terça-feira, setembro 25, 2012

MEIAS – Lingerie ou uso externo?

por TRAJAR DO POVO EM PORTUGAL

Há duas histórias diferentes no que respeita ao uso das meias: na nobreza/burguesia e no povo. Por outro lado, a história das meias é indissociável da história das malhas, uma das técnicas de entrelaçamento de fios e fibras, de modo a produzir tecidos.

 
MALHAS
 
O entrelaçamento de fios com laçadas nasceu no Egipto antigo, onde as agulhas de osso e madeira desempenhavam um papel importante. Na mitologia grega apresentasse-nos o caso da esposa de Ulisses, Penélope, que para resistir ao casamento com um pretendente que afirmava estar Ulisses já morto e perante o interesse de seu pai nesse segundo casamento, pediu que a deixassem terminar uma peça de tecido; o decido aumentavam de dia e diminuía de noite, pelo que a ardilosa grega apenas poderia estar a usar a técnica da malha.
 
Com efeito, a malha recorre a laçadas que se desfazem, enquanto a tecelagem usa o cruzamento ortogonal de fios (teia e trama) nos dispositivos básicos ou manuais ou a combinação destes com fios enviesados (por exemplo para a produção de sarjas) ou torção de alguns destes fios (originando texturas encaneladas) ou ainda com a introdução de fios com cores diversas para obter padrões com figuras na própria tecelagem.
 
A malha “do povo” usa um único fio e é obtida por trama, equivalente à progressão no sentido horizontal do tecido. A malha industrial pode incorporar de um a muitas dezenas de fios e o seu enlaçamento evolui por teia, ou seja: o tecido cresce no sentido vertical. Este princípio é fundamental para quem quiser diferenciar a natureza de um tecido de malha.

MEIAS NA NOBREZA/BURGUESIA
O uso sistemático de meias, obtidas por processos de fabrico elaborado iniciou-se no exército romano, nas campanhas militares de inverno nas regiões mais frias da Europa central e nórdica. No decorrer do século XIV entrou para o uso cortesão dos homens, através de uma moda que nasceu em Espanha e se espalhou por todas as cortes e palácios da Europa. O seu uso estava apenas confinado aos homens, havendo uma frase célebre do ultra-católico Filipe IV, em relação a uma oferta de meias de seda que fizeram à sua esposa e que ele recusou com grande azedume: “As mulheres não têm pernas!”.
 
Foi preciso chegar ao final do séc. XVIII e à boleia dos ventos que sopraram da revolução francesa, para que as meias fizessem parte da indumentária feminina… nas classes dominantes.
 
Em pleno século XX, em Portugal, as meias de algodão produzidas em maquinaria de malha, começaram a chegar e a ser produzidas para serem usadas pelas mulheres que iam diminuindo o comprimento das saias. Nos anos 20 e 30 já muitas mulheres da burguesia portuguesa as usavam e depois desta data, também as cachopas que se vestiam “à rancho” o começaram a fazer.


1880

MEIAS NO POVO
Livre de preconceitos, sujeito a necessidades e sem outros recursos do que os que cada região possui, o povo terá usado meias, no masculino e no feminino, antes das classes dominantes. Naturalmente, não como adorno, mas como necessidade nas estações mais frias do ano.
A proteção aquecida dos pés e pernas, começou por ser feito com pele de animais e foi evoluindo para soluções mais elaboradas e confortáveis, sendo incontornável o uso de fibras animais, pelo seu aconchego. Já se perdeu o aproveitamento dos pelos dos cavanhaques dos bodes (excecionalmente compridos) para fazer meias, do mesmo modo que se perdeu o uso das cerdas lombares dos porcos para fazer pincéis. Permanece a lã.




1880
Resulta assim, que as meias do povo são de lã, com malha manual, por vezes feitas com muita criatividade, tal como intercalar fios de lã com cores alternadas (lã branca e lã churra de cor castanha). Estas meias e estes usos podem ser indistintamente tomados pelas mulheres e pelos homens.
No caso concreto dos usos femininos nas mulheres do povo, as meias de algodão com rendados, desenhos e feitios, são de uma inutilidade total, pois as saias tapam até aos artelhos e não proporcionam os mesmos resultados aconchegantes das meias de lã. Convém não esquecer que até meados do século XX, em Portugal, a moralidade a que a mulher portuguesa estava sujeita, ainda aplicava a frase de Filipe IV: as mulheres não têm pernas.
Podemos concluir que no período onde pesquizamos e reproduzimos o trajar nos grupos de folclore (de finais do século XIX até primeiras duas décadas do século XX), as meias são uma peça de lingerie para as mulheres das classes dominantes e uma peça de uso externo e circunstancial para as mulheres do povo.

