sexta-feira, fevereiro 09, 2007

O ciclo da lã

Desde sempre o povo deitou mão à matéria-prima que o rodeava adaptando-a às necessidades, nomeadamente para se proteger do frio. Em regiões onde predomina a pastorícia de ovinos e caprinos, a lã é um recurso inestimável para o fabrico de vestuário.
A mecanização simplificou, acabou até por eliminar, processos de produção, tecidos e modos de vida, que hoje, só os mais idosos sabem contar.
A transformação da lã em peça do vestuário passa por várias fases.
A tosquia, normalmente feita em Maio ou Junho, consoante o calor se faz sentir mais cedo ou mais tarde, consisto no corte da lã aos animais com o auxílio de uma tesoura.
A tosquia inicia-se pelos membros inferiores do animal passando ao peito e barriga terminando no lombo. A lã retirada de cada animal dá-se o nome de velo, o qual individualmente é enrolado, ficando para o exterior a parte que se encontrava junto à pele.
Depois da tosquiada, a lã é muito bem lavada, sempre que possível com água tépida, e posta a secar em local apropriado.
A seguir é carpiada, tarefa que consisto em desfazer os nós nela existentes e eventualmente retirar algumas impurezas.


Posteriormente é cardada com as cardas (instrumento com pegas munido do arames curtos e finos) do modo a desenriça-la usando para o efeito o auxílio de uma pequena quantidade de azeite (borrifava-se a lã com o azeite antes de a colocar nas cardas).
À medida que vai sendo cardada é colocada uma sobre a outra, geralmente este trabalho era executado por um homem - o cardador - que se deslocava às casas que possuíam lã para o efeito.

Vem depois a fase da fiação, operação artesanal outrora muito vulgar que chegava a ser motivo para prolongados serões. Com auxílio do fuso a lã é transformada em fio. A fiandeira mune-se de um pedaço de lã que segura com a mão esquerda. Dela puxa um pedacinho que cuidadosamente vai alongando. Coloca-o no friso do fuso (na extremidade mais fina) seguro na mão direita manuseando-o com o polegar e indicador ajudados pelos médio e anelar no sentido do movimento dos ponteiros do relógio. Aos poucos, vai obtendo um fio torcido. Desprende-o do friso e enrola-o na outra extremidade do fuso recomeçando a tarefa. À lã já fiada e enrolada na parte mais larga do fuso dá-se o nome de maçaroca, a qual é depois dobada em novelos. Na fiação da Iã, regra geral, não se utiliza a roca.

Nesta altura a lã está pronta para seguir nova rumo, desta feita a urdidura. É a operação que antecede a tecelagem e que consiste em preparar os fios para dispor no tear, ou seja: paralelos entre si de igual comprimento e separados nas duas séries que, descendo ou subindo cada uma alternadamente, operam o entrecruzar do fio que passa entre elas. A urdidura é preparada num aparelho especial, que consiste numa armação de prumos, a uma distância de 3 a 4 metros onde estão fixos tornos nos quais passam os fios.
Feita a urdidura, monta-se no tear e procede-se a tarefa da tecelagem, utilizando para o efeito também lã.
Estas operações podiam ser feitas com lãs de cores diferentes, por exemplo, urdir com lã branca e tecer com lã preta ou castanha. Ao tecido assim obtido chamava-se sarrobeco e era destinado sobretudo à confecção de calças masculinas.

A lã depois de tecida e retirada do tear apresenta uma textura pouco resistente, "muito rala", a mandil. Há, pois, necessidade de a fazer passar por outra etapa a pisoagem, para garantir consistência e durabilidade que, de outro modo, não possuiria.
A pisoagem era feita no pisão, um engenho artesanal pesado, movido a água e em vias de extinção. O tecido era batido durante o tempo bastante por dois enormes martelos ou malhos de madeira, pesando cada um mais de 50 quilos, molhado com água a ferver, transformava-se numa pasta feltrosa, homogénea, espessa e forte. Ao tecido assim obtido dá-se o nome de burel.
O pisoeiro submetia o sarrobeco a pisão inteiro, meio pisão ou apenas quarto de pisão, consoante o fim a que se destinava. Para as saias a conta era meio pisão, que a pele das pernas apesar de castigada pelo trabalho não suportaria a agressão de um burel duro como tábua, o quarto de pisão bastava para o avental.Com este tecido fabricavam-se calças, coletes, saias, aventais e as tão afamadas capuchas, largamente utilizadas em toda a Beira Interior.

2 comentários:

Anónimo disse...

Boa tarde.
Acabo de ter um primeiro contacto com o seu blog. Acho-o útil e interessante.
Parabéns!

Carlos M. Saraiva - CTR do Baixo Vouga da FFP

Carla Sousa disse...

Artigo bastante interessante!
Sabe onde posso comprar a roca para fiar?