segunda-feira, janeiro 20, 2014
O MOINHO - OEIRAS
Por este país fora já existem poucos as funcionar, mas em Oeiras, até há pouco tempo ainda existiam algumas destas joias. Eis um documentário para memória futura.
sexta-feira, janeiro 17, 2014
Entrevista à Antena 1
No programa de José Carlos Trindade, Linha do Horizonte na Rádio
Antena 1, o blog Trajes de Portugal vai ser objecto de uma entrevista que darei hoje, entre as 4 e as 5 horas da madrugada.
Não vos prometo uma entrevista brilhante, mas vou dar o meu
melhor, tendo em consideração que sou um iniciado nestas área da comunicação
social.
Ainda assim, quem quiser estar acordado, como eu, a essa
hora, está convidado a ouvir.
Traje Domingueiro de Lavradeira de Grijó
A imagem, um cliche de Emilio Biel, apresenta
uma mulher de Grijó (Concelho de Vila Nova de Gaia), uma lavradeira, com seu traje de dia de festa.
Saia de pano bem rodada, corpo de veludo com bandas e
canhões enfeitados a tufos de seda que forma também cinto. Canhões e gola
guarnecidos de renda. Sobre o colo assentam lhe os corações e estrelas de
filigrana de ouro que lhe pendem de grossos cordões do mesmo metal precioso,
pendendo lhe também das orelhas compridos brincos de ouro, como cachos, que vem
confundir se no aurífero colo reluzente que nem mostrador de ourivesaria.
Algumas destas mulheres trazem acima de si um quilo de ouro, que é todo seu luxo
e muitas vezes todos os seus haveres, pois nele convertem as usas economias
feitas a custa de muitas privações. E um capital morto que ali tem e que só lhe
aproveita quando absolutamente lhe faltem todos os recursos, não lhes servindo
para acrescentarem seus bens, empregando essas economias em coisas que lhes
renda. Assim esta parado de séculos o espírito de iniciativa daquela boa gente.
Mas continuando a descrever o belo tipo da mulher de Grijó, este se completa no
seu traje com o elegante chapelinho ou gorro todo enfeitado de flores e frutos,
que lhe coroa a fronte, assentando sobre o lenço de seda de cores vistosas que
lhe envolve as tranças de cabelo que se espadanam pelas costas.
O traje é sobre tudo assaz pitoresco e quando ela se
assenta numa mulher formosa como o tipo que a nossa gravura reproduz, mais
sobressai ainda porque a beleza natural é o melhor complemento da toilette
feminina.
Extracto do jornal O Occidente outubro 1912
Fonte: Trajar do Povo em Portugal
quinta-feira, janeiro 16, 2014
CHAPÉUS FEMININOS
Ao longo da região costeira entre o Douro
e o Tejo sujem nas indumentárias populares femininas a utilização de pequenos
chapéus, alguns com trajes de festa, outros de uso diário e associados
a determinadas atividades.
Os exemplares que de seguida descrevo resultam
da recolha efetuada pelo site Trajar do Povo em Portugal.
Matéria: Tecido; Veludo; Pena de Pavão
Dimensões (cm):altura: 8; diâmetro: 19,5;
Descrição:
Chapéu de tecido de cor preta. As abas são paralelas à copa,
sendo reviradas até à altura desta. A copa é de tecido de cor preta. O topo é
abatido. Apresenta uma fita de veludo de cor preta, que se prolonga pelo centro
e pelos limites do topo da copa. É arrepanhada de espaço a espaço formando
espécie de laços de extremidades lobuladas. De um dos lados, apresenta uma pena
de pavão de cor preta, a qual sai para fora dos limites do chapéu. As abas são
cilindriformes. São revestidas a veludo de cor preta. Tal revestimento
prolonga-se um pouco para o interior do chapéu. O interior da copa é forrado a
tecido de fundo de cor creme.
Matéria: Feltro; Veludo; Penas; Tecido; Pergamoide
Dimensões (cm): altura: 7,5; diâmetro: 20;
Descrição:
Chapéu de feltro de cor preta e abas paralelas à copa,
reviradas até à altura desta. A copa apresenta a toda a volta, uma banda de
veludo de cor preta. Esta, em metade do perímetro é repuxada e plissada,
formando pequenos laços de extremidades recortadas em "ziguezague".
Numa dessas extremidades apresenta duas penas de ave: uma pequena de cor
vermelha e outra maior de cor preta. A aba, cilindriforme, é forrada a veludo
de cor preta. Interiormente, o chapéu é forrado a tecido de cor branca. Ao
centro, vestígios de uma inscrição de fabricante: espécie de esfera que contém
um chapéu no interior, encimada por uma coroa e ladeada por uma figura humana.
A orla da extremidade inferior da copa é forrada por cima do tecido de cor
branca, por uma banda larga de pergamoide (?) lavrada com pequenas quadrículas.
Tal banda é cosida ao corpo do chapéu por linha de cor preta.
Vila Nova de Gaia / Grijó / Murracezes
Matéria: Feltro; Veludo; Seda; Tecido; Pergamoide
Dimensões (cm):altura: 6; diâmetro: 18,5;
Descrição:
Chapéu de tecido de cor preta e abas paralelas à copa,
reviradas até à altura desta. A copa é baixa, de tecido de cor preto e de
formato redondo. As abas, cilindriformes, são revestidas a veludo de cor preta.
No espaço criado entre a copa e a extremidade da aba, uma aplicação a toda a
volta de pequenas borlas de seda de cor preta. O interior da copa é forrado a
tecido de cor esverdeada. No centro, vestígios de uma inscrição do fabricante.
A guarnecer a orla, pelo interior do chapéu, por cima do forro, uma banda de
pergamoide (?) pintada de cor vermelha.
