quinta-feira, janeiro 23, 2014

A Seda é um Mistério


Tradicionalmente a seda era usada nos bordados característicos das colchas da região de Castelo-Branco; nos panos de esquife, que ocultavam o morto que ia a enterrar embrulhado num lençol, constituindo o elemento nobilíssimo do préstito e cujo uso só aqui registamos; nos entremeios de panos e lençóis de linho; e em tecidos, juntamente com linho, para toalhas de variado uso, guardanapos, panos ornamentais, etc.

Em Portugal, a indústria da seda nunca alcançou grande projeção económica. Fradesso da Silveira, em 1869, analisando o panorama da sericicultura, notava que parte da produção do sirgo era vendida para países europeus, fabricantes de seda, designadamente França e Itália, cabendo-nos apenas 14% do trabalho mais laborioso da produção, e àqueles industriais 86% pelo trabalho mais leve da transformação. Os processos de fiação manual comummente usados nas nossas aldeias foram amplamente verberados como “agentes da destruição da seda”. A severidade desta visão não atinge certas situações caracterizadas por modelos de economia familiar específicos, regidos por uma lógica própria, como a que se pode verificar no caso de Maria Teresa Frade. Aqui, a noção quantitativa esbate-se num pano de fundo em que a qualidade e mesmo um sentido estetizante são dominantes.

Em Trás-os-Montes, onde a prática de laboração doméstica teve certa importância, nomeadamente na região de Bragança, Miranda do Douro, Mogadouro e Moncorvo, aproveitavam a seda residual dos casulos que a borboleta furou – os “capelos” –, a anafaia – as “condas” –, e os “maranhos”, que são a parte final dos fios que envolvem o bicho. Esses desperdícios eram fiados à mão, com roca e fuso, obtendo desse modo um fio mais grosseiro, que tingido de várias cores, constituía o elemento decorativo das cobertas de cama, segundo a técnica do repuxado de trama sobre urdidura de linho – o “borboto” ou “felpa” –, as quais atingiram um elevado nível qualitativo, designadamente em Urros, Moncorvo. Na Beira Baixa, contrariamente, não se conhece o aproveitamento desse tipo de seda.

Em Castelo-Branco, a produção tradicional da seda destinava-se, para além de outros materiais têxteis, constituía uma componente indispensável da confeção das colchas decoradas que, ao longo dos séculos, adquiriram uma dimensão emblemática desta região. Tal processo inicia-se com a criação do bicho-da-seda, associada ao cultivo da amoreira que serve de alimento às larvas que produzem a matéria-prima. Na sua dimensão tradicional, a cadeia operatória de produção do fio da seda consiste na extração do fio dos casulos, após a cozedura deste, na dobagem e enovelamento do fio.
A produção da seda inicia-se com os cuidados prestados aos bichos-da-seda para assegurar a sua alimentação e reprodução. O ciclo reprodutivo destes inicia-se logo após a conclusão da sua metamorfose, que ocorre dentro dos casulos, de larvas em borboletas, entregando-se machos e fêmeas de imediato ao ato reprodutivo. Este corresponde a um período curto, cerca de três dias, caracterizado pela excitação da sedução, fecundação, ovulação, perda de vitalidade e morte. As fêmeas produzem cerca de 300 ovos cada. A semente que daí resulta é colocada numa caixa de papelão, forrada de papel branco no fundo, e guardada numa divisão da casa que regista de Inverno as temperaturas mais altas. De meados de Março em diante os ovos são objeto de uma observação atenta, diária. Quando se dá a eclosão, as minúsculas larvas são colocadas em tabuleiros, juntamente com folhas de amoreira muito tenras, para seu alimento. Seguidamente, esses bichos são dispostos em outros tabuleiros, numa distribuição que atende ao grau do seu desenvolvimento. Em geral são usados os tabuleiros de tender o pão, com o fundo forrado de jornais.

O bicho-da-seda alimenta-se exclusivamente de folhas de amoreira, que são colhidas diariamente por Maria Teresa Frade. O bicho-da-seda tem um ciclo de vida de cerca de 30 / 40 dias assinalado por quatro mudas de pele. A qualidade e abundância alimentar pode encurtar esse período. Quando pequenos, são-lhes dadas folhas duas vezes por dia, aumentando esse número à medida do seu crescimento. A limpeza das camas é feita duas a três vezes por semana.

A intimidade de Maria Teresa Frade com as lagartas permite-lhe saber, sobretudo através da cor, quanto está iminente a feitura dos casulos. Na previsão desse passo, recolhe num pinhal pequenos ramos, selecionando aqueles que têm uma caruma mais miúda e rala. Os ramos de pinheiro são então colocados num dos lados dos tabuleiros, encostados à parede, e rapidamente os bichos se apropriam deles, começando a fazer os casulos, que ficam completos ao fim de três dias, atingindo o estado de crisálida passados cinco dias e o de adulto cerca de dez a quinze dias depois. O período final desta fase exige redobrada atenção de modo a evitar a eclosão, que destruiria a seda. Os casulos são retirados dos ramos, selecionam-se os machos (casulos mais bicudos), e as fêmeas (mais redondos), para reprodução, a semente, e os restantes são expostos ao sol, sobre um lençol, para matar a borboleta com o calor.

 
Na sequência da cadeia operatória, Maria Teresa Frade procede à recolha e arranjo de ramos de carqueja. Os casulos são limpos à mão retirando-lhes a anafaia.