 
PS : queria acrescentar uma pequena explicação das fotos aqui colocadas no post.  São fotos do Minho, minhotos em trajes de festas na zona de Viana do Castelo com data 1880, e fotos de chinelos de Guimarães tirados da Ilustração Portuguesa de 1909.

Queria apontar que o uso dos "ranchos" dessa zona tem por habito usar meias de renda branca, ora aqui temos fotos a provar o contrario ou seja, a demostrar que não era "regra rígida"!!!!
Sendo assim uma minhota poderia usar durante a semana, ou numa grande ocasião todas essas possibilidades :

1.     Não usar meias
2.     Usar meias de lã
3.     Usar meias as riscas
4.     Usar meias de cor
5.     Usar meias rendadas.
Em conclusão a verdade esta na variedade e na simplicidade.

segunda-feira, setembro 24, 2012

Rancho Folclórico da Casa do Povo de Cano (Sousel)



Actuação do Rancho Folclórico da Casa do Povo de Cano (Sousel) nas Comemorações dos 500 anos do Foral da Vila de Cano em 22.09.2012

quinta-feira, setembro 20, 2012

A Cura da Espinhela Caida

“Parte do corpo que ninguém sabe o que é nem onde fica, mas de que muita gente sofre (!) e não falta sempre quem se apresse a curar o mal de espinhela caída. Quando alguém sofre do peito, ou está arruinado ou tem a espinhela caída, o que também é muito grave, tem de procurar logo quem lha endireite. Há sempre; a pessoa que se dispõe a operar coloca-se por detrás dele, ordenando-lhe que deixe cair os braços naturalmente. Depois pega-lhe nas mãos, levemente, elevando-lhe os braços à sua maior altura e tendo o cuidado de, quase impercetivelmente, fazer com que um dos polegares não chegue a atingir a altura do outro; e então, exclama muito satisfeita: _ Cá está! Eu bem dizia! E vai repetindo a operação, fingindo um grande esforço, até que os dois dedos se ugalham e então a espinhela está direita. Falta o receituário conveniente. Umas colheres de um remédio composto de toucinho alto, mel, pevides de abóbora, farinha de grão torrado, e algumas gemas de ovo. Deve-se tomar esta mistura durante dez dias, pelo menos, e não fazer o mínimo esforço. É claro que o doente, com um tratamento destes e com o competente descanso, sente melhoras apreciáveis. Sempre foi bom mandar endireitar a espinhela...”

F. Santos Serra Frazão,
Santarém, 1936, R. L. N.º 36, 1938

Durante a sua representação o Rancho Folclórico da Ribeira de Salavisa (Arganil) recria precisamente um momento da medicina tradicional portuguesa em que se procede à cura da Espinhela Caida de acordo com as tradições da Beira.

Reportagem – XIII Festival de Folclore de São Vicente de Fora


Decorreu no passado dia 16 de Setembro o XIII Festival do Rancho Folclórico de Ribeira de Celavisa, numa organização conjunta com a Junta de Freguesia de São Vicente de Fora.

Numa das zonas mais pitorescas da cidade de Lisboa, à sombra dos mais altos vultos de Portugal sepultados nos Panteão Nacional, o povo mostrou as suas tradições, saberes e sabores, numa magnífica tarde e perante um público entusiasta.

Desfilaram pelo tabuado o Grupo Folclórico de Santa Cristina do Couto – Santo Tirso, Grupo de Danças e Cantares Regionais do Orfeão da Feira – Santa Maria da Feira, Rancho Folclórico “As Mondadeiras” da Casa Branca – Sousel, Rancho Folclórico da Fajarda – Coruche e o grupo anfitrião Rancho Folclórico da Ribeira de Celavisa – Arganil.

