segunda-feira, outubro 16, 2006

Traje Português de Equitação - Feminino


Até ao século XIX, a mulher não tinha a possibilidade de dominar a sua montada. Desde a Idade Média e até ao século XVIII, salvo raras excepções, quando uma mulher se deslocava a cavalo, fazia-o sentada de lado numa sela em forma de cadeira, e acompanhadas por um serviçal que conduzia a montada.
No sec.XIX a mulher ganha alguma autonomia na condução da sua montada.
A amazona passa a montar com as pernas unidas sobre o lado esquerdo do cavalo, o que lhes permitia um melhor controlo da montada, no entanto, a posição era propicia a acidentes. Totalmente inaceitável, para os cânones da época, era uma senhora montar escarranchada, apenas próprio para homens.
Apenas a partir dos anos 30 do séc. XX começaram a surgir as primeiras amazonas escarranchadas.
No que respeita ao traje de equitação feminino, não podemos dizer que exista um modelo específico. No entanto, podemos caracterizar alguns traços gerais.
Nesta matéria, existem muito poucas fontes, pelo que foi necessário recorrer à obra dos mais conceituados investigadores portugueses, Lina e João Gorjão Clara, O Traje Português de Equitação, servindo de base ao traje de seguida descrito.
Os próprios autores reconhecem a escassez de informação nesta matéria.
Vejamos então como traja a amazona à antiga portuguesa.
Comecemos pelo chapéu. Normalmente preto ou cinzento, podendo ter um tom ou cor diferente de
acordo com o fato.


Quanto ao modelo, existiriam vários. A obra mencionada descreve um modelo de chapéu ainda hoje muito adoptado. Este possui aba larga revirada e mais curta do que o chapéu de homem, copa redonda e levemente convexa, adornado com dois pompons de seda. Actualmente, muitas amazonas preferem adoptar o modelo masculino, que pode ser aceite, mas não é o mais adequado.
Quanto à jaqueta, existiam vários modelos e cores. Eram confeccionadas nos mais diversos e nobres tecidos.
A jaqueta descrita na referida obra, apresenta gola de virados e dois bolsos «metidos», com abertura vertical e forrados de cetim. A jaqueta não apresenta botões e é toda contornada a galão preto, desenhando enfeites nos bolsos e nas costas. As mangas, também sem botões nos punhos, têm os ombros bem vincados, com a cabeça da manga bastante larga, quase em balão. Vai estreitando tornando-se justa no antebraço e terminando sem punho. O forro da jaqueta é em seda no tom do tecido. Por debaixo da jaqueta usa-se blusa branca, de colarinho pequeno, adornada com renda de algodão. O colarinho pode ser enfeitado com uma pregadeira ou com um laço de cetim. A manga pode ter os punhos adornados com renda. O uso do corpete é opcional, mas a faixa de cetim ou merino é obrigatória.
Quanto à saia, esta difere da forma como a amazona monta.
Para montar à amazona, de lado, a saia tem um desenho complexo. O seu modelo é elaborado para armar em semicírculo sobre o cavalo e conferir à amazona conforto e compostura. Esta é bastante mais comprida à frente que atrás. Apresenta dois cortes à altura dos joelhos, para que, na sela, a saia se ajuste aos membros e tape quase por completo a bota esquerda que se apoia no estribo. Os pontos de apoio dos joelhos são reforçados no avesso por um forro de seda. No forro do joelho direito existe uma liga elástica, que fixa a saia à coxa da amazona, a fim de evitar que esta se desloque com o vento ou o andamento do cavalo. Uma vez que a saia é bastante comprida à frente, quando apeada, a amazona tem de a segurar pelo corte do joelho direito ou prende-la por asselha caseada em linha no mesmo sítio, a um botão, ou peça de ourivesaria, colocado à altura do terço superior da coxa direita.
Por baixo da saia, a amazona usava uns calções de alçapão, de gancho bastante alto e pernas largas que terminam num punho, apertado por três botão. Ajusta-se à anca por duas aberturas laterais fechadas por quatro botões. Calçava botinas de cano curto fechado por botões de pé.
O traje que actualmente é mais utilizado permite à amazona montar escarranchada. A saia é comprida até ao tornozelo. É justa nas ancas, aperta de lado com botões e é fendida à frente e atrás, de modo a abrir sobre a sela. Esta saia é confeccionada de um modo particular, de modo a que as duas metades se perpassem quando a amazona se apeia e a saia feche, evitando a indiscrição das fendas. Para reforçar a costura no ponto onde se inicia a fenda da saia, cose-se de um a três botões, que também servem de enfeite.
Até à década de 50 do sec.XX, as amazonas mantiveram o uso do calção mesmo montando escarranchadas, a pouco e pouco foram-no substituindo pelas calças masculinas e às botinas pela bota de salto de prateleira.
Tal como Lina e João Gorjão Clara, lamentamos a tendência de aproximação ao traje masculino, copiando o modelo da jaqueta, da camisa ou das calças. Sugere-se a reconstituição de modelos de jaqueta e blusas mais antigos, mesmo utilizando a saia de escarranchar.