Ferve-se água num caldeiro e lança-se nele uma quantidade de casulos equivalente à capacidade de uma bacia dos velhos lavatórios, mantendo-os a ferver durante dois ou três minutos. O caldeiro é retirado da fogueira e levado para dentro do palheiro onde teve lugar a criação do bicho-da-seda e decorre a operação da fiação. Esta exige a participação de duas pessoas.





 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Para o efeito deverá servir-se de um argadilho, colocado ao lado do caldeiro, num plano superior, e no qual se vão enrolando os fios da seda, captados pela outra auxiliar, com a ajuda de um ramo de carqueja, em maior ou menor número, conforme a grossura desejada do fio final. É uma tarefa que exige grande subtileza, operando apenas no núcleo de casulos que sustentam o fio, refazendo-o à medida da gradual progressão do trabalho. O comprimento do fio de cada casulo chega a atingir mil metros. Para a tecelagem o fio é mais grosso; para o bordado é mais fino.



Antes de se retirar a meada do argadilho esta é devidamente atada e depois posta a secar ao ar livre. Para que a seda perca uma certa rigidez, a meada é metida numa panela com água a ferver, juntamente com uma quantidade de sabão equivalente ao seu peso, perdendo a tonalidade amarela, que volta a retomar após várias córas.


Em outros tempos, Maria Teresa Frade vendia muita seda para bordados. Hoje, toda a produção é aplicada na tecelagem, especialmente em toalhas de linho. Para o efeito, a meada é dobada em novelos e, quando se procede à urdidura da teia de linho, intercalam-se séries de fios de seda, que sobressaem em barras longitudinais, que outras similares da trama cruzam, conforme o padrão decorativo imaginado. A teia, após a urdidura, é montada no tear. Neste género de tecido – “montagem com crivo” – usam-se três liços que se manejam de acordo com o remetido nos liços e as configurações da textura que se pretende obter.
 

O processo de transmissão de competências e técnicas tradicionais associadas à produção e transformação da seda era realizado intergeracionalmente, através da aprendizagem informal e exclusivamente com recurso à oralidade.

Maria Teresa Frade é natural da aldeia da Silvosa no Concelho de Oleiros. A atividade profissional do seu marido, obrigo Maria Teresa Frade a viver na cidade de Castelo Branco, onde construiu no quintal da nova casa citadina um pequeno e elementar edifício, onde instalou os equipamentos necessários para se poder dedicar à prática da tecelagem manual, que fora ao longo da sua vida de solteira, uma das grandes paixões.

Logo que as condições económicas o consentiram, o casal adquiriu uma parcela de terreno na periferia da cidade, modelando-o rapidamente a seu gosto, mercê dum saber empírico profundo, desenvolvendo um micro espaço agrário extremamente diversificado. Quando passou a residir em Castelo Branco plantou três dessas árvores, de modo a assegurar a produção da seda necessária à atividade da tecelagem. Em outros tempos vendia seda para bordados, mas mais recentemente a produção foi aplicada na tecelagem, especialmente em toalhas de linho.


O presente artigo foi elaborado a partir do texto A seda é um mistério, da autoria de Benjamim Pereira, editado na brochura que acompanha a edição em VHS do filme homónimo realizado por Catarina Alves Costa em 2003.
Para além do registo de conhecimentos e de saber-fazer multisecular, de que Maria Teresa Frade era na região uma das últimas detentoras no momento desta investigação, é também a sua voz que aí ecoa e foram as suas próprias palavras (“A seda é um mistério…”) que resultaram no título dos documentos finais.

A Seda é um Mistério (2003)
Realizadora: Catarina Alves Costa
Copyright: © Laranja Azul / IMC, IP.

Imagens: Catarina Alves Costa
Fonte: MatrizPCI

segunda-feira, janeiro 20, 2014

O MOINHO - OEIRAS





Por este país fora já existem poucos as funcionar, mas em Oeiras, até há pouco tempo ainda existiam algumas destas joias. Eis um documentário para memória futura.

sexta-feira, janeiro 17, 2014

Entrevista à Antena 1


No programa de José Carlos Trindade, Linha do Horizonte na Rádio Antena 1, o blog Trajes de Portugal vai ser objecto de uma entrevista que darei hoje, entre as 4 e as 5 horas da madrugada.
Não vos prometo uma entrevista brilhante, mas vou dar o meu melhor, tendo em consideração que sou um iniciado nestas área da comunicação social.

Ainda assim, quem quiser estar acordado, como eu, a essa hora, está convidado a ouvir.

Traje Domingueiro de Lavradeira de Grijó

A imagem, um cliche de Emilio Biel, apresenta uma mulher de Grijó (Concelho de Vila Nova de Gaia), uma lavradeira, com seu traje de dia de festa.

Saia de pano bem rodada, corpo de veludo com bandas e canhões enfeitados a tufos de seda que forma também cinto. Canhões e gola guarnecidos de renda. Sobre o colo assentam lhe os corações e estrelas de filigrana de ouro que lhe pendem de grossos cordões do mesmo metal precioso, pendendo lhe também das orelhas compridos brincos de ouro, como cachos, que vem confundir se no aurífero colo reluzente que nem mostrador de ourivesaria. Algumas destas mulheres trazem acima de si um quilo de ouro, que é todo seu luxo e muitas vezes todos os seus haveres, pois nele convertem as usas economias feitas a custa de muitas privações. E um capital morto que ali tem e que só lhe aproveita quando absolutamente lhe faltem todos os recursos, não lhes servindo para acrescentarem seus bens, empregando essas economias em coisas que lhes renda. Assim esta parado de séculos o espírito de iniciativa daquela boa gente. Mas continuando a descrever o belo tipo da mulher de Grijó, este se completa no seu traje com o elegante chapelinho ou gorro todo enfeitado de flores e frutos, que lhe coroa a fronte, assentando sobre o lenço de seda de cores vistosas que lhe envolve as tranças de cabelo que se espadanam pelas costas.

