quinta-feira, novembro 19, 2015
terça-feira, novembro 17, 2015
MANEIRAS DE USAR O LENÇO NA NAZARÉ
Com a colaboração do João Pedro
Guardado publico um conjunto de fotografias exemplificativas das diversas formas
de usar o lenço (cachené) na Nazaré.
Como podem observar, estas
maneiras de atar o lenço são comuns à região limítrofe e a outras, embora
existam trejeitos locais fruto da necessidade ou gosto das mulheres.
O importante é perceber que a cada
uma destas formas de amarrar o lenço corresponde um momento próprio, quer no
trabalho diário na praia ou venda do pescado, quer nos dias de festa e devoção,
e é fácil perceber essa diferença, basta uma análise atenta das imagens.
sexta-feira, novembro 06, 2015
O Gabão Bairradino - Águeda
O gabão é uma remota vestimenta,
presumivelmente oriunda dos varinos de raça pelasgia (do norte da Grécia) que
vieram fundar povoados à foz do Vouga e que foi conhecida e usada pelos romanos
como o comprova o facto de se encontrar esculpida na Coluna do Trajano em Roma,
no ano 112 da nossa era – uma figura vestida com um manto especial a que não
falta capuz e parece ter romeira.
O Gabão – mistura feliz de veste
monástica e de traje civil medieval, a capa com mangas e capuz, usada durante
toda a Idade Média em todos os países da Europa e também em Portugal.
É uma peça de grande carácter que durante
muitos longos anos foi usada por pobres remediados. Nasceu na Ria de Aveiro, na
terra dos varinos, isto é, na terra das gentes da beira mar.
O Gabão é uma capa bastante ampla e
rodada, descendo quase até aos tornozelos, com farta romeira ou cabeção curto e
recortado, mangas largas e capuz em bico. É aberto à frente de alto a baixo, é
aconchegado ao pescoço por um colchete terminando por uma cadeia, ou por um
alamar, ambos em metal ou às vezes de prata.
Pode apresentar-se forrado de
castorina, beata ou mesmo seda. De cor castanha, feito de surrobeco ou burel (
o gabão de trabalho) é o mais característico das gentes do bairro piscatório da
beira-mar em Aveiro ou dos trabalhadores de toda a Bairrada.
De cor preta feito em boa fazenda de
lã acetinada ou merino ( o gabão dos ricos) era usado pelos janotas de todas as
regiões, onde constituía um elegante agasalho. Entre os habitantes que viviam
nas cercanias da Ria de Aveiro se conta o "Aguedense" mais barqueiro
do que pescador e mais agricultor que barqueiro, mas em todos eles o traje é
muito semelhante: - os homens usam o gabão comprido até aos pés com mangas e
capuz, peça de grande caracter que tendo irradiado da região da Ria para todo o
país, teve extraordinária difusão, cerca do ano de 1900.
segunda-feira, novembro 02, 2015
TRAJE DE FESTA E DE COTIO – TRÁS-OS-MONTES
Traje
de Festa
Lenço de lã estampado com franjasCamisa de linho
Colete/ Justilho de brocado de seda preto
Faixa de Lã vermelha (dentro do colete) envolvendo o busto
Saiote de linho (enáguas)
Saia (Saiote) de baeta rosa escuro com fitas de veludo
Sapatos pretos
Brincos de ouro – Brincos de Fuso
Colar de contas filigranadas de ouro com cruz de ouro
Traje
de Cotio (uso cotidiano)
Lenço de lã estampadoCamisa de linho
Colete/Justilho de linho
Faixa de Lã vermelha (dentro do colete) envolvendo o busto
Saiote de linho (enáguas)
Saiote amarelo de baeta com bordados em lã
Saia de fora de pano de lã preta
Avental (Mandil) de burel castanho
Meias de lã
Botas de pele de borrego
Colar de contas de azeviche preto
Fonte: Rui Magalhães
Outros artigos relacionados:
Trás-os-Montes - contextualização histórica e cultural;
Caretos de Podence; Miranda do Douro; A Coroça; Trajo Feminino de Miranda doDouro; AS ALGIBEIRAS NO TRAJE POPULAR II; Capa de Honra de Miranda do Douro;
Traje de Festa de Rio de Onor – Bragança; Trajes Femininos de ir á missa -Nordeste Transmontano; Trajes de Festa – Nordeste Transmontano; Saiote(Saia de dentro ou Saia exterior em ocasiões festivas) – Trás-os-Montesquinta-feira, outubro 29, 2015
Saiote (Saia de dentro ou Saia exterior em ocasiões festivas) – Trás-os-Montes
O
saiote constituía uma das peças do trajar da mulher de Trás-os-Montes. É
diferente do que geralmente se conhece como saiote, ou seja uma saia branca
interior de linho ou algodão. A essa peça dá-se o nome em Trás-os-Montes de
“Enágua” que é uma saia interior branca, de linho, ou então a parte baixa das
camisas de linho femininas que antigamente chegavam ao joelho ou inclusive mais
abaixo.
