Já quase não se fazem croças em tamanho real, sobretudo porque já não há pastores ou estes preferem os impermeáveis. No entanto, é importante efetuar a recolha do saber-fazer, para que esta não se perca.
Inicio hoje a transcrição de 6 artigos magníficos
da autoria da Prof.ª Dr.ª Daniela
Araújo, fruto do seu extraordinário trabalho de recolha junto da população do Montalegre,
que nos descreve, passo-a-passo, o fabrico de uma croça de junco, pelas mão de um dos últimos artífices desta arte.
De destacar que a Prof.ª Dr.ª Daniela Araújo integrou a equipa que reabriu
o Museu de Arte Popular em 2010, tendo sido comissária executiva da exposição
Os Construtores do MAP – Um Museu em Construção […] e, em Junho de 2011, voltou
a Trás-os-Montes para participar no projeto de investigação para intervenção
museológica As culturas do trabalho no Barroso, nomeadamente, no Ecomuseu
de Barroso.
A CROÇA I
A croça nasce deste botão. Bom, na verdade, a croça nasce deste botão e das
mãos sábias do sr. Constantino. Tudo começa com este botão. Bom, na verdade,
tudo começou com a apanha dos juncos. Passaram-se os meses, os juncos secaram,
veio o tempo molhado e começaram-se a fazer as croças. Já não são para os
pastores que agora são poucos e usam oleados. São para ranchos ou para compor a
decoração de restaurantes típicos. Estas, que agora se estão a fazer,
até são todas para levar para Espanha.
Pegam-se nuns quantos juncos (estes que se mostram na primeira imagem foram
apenas para exemplificar; são mais que a trança quer-se grossa) e colocam-se
lado a lado.
Depois, com os dedos indicadores e polegares de ambas as mãos o mais juntos
possível, torcem-se os juncos em direções opostas a partir de um ponto central
e o mais apertado que se conseguir.
Bastam apenas algumas voltas. As suficientes para se prender, com os
dentes, os juncos já torcidos, nesse ponto central, e começar a torcer os dois
lados um sobre o outro, ao mesmo tempo que se continua a torcer cada lado sobre
si mesmo.
Esta explicação é clara? Eu tive que pedir ao sr. Constantino para repetir
a operação porque não percebi os gestos logo à primeira...
Depois, ele também me explicou como se iam entrançando novos juncos na
trança quando algum se partia ou era preciso aumentar o comprimento.
Na ponta onde se iniciou o torcimento, dá-se depois um nó. Esse nó é o
botão da croça que vai permitir mantê-la fechada. Na outra ponta está a casa
onde entra o botão. Mas ainda não cheguei aí!
Botão da croça
Há quatro instrumentos/equipamentos que são indispensáveis para se
construir uma croça (para além da mascota que é usada para bater os juncos no dia
em que são colhidos): os pentes, a fita métrica, a tesoura e a tábua de
tabopan.
O sr. Contantino tem dois pentes para pentear a croça que foram feitos por
ele. Um com os pregos mais espaçados; o outro com uma maior densidade de
pregos. Aquele que tem os pregos mais espaçados é usado nas primeiras
penteadelas; o outro é usado depois para um acabamento mais fino. Vai-os
consertando à medida que os pregos se degradam.
A tábua de tabopan facilita o trabalho de escovagem e de medição das
diferentes camadas que compõem uma croça.
Cada camada tem diferentes comprimentos o que resulta de uma lógica que eu
ainda não descortinei completamente.
Mais, de carreira para carreira, de camada para camada, o número de juncos
que se entrançam também aumenta o que permite, naturalmente, que a capa ganhe
amplitude.
A capa tem, também, os juncos de fora, que são os que se penteiam e os
juncos de dentro, o forro, que estão presos uns aos outros e que não são
penteados.
No interior da capa veem-se as tranças da croça (são as verticais, embora
na imagem seguinte apareçam na horizontal) a que ele chama a segurança da
croça pois permitem que a peça não fique desengonçada.
Interior da croça
O sr. Constantino diz que eu consigo
aprender tudo em 15 minutos. É um otimista. Fazer uma croça parece-me bastante
complexo. Não é, apenas, a gestualidade, inerente a cada operação. É toda a
lógica de camadas, tranças e comprimentos. Esta foi só a primeira lição.
Fonte: Uma Ovelha no Quintal
1 comentário:
Inigualavel existe na serra de montemuro concelho de resende na associacao recreativa da Talhada uma exposicao
Enviar um comentário