O traje é sobre tudo assaz pitoresco e quando ela se assenta numa mulher formosa como o tipo que a nossa gravura reproduz, mais sobressai ainda porque a beleza natural é o melhor complemento da toilette feminina.

Extracto do jornal O Occidente outubro 1912

quinta-feira, janeiro 16, 2014

CHAPÉUS FEMININOS


Ao longo da região costeira entre o Douro e o Tejo sujem nas indumentárias populares femininas a utilização de pequenos chapéus, alguns com trajes de festa, outros de uso diário e associados a determinadas atividades.

Os exemplares que de seguida descrevo resultam da recolha efetuada pelo site Trajar do Povo em Portugal.


Região da Gândara - Bairrada
Matéria: Tecido; Veludo; Pena de Pavão
Dimensões (cm):altura: 8; diâmetro: 19,5;
Descrição:

Chapéu de tecido de cor preta. As abas são paralelas à copa, sendo reviradas até à altura desta. A copa é de tecido de cor preta. O topo é abatido. Apresenta uma fita de veludo de cor preta, que se prolonga pelo centro e pelos limites do topo da copa. É arrepanhada de espaço a espaço formando espécie de laços de extremidades lobuladas. De um dos lados, apresenta uma pena de pavão de cor preta, a qual sai para fora dos limites do chapéu. As abas são cilindriformes. São revestidas a veludo de cor preta. Tal revestimento prolonga-se um pouco para o interior do chapéu. O interior da copa é forrado a tecido de fundo de cor creme.


Leiria / Pombal / Ranha de Baixo
Matéria: Feltro; Veludo; Penas; Tecido; Pergamoide
Dimensões (cm): altura: 7,5; diâmetro: 20;
Descrição:

Chapéu de feltro de cor preta e abas paralelas à copa, reviradas até à altura desta. A copa apresenta a toda a volta, uma banda de veludo de cor preta. Esta, em metade do perímetro é repuxada e plissada, formando pequenos laços de extremidades recortadas em "ziguezague". Numa dessas extremidades apresenta duas penas de ave: uma pequena de cor vermelha e outra maior de cor preta. A aba, cilindriforme, é forrada a veludo de cor preta. Interiormente, o chapéu é forrado a tecido de cor branca. Ao centro, vestígios de uma inscrição de fabricante: espécie de esfera que contém um chapéu no interior, encimada por uma coroa e ladeada por uma figura humana. A orla da extremidade inferior da copa é forrada por cima do tecido de cor branca, por uma banda larga de pergamoide (?) lavrada com pequenas quadrículas. Tal banda é cosida ao corpo do chapéu por linha de cor preta.


Vila Nova de Gaia / Grijó / Murracezes
Matéria: Feltro; Veludo; Seda; Tecido; Pergamoide
Dimensões (cm):altura: 6; diâmetro: 18,5;
Descrição:
Chapéu de tecido de cor preta e abas paralelas à copa, reviradas até à altura desta. A copa é baixa, de tecido de cor preto e de formato redondo. As abas, cilindriformes, são revestidas a veludo de cor preta. No espaço criado entre a copa e a extremidade da aba, uma aplicação a toda a volta de pequenas borlas de seda de cor preta. O interior da copa é forrado a tecido de cor esverdeada. No centro, vestígios de uma inscrição do fabricante. A guarnecer a orla, pelo interior do chapéu, por cima do forro, uma banda de pergamoide (?) pintada de cor vermelha.


Vila Nova de Gaia / Grijó / Murracezes
Matéria: Feltro; Veludo; Seda
Dimensões (cm): altura: 8,5; diâmetro: 19,5;
Descrição:
Chapéu de tecido de cor preta e abas paralelas à copa, reviradas até à altura desta. A copa é baixa, de tecido de cor preta e de formato redondo. As abas, cilindriformes, são revestidas a veludo de cor preta. No espaço criado entre a copa e a extremidade da aba, uma aplicação a toda a volta de pequenas borlas de seda de cor preta. Interiormente, na extremidade inferior da aba apresenta uma pequena etiqueta de cor branca e formato rectangular com o número "1" impresso à máquina, a tinta de cor preta.


Vila Nova de Gaia / Grijó / Murracezes
Fabricante: Carlos Alberto - Porto
Matéria: Feltro; Veludo; Gorgorão (seda) (?); Tecido; Pergamoide
Dimensões (cm): altura: 9; diâmetro: 30;
Descrição:

Chapéu de feltro de cor preta e abas direitas, um pouco levantadas nas extremidades. A copa é baixa, de tecido de cor preta e de formato redondo. O topo parece ser calcado nas extremidades, de modo a fazer um pequeno refego a toda a volta. Na extremidade inferior da copa, aplicação de uma fita de gorgorão (?) de seda (?) de cor preta. Esta forma, lateralmente, uma laçada. A fita é cosida ao corpo do chapéu com largos pontos em espécie de alinhavo, executados a linha de cor castanha escura. A extremidade das abas tem aplicação de uma fita fina de veludo de cor preta. Interiormente, na extremidade inferior da copa, uma banda larga de pergamoide (?) de cor castanha escura. De um lado, a seguinte inscrição inserida num emblema dourado encimado por uma águia :"NUNES DA CUNHA & Cª. Ltd. S. JOÃO DA MADEIRA." / "MARCA REGISTADA" / "CONDESTÁVEL". Do lado oposto a este, a seguinte inscrição marcada a baixo-relevo no pergamoide (?): "CARLOS ALBERTO" / "CHAPELEIRO" / "R. FORMOSA 39 (?) Tel 8857 (?)" / "PORTO". Em cada um dos lados do chapéu, presos à banda de pergamoide (?), duas fitas finas de tecido de cor creme, para ajustar o chapéu à cabeça, através de uma laçada no pescoço.