O
saiote propriamente dito é uma saia igual à saia exterior, a diferença está em
que o dito saiote era sempre de cores garridas (vermelho, azul, verde, amarelo,
laranja etc..) e costumava ser exibido como saia de fora pelas raparigas jovens
principalmente em ocasiões festivas.
De
lã grossa, costumava ser feito de baeta ou burel tingido em casa e era
engalanado, quando servia para um dia de festa, com fitas de veludo, saragoça
preta picada (picado) ou bordados de lã.
Era
usada todo o ano, fosse inverno ou verão e uma das suas funções seria a de
realçar e aumentar as ancas femininas, padrão de beleza na época. Uma mulher
com posses usava além da enágua um, dois ou até mais saiotes de lã. Por cima
destes a saia de fora, de saragoça, estamenha ou burel geralmente de cores mais
escuras (preto ou roxo).
Fonte: Rui Magalhães
Outros artigos relacionados:
Trás-os-Montes - contextualizaçãohistórica e cultural; Caretos de Podence; Miranda do Douro; A Coroça; TrajoFeminino de Miranda do Douro; AS ALGIBEIRAS NO TRAJE POPULAR II; Capa de Honrade Miranda do Douro; Traje de Festa de Rio de Onor – Bragança; Trajes Femininosde ir á missa - Nordeste Transmontano; Trajes de Festa – NordesteTransmontano;
domingo, outubro 25, 2015
CAPUCHA DE CASTRO D’AIRE – BEIRA ALTA
Já neste blog publiquei alguns
artigos sobre a capucha. Trata-se de uma peça de vestuário para agasalho usada
tanto por mulheres como por homens das serranias deste a Beira Baixa a Trás-os-Montes
e Minho.
Recentemente juntei à minha
coleção esta capucha oriunda das fragas da Serra de Montemuro, concretamente do
concelho de Castro D’Aire (atualmente escreve-se Castro Daire), confecionada em
burel no início do sec. XX.
Trata-se de uma peça robusta, usada
e muito, sendo visível o desgaste da sua utilização recorrente nas tarefas do
dia-a-dia, a que se soma a idade e exposição aos elementos a que esteve sujeita.
É precisamente essa robustez que lhe conferiu a longevidade e permitiu que
chegasse aos nossos dias.
A diferença desta capucha as
demais existentes na região é o capelo de forma triangular (p.ex. o da Serra do
Caramulo é circular). Neste caso o desgaste do habitual transporte de cargas à
cabeça provocou um orifício de cerca de 3 cm de diâmetro, no entanto, para prolongar
a vida da capucha, a proprietária cozeu à mão um pedaço de burel do avesso do
capelo.
Ficam de seguida as imagens, que
valem mais que mil palavras.| Capelo do avesso |
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| Dimensões da capucha |
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| Dimensões do capelo |
Outros artigos relacionados:
Capucha do Caramulo; A Capucha; Capucha – Beira Interior; BeiraInterior; Costumes do Minho: Mulher de Castro Laboreiro e o Jangadeiro; sábado, outubro 17, 2015
Traje de trabalho da Nazaré
A pesquisa e reconstituição dos nossos trajes regionais é
uma atividade que tem cativado cada vez mais pessoas, muitos deles jovens.
É o trabalho de um destes jovens que aqui mostro.
João Pedro Guardado, um jovem nazareno de 22 anos, tem o prazer
de não só recolher peças antigas como também de recriar velhos modelos.
