quarta-feira, novembro 25, 2015

COLÓQUIO SOBRE O TRAJAR – GERALDES

No passado dia 21 de Novembro realizou-se em Geraldes (Peniche) um animado colóquio sobre “O Trajar” organizado pelo Rancho Folclórico de Geraldes.
A par do colóquio foi possível admirar uma pequena, mas abrangente, exposição de um conjunto de trajes do grupo, do qual destaco, por gosto pessoal, o vestuário infantil.
A mesa foi constituída por Ricardo Gomes (coordenador do Rancho Folclórico de Geraldes), José Vaz (CTR da Alta Estremadura) e Maria Emília Francisco.
Maria Emília Francisco, José Vaz e Ricardo Gomes
José Vaz efetuou um resumo histórico da criação da Federação do Folclore Português, a sua estrutura orgânica e o papel dos Conselhos Técnicos Regionais (CTR) no apoio ao trabalho desenvolvido pelos ranchos folclóricos.
Ricardo Gomes retratou a importância geográfica, social e económica do Concelho de Peniche. Abordou ainda temas como a migração de povos de regiões próximas e longínquas, as trocas comerciais entre Lisboa, Peniche e Caldas da Rainha, e a importância do Círio da Merceana.
Maria Emília Francisco começou por apresentar alguns conceitos sobre folclore, a missão dos grupos folclóricos e a importância da qualidade da representação.
Quanto ao traje, considerou-o o bilhete de identidade do seu portador, já que o identifica no espaço socioeconómico da época em que viveu.
Realçou o trabalho de recolha, chamando a atenção para as recolhas fotográficas e o cuidado a ter na sua análise.
Abordou ainda outras temáticas, como a caracterização do traje relativamente à função, os materiais utilizados e a forma correta de representação do traje, propondo a eliminação das alterações introduzidas a gosto moderno.
O estudo do folclore deve estar integrado com outras ciências, nomeadamente, a história, a geografia, a sociologia, a antropologia, etc., já que este é um museu vivo de partilha de saberes.
A grande participação do público no período de questões demonstrou o interesse do tema escolhido pela organização.
Bem hajam!




 

quinta-feira, novembro 19, 2015

terça-feira, novembro 17, 2015

MANEIRAS DE USAR O LENÇO NA NAZARÉ

Com a colaboração do João Pedro Guardado publico um conjunto de fotografias exemplificativas das diversas formas de usar o lenço (cachené) na Nazaré.
Como podem observar, estas maneiras de atar o lenço são comuns à região limítrofe e a outras, embora existam trejeitos locais fruto da necessidade ou gosto das mulheres.
O importante é perceber que a cada uma destas formas de amarrar o lenço corresponde um momento próprio, quer no trabalho diário na praia ou venda do pescado, quer nos dias de festa e devoção, e é fácil perceber essa diferença, basta uma análise atenta das imagens.










sexta-feira, novembro 06, 2015

O Gabão Bairradino - Águeda

O gabão é uma remota vestimenta, presumivelmente oriunda dos varinos de raça pelasgia (do norte da Grécia) que vieram fundar povoados à foz do Vouga e que foi conhecida e usada pelos romanos como o comprova o facto de se encontrar esculpida na Coluna do Trajano em Roma, no ano 112 da nossa era – uma figura vestida com um manto especial a que não falta capuz e parece ter romeira.

O Gabão – mistura feliz de veste monástica e de traje civil medieval, a capa com mangas e capuz, usada durante toda a Idade Média em todos os países da Europa e também em Portugal.

É uma peça de grande carácter que durante muitos longos anos foi usada por pobres remediados. Nasceu na Ria de Aveiro, na terra dos varinos, isto é, na terra das gentes da beira mar.

O Gabão é uma capa bastante ampla e rodada, descendo quase até aos tornozelos, com farta romeira ou cabeção curto e recortado, mangas largas e capuz em bico. É aberto à frente de alto a baixo, é aconchegado ao pescoço por um colchete terminando por uma cadeia, ou por um alamar, ambos em metal ou às vezes de prata.