 

Portugal / Porto / Maia

Fabricante: Neves (?)
Matéria: Pelúcia; Tecido (seda); Metal; Tecido; Pergamoide
Dimensões (cm): altura: 6,5; diâmetro: 25,5;
Descrição:

Chapéu de pelúcia de cor preta e abas direitas, um pouco levantadas nas extremidades, especialmente nas laterais. Apresenta uma copa muito baixa, de formato redondo. A altura da copa é guarnecida com uma banda de renda (?) de cor branca. Sobre esta, uma fita de seda de cor verde. Dada a sobreposição, a primeira é visível apenas acima da segunda. Tal fita apresenta à frente um laço, adornado ao centro com uma peça metálica. A peça é uma espécie de anel, cujo aro é constituído por cinco pequenos círculos contendo uma pedra de cor violeta em cada um. Atrás, a fita forma uma laçada. As extremidades da laçada, longas, caem livremente para fora dos limites do chapéu. Do lado esquerdo da aba, pregado ao interior revirado desta, um outro laço, pequeno, da mesma fita, com aplicação de banda de renda no interior. O interior da copa é forrado a tecido de fundo de cor branca riscado a linhas finíssimas de tonalidade mais escura. Ao centro, uma etiqueta de papel de cor castanha escura e formato circular com o brasão de Portugal no meio, e a seguinte inscrição à volta: "NEVES" / "PORTO - RUA DE SANTO ANTONIO - 114" Na orla da extremidade inferior da copa, por cima do tecido do forro, uma banda larga de pergamoide (?) de cor bordeou. Tal banda é cosida ao corpo do chapéu a linha de cor preta. Sobre esta banda, uma pequena etiqueta de papel de cor branca e formato rectangular com o número "3" impresso à máquina, a tinta de cor preta.



Outros artigos relacionados:
O uso de chapéu
Chapéu de Alcains
Chapéu dePalha
A IndústriaChapeleira e o Traje Tradicional
O Fabrico deChapéus em São João da Madeira





sexta-feira, janeiro 10, 2014

A Croça I - Montalegre

Introdução


Já quase não se fazem croças em tamanho real, sobretudo porque já não há pastores ou estes preferem os impermeáveis. No entanto, é importante efetuar a recolha do saber-fazer, para que esta não se perca.

Inicio hoje a transcrição de 6 artigos magníficos da autoria da Prof.ª Dr.ª Daniela Araújo, fruto do seu extraordinário trabalho de recolha junto da população do Montalegre, que nos descreve, passo-a-passo, o fabrico de uma croça de junco, pelas mão de um dos últimos artífices desta arte.

De destacar que a Prof.ª Dr.ª Daniela Araújo integrou a equipa que reabriu o Museu de Arte Popular em 2010, tendo sido comissária executiva da exposição Os Construtores do MAP – Um Museu em Construção […] e, em Junho de 2011, voltou a Trás-os-Montes para participar no projeto de investigação para intervenção museológica As culturas do trabalho no Barroso, nomeadamente, no Ecomuseu de Barroso.

A CROÇA I

A croça nasce deste botão. Bom, na verdade, a croça nasce deste botão e das mãos sábias do sr. Constantino. Tudo começa com este botão. Bom, na verdade, tudo começou com a apanha dos juncos. Passaram-se os meses, os juncos secaram, veio o tempo molhado e começaram-se a fazer as croças. Já não são para os pastores que agora são poucos e usam oleados. São para ranchos ou para compor a decoração de restaurantes típicos. Estas, que agora se estão a fazer, até são todas para levar para Espanha.

Pegam-se nuns quantos juncos (estes que se mostram na primeira imagem foram apenas para exemplificar; são mais que a trança quer-se grossa) e colocam-se lado a lado.

Depois, com os dedos indicadores e polegares de ambas as mãos o mais juntos possível, torcem-se os juncos em direções opostas a partir de um ponto central e o mais apertado que se conseguir.

Bastam apenas algumas voltas. As suficientes para se prender, com os dentes, os juncos já torcidos, nesse ponto central, e começar a torcer os dois lados um sobre o outro, ao mesmo tempo que se continua a torcer cada lado sobre si mesmo.

Esta explicação é clara? Eu tive que pedir ao sr. Constantino para repetir a operação porque não percebi os gestos logo à primeira...

Depois, ele também me explicou como se iam entrançando novos juncos na trança quando algum se partia ou era preciso aumentar o comprimento.

Na ponta onde se iniciou o torcimento, dá-se depois um nó. Esse nó é o botão da croça que vai permitir mantê-la fechada. Na outra ponta está a casa onde entra o botão. Mas ainda não cheguei aí!


 Botão da croça
 
Há quatro instrumentos/equipamentos que são indispensáveis para se construir uma croça (para além da mascota que é usada para bater os juncos no dia em que são colhidos): os pentes, a fita métrica, a tesoura e a tábua de tabopan.