As imagens seguintes recriam um trajo de trabalho feminino nazareno,
misturado peças originais com recriações numa simbiose perfeita e de elevado
interesse etnográfico.
Bem hajas João Pedro!quinta-feira, outubro 15, 2015
sexta-feira, outubro 09, 2015
MORANGEIRAS NO MERCADO DO PORTO
Enaltecendo as esbeltas e airosas mulheres do Minho
que vendiam os famosos morangos do Porto, o semanário ilustrado Archivo Pittoresco
(1857-1868), em 1861, publica um artigo em que faz diversas alusões à riqueza
do trajar das mulheres dessa região.
Considerando as características do texto, preferi
publicá-lo na sua forma original, já que ao transcreve-lo para português atual
iria perder certamente muita da sua informação.
A imagem é baseada num desenho de Nogueira da Silva
quarta-feira, outubro 07, 2015
PEIXE ÀS DUAS de Fernando Ybarra
PEIXE ÁS DUAS do Nazareno Fernando Ybarra
Pequeno sketch teatral levado à cena pelo Grupo Etnográfico de Danças e Cantares da Nazaré no Centro Cultural da Nazaré
terça-feira, outubro 06, 2015
Nómadas do mar – representações pictográficas na praia de Paço de Arcos
Ao longo do sec. XIX e durante alguns
meses da pesca, grande parte das povoações marítimas do norte de Portugal (Ílhavo,
Murtosa, Ovar e Estarreja, que constituíam os varinos e os avieiros originários
da Vieira de Leiria) percorriam essa costa até ao estuário do Tejo, aqui
fixando-se por temporadas mais ou menos prolongadas.
Muitos subiram o rio vivendo nos
próprios barcos ou instalando-se em povoações junto à borda-d’água, naquilo que
seria terra de ninguém já que de vez enquanto era reclamada pelo rio.
Outros fixavam-se nas praias da
Costa da Caparica e desde a torre de Belém até Paço de Arcos, paragens onde se
podiam encontrar homens e mulheres destas tribos nómadas, que constituíam um
tipo individual no nosso país.
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Família de
pescadores em Pedrouços - Marianne Baillie
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| Mulher de pescador de Paço de Arcos - Marianne Baillie |
Marianne Baillie, uma jovem
inglesa que residiu em Portugal entre 1821 e 1823, no seu álbum Costumes in Portugal: 1821-1823, deixou dois
desenhos legendados retratando uma mulher e uma família de pescadores em Paço
de Arcos e Pedrouços.
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Pescadores
de Ílhavo em Lisboa - Th. J. da Annunciação
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Justamente na praia de Paço de
Arcos, subjacente à velha igreja da Boa Viagem, Th. J. da Annunciação captou
esta imagem, reproduzida em gravura por Pedroso, retratando dois ílhavos, cuja
mulher destapa levemente a canastra onde dorme o seu pequeno rebento. (Archivo
pittoresco, Volume 3, 1860).
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Pescadores
de Ílhavo – Coleção Palhares
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Através da comparação com o quadro
de Th. J. da Annunciação e a gravura de Pescadores de ílhavo da Coleção
Palhares, podemos aferir que figuras retratadas por Marianne Baillie possuem a
mesma origem, os varinos, primórdios da população de pescadores que se
desenvolveu em Paço de Arcos.
Outros artigos relacionados: Os Avieiros; O Povo daBorda-d'água;
quinta-feira, outubro 01, 2015
Trajes de Festa – Nordeste Transmontano
Mulher:
Lenço de lã estampado com franjas
Camisa de linho
Colete/ Justilho de brocado de seda estampado
Faixa de Lã vermelha bordada em lã (dentro do colete) envolvendo o busto
Saiote de linho (enágua)
Saiote de baeta verde com fitas de veludo
Saia de fora em saragoça preta com fitas de veludo
Avental (Mandil) de seda lavrada com aplicação de veludo roxo
Sapatos pretos com fita de seda
Argolas de ouro
Colar de contas filigranadas de ouro com cruz
Colete (Jaleco) de Burel (Pardo) na cor natural da lã. Nas costas tecido de estopa.