Vila Nova de Gaia / Grijó / Murracezes
Matéria: Feltro; Veludo; Seda
Dimensões (cm): altura: 8,5; diâmetro: 19,5;
Descrição:
Chapéu de tecido de cor preta e abas paralelas à copa,
reviradas até à altura desta. A copa é baixa, de tecido de cor preta e de
formato redondo. As abas, cilindriformes, são revestidas a veludo de cor preta.
No espaço criado entre a copa e a extremidade da aba, uma aplicação a toda a
volta de pequenas borlas de seda de cor preta. Interiormente, na extremidade
inferior da aba apresenta uma pequena etiqueta de cor branca e formato
rectangular com o número "1" impresso à máquina, a tinta de cor
preta.
Vila Nova de Gaia / Grijó / Murracezes
Matéria: Feltro; Veludo; Gorgorão (seda) (?); Tecido; Pergamoide
Dimensões (cm): altura: 9; diâmetro: 30;
Descrição:
Chapéu de feltro de cor preta e abas direitas, um pouco
levantadas nas extremidades. A copa é baixa, de tecido de cor preta e de
formato redondo. O topo parece ser calcado nas extremidades, de modo a fazer um
pequeno refego a toda a volta. Na extremidade inferior da copa, aplicação de
uma fita de gorgorão (?) de seda (?) de cor preta. Esta forma, lateralmente,
uma laçada. A fita é cosida ao corpo do chapéu com largos pontos em espécie de
alinhavo, executados a linha de cor castanha escura. A extremidade das abas tem
aplicação de uma fita fina de veludo de cor preta. Interiormente, na
extremidade inferior da copa, uma banda larga de pergamoide (?) de cor castanha
escura. De um lado, a seguinte inscrição inserida num emblema dourado encimado
por uma águia :"NUNES DA CUNHA & Cª. Ltd. S. JOÃO DA MADEIRA." /
"MARCA REGISTADA" / "CONDESTÁVEL". Do lado oposto a este, a
seguinte inscrição marcada a baixo-relevo no pergamoide (?): "CARLOS
ALBERTO" / "CHAPELEIRO" / "R. FORMOSA 39 (?) Tel 8857
(?)" / "PORTO". Em cada um dos lados do chapéu, presos à banda
de pergamoide (?), duas fitas finas de tecido de cor creme, para ajustar o
chapéu à cabeça, através de uma laçada no pescoço.
Portugal / Porto / Maia
Fabricante: Neves (?)
Matéria: Pelúcia; Tecido (seda); Metal; Tecido; Pergamoide
Dimensões (cm): altura: 6,5; diâmetro: 25,5;
Descrição:
Chapéu de pelúcia de cor preta e abas direitas, um pouco
levantadas nas extremidades, especialmente nas laterais. Apresenta uma copa
muito baixa, de formato redondo. A altura da copa é guarnecida com uma banda de
renda (?) de cor branca. Sobre esta, uma fita de seda de cor verde. Dada a
sobreposição, a primeira é visível apenas acima da segunda. Tal fita apresenta
à frente um laço, adornado ao centro com uma peça metálica. A peça é uma
espécie de anel, cujo aro é constituído por cinco pequenos círculos contendo
uma pedra de cor violeta em cada um. Atrás, a fita forma uma laçada. As
extremidades da laçada, longas, caem livremente para fora dos limites do
chapéu. Do lado esquerdo da aba, pregado ao interior revirado desta, um outro
laço, pequeno, da mesma fita, com aplicação de banda de renda no interior. O
interior da copa é forrado a tecido de fundo de cor branca riscado a linhas
finíssimas de tonalidade mais escura. Ao centro, uma etiqueta de papel de cor
castanha escura e formato circular com o brasão de Portugal no meio, e a
seguinte inscrição à volta: "NEVES" / "PORTO - RUA DE SANTO
ANTONIO - 114" Na orla da extremidade inferior da copa, por cima do tecido
do forro, uma banda larga de pergamoide (?) de cor bordeou. Tal banda é cosida
ao corpo do chapéu a linha de cor preta. Sobre esta banda, uma pequena etiqueta
de papel de cor branca e formato rectangular com o número "3"
impresso à máquina, a tinta de cor preta.
Fonte: Trajardo Povo em Portugal
Outros artigos
relacionados:
O uso de chapéu
Chapéu de Alcains
Chapéu dePalha
A IndústriaChapeleira e o Traje Tradicional
O Fabrico deChapéus em São João da Madeira
sexta-feira, janeiro 10, 2014
A Croça I - Montalegre
Introdução
Já quase não se fazem croças em tamanho real, sobretudo porque já não há pastores ou estes preferem os impermeáveis. No entanto, é importante efetuar a recolha do saber-fazer, para que esta não se perca.
Já quase não se fazem croças em tamanho real, sobretudo porque já não há pastores ou estes preferem os impermeáveis. No entanto, é importante efetuar a recolha do saber-fazer, para que esta não se perca.
Inicio hoje a transcrição de 6 artigos magníficos
da autoria da Prof.ª Dr.ª Daniela
Araújo, fruto do seu extraordinário trabalho de recolha junto da população do Montalegre,
que nos descreve, passo-a-passo, o fabrico de uma croça de junco, pelas mão de um dos últimos artífices desta arte.
De destacar que a Prof.ª Dr.ª Daniela Araújo integrou a equipa que reabriu
o Museu de Arte Popular em 2010, tendo sido comissária executiva da exposição
Os Construtores do MAP – Um Museu em Construção […] e, em Junho de 2011, voltou
a Trás-os-Montes para participar no projeto de investigação para intervenção
museológica As culturas do trabalho no Barroso, nomeadamente, no Ecomuseu
de Barroso.