O sr. Contantino tem dois pentes para pentear a croça que foram feitos por ele. Um com os pregos mais espaçados; o outro com uma maior densidade de pregos. Aquele que tem os pregos mais espaçados é usado nas primeiras penteadelas; o outro é usado depois para um acabamento mais fino. Vai-os consertando à medida que os pregos se degradam.
 

A tábua de tabopan facilita o trabalho de escovagem e de medição das diferentes camadas que compõem uma croça.

 
 
 
Cada camada tem diferentes comprimentos o que resulta de uma lógica que eu ainda não descortinei completamente.

Mais, de carreira para carreira, de camada para camada, o número de juncos que se entrançam também aumenta o que permite, naturalmente, que a capa ganhe amplitude.

A capa tem, também, os juncos de fora, que são os que se penteiam e os juncos de dentro, o forro, que estão presos uns aos outros e que não são penteados.

No interior da capa veem-se as tranças da croça (são as verticais, embora na imagem seguinte apareçam na horizontal) a que ele chama a segurança da croça pois permitem que a peça não fique desengonçada.

Interior da croça

 

O sr. Constantino diz que eu consigo aprender tudo em 15 minutos. É um otimista. Fazer uma croça parece-me bastante complexo. Não é, apenas, a gestualidade, inerente a cada operação. É toda a lógica de camadas, tranças e comprimentos. Esta foi só a primeira lição.
 

segunda-feira, dezembro 23, 2013

“O Natal não é uma data... É um estado da mente" - Mary Ellen Chase

Da minha infância recordo um Natal especial.
Certo ano, os meus pais resolveram passar o Natal no Alentejo, na modesta e típica casa onde o meu pai fora criado.
Naturalmente que as decorações, a árvore e o presépio ficaram em Lisboa e por l...á não havia nada. De um galho jeitoso decorado com laranjas improvisámos uma árvore de Natal, com rolhas recriámos o presépio e como não tínhamos televisão a noite foi passada em torno da lareira, com jogos de tabuleiro e a contar estórias.
Antes de nos deitarmos lá deixámos os sapatos do meu pai na lareira, para que as prendas fossem proporcionais ao tamanho, e no dia seguinte foi a mesma alegria de sempre a rasgar o papel de embrulho ao som crepitante da madeira a queimar.
Não me recordo da prenda que recebi mas ainda hoje, quando o frio se mistura com o cheiro da madeira queimada das lareiras, costumo dizer “cheira a Natal”.
 
Feliz Natal
 

quinta-feira, dezembro 12, 2013

segunda-feira, novembro 25, 2013

Cante ao menino - Vila Verde de Ficalho



Estando a apróximar-se o mês de Dezembro não puderia deixar de públicar este Cantar ao Menino de Vila Verde de Ficalho (Alentejo) recolhido por Michel Giacometti

quarta-feira, novembro 20, 2013

Folclore de Olivença: entre o Alentejo e a Extremadura Espanhola


Por Carlos Gomes

O concelho de Olivença é originariamente uma terra alentejana, com os seus usos e costumes característicos do Alto Alentejo, o seu modo de falar a Língua portuguesa com a pronúncia característica das gentes daquela região e o seu património histórico e artístico a atestar a sua secular portugalidade firmada desde o Tratado de Alcanizes. Porém, a conjuntura política dos finais do século XVII levaram à sua ocupação militar por parte de Espanha por ocasião da chamada “guerra das laranjas”, ocorrida em 1801. Esta situação levou ainda ao desmembramento do concelho de Juromenha uma vez que, também a Aldeia da Ribeira – atual freguesia de Vila Real – passou a integrar o município oliventino como se do seu termo fizesse parte.


A partir de então, diversos sucessos ocorridos ao longo de mais de dois séculos de ocupação, entre os quais se destaca a guerra civil espanhola e a ditadura franquista, determinaram a alteração do equilíbrio demográfico, registando-se um progressivo abandono por parte dos oliventinos de origem portuguesa e a sua substituição por gentes oriundas da Extremadura e outras regiões de Espanha. A maioria dos que ficaram foram reduzidos à situação de pobreza, fixaram-se nas aldeias em redor e foram sujeitos a um processo de assimilação, vendo os seus próprios nomes de batismo convertidos para o castelhano.

A realidade, porém, é que tendo a realidade social sido alterada e colocando de parte julgamentos de natureza política, Olivença acusa presentemente uma forte influência da extremenha a par de uma surpreendente resistência da cultura portuguesa. É que, manter viva a chama da cultura portuguesa através de uma dezena de gerações que viveram sob as circunstâncias mais difíceis, sem qualquer estímulo por parte do Estado português para além da manutenção jurídica da questão territorial como uma posição de princípio, convenhamos que não é tarefa fácil. Pelo que, certos juízos de valor que por vezes se fazem acerca da vontade dos oliventinos, sem discriminação sequer quanto à sua origem, só podem ser entendidos como cínicos ou ridículos.

Essa influência extremenha revela-se nomeadamente através do próprio folclore, sendo usual os grupos folclóricos e de música tradicional interpretarem danças e cantares que claramente se distinguem quanto à sua origem e, na realidade, nem sequer se confundem. Danças como “O Pescador” e o “Verde-gaio” são representadas a par de jotas e coplas extremenhas. É uma realidade diferente que é resultado de processos históricos em relação aos quais não podemos culpar aqueles oliventinos cujas origens não se filiam na nação portuguesa. Mas, aquilo que devemos fazer e encontra-se ao nosso alcance é o estreitamento das relações culturais com Olivença, nomeadamente através do intercâmbio com os grupos folclóricos e de música tradicional ali existentes, aceitando e compreendendo as diferenças e relevando a sua identidade portuguesa e as suas características alentejanas.