Pode apresentar-se forrado de castorina, beata ou mesmo seda. De cor castanha, feito de surrobeco ou burel ( o gabão de trabalho) é o mais característico das gentes do bairro piscatório da beira-mar em Aveiro ou dos trabalhadores de toda a Bairrada.

De cor preta feito em boa fazenda de lã acetinada ou merino ( o gabão dos ricos) era usado pelos janotas de todas as regiões, onde constituía um elegante agasalho. Entre os habitantes que viviam nas cercanias da Ria de Aveiro se conta o "Aguedense" mais barqueiro do que pescador e mais agricultor que barqueiro, mas em todos eles o traje é muito semelhante: - os homens usam o gabão comprido até aos pés com mangas e capuz, peça de grande caracter que tendo irradiado da região da Ria para todo o país, teve extraordinária difusão, cerca do ano de 1900.

segunda-feira, novembro 02, 2015

TRAJE DE FESTA E DE COTIO – TRÁS-OS-MONTES


Traje de Festa
Lenço de lã estampado com franjas
Camisa de linho
Colete/ Justilho de brocado de seda preto
Faixa de Lã vermelha (dentro do colete) envolvendo o busto
Saiote de linho (enáguas)
Saia (Saiote) de baeta rosa escuro com fitas de veludo
Sapatos pretos
Brincos de ouro – Brincos de Fuso
Colar de contas filigranadas de ouro com cruz de ouro

 
Traje de Cotio (uso cotidiano)
Lenço de lã estampado
Camisa de linho
Colete/Justilho de linho
Faixa de Lã vermelha (dentro do colete) envolvendo o busto
Saiote de linho (enáguas)
Saiote amarelo de baeta com bordados em lã
Saia de fora de pano de lã preta
Avental (Mandil) de burel castanho
Meias de lã
Botas de pele de borrego
Colar de contas de azeviche preto

Fonte: Rui Magalhães

Outros artigos relacionados:
Trás-os-Montes - contextualização histórica e cultural; Caretos de Podence; Miranda do Douro; A Coroça; Trajo Feminino de Miranda doDouro; AS ALGIBEIRAS NO TRAJE POPULAR II; Capa de Honra de Miranda do Douro; Traje de Festa de Rio de Onor – Bragança; Trajes Femininos de ir á missa -Nordeste Transmontano; Trajes de Festa – Nordeste Transmontano; Saiote(Saia de dentro ou Saia exterior em ocasiões festivas) – Trás-os-Montes

quinta-feira, outubro 29, 2015

Saiote (Saia de dentro ou Saia exterior em ocasiões festivas) – Trás-os-Montes

O saiote constituía uma das peças do trajar da mulher de Trás-os-Montes. É diferente do que geralmente se conhece como saiote, ou seja uma saia branca interior de linho ou algodão. A essa peça dá-se o nome em Trás-os-Montes de “Enágua” que é uma saia interior branca, de linho, ou então a parte baixa das camisas de linho femininas que antigamente chegavam ao joelho ou inclusive mais abaixo.
O saiote propriamente dito é uma saia igual à saia exterior, a diferença está em que o dito saiote era sempre de cores garridas (vermelho, azul, verde, amarelo, laranja etc..) e costumava ser exibido como saia de fora pelas raparigas jovens principalmente em ocasiões festivas.
De lã grossa, costumava ser feito de baeta ou burel tingido em casa e era engalanado, quando servia para um dia de festa, com fitas de veludo, saragoça preta picada (picado) ou bordados de lã.
Era usada todo o ano, fosse inverno ou verão e uma das suas funções seria a de realçar e aumentar as ancas femininas, padrão de beleza na época. Uma mulher com posses usava além da enágua um, dois ou até mais saiotes de lã. Por cima destes a saia de fora, de saragoça, estamenha ou burel geralmente de cores mais escuras (preto ou roxo).
 