Destaque ainda para a presença de um numeroso quadro de notáveis representantes das entidades representativas do poder local e das estruturas federativas do folclore, nomeadamente, o Presidente da Junta de Freguesia de São Vicente de Fora, Sr. Vitor Agostinho, e a Sr.ª Vice-Presidente da Federação de Folclore Português, Eng.ª Manuela Carriço, além de outros convidados.

“Trajes de Portugal” esteve presente e registou excelentes representações etnográficas, não querendo deixar de dar aqui o seu contributo para a divulgação destas iniciativas.

                           Convidados presentes

Grupo Folclórico de Santa Cristina do Couto – Santo Tirso

Grupo de Danças e Cantares Regionais do Orfeão da Feira – Santa Maria da Feira

Rancho Folclórico da Fajarda – Coruche


Rancho Folclórico “As Mondadeiras” da Casa Branca – Sousel

Rancho Folclórico da Ribeira de Celavisa – Arganil

Rancho Folclórico da Ribeira de Celavisa – Arganil

Fábio Luis e Vitor Agostinho (P.J.F.São Vicente de Fora)

sábado, setembro 15, 2012

A Peixeira de Lisboa

Descreve assim Júlio César Machado, na obra Álbum de Costumes Portugueses, “A Peixeira de Lisboa”:

A que está de cócaras é a representante da peixeira antiga; varina velha, de trajo alheio às caprichosas modas do dia … Na cabeça, lenço amarelo; no pescoço, lenço encarnado; colete atacado com cordão, pela frente, cinta azul, chapéu de Braga, saia de droga de lã mais rapada que cilício.

A outra, a bonita, é das que se avistam no mercado novo em noite de S. Pedro, festa de peixeira rara – rara avis … piscaria rara – porque sejam peixeiras o que lá haja menos.

Dormem sobre esteiras, em casas que alojam quatro e cinco casais, casas boas, Às vezes, de dezoito e vinte moedas de renda; ou em lojas sombrias e húmidas.

Vão aos ranchos, de madrugada, para a Ribeira, arrebatar o peixe dos leilões.
(…)
Enquanto pequenas, carregam o peixe miúdo, e, mais tarde, ninguém como elas para o segredo, que parece nada e para a venda é tudo, de dispor o peixe na canastra.
(…)
Mal disposto à vista, o peixe, pode, em vez de atrair as atenções, afastá-las e dar motivo a que se retraiam, dando assim em ficar com o pior defeito de um alimento, enjoar – antes de ser comido!
(…)
O peixe por cá é um amor, e elas, não só cuidam dele à maravilha, mas escolhem-o como sabedoras escrupulosas;
(…)
Agradam, estas raparigas, tais quais são; é o caso. Olhar fatigado das grandes lojas obrigadas a mármore, espelhos e oiro, descansa, quando contempla os lugares da Ribeira; assim, depois de ver senhoras, há quem não desgoste de ver peixeiras …

Fonte: Júlio César Machado, in, Álbum de Costumes Portugueses, edição Perspectivas & Realidades
Gravura: Aguarela de autor desconhecido

Artigo relacionado: Figuras Típicas de Lisboa - Varina e Varino

sexta-feira, setembro 14, 2012

terça-feira, setembro 11, 2012

Festival de Folclore em Santana do Mato


Mostra de Trajo Etnográfico da Alta Estremadura


O meio e as condições ambientais próprias de cada uma das regiões do nosso país determinaram os modos de vestir, as tradições e os costumes, resultando assim na riqueza etnográfica do nosso país.

Foi essa a riqueza exibida na Mostra de Trajo Etnográfico da Alta Estremadura que se realizou no passado dia 8 de Setembro em Leiria.

Numa passerelle montada num espaço de encantadora beleza e profundo significado para a cidade de Leiria, o Mercado de Sant'Ana, desfilaram trajes de crianças, de noivos, de trabalho, de festa e abastados desta região, numa simbiose perfeita com o suporte musical ao vivo, composto por duas dezenas de tocadores, cantadores e cantadeiras dos vários grupos participantes, mostrando assim os modos das populações desta região nos finais do sec.XIX e início do sec.XX.