Em tempos, o Rancho Folclórico “La Encina”, interpretava uma cantiga muito popular em Olivença nos começos do século XX, marcadamente portuguesa. Recolhida por Bonifácio Gil e publicada no seu “Cancioneiro Popular da Extremadura”, trata-se de uma melodia melancólica cujo tema sugere a aproximação geográfica ao rio Guadiana, relacionada com a faina da pesca e com toda a probabilidade originária da antiga Aldeia da Ribeira, atual freguesia de Vila Real.

O tema, que possui curiosas semelhanças com outras cantigas do cancioneiro popular português, trata das relações amorosas do pescador com uma mulher casada, qual “sereia que canta bela e que perdido é remo e vela”…e os conselhos da gente para que volte atrás nos seus propósitos. Na realidade, uma versão diferenciada da cantiga do “pescador da barca bela”!
Ó pescador da barquinha
Volta atrás que vais perdido
Essa mulher que tu amas
É casada e tem marido;
Casada e marido tem,
Ó pescador da barquinha
Volta atrás que não vás bem.
Fugiste-me ingrato
Deixaste-me só
No alto da serra
Sem pena nem dó

Imagens:  Museo Etnográfico González Santana (Olivença)
Fonte: Folclore de Portugal

quinta-feira, novembro 07, 2013

Folclore: das Paradas Agrícolas aos Cortejos Etnográficos


por Carlos Gomes

Os cortejos etnográficos constituem um espetáculo geralmente muito apreciado do público, mesmo comparativamente às exibições de ranchos folclóricos, vulgarmente designadas por festivais. Em diversas localidades do país, eles integram as respetivas festividades, atraindo milhares de forasteiros e tornando-se, quase sempre, um dos momentos mais apreciados do público. São exemplo o cortejo nas Festas em Honra de Nossa Senhora da Agonia, em Viana do Castelo e nas Feiras Novas, em Ponte de Lima.

Nas aldeias e freguesias em redor, o povo prepara com afano a sua participação no aprazado cortejo, levando consigo os elementos mais característicos que de alguma forma identificam a sua terra, procurando representar aspetos peculiares dos ciclos do trabalho desde a sementeira do linho à sacha do milho, da pastorícia à produção do vinho. A acompanhar, a rusga ou o rancho a animar o desfile com as alegres rapsódias do folclore local. E o povo que se apinha à beira do passeio para ver passar os figurantes, interage com eles que, não se fazendo rogados, brinda os mais sequiosos com malgas de verdasco.
O aparecimento dos cortejos etnográficos remonta aos começos do século XX e tem a sua origem nas paradas agrícolas que então se realizavam como uma mostra das produções locais com vista a incentivar as atividades económicas e promover o desenvolvimento da respetiva região. O elemento etnográfico apenas surgia como uma forma de emprestar um ambiente pitoresco a contento de uma burguesia apreciadora de costumes por ela considerados bizarros. Porém, não constituía a sua principal finalidade, pese embora servirem para transmitir uma ideia de que o trabalho era valorizado e, como tal, o próprio povo que o realizava.
A revista “Ilustração Portugueza” dá-nos conta de diversas paradas agrícolas que então se efetuavam, aliás à semelhança das exposições de outros produtos como o objetivo de promover a sua venda e exportação. Juntamente com o jornal “O Século” a que se encontrava ligado e constituindo um instrumento de propaganda dos ideais republicanos e da maçonaria, aquela revista era especialmente difundida entre os sectores burgueses estabelecidos nos centros urbanos de quem, aliás, recebia os clichés e as notícias que publicava, mantendo uma rede de correspondentes que se estruturava paralelamente à própria organização política.
A revolução industrial determinou a necessidade de se organizarem certames, alguns de projeção internacional, com vista à promoção dos produtos dos vários países e a divulgação das mais recentes realizações da indústria e da tecnologia. São tais eventos que estão na origem das exposições mundiais e nas grandes feiras industriais que são levadas a efeito pelas associações empresariais de diversos sectores de atividade. Mas, também a uma escala regional foram surgindo iniciativas do género que ainda subsistem, embora registando modificações que o tempo lhes impôs.
Ao mesmo tempo que se realizavam as paradas agrícolas, surgiam em diversas localidades grupos folclóricos mais ou menos constituídos como tal que serviam sobretudo para animar algum acontecimento ou festividade que então se realizava. Com o advento do Estado Novo, tais paradas agrícolas receberam novas influências e apresentaram um novo figurino. Mais do que promover os produtos regionais, os cortejos etnográficos passaram a transmitir uma nova ideologia assente na doutrina do Corporativismo pelo que, nalguns casos, chegaram mesmo a receber a denominação de “Festa do Trabalho” como sucedeu em Viana do Castelo. Entretanto, o aparecimento de numerosos ranchos folclóricos sob o incentivo e o patrocínio da Junta Central das Casas do Povo, da FNAT e da Mocidade Portuguesa veio colocar definitivamente o folclore como elemento central dos referidos desfiles, embora também associados a finalidades de propaganda e promoção turísticas. A partir de então, o folclore ficou etiquetado e arrumado em gavetas que correspondem a uma divisão administrativa em províncias que foi ensaiada pelo Estado Novo mas que, na realidade, não passou de umas manchas coloridas no mapa de Portugal. Um pequeno punhado de ranchos de diversos pontos do país foi escolhido e especialmente apadrinhado para representar as respetivas províncias, o mesmo sucedendo com o artesanato, os trajes tradicionais e as próprias festas e romarias, como se a cultura tradicional das diferentes regiões assentasse num único padrão e, entre elas não existissem cambiantes de luz e cor e as pessoas não se influenciassem mutuamente no contacto entre si, na feira, no trabalho ou na romaria e as migrações internas fossem algo inexistente.
Quem assiste ao cortejo etnográfico que se realiza em Viana do Castelo por ocasião das Festas em Honra de Nossa Senhora da Agonia tem a probabilidade de deparar com a participação no referido desfile de algumas unidades industriais como os Estaleiros Navais de Viana do Castelo. Sucede que, não se tratando propriamente de uma representação etnográfica, a mesma só poderá resultar de uma certa inspiração no figurino da “Festa do Trabalho” que outrora ali tinha lugar.
Nos tempos mais recentes, um tanto com base em modelos importados sobretudo dos antigos países socialistas, algumas localidades organizam geralmente por ocasião do respetivo feriado municipal um desfile daquilo a que costumam designar por “forças vivas” e que incluem indiscriminadamente e sem quaisquer preocupações de ordem estética, ranchos folclóricos, bandas de música, fanfarras dos bombeiros, coletividades desportivas, entidades fabris e toda a espécie de agremiações. Em lugar dos tradicionais arcos decorativos, as artérias que constituem o seu percurso são frequentemente engalanadas com bandeiras de cores variadas e formatos reduzidos, um género também ele originário daqueles países. Não se trata, pois, de um desfile etnográfico mas antes de uma manifestação política ao jeito municipalista ao qual os ranchos folclóricos emprestam o seu colorido e animação com o toque das suas gaitas.
Em síntese, o cortejo etnográfico representa um género de espetáculo que teve a sua origem como meio de propaganda com a finalidade de promover os produtos e atividades regionais, evoluindo para novas formas de acordo com as transformações sociais e políticas que entretanto se foram registando na sociedade portuguesa. Porém, continua a ser uma das componentes mais apreciadas do público sempre que as mesmas surgem integradas nas festividades, apresentando quadros animados e coloridos das tradições locais.