A CROÇA I
A croça nasce deste botão. Bom, na verdade, a croça nasce deste botão e das
mãos sábias do sr. Constantino. Tudo começa com este botão. Bom, na verdade,
tudo começou com a apanha dos juncos. Passaram-se os meses, os juncos secaram,
veio o tempo molhado e começaram-se a fazer as croças. Já não são para os
pastores que agora são poucos e usam oleados. São para ranchos ou para compor a
decoração de restaurantes típicos. Estas, que agora se estão a fazer,
até são todas para levar para Espanha.
Pegam-se nuns quantos juncos (estes que se mostram na primeira imagem foram
apenas para exemplificar; são mais que a trança quer-se grossa) e colocam-se
lado a lado.
Depois, com os dedos indicadores e polegares de ambas as mãos o mais juntos
possível, torcem-se os juncos em direções opostas a partir de um ponto central
e o mais apertado que se conseguir.
Bastam apenas algumas voltas. As suficientes para se prender, com os
dentes, os juncos já torcidos, nesse ponto central, e começar a torcer os dois
lados um sobre o outro, ao mesmo tempo que se continua a torcer cada lado sobre
si mesmo.
Esta explicação é clara? Eu tive que pedir ao sr. Constantino para repetir
a operação porque não percebi os gestos logo à primeira...
Depois, ele também me explicou como se iam entrançando novos juncos na
trança quando algum se partia ou era preciso aumentar o comprimento.
Na ponta onde se iniciou o torcimento, dá-se depois um nó. Esse nó é o
botão da croça que vai permitir mantê-la fechada. Na outra ponta está a casa
onde entra o botão. Mas ainda não cheguei aí!
Botão da croça
Há quatro instrumentos/equipamentos que são indispensáveis para se
construir uma croça (para além da mascota que é usada para bater os juncos no dia
em que são colhidos): os pentes, a fita métrica, a tesoura e a tábua de
tabopan.
O sr. Contantino tem dois pentes para pentear a croça que foram feitos por
ele. Um com os pregos mais espaçados; o outro com uma maior densidade de
pregos. Aquele que tem os pregos mais espaçados é usado nas primeiras
penteadelas; o outro é usado depois para um acabamento mais fino. Vai-os
consertando à medida que os pregos se degradam.
A tábua de tabopan facilita o trabalho de escovagem e de medição das
diferentes camadas que compõem uma croça.
Cada camada tem diferentes comprimentos o que resulta de uma lógica que eu
ainda não descortinei completamente.
Mais, de carreira para carreira, de camada para camada, o número de juncos
que se entrançam também aumenta o que permite, naturalmente, que a capa ganhe
amplitude.
A capa tem, também, os juncos de fora, que são os que se penteiam e os
juncos de dentro, o forro, que estão presos uns aos outros e que não são
penteados.
No interior da capa veem-se as tranças da croça (são as verticais, embora
na imagem seguinte apareçam na horizontal) a que ele chama a segurança da
croça pois permitem que a peça não fique desengonçada.
Interior da croça
O sr. Constantino diz que eu consigo
aprender tudo em 15 minutos. É um otimista. Fazer uma croça parece-me bastante
complexo. Não é, apenas, a gestualidade, inerente a cada operação. É toda a
lógica de camadas, tranças e comprimentos. Esta foi só a primeira lição.
Fonte: Uma Ovelha no Quintal
segunda-feira, dezembro 23, 2013
“O Natal não é uma data... É um estado da mente" - Mary Ellen Chase
Da minha infância recordo um Natal especial.
Certo ano, os meus pais resolveram passar o Natal no Alentejo, na modesta e típica casa onde o meu pai fora criado.
Naturalmente que as decorações, a árvore e o presépio ficaram em Lisboa e por l...á não havia nada. De um galho jeitoso decorado com laranjas improvisámos uma árvore de Natal, com rolhas recriámos o presépio e como não tínhamos televisão a noite foi passada em torno da lareira, com jogos de tabuleiro e a contar estórias.
Antes de nos deitarmos lá deixámos os sapatos do meu pai na lareira, para que as prendas fossem proporcionais ao tamanho, e no dia seguinte foi a mesma alegria de sempre a rasgar o papel de embrulho ao som crepitante da madeira a queimar.
Não me recordo da prenda que recebi mas ainda hoje, quando o frio se mistura com o cheiro da madeira queimada das lareiras, costumo dizer “cheira a Natal”.
Certo ano, os meus pais resolveram passar o Natal no Alentejo, na modesta e típica casa onde o meu pai fora criado.
Naturalmente que as decorações, a árvore e o presépio ficaram em Lisboa e por l...á não havia nada. De um galho jeitoso decorado com laranjas improvisámos uma árvore de Natal, com rolhas recriámos o presépio e como não tínhamos televisão a noite foi passada em torno da lareira, com jogos de tabuleiro e a contar estórias.
Antes de nos deitarmos lá deixámos os sapatos do meu pai na lareira, para que as prendas fossem proporcionais ao tamanho, e no dia seguinte foi a mesma alegria de sempre a rasgar o papel de embrulho ao som crepitante da madeira a queimar.
Não me recordo da prenda que recebi mas ainda hoje, quando o frio se mistura com o cheiro da madeira queimada das lareiras, costumo dizer “cheira a Natal”.
Feliz Natal
quinta-feira, dezembro 12, 2013
segunda-feira, novembro 25, 2013
Cante ao menino - Vila Verde de Ficalho
Estando a apróximar-se o mês de Dezembro não puderia deixar de públicar este Cantar ao Menino de Vila Verde de Ficalho (Alentejo) recolhido por Michel Giacometti
quarta-feira, novembro 20, 2013
Folclore de Olivença: entre o Alentejo e a Extremadura Espanhola
Por Carlos Gomes
O concelho
de Olivença é originariamente uma terra alentejana, com os seus usos e costumes
característicos do Alto Alentejo,
o seu modo de falar a Língua portuguesa com a pronúncia característica das
gentes daquela região e o seu património histórico e artístico a atestar a sua
secular portugalidade firmada desde o Tratado de Alcanizes. Porém, a conjuntura
política dos finais do século XVII levaram à sua ocupação militar por parte de
Espanha por ocasião da chamada “guerra das laranjas”, ocorrida em 1801.