Aproveitando a informação adicional de L.P.Boléo, a mulher do rei D. José de Portugal, espanhola de nascimento, D. Mariana Vitória, andava a cavalo escarranchada a coberto dos olhares indiscretos na Tapada de Mafra e em Salvaterra. Era uma caçadora e cavaleira exímia.Foi mãe da rainha D. Maria I que também montava muito bem e com elegância a cavalo e teve como mestre entre outros o marquês de Marialva.

8 comentários:

Anónimo disse...

O texto é muito interessante mas podem acrescentar que a mulher do rei D. José de Portugal, espanhola de nascimento, D. Mariana Vitória, andava a cavalo escarranchada a coberto dos olhares indiscretos na Tapada de Mafra e em Salveterra. Era uma caçadora e cavaleira exímia.
Foi mãe da rainha D. Maria I que também montava muito bem e com elegância a cavalo e teve como mestre emtre outros o marquês de Marialva.
L.P.Boléo

Ann disse...

concordo com o primeiro comentário, o texto está muito interessante.
gostava de saber onde podemos mandar fazer um traje à portuguesa feminino. E onde podemos arranjar algumas fotos para tirar ideias. pode-me esclarecer?

Obrigada

Ann Dutra
anndutra@gmail.com

Inês disse...

Acho que o texto resume bastante bem os pontos essenciais do traje portugês de amazona. Já li o livro dos Drs Lina e João Gorão Clara e achei um trabalho fantástico, uma vez que antes dele havia muito pouca informação onde nos pudéssemos basear para trajar correctamente. E continua a haver pouca informação para o público em geral, pois tive grande dificuldade em arranjar o livro que, salvo erro, está praticamente esgotado.

Ann:
www.cavalonet.com
Neste site vais ao Menu CONTACTOS - TRAJES e tens lá várias pessoas que o fazem.
Fotos tenta no motor de busca do google por imagens, talvez em Golegã, lá anda muita gente trajada ;)

rui disse...

Eu quero comprar o chapeu feminino de equitacao. queria saber onde comprar ee quanto custa. Sem mais .
Com amizade


Rui Gouveia

Carlos Cardoso disse...

Olá Rui
Segue o conselho sa Inês e procura na Cavalonet.
Também na Feira da Golegã é possivel encontrar o que pretendes.

Anónimo disse...

Olá Rui,
Os chapeus normalmente custam 50€, eu comprei um ainda este ano e custou-me esse valor. Mas existe diferença, existem espanhoís e portugueses. Na feira da Golegã existe lá uma casa, a mais antiga, Chapelaria Coelho. Aí tem de certeza.

João Gorjão Clara disse...

Vi agora, com surpresa, fotos do Livro do Traje Português de Equitação e um texto plagiado do que escrevemos no mesmo livro minha Mulher e eu.
já que o Sr Carlos Alexandre Cardoos o fez sem respeito pelos direitos autorais, não lhe parece educado e ético referr que o texto e fotos foram retiradas do citado livro
?
João Gorjão Clara

Carlos Alexandre Cardoso disse...

Dr. Gorjão Clara

Agradeço as suas palavras sobretudo vindas de uma pessoa cujo trabalho admiro.
Como certamente leu, no texto faço menção expressa à sua obra, bem como a si e à sua esposa como autores e por mais que uma vez.
Uma vez que a referência é feita no texto, não considerei necessário realizar qualquer indicação bibliográfica adicional, como fiz em muitas outras publicações.
Parece-me que a sua integridade enquanto autor está defendida e elogiada, não tendo com que me penitenciar.
Com elevada estima,