terça-feira, novembro 05, 2013

Exposição de Têxteis

Muito embora já tenha publicado um artigo sobre a Conservação deTrajes, nunca me tinha debruçado sobre a sua exposição.
Por esse país fora tenho admirado inúmeros pequenos museus dos ranchos folclóricos, um espólio imenso e riquíssimo, exposto à medida das condições e conhecimentos de cada grupo.
Sobre esta matéria encontrei um pequeno artigo no Jornal Folclore (nº 201, Nov.2012) de António Lopes Pires, autoridade nesta matéria, e que passo a transcrever:

“(…) A exposição de tecidos exige sempre cuidados especiais. Vejamos alguns:
1.       O maior inimigo do têxtil é a luz solar. Os raios ultra violetas tiram a cor, fragilizam as fibras, acabando por as destruir completamente.
Assim, expor na sala da sua sede, só se as janelas tiverem cortinas que não deixem entrar muita luz, ou seja, não mais de 50 luxes (a intensidade luminosa pode medir-se com um luxímetro, aparelho que se compra nas da especialidade e não é de preço proibitivo).
2.       A exposição permanente, fora de vitrinas, também não é aconselhável por causa do pó que a pouco e pouco irá fazer muito mal às peças.
3.       Outro mal que se deve evitar, eu diria, situação em que nunca se deve cair é expor peças de vestuário nas paredes das salas, suspensas em pregos metálicos. Aqui os males são três: a) As humidades da parede transmitem-se aos tecidos propiciando condições para a criação de bolores, outro grande inimigo. b) Os pregos enferrujam e, pouco tempo depois, transmitem essa ferrugem aos tecidos. c) Como o peso das peças se exerce apenas na pequena porção das fibras por que estão suspensas, é certo que irão romper por ali.
A exposição de têxteis só deve fazer-se, temporariamente. Se o leitor quer expor os seus trajes, então faça-o em cima de mesas para que as peças estejam em descanso. E vá rodando os elementos expostos todas as semanas ou todas as quinzenas. Assim mostrará o seu acervo e não prejudicará as peças. A melhor forma de as guardar é dentro de gavetas, gavetões ou prateleiras adequadas, o menos dobradas possível, e sempre tendo em conta os cuidados que já referi neste Jornal sobre a conservação de têxteis. (…)”

Imagens: Exposição “Trajes de Portugal – Cultura e Tradição” organizada pelo Grupo Cultural de Vila Fria em 2008

 

segunda-feira, outubro 28, 2013

Pé descalço


Por Eng. Manuel Farias

Por vezes assistimos a grandes discussões sobre a autenticidade do calçado no folclore português: se as botas podem ter rasto de borracha, se as chinelas podem ter bordados e lantejoulas, se os tamancos são com biqueira levantada, se o couro é preto ou castanho natural, etc. E que tal ir um pouco mais além e questionar: dentro do mesmo grupo de folclore quem deverá andar calçado e quem deverá andar descalço?
Vamos descalçar esta bota.