Esta situação levou ainda ao desmembramento do concelho de Juromenha uma vez
que, também a Aldeia da Ribeira – atual freguesia de Vila Real – passou a
integrar o município oliventino como se do seu termo fizesse parte.
A partir de
então, diversos sucessos ocorridos ao longo de mais de dois séculos de
ocupação, entre os quais se destaca a guerra civil espanhola e a ditadura franquista,
determinaram a alteração do equilíbrio demográfico, registando-se um
progressivo abandono por parte dos oliventinos de origem portuguesa e a sua
substituição por gentes oriundas da Extremadura e outras regiões de Espanha. A
maioria dos que ficaram foram reduzidos à situação de pobreza, fixaram-se nas
aldeias em redor e foram sujeitos a um processo de assimilação, vendo os seus
próprios nomes de batismo convertidos para o castelhano.
A realidade,
porém, é que tendo a realidade social sido alterada e colocando de parte
julgamentos de natureza política, Olivença acusa presentemente uma forte
influência da extremenha a par de uma surpreendente resistência da cultura
portuguesa. É que, manter viva a chama da cultura portuguesa através de uma
dezena de gerações que viveram sob as circunstâncias mais difíceis, sem
qualquer estímulo por parte do Estado português para além da manutenção
jurídica da questão territorial como uma posição de princípio, convenhamos que
não é tarefa fácil. Pelo que, certos juízos de valor que por vezes se fazem
acerca da vontade dos oliventinos, sem discriminação sequer quanto à sua
origem, só podem ser entendidos como cínicos ou ridículos.
Essa
influência extremenha revela-se nomeadamente através do próprio folclore, sendo
usual os grupos folclóricos e de música tradicional interpretarem danças e
cantares que claramente se distinguem quanto à sua origem e, na realidade, nem
sequer se confundem. Danças como
“O Pescador” e o “Verde-gaio” são representadas a par de jotas
e coplas extremenhas. É uma realidade diferente que é resultado de
processos históricos em relação aos quais não podemos culpar aqueles
oliventinos cujas origens não se filiam na nação portuguesa. Mas, aquilo que
devemos fazer e encontra-se ao nosso alcance é o estreitamento das relações
culturais com Olivença, nomeadamente através do intercâmbio com os grupos
folclóricos e de música tradicional ali existentes, aceitando e compreendendo
as diferenças e relevando a sua identidade portuguesa e as suas características
alentejanas.

Em tempos, o
Rancho Folclórico “La Encina”, interpretava uma cantiga muito popular em
Olivença nos começos do século XX, marcadamente portuguesa. Recolhida por
Bonifácio Gil e publicada no seu “Cancioneiro Popular da Extremadura”, trata-se
de uma melodia melancólica cujo tema sugere a aproximação geográfica ao rio
Guadiana, relacionada com a faina da pesca e com toda a probabilidade
originária da antiga Aldeia da Ribeira, atual freguesia de Vila Real.
O tema, que
possui curiosas semelhanças com outras cantigas do cancioneiro popular
português, trata das relações amorosas do pescador com uma mulher casada, qual
“sereia que canta bela e que perdido é remo e vela”…e os conselhos da
gente para que volte atrás nos seus propósitos. Na realidade, uma versão diferenciada
da cantiga do “pescador da barca bela”!
Ó pescador da barquinhaVolta atrás que vais perdido
Essa mulher que tu amas
É casada e tem marido;
Casada e marido tem,
Ó pescador da barquinha
Volta atrás que não vás bem.
Fugiste-me ingrato
Deixaste-me só
No alto da serra
Sem pena nem dó
Imagens: Museo Etnográfico González Santana (Olivença)
Fonte: Folclore de Portugal
quinta-feira, novembro 07, 2013
Folclore: das Paradas Agrícolas aos Cortejos Etnográficos
por Carlos Gomes
Os cortejos etnográficos constituem um espetáculo
geralmente muito apreciado do público, mesmo comparativamente às exibições de
ranchos folclóricos, vulgarmente designadas por festivais. Em diversas
localidades do país, eles integram as respetivas festividades, atraindo
milhares de forasteiros e tornando-se, quase sempre, um dos momentos mais
apreciados do público. São exemplo o cortejo nas Festas em Honra de Nossa Senhora da Agonia, em Viana do Castelo e
nas Feiras Novas, em Ponte de
Lima.
Nas aldeias e freguesias em redor, o povo prepara com
afano a sua participação no aprazado cortejo, levando consigo os elementos mais
característicos que de alguma forma identificam a sua terra, procurando
representar aspetos peculiares dos ciclos do trabalho desde a sementeira do
linho à sacha do milho, da pastorícia à produção do vinho. A acompanhar, a
rusga ou o rancho a animar o desfile com as alegres rapsódias do folclore
local. E o povo que se apinha à beira do passeio para ver passar os figurantes,
interage com eles que, não se fazendo rogados, brinda os mais sequiosos com
malgas de verdasco.
O aparecimento dos cortejos etnográficos remonta aos
começos do século XX e tem a sua origem nas paradas agrícolas que então se
realizavam como uma mostra das produções locais com vista a incentivar as
atividades económicas e promover o desenvolvimento da respetiva região. O
elemento etnográfico apenas surgia como uma forma de emprestar um ambiente
pitoresco a contento de uma burguesia apreciadora de costumes por ela
considerados bizarros. Porém, não constituía a sua principal finalidade, pese
embora servirem para transmitir uma ideia de que o trabalho era valorizado e,
como tal, o próprio povo que o realizava.