Fonte: Rui Magalhães

Outros artigos relacionados:

domingo, outubro 25, 2015

CAPUCHA DE CASTRO D’AIRE – BEIRA ALTA

Já neste blog publiquei alguns artigos sobre a capucha. Trata-se de uma peça de vestuário para agasalho usada tanto por mulheres como por homens das serranias deste a Beira Baixa a Trás-os-Montes e Minho.
Recentemente juntei à minha coleção esta capucha oriunda das fragas da Serra de Montemuro, concretamente do concelho de Castro D’Aire (atualmente escreve-se Castro Daire), confecionada em burel no início do sec. XX.
Trata-se de uma peça robusta, usada e muito, sendo visível o desgaste da sua utilização recorrente nas tarefas do dia-a-dia, a que se soma a idade e exposição aos elementos a que esteve sujeita. É precisamente essa robustez que lhe conferiu a longevidade e permitiu que chegasse aos nossos dias.
A diferença desta capucha as demais existentes na região é o capelo de forma triangular (p.ex. o da Serra do Caramulo é circular). Neste caso o desgaste do habitual transporte de cargas à cabeça provocou um orifício de cerca de 3 cm de diâmetro, no entanto, para prolongar a vida da capucha, a proprietária cozeu à mão um pedaço de burel do avesso do capelo.
Ficam de seguida as imagens, que valem mais que mil palavras.



Capelo do avesso

Dimensões da capucha

Dimensões do capelo
Outros artigos relacionados:
Capucha do Caramulo; A Capucha; Capucha – Beira Interior; BeiraInterior; Costumes do Minho: Mulher de Castro Laboreiro e o Jangadeiro;

sábado, outubro 17, 2015

Traje de trabalho da Nazaré

A pesquisa e reconstituição dos nossos trajes regionais é uma atividade que tem cativado cada vez mais pessoas, muitos deles jovens.

É o trabalho de um destes jovens que aqui mostro.
João Pedro Guardado, um jovem nazareno de 22 anos, tem o prazer de não só recolher peças antigas como também de recriar velhos modelos.

As imagens seguintes recriam um trajo de trabalho feminino nazareno, misturado peças originais com recriações numa simbiose perfeita e de elevado interesse etnográfico.
Bem hajas João Pedro!







sexta-feira, outubro 09, 2015

MORANGEIRAS NO MERCADO DO PORTO

Enaltecendo as esbeltas e airosas mulheres do Minho que vendiam os famosos morangos do Porto, o semanário ilustrado Archivo Pittoresco (1857-1868), em 1861, publica um artigo em que faz diversas alusões à riqueza do trajar das mulheres dessa região.

Considerando as características do texto, preferi publicá-lo na sua forma original, já que ao transcreve-lo para português atual iria perder certamente muita da sua informação.

A imagem é baseada num desenho de Nogueira da Silva

quarta-feira, outubro 07, 2015

PEIXE ÀS DUAS de Fernando Ybarra





PEIXE ÁS DUAS do Nazareno Fernando Ybarra
Pequeno sketch teatral levado à cena pelo Grupo Etnográfico de Danças e Cantares da Nazaré no Centro Cultural da Nazaré

terça-feira, outubro 06, 2015

Nómadas do mar – representações pictográficas na praia de Paço de Arcos

Ao longo do sec. XIX e durante alguns meses da pesca, grande parte das povoações marítimas do norte de Portugal (Ílhavo, Murtosa, Ovar e Estarreja, que constituíam os varinos e os avieiros originários da Vieira de Leiria) percorriam essa costa até ao estuário do Tejo, aqui fixando-se por temporadas mais ou menos prolongadas.

Muitos subiram o rio vivendo nos próprios barcos ou instalando-se em povoações junto à borda-d’água, naquilo que seria terra de ninguém já que de vez enquanto era reclamada pelo rio.
Outros fixavam-se nas praias da Costa da Caparica e desde a torre de Belém até Paço de Arcos, paragens onde se podiam encontrar homens e mulheres destas tribos nómadas, que constituíam um tipo individual no nosso país.
Família de pescadores em Pedrouços - Marianne Baillie
Mulher de pescador de Paço de Arcos - Marianne Baillie
Marianne Baillie, uma jovem inglesa que residiu em Portugal entre 1821 e 1823, no seu álbum Costumes in Portugal: 1821-1823, deixou dois desenhos legendados retratando uma mulher e uma família de pescadores em Paço de Arcos e Pedrouços.
Pescadores de Ílhavo em Lisboa - Th. J. da Annunciação
Justamente na praia de Paço de Arcos, subjacente à velha igreja da Boa Viagem, Th. J. da Annunciação captou esta imagem, reproduzida em gravura por Pedroso, retratando dois ílhavos, cuja mulher destapa levemente a canastra onde dorme o seu pequeno rebento. (Archivo pittoresco, Volume 3, 1860).
Pescadores de Ílhavo – Coleção Palhares

Através da comparação com o quadro de Th. J. da Annunciação e a gravura de Pescadores de ílhavo da Coleção Palhares, podemos aferir que figuras retratadas por Marianne Baillie possuem a mesma origem, os varinos, primórdios da população de pescadores que se desenvolveu em Paço de Arcos.

