aumentavam de dia e diminuía de noite, pelo que a ardilosa grega apenas poderia estar a usar a técnica da malha.
 
Com efeito, a malha recorre a laçadas que se desfazem, enquanto a tecelagem usa o cruzamento ortogonal de fios (teia e trama) nos dispositivos básicos ou manuais ou a combinação destes com fios enviesados (por exemplo para a produção de sarjas) ou torção de alguns destes fios (originando texturas encaneladas) ou ainda com a introdução de fios com cores diversas para obter padrões com figuras na própria tecelagem.
 
A malha “do povo” usa um único fio e é obtida por trama, equivalente à progressão no sentido horizontal do tecido. A malha industrial pode incorporar de um a muitas dezenas de fios e o seu enlaçamento evolui por teia, ou seja: o tecido cresce no sentido vertical. Este princípio é fundamental para quem quiser diferenciar a natureza de um tecido de malha.

MEIAS NA NOBREZA/BURGUESIA
O uso sistemático de meias, obtidas por processos de fabrico elaborado iniciou-se no exército romano, nas campanhas militares de inverno nas regiões mais frias da Europa central e nórdica. No decorrer do século XIV entrou para o uso cortesão dos homens, através de uma moda que nasceu em Espanha e se espalhou por todas as cortes e palácios da Europa. O seu uso estava apenas confinado aos homens, havendo uma frase célebre do ultra-católico Filipe IV, em relação a uma oferta de meias de seda que fizeram à sua esposa e que ele recusou com grande azedume: “As mulheres não têm pernas!”.
 
Foi preciso chegar ao final do séc. XVIII e à boleia dos ventos que sopraram da revolução francesa, para que as meias fizessem parte da indumentária feminina… nas classes dominantes.
 
Em pleno século XX, em Portugal, as meias de algodão produzidas em maquinaria de malha, começaram a chegar e a ser produzidas para serem usadas pelas mulheres que iam diminuindo o comprimento das saias. Nos anos 20 e 30 já muitas mulheres da burguesia portuguesa as usavam e depois desta data, também as cachopas que se vestiam “à rancho” o começaram a fazer.


1880

MEIAS NO POVO
Livre de preconceitos, sujeito a necessidades e sem outros recursos do que os que cada região possui, o povo terá usado meias, no masculino e no feminino, antes das classes dominantes. Naturalmente, não como adorno, mas como necessidade nas estações mais frias do ano.
A proteção aquecida dos pés e pernas, começou por ser feito com pele de animais e foi evoluindo para soluções mais elaboradas e confortáveis, sendo incontornável o uso de fibras animais, pelo seu aconchego. Já se perdeu o aproveitamento dos pelos dos cavanhaques dos bodes (excecionalmente compridos) para fazer meias, do mesmo modo que se perdeu o uso das cerdas lombares dos porcos para fazer pincéis. Permanece a lã.




1880
Resulta assim, que as meias do povo são de lã, com malha manual, por vezes feitas com muita criatividade, tal como intercalar fios de lã com cores alternadas (lã branca e lã churra de cor castanha). Estas meias e estes usos podem ser indistintamente tomados pelas mulheres e pelos homens.
No caso concreto dos usos femininos nas mulheres do povo, as meias de algodão com rendados, desenhos e feitios, são de uma inutilidade total, pois as saias tapam até aos artelhos e não proporcionam os mesmos resultados aconchegantes das meias de lã. Convém não esquecer que até meados do século XX, em Portugal, a moralidade a que a mulher portuguesa estava sujeita, ainda aplicava a frase de Filipe IV: as mulheres não têm pernas.
Podemos concluir que no período onde pesquizamos e reproduzimos o trajar nos grupos de folclore (de finais do século XIX até primeiras duas décadas do século XX), as meias são uma peça de lingerie para as mulheres das classes dominantes e uma peça de uso externo e circunstancial para as mulheres do povo.

 
PS : queria acrescentar uma pequena explicação das fotos aqui colocadas no post.  São fotos do Minho, minhotos em trajes de festas na zona de Viana do Castelo com data 1880, e fotos de chinelos de Guimarães tirados da Ilustração Portuguesa de 1909.