A revista “Ilustração Portugueza” dá-nos conta
de diversas paradas agrícolas
que então se efetuavam, aliás à semelhança das exposições de outros produtos
como o objetivo de promover a sua venda e exportação. Juntamente com o jornal “O
Século” a que se encontrava ligado e constituindo um instrumento de
propaganda dos ideais republicanos e da maçonaria, aquela revista era
especialmente difundida entre os sectores burgueses estabelecidos nos centros
urbanos de quem, aliás, recebia os clichés e as notícias que publicava,
mantendo uma rede de correspondentes que se estruturava paralelamente à própria
organização política.
A revolução industrial determinou a necessidade de se
organizarem certames, alguns de projeção internacional, com vista à promoção
dos produtos dos vários países e a divulgação das mais recentes realizações da
indústria e da tecnologia. São tais eventos que estão na origem das exposições
mundiais e nas grandes feiras industriais que são levadas a efeito pelas
associações empresariais de diversos sectores de atividade. Mas, também a uma
escala regional foram surgindo iniciativas do género que ainda subsistem,
embora registando modificações que o tempo lhes impôs.
Ao mesmo tempo que se realizavam as paradas agrícolas,
surgiam em diversas localidades grupos folclóricos mais ou menos constituídos
como tal que serviam sobretudo para animar algum acontecimento ou festividade
que então se realizava. Com o advento do Estado Novo, tais paradas agrícolas
receberam novas influências e apresentaram um novo figurino. Mais do que
promover os produtos regionais, os cortejos etnográficos passaram a transmitir
uma nova ideologia assente na doutrina do Corporativismo pelo que, nalguns
casos, chegaram mesmo a receber a denominação de “Festa do Trabalho” como
sucedeu em Viana do Castelo. Entretanto, o aparecimento de numerosos ranchos
folclóricos sob o incentivo e o patrocínio da Junta Central das Casas do Povo,
da FNAT e da Mocidade Portuguesa veio colocar definitivamente o folclore como
elemento central dos referidos desfiles, embora também associados a finalidades
de propaganda e promoção turísticas. A partir de então, o folclore ficou
etiquetado e arrumado em gavetas que correspondem a uma divisão administrativa
em províncias que foi ensaiada pelo Estado Novo mas que, na realidade, não
passou de umas manchas coloridas no mapa de Portugal. Um pequeno punhado de
ranchos de diversos pontos do país foi escolhido e especialmente apadrinhado
para representar as respetivas províncias, o mesmo sucedendo com o artesanato,
os trajes tradicionais e as próprias festas e romarias, como se a cultura
tradicional das diferentes regiões assentasse num único padrão e, entre elas
não existissem cambiantes de luz e cor e as pessoas não se influenciassem
mutuamente no contacto entre si, na feira, no trabalho ou na romaria e as
migrações internas fossem algo inexistente.
Quem assiste ao cortejo etnográfico que se
realiza em Viana do Castelo por ocasião das Festas em Honra de Nossa Senhora da
Agonia tem a probabilidade de deparar com a participação no referido desfile de
algumas unidades industriais como os Estaleiros Navais de Viana do Castelo.
Sucede que, não se tratando propriamente de uma representação etnográfica, a
mesma só poderá resultar de uma certa inspiração no figurino da “Festa do
Trabalho” que outrora ali tinha lugar.
Nos tempos mais recentes, um tanto com
base em modelos importados sobretudo dos antigos países socialistas, algumas
localidades organizam geralmente por ocasião do respetivo feriado municipal um
desfile daquilo a que costumam designar por “forças vivas” e que incluem
indiscriminadamente e sem quaisquer preocupações de ordem estética, ranchos
folclóricos, bandas de música, fanfarras dos bombeiros, coletividades
desportivas, entidades fabris e toda a espécie de agremiações. Em lugar dos
tradicionais arcos decorativos, as artérias que constituem o seu percurso são
frequentemente engalanadas com bandeiras de cores variadas e formatos
reduzidos, um género também ele originário daqueles países. Não se trata, pois,
de um desfile etnográfico mas antes de uma manifestação política ao jeito
municipalista ao qual os ranchos folclóricos emprestam o seu colorido e
animação com o toque das suas gaitas.
Em síntese, o cortejo etnográfico
representa um género de espetáculo que teve a sua origem como meio de
propaganda com a finalidade de promover os produtos e atividades regionais,
evoluindo para novas formas de acordo com as transformações sociais e políticas
que entretanto se foram registando na sociedade portuguesa. Porém, continua a
ser uma das componentes mais apreciadas do público sempre que as mesmas surgem
integradas nas festividades, apresentando quadros animados e coloridos das
tradições locais.
Fonte: Folclore de Portugal
Artigo relacionado: CortejoEtnográfico e Folclórico de 1937
terça-feira, novembro 05, 2013
Exposição de Têxteis
Muito embora já tenha publicado um artigo sobre a Conservação deTrajes, nunca me tinha debruçado sobre a sua exposição.
Por esse país fora tenho admirado inúmeros pequenos museus dos
ranchos folclóricos, um espólio imenso e riquíssimo, exposto à medida das
condições e conhecimentos de cada grupo.
Sobre esta matéria encontrei um pequeno artigo no Jornal Folclore (nº
201, Nov.2012) de António Lopes Pires, autoridade nesta matéria, e que passo a
transcrever:
“(…) A exposição de tecidos exige sempre cuidados especiais. Vejamos alguns:
1.
O maior inimigo do têxtil é a luz solar. Os raios
ultra violetas tiram a cor, fragilizam as fibras, acabando por as destruir
completamente.
Assim, expor na sala da sua sede, só se as janelas tiverem
cortinas que não deixem entrar muita luz, ou seja, não mais de 50 luxes (a
intensidade luminosa pode medir-se com um luxímetro, aparelho que se compra nas
da especialidade e não é de preço proibitivo).
2.
A exposição permanente, fora de vitrinas, também
não é aconselhável por causa do pó que a pouco e pouco irá fazer muito mal às
peças.