Outros artigos relacionados: Os Avieiros; O Povo daBorda-d'água;

quinta-feira, outubro 01, 2015

Trajes de Festa – Nordeste Transmontano

Mulher:
Lenço de lã estampado com franjas
Camisa de linho
Colete/ Justilho de brocado de seda estampado
Faixa de Lã vermelha bordada em lã (dentro do colete) envolvendo o busto
Saiote de linho (enágua)
Saiote de baeta verde com fitas de veludo
Saia de fora em saragoça preta com fitas de veludo
Avental (Mandil) de seda lavrada com aplicação de veludo roxo
Sapatos pretos com fita de seda
Argolas de ouro
Colar de contas filigranadas de ouro com cruz

Homem:
Camisa de Linho
Colete (Jaleco) de Burel (Pardo) na cor natural da lã. Nas costas tecido de estopa.
Calção de alçapão (Pantalonas de alçapon) de Burel (Pardo) na cor natural da lã.
Meias de algodão
Botas de bezerro
Chapéu (Sombreiro) com fita de Seda

Fonte: Rui Magalhães

Outros artigos relacionados:
Trás-os-Montes - contextualização histórica e cultural; Caretos de Podence; Miranda do Douro; A Coroça; Trajo Feminino de Miranda doDouro; AS ALGIBEIRAS NO TRAJE POPULAR II; Capa de Honra de Miranda do Douro; Traje de Festa de Rio de Onor – Bragança; Trajes Femininos de ir á missa -Nordeste Transmontano;

segunda-feira, setembro 28, 2015

Trajes Femininos de ir á missa - Nordeste Transmontano


Traje de mulher abastada

Mantilha de Saragoça preta
Lenço de lã estampado com franjas
Camisa de linho
Colete/ Justilho de brocado de seda estampado
Faixa de Lã vermelha bordada em lã (dentro do colete) envolvendo o busto
Saiote de linho (enáguas)
Saiote de baeta verde com fitas de veludo
Saia de fora em saragoça preta com fitas de veludo
Avental (Mandil) de seda lavrada com aplicação de veludo roxo
Sapatos pretos
Argolas de ouro
Colar de contas filigranadas de ouro com cruz de ouro
 

Traje de mulher (com menos posses)

Lenço de lã estampada
Xaile de lã
Camisa de linho
Colete/Justilho de linho
Faixa de Lã vermelha (dentro do colete) envolvendo o busto
Saiote de linho (enáguas)
Saiote amarelo de baeta com bordados em lã
Saia de fora de burel verde sem ornamentos
Avental (Mandil) de burel castanho
Meias de lã
Botas de pele de borrego
Colar de contas de coral vermelho com cruz de prata

Fonte: Rui Magalhães

Outros artigos relacionados:
Trás-os-Montes - contextualização histórica ecultural; Caretos de Podence; Miranda do Douro; A Coroça; Trajo Feminino deMiranda do Douro; AS ALGIBEIRAS NO TRAJE POPULAR II; Capa de Honra de Mirandado Douro; Traje deFesta de Rio de Onor – Bragança;

segunda-feira, setembro 21, 2015

Traje da mulher de Almeirim – Ribatejo

O traje de festa da mulher de Almeirim era elegante, de cores vivas e atraentes, não havendo outro semelhante em toda a região ribatejana.
Rancho Folclórico da

A saia de cima, de castorina encarnada, era toda plissada, sendo ajustada na anca por meticulosos favos. As saias de baixo, de pano branco, eram rodadas e enfeitadas com folho e bordadas.