Calção de alçapão (Pantalonas de alçapon) de Burel (Pardo) na cor natural da lã.
Meias de algodão
Botas de bezerro
Chapéu (Sombreiro) com fita de Seda
Lenço de lã estampado com franjas
Camisa de linho
Colete/ Justilho de brocado de seda estampado
Faixa de Lã vermelha bordada em lã (dentro do colete) envolvendo o busto
Saiote de linho (enágua)
Saiote de baeta verde com fitas de veludo
Saia de fora em saragoça preta com fitas de veludo
Avental (Mandil) de seda lavrada com aplicação de veludo roxo
Sapatos pretos com fita de seda
Argolas de ouro
Colar de contas filigranadas de ouro com cruz
Homem:
Camisa de Linho Colete (Jaleco) de Burel (Pardo) na cor natural da lã. Nas costas tecido de estopa.
Calção de alçapão (Pantalonas de alçapon) de Burel (Pardo) na cor natural da lã.
Meias de algodão
Botas de bezerro
Chapéu (Sombreiro) com fita de Seda
Fonte: Rui Magalhães
Outros artigos relacionados:
Trás-os-Montes - contextualização histórica e cultural;
Caretos de Podence; Miranda do Douro; A Coroça; Trajo Feminino de Miranda doDouro; AS ALGIBEIRAS NO TRAJE POPULAR II; Capa de Honra de Miranda do Douro;
Traje de Festa de Rio de Onor – Bragança; Trajes Femininos de ir á missa -Nordeste Transmontano;segunda-feira, setembro 28, 2015
Trajes Femininos de ir á missa - Nordeste Transmontano
Traje de mulher abastada
Mantilha de Saragoça preta
Lenço de lã estampado com franjasCamisa de linho
Colete/ Justilho de brocado de seda estampado
Faixa de Lã vermelha bordada em lã (dentro do colete) envolvendo o busto
Saiote de linho (enáguas)
Saiote de baeta verde com fitas de veludo
Saia de fora em saragoça preta com fitas de veludo
Avental (Mandil) de seda lavrada com aplicação de veludo roxo
Sapatos pretos
Argolas de ouro
Colar de contas filigranadas de ouro com cruz de ouro
Traje de mulher (com menos posses)
Lenço de lã estampada
Xaile de lãCamisa de linho
Colete/Justilho de linho
Faixa de Lã vermelha (dentro do colete) envolvendo o busto
Saiote de linho (enáguas)
Saiote amarelo de baeta com bordados em lã
Saia de fora de burel verde sem ornamentos
Avental (Mandil) de burel castanho
Meias de lã
Botas de pele de borrego
Colar de contas de coral vermelho com cruz de prata
Fonte: Rui Magalhães
Outros artigos relacionados:
Trás-os-Montes - contextualização histórica ecultural; Caretos de Podence; Miranda do Douro; A Coroça; Trajo Feminino deMiranda do Douro; AS ALGIBEIRAS NO TRAJE POPULAR II; Capa de Honra de Mirandado Douro; Traje deFesta de Rio de Onor – Bragança;
terça-feira, setembro 22, 2015
segunda-feira, setembro 21, 2015
Traje da mulher de Almeirim – Ribatejo
O traje de festa da mulher de Almeirim
era elegante, de cores vivas e atraentes, não havendo outro semelhante em toda
a região ribatejana.
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Rancho
Folclórico da
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A saia de cima, de castorina encarnada,
era toda plissada, sendo ajustada na anca por meticulosos favos. As saias de
baixo, de pano branco, eram rodadas e enfeitadas com folho e bordadas.
O casaco em chita, de modelo ao gosto
da rapariga, arrematava atrás com “rabo de leque”, mais conhecido por “rabo de
bacalhau”.
O avental era enfeitado com rendas ou caprichosamente
bordado pelas mãos hábeis da rapariga, sendo atado por meio de um formoso laço.
Na cabeça, um vistoso lenço de merino
ou de ramagens e aos ombros um cachené.
Calça meias brancas de carapuços,
feitas à mão, e chinelas pretas.
Na anca, transporta uma algibeira rústica,
onde guardava o lenço e outros objetos de uso pessoal.