3.
Outro mal que se deve evitar, eu diria, situação
em que nunca se deve cair é expor peças de vestuário nas paredes das salas,
suspensas em pregos metálicos. Aqui os males são três: a) As humidades da
parede transmitem-se aos tecidos propiciando condições para a criação de
bolores, outro grande inimigo. b) Os pregos enferrujam e, pouco tempo depois,
transmitem essa ferrugem aos tecidos. c) Como o peso das peças se exerce apenas
na pequena porção das fibras por que estão suspensas, é certo que irão romper
por ali.
A exposição de têxteis só deve fazer-se,
temporariamente. Se o leitor quer expor os seus trajes, então faça-o em cima de
mesas para que as peças estejam em descanso. E vá rodando os elementos expostos
todas as semanas ou todas as quinzenas. Assim mostrará o seu acervo e não
prejudicará as peças. A melhor forma de as guardar é dentro de gavetas,
gavetões ou prateleiras adequadas, o menos dobradas possível, e sempre tendo em
conta os cuidados que já referi neste Jornal sobre a conservação de têxteis. (…)”
Imagens: Exposição “Trajes de Portugal – Cultura e Tradição”
organizada pelo Grupo Cultural de Vila Fria em 2008
segunda-feira, outubro 28, 2013
Pé descalço
Por Eng. Manuel Farias
Por vezes assistimos a grandes
discussões sobre a autenticidade do calçado no folclore português: se as botas
podem ter rasto de borracha, se as chinelas podem ter bordados e lantejoulas,
se os tamancos são com biqueira levantada, se o couro é preto ou castanho
natural, etc. E que tal ir um pouco mais além e questionar: dentro do mesmo
grupo de folclore quem deverá andar calçado e quem deverá andar descalço?
Vamos descalçar esta bota.
Os últimos reis da dinastia de
Bragança tomaram medidas para modernizar os usos lisboetas, nomeadamente
através da proibição de entrar em Lisboa com pé descalço. Os reis Luis e Carlos
promulgaram decretos sobre esta matéria e deu em nada, numa altura em que os
portugueses tinham o uso arreigado de andar descalços, por penúria ou tradição;
mesmo nas estações mais frias, esta prática era observada pela vasta multidão
de indigentes das cidades e seus sub-urbanos e pela generalidade dos aldeões
com coirato enrijecido. A primeira república produziu pouco, em matéria de
legislação e em condições materiais, apesar dos relatos cruéis e severos dos
estrangeiros, referindo os portugueses como selvagens, numa época em que “…nem
os marroquinos andam descalços”.
A Liga Portuguesa da Profilaxia
Social foi fundada em 1924 por três jovens médicos (António Magalhães, Cândido
Cosa e Veiga Pires) e uma das suas primeiras campanhas foi dirigida ao uso do
pé descalço, considerando-o “…indecoroso, inestético e anti-higiénico”, através
da publicação do livro “O Pé Descalço – Uma Vergonha Nacional que Urge
Extinguir”, em 1928 e que viria a ser objecto de reedição para uma nova e
intensa campanha dirigida ao norte do país, para erradicar os persistentes, em
1956. Em Agosto de 1926 foi publicado o decreto-lei nº 12073 que impunha:
a) É
proibido o trânsito de pessoas descalças na via pública das áreas das cidades,
que serão delimitadas por postura municipal;
b) As
disposições poderão igualmente ser aplicadas a outras localidades por decisão
dos governos civis;
c) A
transgressão do disposto será punida com uma multa de $50 a 2$00. A reincidência
será punida com o dobro da pena.
Isto significa que me 1926 as
autoridades apenas proibiam o uso do pé descalço dentro das cidades. Em simultâneo,
o Estado Novo editou brochuras sobre a necessidade de erradicar estes usos,
visando tirar das cidades mendigos, desempregados que podem trabalhar, vendedores
ambulantes e outros parasitas que se servem de “…manha, insolência, ameaça,
violência, etc.”. Naturalmente, o Estado Novo combinava o propósito de
erradicação do pé descalço com a violência social da sua ideologia de direita,
atacando a pobreza através de decretos e varrendo o lixo civilizacional para
debaixo do tapete da classe dominante.
Com estas medidas poderemos dizer
que o hábito do descalço nas cidades foi erradicado na década de 30 do século
XX, com forte empenho dos governos civis e fiscalização da PSP. O uso
manteve-se arreigado no mundo rural português, que representava em meados do
século XX mais de dois terços da população.
Em Agosto de 1947, foi promulgado
o decreto-lei nº 36448 que deu um novo impulso a este movimento profilático. A nova
campanha foi simultânea com programas de vacinação anti-tétano e apoiada na
sensibilização para a saúde pública. Com efeito, este fenómeno não era
explicado apenas pelo argumento da pobreza, mas sobretudo pela habituação; os
documentos da época consideravam que o Alentejo era a única região do país onde
os rurais andavam calçados.
Na década de 50, muitas pessoas,
mulheres e homens, foram apresentadas ao Tribunal de Polícia, depois de presas
durante 1 ou 2 dias, quando eram apanhadas a circular descalças nas cidades e
nas vilas, já que nas aldeias a liberdade era outra. Aqui viam-se mulheres com
arcadas de ouro e pé descalço, no verão sempre e muitas vezes todo o ano.
Viam-se homens com botas dependuradas ao ombro, ou tamancos metidos nos
alforges, para calçar apenas na chegada à vila, evitando assim multas e
chatices.
Onde está este uso do povo
representado nos grupos de folclore?
Fonte: Jornal Folclore, nº 202,
edição Dezembro 2012
sexta-feira, outubro 25, 2013
Coleção de figuras da Viscondessa de Carnaxide
Na “Ilustração Portugueza” de 18
de Janeiro de 1904 podemos encontrar um artigo de Santos Tavares, intitulado
“Habitações Artísticas”, onde descreve a beleza da decoração da casa da “Ex.ma
Sr.ª D. Sarah Motta Marques”, viscondessa
de Carnaxide.