O casaco em chita, de modelo ao gosto da rapariga, arrematava atrás com “rabo de leque”, mais conhecido por “rabo de bacalhau”.

O avental era enfeitado com rendas ou caprichosamente bordado pelas mãos hábeis da rapariga, sendo atado por meio de um formoso laço.

Na cabeça, um vistoso lenço de merino ou de ramagens e aos ombros um cachené.

Calça meias brancas de carapuços, feitas à mão, e chinelas pretas.

Na anca, transporta uma algibeira rústica, onde guardava o lenço e outros objetos de uso pessoal.

Adornava-se naturalmente com ouro. Ricos brincos compridos ou argolas e ao pescoço um grande cordão, com uma peça (libra, medalhão, cruz, etc.).

sábado, setembro 12, 2015

Traje de Festa de Rio de Onor - Bragança


Homem:
Camisa de Linho (Camissa de Linho)
Colete (Jaleco) de Saragoça Preta. Nas costas tecido de estopa com picados em Saragoça.
Calção de alçapão (Pantalonas de alçapon) de Burel Castanho.
Meias de algodão
Botas com Sola de Madeira (Socos/Cholas)
Chapéu (Sombreiro) com fita de Seda

 

 
 
Mulher:
Lenço (Pano) de Lã estampada
Camisa de Linho (Camissa de Linho)
Colete de Brocado Preto (Justilho)
Faixa de Lã vermelha (dentro do colete) envolvendo o busto
Avental (Mandil) de burel com bordados em lã
Saia de Baieta de lã Roxa, com fitas de veludo
Saiote interior de lã vermelha
Algibeira de lã amarela com picado em tecido preto (faltriqueira)
Sapato Preto
Colar de contas de azeviche preto com cruz de prata
Complemento - Pandeireta para animar os bailes

Nota: Os nomes a negrito encontram-se em dialecto de Rio de Onor.

Fonte: Rui Magalhães
 
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domingo, setembro 06, 2015

Trás-os-Montes - contextualização histórica e cultural


É com imensa satisfação que recebo a colaboração do Rui Magalhães e passo a publicar alguns dos seus textos sobre os trajes transmontanos.
Como o próprio me salientou, não se pode falar dos trajes transmontanos e das suas particularidades sem uma prévia introdução no tempo e no espaço que o mesmo fez o favor de produzir.

Obrigado Rui.
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Por Rui Magalhães

Vou contextualizar historicamente e culturalmente a nossa zona, principalmente através de investigações sobre a área cultural da língua Ásturo-leonesa falada em Portugal, ou seja, o Mirandês (nos concelhos de Miranda, parte de Vimioso, e em aldeias de Mogadouro) e outras variedades do mesmo Asturo-leonês, como o Riodonorês e o Guadramilês, dialectos de Deilão e Petisqueira, faladas no concelho de Bragança, e muitas outras variedades de Português influenciadas pela língua Leonesa no Nordeste Transmontano.

Em Espanha, o Asturo-leonês é falado nas Astúrias e nas províncias de Leão e de Zamora.

Contextualizo com o factor língua Ásturo-leonesa, pelo simples motivo de que há muitos documentos sobre essa temática, contextualizando a cultura a ela inerente e as vicissitudes histórias da mesma área.

Muitos autores (nacionais e estrageiros), reconhecidos, nacional e internacionalmente, se debruçaram-se sobre o tema e ao mesmo tempo investigaram as origens históricas da nossa zona, tudo isto, consequentemente ajudará a entender a cultura local, que não podemos querer simplificar nem explicar com base noutras regiões que careçam do mesmo contexto histórico e cultural.

Breve História da Região

Em 297 d.C. dá-se a definitiva divisão administrativa da Península Ibérica.
A zona hoje ocupada pela antiga Terra de Miranda (muito maior que o actual concelho de Miranda, incluindo na época o concelho Miranda do Douro, grande parte do concelho de Bragança e concelhos de Vimioso e Mogadouro) no nordeste Transmontano, ficou a pertencer ao Conventus Iuridicus de Asturica Augusta (Astorga – Leão) e não ao de Bracara Augusta, como o resto de Trás-os-Montes.