Adornava-se naturalmente com ouro. Ricos
brincos compridos ou argolas e ao pescoço um grande cordão, com uma peça
(libra, medalhão, cruz, etc.).
sábado, setembro 12, 2015
Traje de Festa de Rio de Onor - Bragança

Homem:
Camisa de Linho (Camissa de Linho)
Colete
(Jaleco) de Saragoça Preta. Nas costas tecido de estopa com picados em
Saragoça.Calção de alçapão (Pantalonas de alçapon) de Burel Castanho.
Meias de algodão
Botas com Sola de Madeira (Socos/Cholas)
Chapéu (Sombreiro) com fita de Seda
Mulher:
Lenço (Pano) de Lã estampada
Camisa
de Linho (Camissa de Linho)Colete de Brocado Preto (Justilho)
Faixa de Lã vermelha (dentro do colete) envolvendo o busto
Avental (Mandil) de burel com bordados em lã
Saia de Baieta de lã Roxa, com fitas de veludo
Saiote interior de lã vermelha
Algibeira de lã amarela com picado em tecido preto (faltriqueira)
Sapato Preto
Colar de contas de azeviche preto com cruz de prata
Complemento - Pandeireta para animar os bailes
Nota:
Os nomes a negrito encontram-se em dialecto de Rio de Onor.
Fonte: Rui Magalhães
Outros artigos relacionados:
domingo, setembro 06, 2015
Trás-os-Montes - contextualização histórica e cultural
É com imensa satisfação que recebo a colaboração do Rui Magalhães e
passo a publicar alguns dos seus textos sobre os trajes transmontanos.
Como o próprio me salientou, não se pode falar dos trajes transmontanos
e das suas particularidades sem uma prévia introdução no tempo e no espaço que
o mesmo fez o favor de produzir.
Obrigado Rui.
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Por Rui
Magalhães
Vou contextualizar historicamente e
culturalmente a nossa zona, principalmente através de investigações sobre a
área cultural da língua Ásturo-leonesa falada em Portugal, ou seja, o Mirandês
(nos concelhos de Miranda, parte de Vimioso, e em aldeias de Mogadouro) e
outras variedades do mesmo Asturo-leonês, como o Riodonorês e o Guadramilês,
dialectos de Deilão e Petisqueira, faladas no concelho de Bragança, e muitas
outras variedades de Português influenciadas pela língua Leonesa no Nordeste
Transmontano.
Em Espanha, o Asturo-leonês é falado nas
Astúrias e nas províncias de Leão e de Zamora.
Contextualizo com o factor língua Ásturo-leonesa, pelo simples motivo de que há muitos
documentos sobre essa temática, contextualizando a cultura a ela inerente e as
vicissitudes histórias da mesma área.
Muitos autores (nacionais e estrageiros),
reconhecidos, nacional e internacionalmente, se debruçaram-se sobre o tema e ao
mesmo tempo investigaram as origens históricas da nossa zona, tudo isto,
consequentemente ajudará a entender a cultura local, que não podemos querer
simplificar nem explicar com base noutras regiões que careçam do mesmo contexto
histórico e cultural.
Breve História da Região
Em 297 d.C. dá-se a definitiva divisão administrativa da Península
Ibérica.
A zona hoje ocupada pela antiga Terra
de Miranda (muito maior que o actual concelho de Miranda, incluindo na
época o concelho Miranda do Douro, grande parte do concelho de Bragança e
concelhos de Vimioso e Mogadouro) no
nordeste Transmontano, ficou a pertencer ao
Conventus Iuridicus de Asturica Augusta (Astorga – Leão) e não ao de
Bracara Augusta, como o resto de Trás-os-Montes.
Assim, a zona da antiga Terra de
Miranda não pertenceu desde o início ao território posteriormente ocupado
pelo Condado Portucalense, daí que por
exemplo a língua aí falada não pertencesse ao sistema Galego-Português (a que
pertence a língua Portuguesa) mas sim ao sistema Asturo-leonês (a que
também pertence a língua Asturiana e os falares antigos da província de Zamora
e Leão em Espanha).
Entre o séc. VII/VIII e XII a Terra de Miranda pertenceu à Diocese de Astorga (Leão/Espanha, mesmo
fazendo parte de Portugal) e não à de Braga (como o resto do norte do
país).