Participaram nesta Mostra elementos dos ranchos folclóricos da região, associados da Associação de Folclore da Alta Estremadura, cabendo a esta a organização do evento.

A apresentação e o comentário a cada quadro coube ao Sr. José Travaços Santos e à Dª Maria Emília Francisco, que aproveitaram a ocasião para transmitir muito seu conhecimento e saber.

A noite terminou num grande baile com a participação de todos os participantes.

“Trajes de Portugal” congratula a Associação de Folclore da Alta Estremadura, na pessoa do seu Presidente, Rodrigo Sousa Martins, pela magnífica iniciativa, fazendo votos de que repita em futuras ocasiões.

Dª Maria Emília Francisco e Sr. José Travaços Santos 







 

Sardoal - Encontro de Tocadores de Instrumentos Tradicionais


segunda-feira, setembro 10, 2012

1º Congresso Internacional de Folclore - Açores


Inscrições e informações: info@cofit.org

quarta-feira, setembro 05, 2012

500 Anos do Foral da Vila de Cano

A Vila de Cano comemora no próximo dia 22 de Setembro os 500 anos da atribuição de Carta de Foral por El-Rei D. Manuel I, com um animado programa.

segunda-feira, setembro 03, 2012

Festival Internacional de Folclore Celestino Graça

A cidade de Santarém acolhe uma vez mais o Festival Internacional de Folclore Celestino Graça, de 5 a 9 de Setembro. Este ano, o evento conta com a participação de países como Argentina, Espanha, Estónia, Indonésia e Peru, que vão partilhar o palco com diversos ranchos folclóricos portugueses (Minho, Beira Litoral, Alta Estremadura e Ribatejo).


Ateliês de dança e animação nas ruas da cidade, desfile etnográfico, jogos tradicionais, homenagem ao fundador do Festival, espetáculos no auditório do CNEMA (nos dias 7, 8 e 9), animações gastronómicas, exposição e colóquio, celebração ecuménica, animação em lares da terceira idade e visitas guiadas, são algumas das atividades deste grande evento cultural, que tem ante-estreia, no Jardim da Liberdade.



Programa

Dia 6 de Setembro 2012 – quinta-feira

11h00 » Ateliês de Dança nas ruas da Cidade

12h00 » Teatro Sá da Bandeira – Colóquio

13h00 » Restaurantes – Jornada Gastronómica

15h30 » Ateliê de Dança – Portugal

22h00 » Jardim da Liberdade – Ante-Estreia do Festival (Org.:CMS)



Dia 7 de Setembro – sexta-Feira

13h00 » Restaurantes – Jornada Gastronómica

17h45 » Homenagem a Celestino Graça e Cerimónia de Inauguração do Festival, junto

ao Busto

18h15 » Desfile Etnográfico (Desde a Rua Teixeira Guedes até ao Largo do Seminário)

18h45 » Largo do Seminário – Saudação à População

19h00 » Câmara Municipal de Santarém – Sessão Solene de Boas Vindas

22h15 » CNEMA – espetáculo de Inauguração



Dia 8 de Setembro – sábado

11h00 » Centro Histórico de Santarém – Animação de Rua

13h00 » Animação do Lar de Idosos da SCM de Santarém

17h30 » Igreja da Graça – Celebração Ecuménica

22h15 » CNEMA – Gala Internacional de Folclore “O Mundo a Dançar”



Dia 9 de Setembro 2012 – Domingo

13h00 » Jardim dos Paços do Concelho – Almoço Regional (Org.:CMS)

17h00 » CNEMA – Espetáculo de Encerramento

ENTRADA LIVRE

Organização: Grupo Académico de Danças Ribatejanas.

Mostra de Trajo Etnográfico da Alta Estremadura

No próximo dia 8 de Setembro, pelas 21 horas, realiza-se em Leiria, mas concretamente no Mercado de Sant'Ana, uma Mostra de Trajo Etnográfico da Alta Estremadura, organizado pela Associação Folclórica Alta Estremadura.
A não perder!

quinta-feira, agosto 30, 2012

Centro Interpretativo do Mundo Rural – Vimieiro – Arraiolos



A vila de Vimieiro, situa-se no concelho de Arraiolos, a meio caminho entre esta vila e Estremoz, merece uma atempada visita.