Assim, a zona da antiga Terra de Miranda não pertenceu desde o início ao território posteriormente ocupado pelo Condado Portucalense, daí que por exemplo a língua aí falada não pertencesse ao sistema Galego-Português (a que pertence a língua Portuguesa) mas sim ao sistema Asturo-leonês (a que também pertence a língua Asturiana e os falares antigos da província de Zamora e Leão em Espanha).

Entre o séc. VII/VIII e XII a Terra de Miranda pertenceu à Diocese de Astorga (Leão/Espanha, mesmo fazendo parte de Portugal) e não à de Braga (como o resto do norte do país).

As Inquirições de Afonso III informam-nos de que a Terra de Miranda, entre os sécs. XII e XIV, foi recolonizada com gentes oriundas das terras de Leão em Espanha; recolonização essa, em que o papel primordial foi desempenhado pelos mosteiros cistercienses de Sta. Maria de Moreruela (Zamora/Espanha) e de S. Martinho de Castanheda (Zamora/Espanha), assim como pelo Mosteiro de Castro de Avelãs de Bragança (afiliado ao de S. M. de Castanheda), pela Ordem dos Templários de Alcanhices (Zamora/Espanha) e vários particulares.

Esta colonização, realizada numa região ainda hoje de baixa densidade populacional (39) e então decerto pouco menos de deserta, estendeu-se desde o princípio do século XIII até ao século XV, como admitiram o Abade de Baçal e Leite de Vasconcelos (40) – tempo mais que suficiente, se não para o estabelecimento, pelo menos para a fixação do dialecto leonês e cultura afim em terras já politicamente portuguesas.

Tudo isto ajudou a que a zona hoje ocupada pela antiga Terra de Miranda mantivesse, num período assaz importante para a história da língua Portuguesa, relações privilegiadas com as terras do antigo Reino de Leão e que a língua leonesa ocidental, idioma originário do Conventus de Asturica Augusta, se fosse reciclando em terras portuguesas, pelo menos, até ao séc. XIV.

Além da divisão dos reinos de Portugal e Leão em 1143 e do estabelecimento das fronteirasno tratado de Alcañices (1297), manteve-se uma unidade social e cultural entre as Terras de Miranda e as regiões espanholas de Aliste e Sayago (Zamora): um dialecto parente, as mesmas canções e melodias, a utilização de instrumentos parecidos e uma raiz comum dos costumes festivos, como, por exemplo, se mostra na  danza de palos (Matellán 1987: 43).

Uma outra questão que nos poderíamos colocar, é: «Como é que a língua leonesa se manteve até 1882, quando Leite de Vasconcelos a deu a conhecer e como conseguiu sobreviver até aos nossos dias?».

E porque teriam subsistido até hoje os dialectos leoneses e a particular etnografia e folclore desta região?

Por duas razões:

A primeira: O isolamento dessa região em relação ao resto do país, a que já Leite de Vasconcelos (Estudos 2, II) se referiu,

e a segunda, em parte consequência daquela: O singular contacto com as vizinhas terras do antigo reino de Leão, sobretudo terras de Aliste, Sanabria e Sayago - Zamora.

O isolamento desta zona com respeito ao resto do país e, pelo contrário, o contacto íntimo, quer fosse comercial, quer fosse social (casamentos) ou de convivência, fosse ela festiva ou laboral, sobretudo com os povos das regiões Zamoranas de Aliste, Sayago e Sanabria permitem explicar a sua conservação até aos nossos dias.

Do difícil acesso ao território mirandês por exemplo, fala-nos a narração quase heróica da viagem que Leite de Vasconcelos empreendeu do Porto a Deus Igrejas em 1883 e em que gastou cinco dias (58)!

O caminho-de-ferro só recentemente (1938) chegou a Duas Igrejas e restante zona Leste Transmontana (59).

Essa distância, junto com o facto de essa zona se encontrar numa zona até há pouco, esquecida, fez com que a língua Mirandesa e as manifestações folclóricas e etnográficas associadas ao espaço cultural específico ali ficassem como que de quarentena à espera de ser redescoberto por alguém como Leite de Vasconcelos.

De facto, até há cinquenta ou sessenta anos atrás chegar ao leste de Trás-os-Montes era bastante difícil graças aos maus acessos rodoviários.