As Inquirições de Afonso III informam-nos de que a Terra de Miranda,
entre os sécs. XII e XIV, foi
recolonizada com gentes oriundas das terras de Leão em Espanha;
recolonização essa, em que o papel primordial foi desempenhado pelos mosteiros
cistercienses de Sta. Maria de Moreruela (Zamora/Espanha) e de S.
Martinho de Castanheda (Zamora/Espanha), assim como pelo Mosteiro de Castro de
Avelãs de Bragança (afiliado ao de S. M. de Castanheda), pela
Ordem dos Templários de Alcanhices (Zamora/Espanha) e vários
particulares.
Esta colonização, realizada numa região ainda hoje de baixa
densidade populacional (39) e então decerto pouco menos de deserta, estendeu-se
desde o princípio do século XIII até ao século XV, como admitiram o Abade de
Baçal e Leite de Vasconcelos (40) – tempo mais que suficiente, se não para o
estabelecimento, pelo menos para a fixação do dialecto leonês e cultura afim em
terras já politicamente portuguesas.
Tudo isto ajudou a que a zona hoje ocupada pela antiga Terra de Miranda
mantivesse, num período assaz importante para a história da língua Portuguesa,
relações privilegiadas com as terras do antigo Reino de Leão e que a língua leonesa ocidental, idioma originário do Conventus de Asturica
Augusta, se fosse reciclando em terras portuguesas, pelo menos, até ao séc.
XIV.
Além da divisão dos reinos de Portugal e Leão em 1143 e do
estabelecimento das fronteirasno tratado de Alcañices (1297), manteve-se uma
unidade social e cultural entre as Terras de Miranda e as regiões espanholas de
Aliste e Sayago (Zamora): um dialecto parente, as mesmas canções e melodias, a
utilização de instrumentos parecidos e uma raiz comum dos costumes festivos,
como, por exemplo, se mostra na danza de
palos (Matellán 1987: 43).
Uma outra questão que nos poderíamos colocar, é: «Como é que a língua leonesa
se manteve até 1882, quando Leite de Vasconcelos a deu a conhecer e como
conseguiu sobreviver até aos nossos dias?».
E porque teriam subsistido até hoje
os dialectos leoneses e a particular etnografia e folclore desta região?
Por duas razões:
A primeira: O isolamento dessa
região em relação ao resto do país, a que já Leite de Vasconcelos
(Estudos 2, II) se referiu,
e a segunda, em parte consequência
daquela: O singular contacto com as vizinhas terras do antigo reino
de Leão, sobretudo terras de Aliste, Sanabria e Sayago - Zamora.
O isolamento desta zona com respeito ao resto do país e,
pelo contrário, o contacto íntimo, quer fosse comercial, quer fosse social
(casamentos) ou de convivência, fosse ela festiva ou laboral, sobretudo com os
povos das regiões Zamoranas de Aliste, Sayago e Sanabria permitem explicar a
sua conservação até aos nossos dias.
Do difícil acesso ao território mirandês por exemplo,
fala-nos a narração quase heróica da viagem que Leite de Vasconcelos empreendeu do Porto a Deus Igrejas em 1883 e em
que gastou cinco dias (58)!
O caminho-de-ferro só recentemente (1938) chegou a Duas
Igrejas e restante zona Leste Transmontana (59).
Essa distância, junto com o facto de essa zona se encontrar numa zona
até há pouco, esquecida, fez com que a língua Mirandesa e as manifestações
folclóricas e etnográficas associadas ao espaço cultural específico ali
ficassem como que de quarentena à espera de ser redescoberto por alguém como
Leite de Vasconcelos.
De facto, até há cinquenta ou sessenta anos atrás chegar ao leste de
Trás-os-Montes era bastante difícil graças aos maus acessos rodoviários.
Sobre as relações com o país vizinho falam-nos vários
documentos publicados pelo Abade de Baçal (60) em que, desde D. João I a D.
João III, se facilita o intercâmbio comercial entre esta região e os habitantes
das terras de Aliste, Sayago e Sanabria.
Um deles porém (61) mostra-nos que essas relações não se
limitavam ao comércio, mas que eram frequentes os casamentos e convívios
diversos entre os dois lados da fronteira.