Queria apontar que o uso dos "ranchos" dessa zona tem por habito usar meias de renda branca, ora aqui temos fotos a provar o contrario ou seja, a demostrar que não era "regra rígida"!!!!
Sendo assim uma minhota poderia usar durante a semana, ou numa grande ocasião todas essas possibilidades :

1.     Não usar meias
2.     Usar meias de lã
3.     Usar meias as riscas
4.     Usar meias de cor
5.     Usar meias rendadas.
Em conclusão a verdade esta na variedade e na simplicidade.

segunda-feira, setembro 24, 2012

Rancho Folclórico da Casa do Povo de Cano (Sousel)



Actuação do Rancho Folclórico da Casa do Povo de Cano (Sousel) nas Comemorações dos 500 anos do Foral da Vila de Cano em 22.09.2012

quinta-feira, setembro 20, 2012

A Cura da Espinhela Caida

“Parte do corpo que ninguém sabe o que é nem onde fica, mas de que muita gente sofre (!) e não falta sempre quem se apresse a curar o mal de espinhela caída. Quando alguém sofre do peito, ou está arruinado ou tem a espinhela caída, o que também é muito grave, tem de procurar logo quem lha endireite. Há sempre; a pessoa que se dispõe a operar coloca-se por detrás dele, ordenando-lhe que deixe cair os braços naturalmente. Depois pega-lhe nas mãos, levemente, elevando-lhe os braços à sua maior altura e tendo o cuidado de, quase impercetivelmente, fazer com que um dos polegares não chegue a atingir a altura do outro; e então, exclama muito satisfeita: _ Cá está! Eu bem dizia! E vai repetindo a operação, fingindo um grande esforço, até que os dois dedos se ugalham e então a espinhela está direita. Falta o receituário conveniente. Umas colheres de um remédio composto de toucinho alto, mel, pevides de abóbora, farinha de grão torrado, e algumas gemas de ovo. Deve-se tomar esta mistura durante dez dias, pelo menos, e não fazer o mínimo esforço. É claro que o doente, com um tratamento destes e com o competente descanso, sente melhoras apreciáveis. Sempre foi bom mandar endireitar a espinhela...”

F. Santos Serra Frazão,
Santarém, 1936, R. L. N.º 36, 1938

Durante a sua representação o Rancho Folclórico da Ribeira de Salavisa (Arganil) recria precisamente um momento da medicina tradicional portuguesa em que se procede à cura da Espinhela Caida de acordo com as tradições da Beira.

Reportagem – XIII Festival de Folclore de São Vicente de Fora


Decorreu no passado dia 16 de Setembro o XIII Festival do Rancho Folclórico de Ribeira de Celavisa, numa organização conjunta com a Junta de Freguesia de São Vicente de Fora.

Numa das zonas mais pitorescas da cidade de Lisboa, à sombra dos mais altos vultos de Portugal sepultados nos Panteão Nacional, o povo mostrou as suas tradições, saberes e sabores, numa magnífica tarde e perante um público entusiasta.

Desfilaram pelo tabuado o Grupo Folclórico de Santa Cristina do Couto – Santo Tirso, Grupo de Danças e Cantares Regionais do Orfeão da Feira – Santa Maria da Feira, Rancho Folclórico “As Mondadeiras” da Casa Branca – Sousel, Rancho Folclórico da Fajarda – Coruche e o grupo anfitrião Rancho Folclórico da Ribeira de Celavisa – Arganil.

Destaque ainda para a presença de um numeroso quadro de notáveis representantes das entidades representativas do poder local e das estruturas federativas do folclore, nomeadamente, o Presidente da Junta de Freguesia de São Vicente de Fora, Sr. Vitor Agostinho, e a Sr.ª Vice-Presidente da Federação de Folclore Português, Eng.ª Manuela Carriço, além de outros convidados.

“Trajes de Portugal” esteve presente e registou excelentes representações etnográficas, não querendo deixar de dar aqui o seu contributo para a divulgação destas iniciativas.

                           Convidados presentes

Grupo Folclórico de Santa Cristina do Couto – Santo Tirso

Grupo de Danças e Cantares Regionais do Orfeão da Feira – Santa Maria da Feira

Rancho Folclórico da Fajarda – Coruche


Rancho Folclórico “As Mondadeiras” da Casa Branca – Sousel

Rancho Folclórico da Ribeira de Celavisa – Arganil

Rancho Folclórico da Ribeira de Celavisa – Arganil

Fábio Luis e Vitor Agostinho (P.J.F.São Vicente de Fora)