Para além dos numerosos monumentos de grande interesse histórico, desde Agosto de 2009, possui um acrescido pólo de interesse, o Centro Interpretativo do Mundo Rural.

Ocupando um antigo lagar de azeite há muito desactivado, o Centro Interpretativo do Mundo Rural visa constituir não só uma memória individual e colectiva daquilo que foi a actividade mais importante desta região alentejana - a agricultura - assumindo-se também como um recurso para a valorização desse mesmo património como forma de atrair gente à freguesia e ao concelho.

Neste espaço encontram-se diversos instrumentos ligados às diversas actividades do mundo rural, como a apanha da azeitona, passando pela produção de queijo e enchidos, lanifícios, pela ceifa, entre outros.

Trajes de Portugal efectuou uma aturada visita a este espaço museológico recomendando-o a quem por aqui passe, já que possui uma colecção de objectos extremamente interessantes e devidamente enquadrados na sua àrea de utilização, sempre acompanhados de fotografias antigas de elevado valor etnográfico.

O CIMR situa-se no Largo Prof. Doutor José Caeiro da Matta e está a funcionar no Verão, de Maio a Outubro, de terça a domingo das 10h às 13h e das 15h às 19h. No Inverno, de Novembro a Abril, de terça a domingo, das 10h às 13h, das 15h às 18h.

Contactos – Telef: 266 490 240 e-mail: cimr@cm-arraiolos.pt

A entrada é gratuita.


segunda-feira, agosto 20, 2012

terça-feira, agosto 14, 2012

segunda-feira, agosto 13, 2012

Feiras Novas de Ponte de Lima


Clique na imagem para ver o programa

quarta-feira, agosto 01, 2012

A Banheira de S. João da Foz do Douro

Vamos a banhos!

Perde-se no tempo o aparecimento figura do banheiro, associada aos banhos de mar um pouco por todo o país, cuja época áurea ocupa toda a segunda metade do século XIX e a primeira metade do século XX.
No entanto, esta era atividade exclusivamente masculina, com exceção da praia de S. João da Foz do Douro.
Guilherme Braga, em 1869, na sua obra “O Mar da Delfina”, descreve, sucintamente, sob a forma de poema, a Custódia como «…. uma das mais antigas e afamadas banheiras de S. João da Foz».
A banheira, robusta e vigorosa, é-nos apresentada por Ramalho Ortigão, no “Álbum de Costumes Portugueses” de 1881, como proveniente «…de uma estirpe de outras banheiras, e constitue pelos seus caracteres heriditários uma casta distincta…», sendo que «…sem esse privilégio selectivo, de nascença, nenhuma mulher tomaria por offício dar banhos, passando oito ou nove horas por dia, durante quatro meses do anno, mettido no mar até ao peito».

Eduardo Sequeira, na obra “Á beira mar”, de 1889, dá-nos a sua impressão sobre a banheira, uma «…serviçal em extremo e sabe, com uma arte especial captivar a simpatia de todos, das crianças a quem anima, da rapasiada com quem confraternisa alegremente, e dos velhos cercando-os de considerações e respeitos, prodigalisando-lhes cuidados e confortos».
Alberto Pimentel, em 1893, na sua obra “O Porto Há Trinta Anos”, escreve sobre a banheira dizendo serem «.. algumas d´ellas raparigas bonitas e fortes», e Ramalho Ortigão na obra supra citada, completa, referindo que a sua diferença se impôs «…pelo trajo, pelas attitudes, pela expressão physionomica, pelo sorriso, em que o vermelho vivo das gengivas e o branco pérola dos dentes lembra uma frescura de guelra e a respiração salgada cheirando a sargaço, pelo olhar límpido e profundo…», descrevendo a fisionomia da sua banheira, Anna da Luz, e afirmando «…ficou-me para sempre, e ainda n´este momento a vejo, septuagenaria, alta e espadaúda, o cabello quasi todo branco, a face enrugada e brunida pelo sol, os grandes olhos mansos e ternos, as mangas arregaçadas, a saia de braqueta sempre molhada até à facha que lhe cingia a cintura, o chale de malha côr de pinhão trespassado no peito.».