No final do século passado refere-se Leite de Vasconcelos
(62) «às relações constantes com os espanhóis», que chegavam ao ponto de que
alguns habitantes das aldeias raianas podiam, e podem na actualidade, falar com
fluência o castelhano, além da sua própria língua (Mirandês ou outros dialectos
Leoneses) e o português (trilingues).
Durante todos estes séculos o Português era, obviamente, conhecido mas
usado apenas com os forasteiros: «os mirandeses fallam o mirandês entre si,
empregando o português quando se dirigem a estranhos»
A primeira língua aprendida pelos falantes dessa região era o Mirandês
ou as variedades do mesmo domínio linguístico Asturo-leonês (em aldeias do
concelho de Bragança).
Diz-nos Leite de Vasconcelos: «A
lingoa mirandesa é puramente doméstica, por assim dizer, a lingoa do lar, do
campo e do amor: com um estranho o aldeão falla logo português. Como porém, em
Duas-Igrejas todos sabiam ao que eu ia, fallavam mirandês comigo, e, quando eu
por acaso lhes dirigia a palavra nesta ultima lingoa, elles riam-se muito,
porque achavam o caso um pouco singular».
Penso que este enquadramento,
facilita, para alguém que não é da zona ou que não tenha muitos conhecimentos
sobre a mesma, contextualizar e entender o porque de haver uma cultura secular
em que apesar da existência de fronteiras politicas, nunca teve fronteiras
culturais, antes sim uma cultura em muitos aspectos comum nesta parte do
distrito de Bragança e as zonas fronteiriça sobretudo da província de Zamora (Esta
zona fronteiriça está culturalmente individualizada em relação ao resto da
província de Zamora).
Notar também e que é importante, que
apesar dessas vicissitudes, as pessoas sempre tiveram sentido de pertença à
pátria, nunca se sentindo "Espanhois".
Além da província de Zamora
(Castilha e Leão), que é a que abarca uma área maior de contacto/fronteira, estas
particularidades ocorrem também em zonas fronteiriças com Galiza oriental,
culturalmente um pouco diferente, sobretudo no concelho de Vinhais e aldeias no
limite ocidental do concelho de Bragança, mas desta feita
Sabendo isto, entenderá que não se poderá
dizer por exemplo que os trajes em Rio de Onor ou de qualquer outra aldeia, tem
ou não influencia Espanhola, simplesmente eram os trajes da gente da terra, os
trajes que conheciam e produziam com as próprias mãos, fruto das suas
vivencias, tradições e cultura, aos quais tinham amor, e aos quais nós não
podemos ter a pretensão de querer atribuir nacionalidades.
Penso que também ajudará a entender
o facto de que uma grande parte do Romanceiro tradicional antigo, cantigas de
festa, de trabalho e danças do leste transmontano, mesmo de áreas que não estão
imediatamente na faixa fronteiriça, possam estar em língua castelhana pura, a
par com muitos outras em Português e Mirandês, podem ser importações, mas são antiquíssimas,
por isso, fazem parte há seculos da cultura popular do povo do nordeste
transmontano, a gente aqui não se preocupava com as línguas.
Em Espanha os etnógrafos e
associações estudiosas do tema, sobretudo das zonas de Aliste, Sanábria e
Sayago (zonas concretas conservadoras e igualmente isoladas, em que os trajes
regionais são conhecidos como sendo parecidos aos do leste transmontano), tem consciência
que tem uma cultura em muitos aspectos comum com a nossa.
Não se tem que ter a obrigação de
conhecer estas particularidades, nós aqui temos essa consciência que para se
conhecer e entender alguns trajes, usos e costumes do nosso povo teremos que
conhecer também a região fronteiriça vizinha, os nossos vizinhos do outro lado
tem-na em relação a nós, transmontanos e Portugueses.
quinta-feira, setembro 03, 2015
terça-feira, setembro 01, 2015
Romaria da Srª da Agonia, Viana do Castelo
Como não poderia deixar de ser, em período de férias era
obrigatória a presença na maior romaria do Minho que tão bem celebra o seu
traje regional.
Ficam algumas imagens dos muitos trajes que por lá
desfilaram.
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