A determinada altura da visita
realça uma coleção muito especial.
“N’um corredor de passagem vimos
uma serie de armarios abrigando uma multidão de bonecas, trajando conforme os
usos de cada paiz. Impossivel referencias exactas, basta dizer que a collecção,
curiosa e attrahente, atinge o elevado numero de duzentas.
E, ao olharmos cada uma
d’aquellas figuretas, como que deante dos nossos olhos perpassam civilisações,
parece que corremos mundo, e, n’um colorido evclorama temos a impressão nítida
de todos os costumes.
N’esse armário a Hespanha, com as
manolas e toureiros, typos de rua, tudo o que é profundamente característico:
os gestos impetuosos, a graça desvairada, o exagero, a alegria no berrante dos
trajes, os perfis languidos, a sedução e … até a perfídia se exibe n’aquelles
olhos pintados na porcelana.
A França, eil-a: typos bretões
que parecem escutar o murmúrio nostálgico do Morbiban, a delicadeza taful,
conganita da raça, os trajes igualmente coloridos, d’um pitoresco probo; até
que, perto da entrada, vemos a curiosa galeria das ordens religiosas. É a
vitrine do recato e unctuosidade, da candidez, do sacrifício, do holocausto,
das irmãs enfermeiras, das missionárias das ordens francezas, dandies nas suas
tunicas azues e brancas, quasi galanteadoras como na hora em que se alheiaram
do mundo para a solidão intranquila dos claustros.
Todos os paizes do globo teem ali
os seus representantes, com pormenores exactos de toilette.”
Muito embora o artigo não refira,
a presença de figuras com trajes portugueses pode ser observada através das
fotografias que o ilustram.
Quanto à coleção dos viscondes de Carnaxide, Sarah Motta Marques e João Arroio, seria interessante
saber onde se encontra, em que condições e qual o seu historial.
terça-feira, outubro 22, 2013
O Trajo Saloio ("O hábito faz o monge?")
Sobre o trajar dos
saloios
Não
é muito fácil definirmos concreta e definitivamente o trajo saloio. Cremos
mesmo não ser muito correta a afirmação TRAJO SALOIO, mas sim o TRAJAR DOS
SALOIOS.
O
saloio é, cremos que poucas dúvidas se levantam hoje em dia, o camponês dos
arrabaldes de Lisboa, aquele que durante muitos anos forneceu a cidade dos
produtos frescos provenientes das hortas destes sítios. Assim o trajar destes
homens do campo tinha uma ligação muito estreita com esta sua atividade, não se
podendo, no entanto, diferenciar do de outros camponeses que trabalhavam
noutras zonas da Estremadura ou mesmo do Ribatejo ou do Alto Alentejo. Não
cremos que haja uma característica de indumentária exclusiva dos saloios.
Barretes, peça que, de facto, identifica sobremaneira o homem saloio, existem
também em vários outros pontos de Portugal; bem assim como as faixas na
cintura; bem assim como o varapau. Nas mulheres o uso do lenço e o seu tipo, é
muito semelhante, por vezes igual, ao da maior parte das regiões do país. Mas,
na indumentária feminina encontramos algo que, ao que pudemos observar até
agora, se pode revelar como único, a célebre carapuça saloia, a que faremos
maior referência no capítulo seguinte. Depois de observarmos muitas gravuras,
podemos, para já, concluir pela exclusividade deste elemento, com estas
características, como algo retintamente saloio.
Há
no trajar dos saloios algumas particularidades e diferenças, que não são
estabelecidas em função das várias profissões que existem como até se podia
supor. Ou seja, o jornaleiro, o moleiro ou o condutor de carroças, quando
trabalham envergam o mesmo tipo de roupa, a grande diferença (e possível
diferenciação) está quando chegam os dias de festa ou os dias santos, em que se
usam os melhores fatos, aqueles mais novos e onde é então possível vislumbrar
quem tem maiores posses, maior poder monetário para compor de forma mais
adornada o seu vestuário.
Afirmamos
pois que o saloio não possui um trajo que o distinga claramente de outros
camponeses seus vizinhos. Mas também não podemos escamotear o facto de os
saloios trajarem de forma muito semelhante entre si e que, frequentando mais
assiduamente a cidade de Lisboa que os camponeses de outros locais, se tenha
fixado um certo tipo de trajar como o trajo saloio e que, aos longo de muitos
anos, vários estudiosos, pintores e fotógrafos tenham tentado fixar este homens
e estas mulheres com os seus trajos característicos.
É
isso que aqui, de forma sucinta, breve (tendo em conta o século XIX e primeira
metade do século XX) e o mais completa possível, iremos agora fazer. Dar-lhes o
retrato mais fiel do trajo envergado pelo saloio e pela saloia. No final
falaremos, ainda que brevemente, do que cremos ser o trajar saloio hoje em dia.
A proteção para a
cabeça
O
barrete saloio é talvez a peça da indumentária masculina mais conhecida. Não é,
no entanto, exclusivo destes homens. Os campinos das lezírias ribatejanas
também o usam, assim como os pescadores de várias zonas costeiras do país. Mas
é, sem dúvida, com os homens saloios que este objeto mais se identifica. É
quase sempre negro, mas também se usou vermelho e verde, semelhante ao dos já
citados campinos e por vezes com borlas coloridas, consoante o estado civil
daquele que o usa. Mas foi o barrete totalmente negro que mais se difundiu e,
cremos, que nenhum saloio retinto o tenha, alguma vez, deixado de usar.