Quanto ao trajo, um artigo no jornal “O imparcial da Foz”, de 18 de Setembro de 1904, refere que os «Banheiros e Banheiras, com os trajos profissionaes, largas toalhas aos hombros e bilhas com água nas mãos, crusam-se pelos arruamentos formados entre os quadrados das barracas.». Por sua vez o periódico ” O Progresso da Foz”, de 29 de Setembro de 1907, acrescenta que «…o banheiro, um velho lobo do mar, vestido de negro, sem perder de vista a boia de salvação que se pendura n´um varão de ferro cravado na areia, vela cuidadosamente pelos banhistas mais temerarios que tentam afastar-se da praia, e reprehende-os com benigna severidade.»
Vamos agora falar do dia da banheira e para isso, começamos por uma passagem da obra citada de Ramalho Ortigão, em que «…de madrugada, ao armar das barracas, quando ellas, accordadas com os primeiros massaricos prateados que debicam a salsugem da maré, entôam em côro de sopranos uma das muitas barcarolas locaes, uma aguda palpitação de poesia festival e triumphadora preenche o ar…»

O meio de transporte utilizado pelos banhistas para se deslocarem das suas casas para a praia dos banhos foi variado ao longo dos tempos, tendo sido primeiro utilizado o jumento, o carroção, o americano e, mais próximo de nós, o eléctrico. Sob a primeira forma de transporte fala-nos Alberto Pimentel, na obra supra citada, que «… os jumentos eram um meio de locomoção muito usado ainda no Porto para a jornada da Foz. Pessoas conhecidas umas das outras organizavam burricadas, que partiam de madrugada e iam choutando à beira do rio por entre nuvens de pó. De vez em quando, as senhoras cahiam dos burros, e toda a caravana parava à espera que se removesse aquelle vulgar incidente. Depois continuavam a jornada até à praia dos banhos onde os burros ficavam descançando enquanto as pessoas que elles haviam transportado iam tomar banho. Estas caravanas que chegavam ou que partiam, contribuíram para animar o espectáculo da praia dos banhos».
Segundo o jornal “O Progresso da Foz”, de 29 de Setembro de 1907, «… cada comboio que despeja na praia uma multidão de banhistas, que vae descendo até à beira-mar conversando ruidosamente, n´uma alegria communicativa, como que anteposando a sensação deleitosa d´um banho n´aquelle mar tão azul. Raparigas aos banhos, com leves vestidos claros, riem e chalaceiam, n´uma grazinada jovial e infantil.».

Sobre esta paisagem, o jornal “O imparcial da Foz, de 18 de Setembro de 1904, revela que «…os banhistas vão chegando, ainda com caras somnolentas e pouco animadas, parece tiritando de frio, entram nos pequenos cubiculos de lona, e vagarosamente, vão fazendo a toilette com que se hão-de apresentar ao velho deus Neptuno».
O facto de os banhistas irem a banho de madrugada deve-se, tal como diz o Sr Domingos Picão, sobrinho de banheiras de S.João da Foz, a estes se tomarem em jejum. O período de tempo, receitado pelo médico, para ir a banhos era geralmente, como refere em 1889, Eduardo Sequeira, na sua obra já citada, «…de vinte e cinco a trinta dias… não devendo o banhista tomar banho no próprio dia da chegada à praia, mas tão somente dous ou tres dias depois».

Depois de preparada a toilette para ir a banhos, e tal como descreve ”O Progresso da Foz”, de 29 de Setembro de 1907, «…principiam a sahir banhistas das barracas. Os homens, com as pernas e os braços à vela, uns enfezados e rachiticos tremendo de frio n´aquella deliciosa e amena manhã de Setembro, outros de formas musculares, quasi athleticos. As senhoras com toda a sua esthetica destruída pela deselegancia dos largos vestidos pretos guarnecidos de fitas brancas, os pés occultos em sapato de tecido fino, os cabellos setinosos domados por uma touca ornada de lacinhos. Algumas chegam às barracas com umas formas tão roliças e desenvolvidas e — oh; desilusão! — saem para o banho tão escoadas que dir-se-ia estarem as barracas povoadas de carnívoros». Da mesma forma, o jornal ” O imparcial da Foz”, de 18 de Setembro de 1904, diz-nos que «…apparecem os primeiros grupos já promptos para entrar nas selsas águas, banheiros de bilhas na mão despejam água nas cabeças dos mais nervosos, que correspondem com carantonhas capazes de metter medo ao próprio mar. Entram n´água os primeiros grupos, é signal dado para principio  da animação da praia, desde então até quasi ao meio dia, succedem-se uns aos outros, de forma que na praia d´Ourigo milhares de pessoas se banharam».