Sobre as relações com o país vizinho falam-nos vários documentos publicados pelo Abade de Baçal (60) em que, desde D. João I a D. João III, se facilita o intercâmbio comercial entre esta região e os habitantes das terras de Aliste, Sayago e Sanabria.

Um deles porém (61) mostra-nos que essas relações não se limitavam ao comércio, mas que eram frequentes os casamentos e convívios diversos entre os dois lados da fronteira.

No final do século passado refere-se Leite de Vasconcelos (62) «às relações constantes com os espanhóis», que chegavam ao ponto de que alguns habitantes das aldeias raianas podiam, e podem na actualidade, falar com fluência o castelhano, além da sua própria língua (Mirandês ou outros dialectos Leoneses) e o português (trilingues).

Durante todos estes séculos o Português era, obviamente, conhecido mas usado apenas com os forasteiros: «os mirandeses fallam o mirandês entre si, empregando o português quando se dirigem a estranhos»

A primeira língua aprendida pelos falantes dessa região era o Mirandês ou as variedades do mesmo domínio linguístico Asturo-leonês (em aldeias do concelho de Bragança).

Diz-nos Leite de Vasconcelos: «A lingoa mirandesa é puramente doméstica, por assim dizer, a lingoa do lar, do campo e do amor: com um estranho o aldeão falla logo português. Como porém, em Duas-Igrejas todos sabiam ao que eu ia, fallavam mirandês comigo, e, quando eu por acaso lhes dirigia a palavra nesta ultima lingoa, elles riam-se muito, porque achavam o caso um pouco singular».

Penso que este enquadramento, facilita, para alguém que não é da zona ou que não tenha muitos conhecimentos sobre a mesma, contextualizar e entender o porque de haver uma cultura secular em que apesar da existência de fronteiras politicas, nunca teve fronteiras culturais, antes sim uma cultura em muitos aspectos comum nesta parte do distrito de Bragança e as zonas fronteiriça sobretudo da província de Zamora (Esta zona fronteiriça está culturalmente individualizada em relação ao resto da província de Zamora).

Notar também e que é importante, que apesar dessas vicissitudes, as pessoas sempre tiveram sentido de pertença à pátria, nunca se sentindo "Espanhois".

Além da província de Zamora (Castilha e Leão), que é a que abarca uma área maior de contacto/fronteira, estas particularidades ocorrem também em zonas fronteiriças com Galiza oriental, culturalmente um pouco diferente, sobretudo no concelho de Vinhais e aldeias no limite ocidental do concelho de Bragança, mas desta feita

Sabendo isto, entenderá que não se poderá dizer por exemplo que os trajes em Rio de Onor ou de qualquer outra aldeia, tem ou não influencia Espanhola, simplesmente eram os trajes da gente da terra, os trajes que conheciam e produziam com as próprias mãos, fruto das suas vivencias, tradições e cultura, aos quais tinham amor, e aos quais nós não podemos ter a pretensão de querer atribuir nacionalidades.

Penso que também ajudará a entender o facto de que uma grande parte do Romanceiro tradicional antigo, cantigas de festa, de trabalho e danças do leste transmontano, mesmo de áreas que não estão imediatamente na faixa fronteiriça, possam estar em língua castelhana pura, a par com muitos outras em Português e Mirandês, podem ser importações, mas são antiquíssimas, por isso, fazem parte há seculos da cultura popular do povo do nordeste transmontano, a gente aqui não se preocupava com as línguas.

Em Espanha os etnógrafos e associações estudiosas do tema, sobretudo das zonas de Aliste, Sanábria e Sayago (zonas concretas conservadoras e igualmente isoladas, em que os trajes regionais são conhecidos como sendo parecidos aos do leste transmontano), tem consciência que tem uma cultura em muitos aspectos comum com a nossa.

Não se tem que ter a obrigação de conhecer estas particularidades, nós aqui temos essa consciência que para se conhecer e entender alguns trajes, usos e costumes do nosso povo teremos que conhecer também a região fronteiriça vizinha, os nossos vizinhos do outro lado tem-na em relação a nós, transmontanos e Portugueses.