Mas
não era esta a única proteção para a cabeça que os saloios usavam. O chapéu de
abas largas era também muito usado e, por vezes, a cartola surgiu igualmente
(chamado chapéu “zabumba”). Nos nossos dias o comum boné substituiu, em larga
escala, todos os outros.
Nas
mulheres o lenço foi rei e senhor. Houve tempos, até meados do século XIX, em
que, em conjunto com o lenço, a mulher saloia cobria a cabeça com uma carapuça,
conhecida exatamente como carapuça saloia. Curiosa a quadra que J. Leite de
Vasconcellos recolheu no Cancioneiro Popular Português:
«Sou
Saloia, trago botas,
e
também trago meu mantéu,Também tiro a carapuça
a quem me tira o chapéu».
Mas
enquanto esta carapuça caía em desuso o lenço foi-se mantendo, sendo ainda hoje
muito usado pelas saloias mais idosas.
O Tronco
Consoante
a sua função, a estação do ano e, sobretudo, a ocasião, assim o saloio a e
saloia vestiam a blusa, a camisa, o colete, o casaco, a casaquinha, o mantéu ou
a jaqueta.
Da
roupa interior, sempre utilizada, falaremos mais adiante, mas por cima da sua
camisola e no que diz respeito ao tronco, o saloio vestia, invariavelmente, uma
camisa.
Assim,
este homem usava a sua camisola interior, de cor branca e muitas vezes, em
situação de trabalho, de outras cores, nomeadamente cores escuras. Por cima
desta usava a camisa que era, normalmente, “enfiada” pela cabeça. Estas eram
aquelas camisas que tinham apenas uma pequena enfiada de botões na parte
superior, no chamado espelho. Havia também outras que tinham duas frentes de
botões até ao fundo. Outra característica residia no facto de terem ou
colarinho, ou a chamada “gola à padre”. Estas camisas eram, na sua grande
maioria de cor branca, mas também as havia de outras cores, sempre sóbrias. Por
sobre a camisa vestia, invariavelmente, o colete preto, cinzento ou castanho,
quase sempre. Este colete, em situação de trabalho, e por vezes mesmo nas
festas, usava-se desabotoado. Quando trabalhava era esta a cobertura do tronco,
quando assim não acontecia vestia ainda a jaqueta de cores escuras com maiores ou
menores adornos (tais como os alamares) consoante o maior ou menor poder
económico do seu proprietário.
À
volta da cintura, o saloio usava, frequentemente, a faixa ou cinta de cor preta
(mais raramente vermelha), por vezes com um bordado nos dois extremos e franjas
nas pontas.
Nos
dias invernosos usavam a samarra ou o capote, que vários autores consideraram
como “irmão gémeo do capote alentejano”.
A
saloia era mais alegre e graciosa nas vestes que cobriam o seu tronco. Assim, e
de maneira geral, usava uma blusa cintada, com aba, franzida ou com um
machinho, blusas estas que tinham padrões floridos e, não raras vezes, eram de
cores alegres e vivas. Por sobre estas usavam as vasquinhas, curtos gibões, ou
casaquinhos de chita, ajustados ao busto. Usavam também um xaile pelas costas,
sobretudo em casa, predominantemente as mais velhas.
Como
roupa interior, a saloia usava igualmente o corpete, servindo para “segurar o
seio”; algumas preferiam o espartilho. Era alva esta roupa interior.
Também
a saloia usava capote, ou capa, para se proteger do frio e dos dias chuvosos.

As pernas
O
saloio usava, obviamente, calças. Calças que, de forma geral, tinham bolsos
direitos, apertavam à frente com botões e atrás ajustavam com uma fivela; eram
de talhe direito e folgadas ou, mais comummente, justas à perna alargando em
baixo de forma a tapar a parte superior da bota. Eram, usualmente, em cotim, às
riscas verticais ou lisas, e também em fazenda ou outros tecidos grossos. No
trajar mais “cuidado” usavam calças feitas de “pele de diabo” – bombazina.
A
saloia usava, obviamente, saias. A saia era sempre comprida, embora nunca fosse
a arrastar pelo chão. Em situações de trabalho usava-a um pouco mais curta, de
forma a não atrapalhar os movimentos do seu trabalho.
Para
além das saias, a saloia usou durante muito tempo a sobresaia que, muito
provavelmente, foi mais tarde substituída pelo avental (também chamado anágua).
Este objeto não tinha apenas a função utilitária de evitar sujar a saia, mas
era igualmente um adorno utilizado não só nos dias de trabalho mas também em
situações festivas, onde era costume estrear um avental novo.
Os pés
Nos
pés os saloios usavam quase sempre botas de couro. No trabalho, na festa, na
igreja. Só os mais endinheirados usavam, por vezes, o sapato, embora mesmo
estes optassem, frequentemente, pela bota ou botim, talvez uma pouco de melhor
qualidade e por conseguinte mais caro.
Eram,
normalmente, de couro branco, curtido com o passar do tempo e do uso. Eram
também ferrados, com o fim de durarem mais tempo e os saltos tanto podiam ser
de prateleira com um pequeno tacão. Tanto estas como as de tacão raso tinham
sempre as “tacholas”. Podiam ser de cano inteiriço, até meio da perna, mas o
mais natural era serem mais baixas, sobretudo as que eram utilizadas no
trabalho do campo.
A
saloia também usava bota, normalmente de cano curto e com um pequeno salto.
Em
dias de festa deixava, por vezes, as botas e calçava sapatos rasos de cordovão
de cabedal branco. Também havia aquelas que cobriam os pés com umas grossas
botifarras de couro atanado, de cano alto e fechadas verticalmente por meio de
uma carreira de botões.
Retirado
de "O Trajo Saloio" - Brochura editada pela Câmara Municipal de
Loures / Departamento Sócio-cultural - Texto de Francisco Sousa - Novembro de
1995
Fonte:
Folclore de Portugal
Imagens
ilustrativas: Recolha efetuada na internet
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