Artur Magalhães Basto, n´A Foz Há 70 anos, conta que «…mesmo em maré vaza, só os destemidos tomavam banho sem ir agarrados à mão do banheiro. E em geral os banhos demoravam apenas alguns minutos. Esperavam-se as ondas e contavam-se os mergulhos; um, dois, três!… e rua! — Quer dizer, imediatamente para a barraca».
«… Coragem e ávante!», era o dito utilizado pela banheira Rita, a quem tem medo do mar, num artigo no “Jornal do Porto” em 10 de Agosto de 1863.

Ainda n´A Foz Há 70 anos, Artur Magalhães Basto afirma conhecer  «…uma descrição da praia do Caneiro em 1873, em que surgem tipos que eu vi ainda há 20, 25, 30 anos e ainda hoje certamente aparecem. Este por exemplo : «o senhor gordo, nédio, droguista talvez». Vai tomar banho, desce solenemente a rua das barracas. Relanceia com gosto a vista pelos espectadores, todo cheio de si e da sua beleza plástica. Sonoro e enérgico, como quem dá voz de sentido a um batalhão, berra — Gamela! O banheiro traz-lhe uma gamela com água; o senhor gordo inclina a cabeça para a frente, como se fosse oferecer ao cutelo da guilhotina; e o banheiro despeja-lhe a água pela cabeça abaixo. Depois endireitando-se, bufa e avança para o mar — mas pára de repente, mal a água lhe chegou à boca do estômago».

Depois do banho tomado, “O Progresso da Foz” de 29 de Setembro de 1907, dá-nos uma impressão de como os «Banhistas saem do mar e regressam às barracas, todos muito apressados, cada prega do fato transformada em goteira, as roupas encharcadas a desenhar-lhes as formas com nitidez».

O mesmo jornal revela-nos o ambiente que se vive na praia, «sentados em pequenas cadeiras encostadas às barracas que se alinham em filas uniformes de cubos brancos, muitos banhistas conversam ou lêem os jornaes da manhã; uns esperando companheiros inseparáveis dos seus brinquedos aquáticos, outros, mais madrugadores, já refrescados pelo banho matinal, e outros que são levados à praia somente pelo prazer de admirar plásticas que se revelam mais ou menos perfeitas sob os fatos de banho, ou para trocar olhares cupidíneos com as suas Dulcinéas». Para além destes olhares cupidíneos, Alberto Pimentel, na sua obra atrás citada, diz-nos as banheiras serem «…agentes venaes de uma assídua correspondência amorosa que os Romeus e as Julietas trocavam entre si, graças à mediação interesseira das supracitadas banheiras».

O próprio Ramalho Ortigão confessou no “Álbum de Costumes Portugueses”, ter sido banheira Anna da Luz «… a alegria para o meu coração inquieto, e o contentamento para a minha alma resignada». O que é certo tal como, nos diz Alberto Pimentel, na sua obra já citada«…é que muitos casamentos vieram tramados da Foz, no fim da temporada de banhos, graças à intervenção opistolar das banheiras». É acrescenta, que no fim da temporada, «…ninguém tornava a pensar na Foz senão no estio, quando o médico aconselhava o uso de banhos do mar…».
Fontes:
RMMV [60 anos de......gratidão] 

Ramalho Ortigão in Álbum de Costumes Portugueses, 1888
Gravura de Manuel de Macedo in Álbum de Costumes Portugueses

sexta-feira, julho 20, 2012

segunda-feira, julho 09, 2012

Tatuagens Antigas

O site Feitoria  lançou um conjunto de 12 tatuagens provisórias baseadas na recolha do etnógrafo Rocha Peixoto, que no início do século XX publicou o resultado de um estudo sobre as tatuagens usadas pelos portugueses desde os finais do século XIX.