Os últimos reis da dinastia de Bragança tomaram medidas para modernizar os usos lisboetas, nomeadamente através da proibição de entrar em Lisboa com pé descalço. Os reis Luis e Carlos promulgaram decretos sobre esta matéria e deu em nada, numa altura em que os portugueses tinham o uso arreigado de andar descalços, por penúria ou tradição; mesmo nas estações mais frias, esta prática era observada pela vasta multidão de indigentes das cidades e seus sub-urbanos e pela generalidade dos aldeões com coirato enrijecido. A primeira república produziu pouco, em matéria de legislação e em condições materiais, apesar dos relatos cruéis e severos dos estrangeiros, referindo os portugueses como selvagens, numa época em que “…nem os marroquinos andam descalços”.

A Liga Portuguesa da Profilaxia Social foi fundada em 1924 por três jovens médicos (António Magalhães, Cândido Cosa e Veiga Pires) e uma das suas primeiras campanhas foi dirigida ao uso do pé descalço, considerando-o “…indecoroso, inestético e anti-higiénico”, através da publicação do livro “O Pé Descalço – Uma Vergonha Nacional que Urge Extinguir”, em 1928 e que viria a ser objecto de reedição para uma nova e intensa campanha dirigida ao norte do país, para erradicar os persistentes, em 1956. Em Agosto de 1926 foi publicado o decreto-lei nº 12073 que impunha:

a)      É proibido o trânsito de pessoas descalças na via pública das áreas das cidades, que serão delimitadas por postura municipal;

b)      As disposições poderão igualmente ser aplicadas a outras localidades por decisão dos governos civis;

c)       A transgressão do disposto será punida com uma multa de $50 a 2$00. A reincidência será punida com o dobro da pena.
Isto significa que me 1926 as autoridades apenas proibiam o uso do pé descalço dentro das cidades. Em simultâneo, o Estado Novo editou brochuras sobre a necessidade de erradicar estes usos, visando tirar das cidades mendigos, desempregados que podem trabalhar, vendedores ambulantes e outros parasitas que se servem de “…manha, insolência, ameaça, violência, etc.”. Naturalmente, o Estado Novo combinava o propósito de erradicação do pé descalço com a violência social da sua ideologia de direita, atacando a pobreza através de decretos e varrendo o lixo civilizacional para debaixo do tapete da classe dominante.
Com estas medidas poderemos dizer que o hábito do descalço nas cidades foi erradicado na década de 30 do século XX, com forte empenho dos governos civis e fiscalização da PSP. O uso manteve-se arreigado no mundo rural português, que representava em meados do século XX mais de dois terços da população.

Em Agosto de 1947, foi promulgado o decreto-lei nº 36448 que deu um novo impulso a este movimento profilático. A nova campanha foi simultânea com programas de vacinação anti-tétano e apoiada na sensibilização para a saúde pública. Com efeito, este fenómeno não era explicado apenas pelo argumento da pobreza, mas sobretudo pela habituação; os documentos da época consideravam que o Alentejo era a única região do país onde os rurais andavam calçados.
Na década de 50, muitas pessoas, mulheres e homens, foram apresentadas ao Tribunal de Polícia, depois de presas durante 1 ou 2 dias, quando eram apanhadas a circular descalças nas cidades e nas vilas, já que nas aldeias a liberdade era outra. Aqui viam-se mulheres com arcadas de ouro e pé descalço, no verão sempre e muitas vezes todo o ano. Viam-se homens com botas dependuradas ao ombro, ou tamancos metidos nos alforges, para calçar apenas na chegada à vila, evitando assim multas e chatices.

Onde está este uso do povo representado nos grupos de folclore?

Fonte: Jornal Folclore, nº 202, edição Dezembro 2012

sexta-feira, outubro 25, 2013

Coleção de figuras da Viscondessa de Carnaxide


Na “Ilustração Portugueza” de 18 de Janeiro de 1904 podemos encontrar um artigo de Santos Tavares, intitulado “Habitações Artísticas”, onde descreve a beleza da decoração da casa da “Ex.ma Sr.ª D. Sarah Motta Marques”, viscondessa de Carnaxide.
A determinada altura da visita realça uma coleção muito especial.

“N’um corredor de passagem vimos uma serie de armarios abrigando uma multidão de bonecas, trajando conforme os usos de cada paiz. Impossivel referencias exactas, basta dizer que a collecção, curiosa e attrahente, atinge o elevado numero de duzentas.
E, ao olharmos cada uma d’aquellas figuretas, como que deante dos nossos olhos perpassam civilisações, parece que corremos mundo, e, n’um colorido evclorama temos a impressão nítida de todos os costumes.

N’esse armário a Hespanha, com as manolas e toureiros, typos de rua, tudo o que é profundamente característico: os gestos impetuosos, a graça desvairada, o exagero, a alegria no berrante dos trajes, os perfis languidos, a sedução e … até a perfídia se exibe n’aquelles olhos pintados na porcelana.
A França, eil-a: typos bretões que parecem escutar o murmúrio nostálgico do Morbiban, a delicadeza taful, conganita da raça, os trajes igualmente coloridos, d’um pitoresco probo; até que, perto da entrada, vemos a curiosa galeria das ordens religiosas. É a vitrine do recato e unctuosidade, da candidez, do sacrifício, do holocausto, das irmãs enfermeiras, das missionárias das ordens francezas, dandies nas suas tunicas azues e brancas, quasi galanteadoras como na hora em que se alheiaram do mundo para a solidão intranquila dos claustros.

Todos os paizes do globo teem ali os seus representantes, com pormenores exactos de toilette.”
Muito embora o artigo não refira, a presença de figuras com trajes portugueses pode ser observada através das fotografias que o ilustram.

Quanto à coleção dos viscondes de Carnaxide, Sarah Motta Marques e João Arroio, seria interessante saber onde se encontra, em que condições e qual o seu historial.