O amor e a religião são os temas mais comuns entre as tatuagens recolhidas por Rocha Peixoto, sendo o coração o mais expressivo.
Estas tatuagens eram utilizadas por todas a classes sociais, embora as agora reproduzidas sejam de índole popular, surgindo tatuagens relacionadas com alusões à profissão do seu usuário.
Diz-se que Eduardo VII de Inglaterra tinha tatuagens e terá introduzido esse gosto entre as cortes europeias, nomeadamente Portugal, já que era grande amigo do seu primo D. Carlos I.

quinta-feira, julho 05, 2012

XII Encontro de Antiguidades Populares - Feira

O Grupo de Danças e Cantares Regionais da Feira, vai realizar no dia 15 de Julho, pelas 21h30, junto ás Capela de N. S. da Piedade, o evento "XII Encontro de Antiguidades Populares".

quarta-feira, junho 27, 2012

Chapéu de Alcains – Castelo Branco – Beira Baixa

Quem, há uma dúzia de anos, atravessasse os campos de Idanha-a-Nova ou percorresse muitas aldeias do distrito de Castelo Branco, notaria que as gentes do povo, os que mourejam de sol a sol, usavam, geralmente, pesados chapéus de lã, de abas largas e copa baixa, os bem conhecidos chapéus de Alcains, do custo de nove vinténs.

Veio a guerra (1914-1918), e o turbilhão de transformações que ela devia operar, os pobres àbeiros quase desapareceram, sendo já hoje muitos raros, mesmo na arraia de Idanha.

- Origem da indústria? Motivo da decadência?

Não se conhece a origem nem a data exacta da instalação do fabrico. Pelo depoimento de pessoas da localidade, creio poder afirmar que ela vem de tempos distantes, e que, não há muito ainda, empregava mais de uma dúzia de industriais.

Porque decaiu então esta indústria, se outras, como o linho, criaram, com a guerra, novos alentos e arregimentaram novas tecedeiras?

Os chapéus de Alcains são feitos exclusivamente de lã, e esta subiu a preços incomportáveis.

Os compradores, gente simples do campo, fugindo à carestia e levados na onda do luxo, começaram a desprezá-los. Os chapéus de lã de Alcains mal puderam, por isso, resistir à concorrência dos de feltro.

- Processo de fabrico?

Os chapéus de Alcains são feitos, como se disse de lã, exclusivamente de lã, comprada na região, que, depois de lavada, escarameada, cardada, em-arcada e bastida, é levada à cabeça (forma de azinho do feitio de uma cabeça).

Na operação de lavagem, não vale falar por ser bem conhecida.

Escaramear consiste em separar e desfazer os aglomerados de lã.

Cardar o mesmo é passar a lã por entre as cardas, - placas de bicos de aço muito afiados e muito juntos. A cardação é feita no burrinho, banco com uma carda fixa onde o cardador se senta e manobra, com as mãos, em movimento regular e continuo, de encontro à caixa fixa, uma carda móvel.

Em-arcar consiste em desfiar ainda mais a lã separando-a bem e tornando-a fofa e leve. A em-arcação é feita com uma vara de madeira, de pouco mais de dois metros, que tem presa às extremidades uma corda em forma de aro, espécie de arco de rabeca. Preso, o arco, ao teto e suspenso sobre uma mesa, o chapeleiro estica a corda, entrelaça nela a lã e fá-la saltar, uma e muitas vezes, até a lã, ficar fofa, muito leve, bem separada e desfiada.

Bastir equivale a empastar ou fazer a papa.

A lã é deitada numa plancha (grande bacia de folha de cobre de 60 a 65 centímetros de diâmetro e 15 de profundidade) e ali embebida em água. Acesa uma fornalha por debaixo da plancha, a lã toma, com o aquecimento e consequente evaporação de água, a forma pastosa.

A pasta é levada para a cabeça, o chapeleiro, passa sobre ele, vezes em conto, o ferro de passar e o chapéu fica assim moldado.

Enxuto, em seguida, ao sol, debruado e forrado com um pobre forro de chita de várias cores, vai para o mercado, e do mercado para as maiores inclemências do calor e do temporal, proteger e abrigar tantos que, de sol a sol, mourejam na conquista do pão de cada dia.

Texto de Jaime Lopes Dias in Tradições e Costumes da Beira